INICIAR SESIÓN— Agora você quer dar ordens? — Kaelon cortou o ar com a pergunta, sua voz encheu. — Se interessou pela ômega só depois de ajudá-la a cavar a própria cova?
— Eu não posso deixar que o senhor destrua sua vida por causa disso — Fael insistiu, a voz mais firme agora.
— Eu? Destruir minha vida? — Kaelon soltou uma risada curta e áspera. — Você inverteu as coisas, filho.
— Pai, pense. A matilha está estável, nosso exército é forte, mas tudo isso se sustenta em alianças. O Beta Aron é a mais importante delas. Ele é o único que consegue lutar ao seu lado, ombro a ombro. Você vai trair a lealdade de uma vida por causa de sua única filha? Existe outra solução. Menos radical.
Kaelon ficou em silêncio por um momento, seu olhar perdendo um pouco do foco. Ele relaxou alguns centímetros na poltrona, como se, pela primeira vez, avaliasse o peso das palavras do filho.
— Você ultrapassou todos os limites — disse Fael, aproveitando a abertura. — Ela é apenas uma jovem. Matar a Lirah por um vínculo que ela não controlou?
Kaelon se virou lentamente. Seus olhos, habitualmente gelados, estavam escuros e opacos. A expressão em seu rosto era a de um homem confrontado com uma verdade feia.
— Exagerei? — perguntou, a voz perigosamente baixa. — Ou será você quem está exagerando? Espere… — seus olhos se estreitaram. — Você era mesmo o namorado secreto dela, não era? O tempo todo. E você a deixou sofrer aquela humilhação pública. Deixou o próprio pai dela, meu Beta, ter que se expor daquela maneira para salvá-la. Que tipo de homem faz isso? E está tentando me dá lição? Quer mesmo conversar de homem para homem?
Fael ficou em silêncio, a mandíbula tesa. Quando falou, sua voz saiu rouca.
— Eu não era seu namorado. Mas queria ter sido. Comecei a desejá-la desde o primeiro dia. É como se ela sempre devesse ter sido minha. Na hora, na frente de todos… eu travei. Só deixei acontecer. Mas agora eu a quero, pai. Se esse é o problema, deixe que eu a marque. Eu a torno minha. O vínculo com o senhor se romperá. O problema acaba.A reação de Kaelon foi instantânea e violenta.
— NÃO!O grito ecoou na sala, fazendo os objetos sobre a mesa tremerem. Fael recuou, surpreso com a fúria explosiva.
Kaelon respirou fundo, tentando recuperar o controle. Passou a mão pelo rosto, desviando o olhar. Ele tinha reagido por instinto, e isso claramente o perturbou.
— Não pode haver troca de Luna — disse, forçando a voz a voltar à frieza. — Você já apresentou sua companheira à matilha. Rejeitá-la agora seria um sinal de fraqueza, de indecisão. Você precisa da confiança deles, Fael. Eles não seguirão um futuro Alfa que troca de parceira como quem troca de tática.Fael riu, um som seco e descrente.
— Isso não é sobre a confiança da matilha. É sobre controle. O senhor prefere vê-la morta do que comigo. Porque ela despertou algo no senhor, algo que o senhor não pode admitir. É egoísmo puro. E ela não tem culpa de nada.Kaelon aproximou-se, a raiva voltando a brilhar em seus olhos.
— Eu não a darei a você. Nem agora, nem nunca. Ela não significa nada, mas se há uma escolha a ser feita, prefiro vê-la no túmulo.Um calafrio percorreu a espinha de Fael. Havia algo a mais naquela negação. Não era apenas orgulho ou política. Parecia… posse. Ciúme.
Antes que ele pudesse responder, a porta do escritório abriu-se com um rangido. O Gamma Julliu entrou, inclinando a cabeça em um gesto respeitoso.
— Me chamou, Alfa?Kaelon lançou um último olhar de advertência a Fael.
— Pode se retirar, Fael. Nossa conversa acabou.Fael hesitou. Seu olhar foi do Gamma, leal e impenetrável, para seu pai. Argumentar agora seria inútil e perigoso. O Gamma era a extensão leal da vontade do Alfa, e questioná-lo naquele momento seria uma insubordinação direta. Com um nó de frustração na garganta, ele virou-se e saiu, fechando a porta com um baque suave.
Assim que a porta se fechou, o Gamma aproximou-se, seu rosto sério.
— Qual será o procedimento com a menina?Kaelon não respondeu de imediato. Ele olhou pela janela, seu perfil duro como aço.
— Uma emboscada. Na floresta. Precisa parecer um acidente… ou um ataque de lobos selvagens. Algo que ninguém questione.— Senhor… — o Gamma hesitou, raramente contrariando o líder. — Os riscos são altos. A quebra de um laço de mate, mesmo que não consumado, pode ter consequências imprevisíveis para um Alfa. E o Beta… Aron é um homem perigoso quando ferido.
— Minha lealdade é com a estabilidade desta matilha, não com um acidente do destino — respondeu Kaelon, sua voz deixando claro que o assunto estava encerrado. — Sacrifícios são necessários. Cuide dos preparativos.
O Gamma acenou em silêncio.
— E o próximo passo?Kaelon virou-se, suas feições compostas em uma máscara de decisão impessoal.
— Amanhã à noite, visitarei o Beta Aron. Uma conversa longa e necessária.A maneira como ele falou, com um tom suspeitamente calmo, não era um bom presságio. Era a calma que precede a tempestade.
Cap.163O odor de ozônio e carne queimada antecedeu a invasão.Os estrondos do lado de fora do palácio cessaram por uma fração de segundo, apenas para dar lugar ao som pavoroso de metal e pedra sendo estraçalhados.Um outro vampiro trouxera o aviso ainda tentava estancar o sangramento do próprio braço quando o painel superior das grandes portas de bronze cedeu.Um soldado da guarda de elite do Norte foi arremessado de fora para dentro, atravessando os vinte metros do Salão de Reuniões como um projétil e colidindo contra o pilar de mármore logo acima da cabeça de Kaelom. O corpo do vampiro caiu sem vida, decapitado e reduzido a cinzas antes mesmo de tocar o chão.— Ela é forte demais! — gritou um dos guardas da entrada, recuando com o escudo partido. — Ela não está sozinha! Os lobos Carmesins... eles estão se regenerando dos nossos cortes! Eles carregam o nosso gene! São híbridos!O Ancião principal do Conselho do Norte estancou. O olhar do imortal ancestral, acostumado a milênios de
Cap.162A dor da colisão dissolveu-se em um estalo de pura adrenalina e poder ancestral. Lirah ergueu a cabeça no centro da nuvem de poeira e sentiu a mudança irreversível em sua própria essência.Ela nunca fora destinada a ser uma Luna tradicional, criada para bastidores ou submissão. nas profundezas do seu código genético, desacostumado à fraqueza após o nascimento dos trigêmeos Alfas, despertava a verdadeira natureza de uma líder soberana.Habilidades de Alfa de linhagem pura inundaram suas veias como fogo líquido.Sua percepção sensorial expandiu-se instantaneamente.O mundo ao seu redor pareceu desacelerar.O que antes eram apenas sombras rápidas e vultos invisíveis de vampiros movendo-se a velocidades colossais agora se revelava como trajetórias claras e previsíveis.Lirah enxergava cada músculo se contraindo nas feras da noite, cada desvio de ar, cada intenção de ataque antes mesmo que o inimigo completasse o movimento.Ao mesmo tempo, as pontas dos seus dedos queimaram.Suas u
Cap.161O ar fresco e tranquilo da manhã na fortaleza Carmesin foi despedaçado pela chegada do batedor.Antes que os guardas da entrada pudessem alcançá-lo, o jovem lobo colapsou de joelhos no pátio central, o rosto coberto por suor e terra.Lirah, que inspecionava as ervas de cura no alpendre do casarão principal, correu em direção ao soldado no momento em que ele caiu com a face contra a poeira.— Luna! Problemas! Problemas na capital lua de prata! — ele esbaforiu desesperado.— Respire! O que aconteceu? — exigiu ela, ajoelhando-se ao lado dele e pressionando a palma sobre suas costas para estabilizar sua respiração.O batedor ergueu a cabeça com dificuldade, os olhos injetados de pavor. A voz saiu rouca, rasgando-lhe a garganta:— A capital... a capital caiu, Luna! O Alfa Lucien... ele foi interceptado! O Conselho dos vampiros mobilizou milhares de soldados de sombra... cercaram os portões! Eu vi... eu vi quando as correntes de prata caíram sobre o Alfa Lucien! Ele está imobilizado
Cap160— Kaelom... me desculpe... eles eram muitos... — implorou ela, a voz embargada. — Por favor... não se renda! Mande as Quimeras atacarem! Não precisa se preocupar comigo!Kaelom encarou as lâminas a milímetros da jugular de Rosalie. O instinto de líder rugia em seu peito para ordenar o massacre, mas o peso da responsabilidade por seu povo paralisou sua mão.Com o peito subindo e descendo em espasmos de raiva contida, Kaelom cravou a espada no chão de mármore.— Baixem as armas... — ordenou o Alfa Supremo, a voz morrendo na garganta. — Todos vocês... rendam-se.Fael e Aron arregalaram os olhos, mas, sob o comando direto de seu líder, os soldados soltaram suas lanças e rifles. As Quimeras, desprovidas da ordem de ataque de Kaelom, foram contidas pelas correntes dos soldados.Kaelom deu dois passos à frente, desarmado, o olhar queimando em direção aos Anciões.— O que vocês querem?! — rosnou ele. — Vocês têm o império nas mãos! O que vieram buscar?!O Ancião sorriu, um sorriso esqu
Cap.159Apesar do isolamento geográfico do vale oculto, Lucien jamais permitira que a alcatéia Carmesin ficasse cega para o restante do mundo. Uma rede tecida ao longo de séculos, composta por batedores invisíveis e espiões infiltrados nas rotas comerciais, mantinha o Alfa informado de cada suspiro do Norte. E, acima de tudo, dos movimentos da capital Lua de Prata, para sempre conseguir manter sua alcateia segura.Por semanas, uma constatação incômoda minava a compostura de Lucien.o silêncio do Conselho dos Vampiros. Era uma quietude antinatural, densa demais para ser atribuída ao mero cumprimento do tratado assinado por Kaelom. Vampiros ancestrais não aceitavam termos sem testar as brechas.Foi essa desconfiança que o levou de volta ao coração do império.Quando Lucien cruzou as portas de bronze da sede da capital, a guarda de honra travou.O híbrido caminhava sem escolta, trajando um sobretudo escuro sobre a túnica militar Carmesin. Kaelom, avisado da chegada do visitante, recebeu-
Cap.158Um mês se passou desde a descoberta que mudara o destino de Lirah para sempre.Longe das centrifugadoras do laboratório, sem precisar extrair diariamente a própria essência vital para alimentar a esperança de um império ingrato, o corpo da jovem floresceu. Sua barriga, outrora plana, agora ostentava uma curvatura suave e visível sob o tecido leve das túnicas carmesins.Com o repouso e a nutrição adequada fornecida pela alcatéia de Lucien, o desenvolvimento congelado das três vidas em seu ventre despertara com uma força avassaladora. Lirah costumava passar as manhãs com as mãos espalmadas sobre o próprio ventre, sentindo os pequenos e ritmados espasmos das crianças que cresciam a uma velocidade inacreditável.Foi a Deusa da Lua..., pensava ela, enquanto encarava o reflexo no espelho da grande casa do Alfa. A Mãe Suprema sabia que, se aqueles bebês tivessem se desenvolvido durante os meses em que Lirah definhava na capital Lua de Prata, fraca, anêmica e no limite da exaustão, e







