Home / Romance / Meu Sogro Perigoso / A Máscara de Vidro

Share

A Máscara de Vidro

last update publish date: 2026-10-08 01:21:46

{Bruna}

 

A poeira da revelação ainda flutuava no ar, mas o silêncio na mesa era ensurdecedor.

O olhar de Marcos Buckhard não era apenas surpreso; era uma lâmina afiada que parecia cortar a pele da minha face. Ele permaneceu imóvel por dois segundos intermináveis — o tempo exato que levou para a sua máscara de homem de negócios implacável voltar ao lugar.

— Bruna... — Marcos pronunciou meu nome devagar, a voz grave e aveludada reverberando direto na minha espinha. Ele estendeu a mão na minha direção, o tom perfeitamente polido. — É um prazer finalmente conhecê-la. O Matheus fala muito de você.

Minha mão tremeu quando se encaixou na dele. O toque foi breve, mas a temperatura da pele dele parecia queimar. A memória daquela mesma mão segurando meus pulsos na suíte do hotel voltou como um soco no estômago.

— O... o prazer é meu, senhor Buckhard — consegui articular, a voz saindo por um fio.

— Por favor, apenas Marcos — respondeu ele, puxando a cadeira à minha frente e acomodando-se com a elegância natural de quem é dono de tudo ao seu redor.

A partir daquele segundo, o jantar se transformou em uma sessão de tortura psicológica.

Matheus, completamente alheio ao abismo que se abrira sob os nossos pés, conversava animadamente. Falava sobre a nossa rotina, o escritório de arquitetura onde eu trabalhava e os nossos planos de morar juntos no próximo ano. A cada frase carinhosa do meu namorado, o olhar cinzento de Marcos se cravava em mim, calculista, avaliando minhas reações a cada detalhe.

— Ela é incrível, pai — dizia Matheus, segurando minha mão sobre a mesa. — Responsável, centrada... uma mulher de valores raros hoje em dia.

Senti meu estômago dar um nó. Valores raros. Se Matheus soubesse que a mulher "centrada" ao lado dele tinha deixado um bilhete atrevido na cabeceira do próprio pai há menos de uma semana...

— Tenho certeza de que é — comentou Marcos, levando a taça de vinho aos lábios sem desacelerar o ritmo do olhar sobre mim. — Bruna me parece ser uma mulher cheia de surpresas. Daquelas que sabem exatamente o que querem e não hesitam em agir sob o impulso do momento. Não é mesmo?

Sufoquei uma tosse. Renata, percebendo a minha palidez, interveio carinhosamente:

— Bruna, querido, você está bem? Ficou tão pálida de repente.

— Eu... eu só preciso de um pouco de água. Na verdade, me deem um segundo, vou ao banheiro me recompor — murmurei, empurrando a cadeira e me levantando apressadamente, sem esperar resposta.

Atravessei o salão do restaurante com os joelhos bambos, sentindo o peso do olhar de Marcos queimando minhas costas a cada passo.

Entrei no toalete feminino, apoiei as duas mãos na bancada de mármore e encarei meu reflexo no espelho. A imagem que me devolvia o olhar era de pavor puro. Como isso foi acontecer? Qual era a probabilidade matemática de o homem da boate ser o pai do Matheus?

Lavei o rosto com água fria, tentando controlar a respiração desordenada. Se eu contasse a verdade para Matheus, destruiria a vida dele e a relação com o pai. Se eu me calasse, viveria sob a sombra dessa farsa para sempre.

Ajustei a maquiagem, tomei coragem e caminhei até a porta de saída.

Ao passar pelo corredor privativo e mal iluminado que dava acesso aos banheiros, uma mão firme e quente agarrou meu pulso com autoridade, puxando-me para a penumbra de uma alcova de serviço.

Antes que eu pudesse gritar, fui pressionada contra a parede.

O cheiro de uísque, couro e perfume amadeirado me envolveu instantaneamente. Ergui os olhos e dei de cara com o rosto de Marcos, a centímetros do meu. A proximidade física era sufocante.

— O que você pensa que está fazendo? — sussurrei em pavor, tentando empurrar o peito dele, mas o corpo dele era uma rocha. — Se o Matheus ou a sua ex-mulher virem isso...

— "Coroa"? — a voz dele veio baixa, rosnada contra a minha orelha, ignorando completamente meus protestos. — Foi assim que você me chamou no bilhete, garota?

— Me solta, Marcos! — pedi, o coração batendo desgovernado no peito. — Foi um erro! Eu achei que o Matheus tinha me traído! Eu não sabia quem você era! Nós fizemos um acordo... sem nomes, sem passado!

— Um acordo que ruiu no momento em que você sentou na minha mesa como namorada do meu filho — ele rebateu, segurando meu queixo com firmeza, forçando-me a encará-lo. Os olhos dele faiscavam de uma mistura perigosa de raiva e desejo reprimido. — Você tem ideia de onde se meteu?

— Eu só quero ir embora! Eu vou dar uma desculpa, vou me afastar do Matheus, vou sumir da vida de vocês...

— Você não vai a lugar nenhum — interrompeu ele, o tom imperioso e dominador. — Se você sumir agora, o Matheus vai investigar, vai atrás de você e vai transformar isso em um drama familiar. Nós vamos voltar para aquela mesa. Você vai agir como a nora perfeita. E nós dois vamos resolver esse "equívoco" longe dele.

A forma como ele falou "resolver" fez meu corpo inteiro arrepiar. A tensão entre nós no corredor era uma bomba-relógio prestes a explodir, carregada da mesma química perigosa daquela noite na suíte.

— Você é um louco — sussurrei, a respiração falhando.

— E você é uma péssima mentirosa, Bruna — ele respondeu, soltando meu queixo devagar, mas sem afastar o corpo. — Recomponha-se. O seu namorado está esperando.

Marcos ajeitou o terno com uma calma sádica, deu um passo para trás e retornou ao salão principal, deixando-me sozinha na penumbra do corredor, tentando recuperar o ar que ele havia acabado de roubar de mim.

 

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Meu Sogro Perigoso    A Entrega Inevitável

    As palavras do meu namorado ecoavam pela linha telefônica, mas o meu mundo já havia sido completamente engolido pela presença avassaladora de Marcos.A mão dele apertava minha cintura com mais força, puxando meu quadril contra o dele, enquanto a respiração quente em meu pescoço destruía qualquer resquício do meu autocontrole.— Amor? Você ainda está aí? — a voz de Matheus soou novamente pelo alto-falante, distante, como se estivesse em outra dimensão.Pressionei as pálpebras com força, buscando na dor da culpa o ar para responder.— Estou... estou sim, Matheus — respondi, com a voz embargada, sentindo a ponta dos dedos de Marcos deslizarem por baixo da alça do meu vestido, roçando a pele sensível do meu ombro. — Amanhã o dia vai ser extremamente corrido no escritório... Temos a apresentação de uma proposta para um cliente novo. Acho melhor não nos encontrarmos para o almoço.Ouvi o suspiro resignado do outro lado.— Entendi... Tudo bem, amor. Você tem razão, seu trabalho exige muito.

  • Meu Sogro Perigoso    O Limiar da Insanidade

    {Bruna}O toque da mão de Marcos no meu queixo não era apenas um gesto físico; era uma reivindicação silenciosa. O calor que emanava dos dedos dele atravessava a minha pele, espalhando uma onda de choque que paralisava qualquer tentativa de reação Racional.— Me solta, Marcos... — sussurrei, tentando recuar o corpo, mas minhas costas já estavam pressionadas contra a parede fria do hall do meu apartamento. — Você não tem o direito de vir aqui. Você não tem o direito de invadir a minha casa.— Eu não preciso de direito quando você deixou as portas escancaradas naquela noite — ele respondeu, a voz grave e soturna ecoando na sala silenciosa. Ele deu mais um passo, colando o peito ao meu até que não houvesse mais ar entre nós. — Você acha que pode me usar como um anestésico para as suas frustrações e depois fingir que nada aconteceu?— Eu não te usei! — rebati, o olhar faiscando de raiva e pavor. — Eu cometi um erro absurdo porque achei que o Matheus estava me traindo! Se eu soubesse quem

  • Meu Sogro Perigoso    A Visita da Noite

    {Bruna}O táxi me deixou em frente ao Edifício Residencial Solaro.A fachada moderna do prédio, com suas pastilhas claras e a iluminação embutida no portão de vidro, costumava me trazer uma sensação imediata de aconchego. Naquela noite, porém, os três andares que subi de elevador pareceram uma eternidade sufocante.Entrei no meu apartamento, girei a chave na fechadura duas vezes e encostei as costas contra a madeira da porta, deixando o corpo deslizar até os meus joelhos dobrarem. O silêncio da minha sala era um contraste violento com o turbilhão de pensamentos que atropelava minha mente.A imagem de Marcos na cabeceira da mesa. O toque firme da mão dele no meu pulso no corredor. E o olhar de Matheus, ingênuo e apaixonado, completamente alheio ao monstro que tínhamos criado nas costas dele.Tirei os saltos altos com desleixo, jogando-os perto da entrada, e fui direto para a cozinha. Enchi um copo com água gelada da geladeira, minhas mãos ainda tremendo tanto que o líquido quase transb

  • Meu Sogro Perigoso    A Assinatura do Predador

    {Marcos}Observar a silhueta de Bruna desaparecer pelo corredor do restaurante foi um espetáculo à parte.A maneira como seus ombros tremiam sutilmente, o desespero velado em seus passos e o medo cru estampado naqueles olhos amendoados faziam cada gota do meu sangue pulsar com uma intensidade que eu não sentia há anos.Ajustei os punhos do meu paletó no espelho do hall de acesso ao sair do banheiro masculino e caminhei com passos tranquilos de volta ao salão principal.Quando cheguei à mesa, Matheus já estava sentado, acompanhando com o olhar a porta de vidro do restaurante por onde a garota acabara de passar. A cadeira ao lado dele estava vazia, e o guardanapo de pano dela repousava amassado sobre a mesa — a única prova física de que a minha nora tinha acabado de fugir do próprio pesadelo.Acomodei-me na minha poltrona com a mesma calma calculada de sempre e pousei os braços sobre a mesa.— Ela já foi? — perguntei, mantendo a voz firme e perfeitamente neutra.— Foi, sim... — Matheus

  • Meu Sogro Perigoso    A Fuga na Penumbra

    {Bruna}Precisei de alguns segundos no corredor para obrigar minhas mãos a pararem de tremer e fazer o ar voltar aos meus pulmões. O toque de Marcos ainda queimava no meu queixo; a ameaça velada que ele sussurrara na minha orelha continuava ecoando como um alerta de perigo iminente.Ajustei a postura, engoli o nó grosso que arranhava minha garganta e passei as mãos pelo vestido para desamassar o tecido. Quando voltei ao salão principal do restaurante, meus pés pareciam pesados, como se eu estivesse caminhando direto para um tribunal.Ao me aproximar da mesa, Matheus me olhou com preocupação imediata e se levantou ligeiramente da cadeira.— Amor, tudo bem? Você demorou... está muito pálida — disse ele, puxando a minha cadeira com o cuidado de sempre.— Está tudo bem, sim... — forcei um sorriso fraco, evitando olhar para a frente enquanto me sentava. — Apenas uma leve tontura, nada demais.— Tem certeza? Se quiser, podemos pedir a conta agora — ele se inclinou, baixando a voz com carinh

  • Meu Sogro Perigoso    A Máscara de Vidro

    {Bruna}A poeira da revelação ainda flutuava no ar, mas o silêncio na mesa era ensurdecedor.O olhar de Marcos Buckhard não era apenas surpreso; era uma lâmina afiada que parecia cortar a pele da minha face. Ele permaneceu imóvel por dois segundos intermináveis — o tempo exato que levou para a sua máscara de homem de negócios implacável voltar ao lugar.— Bruna... — Marcos pronunciou meu nome devagar, a voz grave e aveludada reverberando direto na minha espinha. Ele estendeu a mão na minha direção, o tom perfeitamente polido. — É um prazer finalmente conhecê-la. O Matheus fala muito de você.Minha mão tremeu quando se encaixou na dele. O toque foi breve, mas a temperatura da pele dele parecia queimar. A memória daquela mesma mão segurando meus pulsos na suíte do hotel voltou como um soco no estômago.— O... o prazer é meu, senhor Buckhard — consegui articular, a voz saindo por um fio.— Por favor, apenas Marcos — respondeu ele, puxando a cadeira à minha frente e acomodando-se com a el

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status