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O Jogo das Sombras

last update Fecha de publicación: 2026-10-07 10:17:47

{Marcos}

A luz fraca da manhã cortava o quarto quando meus olhos se abriram. Instintivamente, estendi o braço para o lado esquerdo da cama, buscando o corpo macio que havia incendiado aquela suíte durante a noite inteira.

Apenas o lençol de seda frio encontrou meus dedos.

Sentei-me de uma vez na cama, olhando ao redor. A suíte estava silenciosa, imersa em uma penumbra melancólica. As roupas dela não estavam mais no chão. Nenhum rastro. Nenhuma peça esquecida. A garota de máscara de renda simplesmente evaporara como fumaça antes do sol nascer.

Soltei um palavrão entre os dentes, passando a mão pesada pela barba. Nenhuma mulher jamais tinha saído da minha cama sem que eu permitisse. Nenhuma.

Ao me virar para pegar o celular na mesa de cabeceira, meus olhos travaram no bloco de anotações ao lado do copo de uísque. Um pedaço de papel dobrado repousava ali. Peguei o bilhete e desdobrei com irritação, reconhecendo a escrita cursiva e firme:

A noite foi inesquecível. Vou ficar dolorida por uns bons dias... mas, para um coroa, você fode bem demais.

Travei o maxilar, sentindo uma mistura de fúria e uma estranha atração perigosa subir pelo meu pescoço. Coroa. A garota audaciosa não apenas tinha me usado para se anestesiar de seja lá o que estivesse fugindo, como ainda tinha tido a coragem de me deixar uma provocação escrita.

Amassei o papel no pugno da mão, rindo fraco, em tom de ameaça silenciosa. Se eu soubesse o nome dela, aquela petulância não ficaria impune. Mas nós tínhamos selado um pacto: sem nomes, sem passado. E ela jogara o jogo com uma precisão irritante.

Uma hora depois, eu cruzava o saguão espelhado da Buckhard Holdings. Vesti meu terno preto ajustado, recém-passado, mantendo a postura ereta e a expressão fria de costume. Os funcionários se encolhiam sutilmente nos corredores à minha passagem, dando bom-dia com o tom de voz controlado que todos usavam perto de mim.

Entrei na minha sala na diretoria executiva e me servi de uma dose curta de café expresso. Olhei para o relógio de pulso de ouro: passava das dez da manhã.

A porta de vidro fosco se abriu minutos depois. Matheus entrou, carregando uma pasta de couro e exibindo olheiras profundas, embora trouxesse um sorriso convencido no canto dos lábios.

— Atrasado, Matheus — disse sem rodeios, sem tirar os olhos do tablet sobre a minha mesa. — A reunião com os investidores da comutação começou há vinte minutos.

— Me desculpa, pai — ele respondeu, puxando a cadeira de couro e se sentando de frente para mim, encostando o corpo com uma facilidade desleixada. — Tive um imprevisto sério com a minha namorada. Mas já consegui contornar tudo.

Ergui os olhos do tablet, encarando meu filho com frieza.

— Deixe-me adivinhar... o imprevisto usa saia?

Matheus soltou uma risada fraca, balançando a cabeça.

— Quase isso. Acontece que a secretária que você mandou ir ao meu apartamento ontem à noite resolveu fazer uma "reunião de home office" no meu sofá e a Bruna apareceu de surpresa enquanto eu tomava banho. Lavinia estava só de lingerie... e a Bruna viu a cena e surtou.

Sustentei o olhar nele, sentindo uma ponta de desprezo pela infantilidade da situação.

— Você precisa ter atitude de homem, Matheus — declarei com a voz grave, apoiando os cotovelos na mesa. — Um homem de verdade controla o seu território, não deixa mal-entendidos ridículos ameaçarem o que constrói e nem fica dando justificativas infantis para mulher.

O sorriso no rosto de Matheus se transformou em uma expressão desafiadora. Ele se ergueu da cadeira, arrumando a lapela do próprio paletó com um gesto ensaiado.

— E eu tenho atitude de homem, pai — ele rebateu, sustentando o meu olhar sem piscar. — Por isso fui até a porta do apartamento dela, inventei uma história boa o suficiente, contornei a situação e fiz ela me perdoar antes do almoço.

Ele deu dois passos em direção à porta, parando com a mão na maçaneta e olhando para trás com um sorrisinho vitorioso:

— E, para provar que sou um homem de palavra e de compromisso, no jantar de hoje à noite eu vou apresentar a Bruna formalmente para você e para a mamãe. O senhor acha que isso é coisa de homem o suficiente?

Antes que eu pudesse responder, Matheus soltou uma risada debochada, piscou para mim e saiu da sala, fechando a porta de vidro atrás de si.

Fiquei sozinho no silêncio pesado da diretoria.

Soltei o ar devagar, recostando-me na minha poltrona de couro. Passei os dedos pelos lábios, e, por um segundo, a imagem do jantar familiar desapareceu da minha mente. Em seu lugar, surgiu a lembrança da penumbra daquela suíte, da pele macia sob os meus dedos e da audácia do bilhete rasgado no fundo do meu bolso.

A garota sem nome tinha marcado o meu corpo de uma forma que poucas conseguiram. Mas a noite tinha acabado. Hoje, eu tinha que lidar com os dramas de família e com o jantar que meu filho havia acabado de orquestrar.

Mal sabia eu que o passado e o presente estavam prestes a colidir na mesma mesa.

 

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