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O Peso do Passado

last update publish date: 2026-10-08 01:04:20

{Bruna}

 

O sol da tarde batia nas janelas de vidro do escritório de arquitetura onde eu trabalhava. Sobre a minha mesa, plantas baixas, amostras de revestimentos e maquetes 3D se acumulavam, mas a minha mente estava a quilômetros dali.

A cada dez minutos, a tela do meu celular acendia. Mais uma mensagem de Matheus.

“Amor, já escolhi o restaurante para hoje à noite.”

“Espero que você esteja tão ansiosa quanto eu.”

“Passo para te buscar às 20h em ponto.”

— Se esse celular apitar mais uma vez, eu jogo ele pela janela — brincou Sofia, encostando a cintura na minha mesa enquanto tomava um gole de café.

Ao lado dela, Beatriz e Camila — que também trabalhavam comigo no escritório e tinham sido minhas cúmplices naquela noite inesquecível na L’Éclipse — se aproximaram com olhares curiosos.

— Eu ainda não consigo acreditar que você perdoou o Matheus tão rápido — disse Camila, cruzando os braços e balançando a cabeça em sinal de reprovação. — A história da secretária de lingerie foi boa, mas convenhamos, Bruna... é difícil de engolir.

— A história era verdade, Camila — respondi, arrumando uns papéis para não ter que encarar os olhos delas. — Ele me provou que a porta emperrou e que a mulher tirou o casaco por causa da tempestade. O Matheus é leal. Ele nunca mentiria para mim desse jeito.

— Pode até ser — interveio Beatriz, dando um sorrisinho brincalhão —, mas convenhamos: a surtada que você deu valeu muito a pena. Aquela noite com o cinquentão misterioso no hotel... amiga, aquilo é história para contar para os netos!

As três caíram na risada, e eu senti minhas bochechas queimarem. Uma onda instantânea de calor e culpa subiu pelo meu pescoço ao lembrar do toque, do cheiro de uísque e da audácia do bilhete que deixei na cabeceira dele.

— Falando nisso, você vai mesmo aceitar esse jantar de hoje? — perguntou Sofia, voltando ao tom sério. — Apresentar a família depois dessa confusão toda?

— Vou — suspirei, encostando o corpo na cadeira. — Para ser sincera, vou mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa.

— Curiosidade de quê? — quis saber Camila.

— Meninas, faz quase um ano que eu namoro o Matheus e eu não sei absolutamente nada sobre o pai dele. Nem mesmo uma foto — confessei, baixando a voz. — A mãe dele, a Renata, eu já conheci por chamada de vídeo algumas vezes. Eles são separados há anos. Mas o pai... o Matheus raramente fala sobre ele. Quando pergunto, só diz que o homem é ultra reservado, vive viajando a negócios e é viciado em trabalho. Chega a ser estranho.

— Agora você me deixou curiosa também — comentou Beatriz. — Vai lá, faz a linha nora perfeita e depois nos conta tudo.

Sorri sem jeito e digitei uma resposta rápida para Matheus, confirmando o jantar.

Às 20h em ponto, a buzina do carro de Matheus soou na porta do meu prédio.

Eu tinha me preparado com esmero: vestia um vestido preto fechado, de corte reto e elegante, salto alto e maquiagem leve. Queria transmitir a imagem de uma mulher madura e centrada, pronta para encarar a família do homem com quem planejava um futuro.

Matheus me recebeu com um beijo apaixonado na bochecha e um elogio sincero, segurando minha mão com orgulho durante todo o trajeto até o restaurante — um dos estabelecimentos mais exclusivos e refinados da Zona Sul.

Quando chegamos, o maitre nos guiou até uma mesa reservada ao fundo, em um ambiente de meia-luz e piano ao vivo.

Uma mulher elegante, de cabelos castanhos impecavelmente escovados e joias discretas, já nos aguardava.

— Mãe! — Matheus a cumprimentou com um abraço carinhoso. — Esta é a Bruna.

— Finalmente, Bruna! — Renata sorriu calorosamente, levantando-se para me dar um abraço acolhedor. — O Matheus fala tanto de você que eu sentia como se já nos conhecêssemos pessoalmente. Você é ainda mais bonita do que nas chamadas de vídeo.

— Muito obrigada, dona Renata. É um prazer enorme conhecê-la — respondi, sentando-me ao lado de Matheus enquanto ela ocupava a cadeira à nossa frente.

Sentei-me e relaxei aos poucos. Renata era extremamente agradável e simpática. Enquanto olhávamos o cardápio, ela soltou um suspiro de impaciência ao olhar o relógio de pulso de ouro.

— Como de costume, ele está atrasado — comentou Renata, balançando a cabeça com um sorriso irônico. — Bruna, não repare. O pai do Matheus é assim mesmo. Trabalho em primeiro lugar, pontualidade para a família em segundo. Nós nunca fomos casados, sabe? Tivemos um relacionamento breve há mais de vinte anos, o Matheus nasceu desse envolvimento, e mantemos uma relação cordial por causa do nosso filho. Mas a pontualidade dele continua sendo uma tragédia.

— Ele já deve estar chegando, mãe — disse Matheus, rindo e checando o celular.

Minutos depois, o som de passos firmes ecoou sobre o piso de mármore do restaurante. O maitre se inclinou em uma reverência respeitosa, indicando a nossa mesa.

— Falando no diabo... — murmurou Renata, olhando em direção à entrada.

Senti uma brisa fria tocar minha nuca antes mesmo de ouvir a voz.

— Boa noite a todos. Peço desculpas pelo atraso, tive um imprevisto de última hora na diretoria.

A voz era grave, aveludada, profunda. Uma voz que eu reconheceria até no meio do pior dos pesadelos. Uma voz que tinha sussurrado obscenidades no meu ouvido há poucas horas.

Meu coração parou no peito. Todo o sangue do meu corpo pareceu fugir do meu rosto no mesmo segundo.

Lentamente, como se estivesse movendo uma montanha, ergui os olhos do prato e olhei para cima.

Parado à cabeceira da mesa, vestindo um terno cinza-chumbo perfeitamente cortado, estava o homem da suíte. O homem da boate. O anonimo mascarado.

Marcos.

Nossos olhares se cruzaram no ar.

Os olhos cinzentos dele, antes frios e calculistas, se arregalaram imperceptivelmente ao me ver ali. Ele travou no lugar, a mão que segurava o paletó congelando no ar.

O choque foi absoluto. Mútuo. Devastador.

— Pai, que bom que chegou! — Matheus se levantou sorridente, completamente alheio ao terremoto que acabara de destruir o meu mundo, e colocou a mão no ombro do pai. — Quero te apresentar a mulher da minha vida. Pai, esta é a Bruna. Bruna, este é o meu pai, Marcos Buckhard.

O ar sumiu completamente dos meus pulmões. Fiquei paralisada, incapaz de piscar ou respirar, enquanto o homem com quem eu tinha vivido a noite mais proibida, ardente e inesquecivel da minha vida me encarava de volta — percebendo que a garota que o chamara de "coroa" no bilhete era a namorada do seu próprio filho.

 

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