LOGINO caminho de volta foi um cortejo fúnebre sem corpo.
Os cavalos avançavam em passo rítmico, mas pesado, como se carregassem o peso do que todos tinham testemunhado.
Nenhum murmúrio, nenhum olhar trocado. O silêncio era espesso, carregado de medo e incredulidade.
Na frente, o Alfa Kaelon cavalgava com a rigidez de uma estátua, seu olhar fixo à frente como se pudesse incinerar o horizonte.
Fael vinha atrás, sentindo o estômago embrulhado. Perguntas se chocavam dentro dele, cada uma mais urgente e perigosa que a outra.
Pouco antes do portão do palácio, Kaelon ergueu um punho fechado. A comitiva parou em uníssono.
Ele não se virou. Sua voz, baixa, mas cortante, carregou-se até o último homem.
— O que aconteceu hoje na floresta morre aqui. Não houve intrusão. Nenhuma flecha foi baixada. Nenhum nome foi dito. Esqueçam, esse acontecimento foi apenas uma afronta aos alfas.Um dos capitães mais velhos, de coragem temperada em batalha, ousou questionar.
— Mas, Alfa, a violação da Floresta Real é um crime grave. O protocolo exige... — O protocolo — a voz de Kaelon o interrompeu, gelada e final — é o que eu digo que é. Se um único rumor sobre isso chegar aos ouvidos da Luna, a destabilização será imediata. Vocês estão prontos para uma guerra de sucessão? Para ver a matilha se despedaçar enquanto meu filho ainda não está pronto para governar? A matilha leste precisa de estabilidade, e para isso, esse lado tem que estar estável. Seu olhar varreu a comitiva, um de cada vez. Ninguém sustentou o seu olhar por mais de um segundo. Todos baixaram a cabeça em assentimento mudo. Fael sentiu a boca seca.No palácio, Kaelon desmontou com um movimento fluido e impessoal.
Suas botas ecoaram nos corredores de pedra com uma cadência implacável. Ignorou todos os cumprimentos, passou pela Luna sem um aceno, e seguiu direto para seu escritório.
— Pai — Fael chamou, sua voz soando frágil no corredor amplo. — Preciso falar com o senhor.
Kaelon parou, mas não olhou para trás.
— Entre.Fael seguiu-o, o coração batendo forte nas têmporas. A porta do escritório fechou-se atrás deles com um clique definitivo.
A sala era um reflexo do alfa, escura, funcional, cheia de armas e livros de estratégia. Kaelon foi direto à sua poltrona atrás da grande mesa de carvalho, sentando-se. Não ofereceu um assento a Fael.
— Fale.
Fael ficou em pé, sentindo-se exposto.
— O que aconteceu lá… com a Lirah. Foi real? É aquilo mesmo?Kaelon não pestanejou.
— Foi.A simplicidade da confirmação foi um golpe no plexo solar.
— Aquela ômega… a filha do Beta Aron? A Lirah? Como assim ela é filha do beta? É verdade tudo aquilo? — Sim, a mesma que eu sugeri que se tornasse a sua luna, para manter o poder da hierarquia, mas você a rejeitou por dizer que nunca a amaria.— Por que o senhor nunca me disse quem ela era? Eu a rejeitei… repetidamente, mas... Eu não sabia que ela era justamente a Lirah! Esta dizendo que... todas as vezes que você disse que minha companheira como Luna poderia ser a filha do beta... era ela?
— Disse certo, era. Mas você escolheu com o ego, não com a razão. Escolheu a filha de um advogado pensando em alianças superficiais, e ignorou a filha do seu próprio Beta, a loba que já estava entranhada na estrutura de poder desta matilha desde o nascimento. Foi uma decisão burra, Fael.
O nome dela queimava na mente de Fael. Lirah.
A garota de sorriso fácil que ele mantivera às escondidas, que ele amara de uma forma que agora parecia infantil. E que agora ela era o mate de seu pai.
— Isso é uma maldição, o que você vai fazer? — ele murmurou, mais para si mesmo.
— É uma inconveniência — Kaelon corrigiu, sua voz carregada de desdém. — Uma fraqueza biológica. Não acreditarei em laços que roubam minha vontade. Nunca a aceitarei.
— E a mãe? — Fael perguntou, ousando ir ao cerne. — O senhor vai contar à Luna que encontrou sua parceira verdadeira? Todos sabem que o vínculo de vocês é político.
Kaelon emitiu um som baixo, um misto de riso e desprezo.
— Minha vida pessoal não é o ponto. Eu sou o Alfa. Meu casamento é uma das colunas que sustenta este clã. Um laço recém-descoberto, e com uma ômega, não tem força contra anos de estabilidade.— Mas rejeitar um mate… pode ter consequências. Para a senhor. Para a matilha em força... além disso... você sabe... se você rejeitar Lirah... ela terá os dias contados ela vai morrer... — os lábios dele tremeram como se temesse as próprias palavras.
— Consequências são para quem não sabe controlá-las. O vínculo é superficial. A loba dela sentiu, mas o meu lobo não respondeu. Não está consolidado. Isso significa que pode ser… desfeito, eu sou um sobrevivente.Fael sentiu um frio percorrer sua espinha.
— Desfeito? O senhor não quer dizer… — Exatamente.— Matá-la? — a voz de Fael subiu de tom. — Se o senhor mata sua parceira, mesmo um laço fraco, pode desencadear a loucura! O senhor pode perder o controle, o trono, tudo! Além disso... você já matou uma parceira uma vez, o destino... te deu a chance de sobreviver, mesmo se tornando um monstro.
Kaelon levantou-se então, e sua altura pareceu preencher a sala. Seus olhos, da cor do âmbar escuro, não tinham dúvida, apenas uma certeza aterradora.
— Alfas fortes não enlouquecem. Nós comandamos. Nós cortamos o que é fraco para preservar o todo. A ordem desta matilha vale mais do que a vida de uma ômega.— Ela é inocente nisso! — Fael argumentou, um último surto de defesa.
— Sua existência, a partir de agora, é uma ameaça.Fael olhou para o homem que era seu pai, seu líder, e viu um estranho. Viu a frieza absoluta de um cálculo que colocava o poder acima da vida, acima do destino.
— O senhor é um monstro — a palavra saiu em um sussurro trêmulo.
Kaelon nem mesmo pareceu ofendido.
— Sou um rei. E reis fazem o que é necessário. Você não dirá uma palavra. Para ninguém. Isso é uma ordem.Fael balançou a cabeça, não em negação, mas em desespero. Então, algo dentro dele se rompeu. Um fio de autoridade que ele não sabia ter ecoou em sua voz, ainda que fraca.
— Pai. — a palavra soou como um comando, surpreendendo a ambos. — Não machuque a Lirah, isso não é negociável.
Kaelon parou, seus olhos estreitando-se pela primeira vez com algo que não era raiva, mas genuína surpresa.
O filho, o príncipe que sempre obedecia, estava estabelecendo um limite.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que todos os outros daquela tarde. Nele, uma nova guerra silenciosa nascia.
Cap.163O odor de ozônio e carne queimada antecedeu a invasão.Os estrondos do lado de fora do palácio cessaram por uma fração de segundo, apenas para dar lugar ao som pavoroso de metal e pedra sendo estraçalhados.Um outro vampiro trouxera o aviso ainda tentava estancar o sangramento do próprio braço quando o painel superior das grandes portas de bronze cedeu.Um soldado da guarda de elite do Norte foi arremessado de fora para dentro, atravessando os vinte metros do Salão de Reuniões como um projétil e colidindo contra o pilar de mármore logo acima da cabeça de Kaelom. O corpo do vampiro caiu sem vida, decapitado e reduzido a cinzas antes mesmo de tocar o chão.— Ela é forte demais! — gritou um dos guardas da entrada, recuando com o escudo partido. — Ela não está sozinha! Os lobos Carmesins... eles estão se regenerando dos nossos cortes! Eles carregam o nosso gene! São híbridos!O Ancião principal do Conselho do Norte estancou. O olhar do imortal ancestral, acostumado a milênios de
Cap.162A dor da colisão dissolveu-se em um estalo de pura adrenalina e poder ancestral. Lirah ergueu a cabeça no centro da nuvem de poeira e sentiu a mudança irreversível em sua própria essência.Ela nunca fora destinada a ser uma Luna tradicional, criada para bastidores ou submissão. nas profundezas do seu código genético, desacostumado à fraqueza após o nascimento dos trigêmeos Alfas, despertava a verdadeira natureza de uma líder soberana.Habilidades de Alfa de linhagem pura inundaram suas veias como fogo líquido.Sua percepção sensorial expandiu-se instantaneamente.O mundo ao seu redor pareceu desacelerar.O que antes eram apenas sombras rápidas e vultos invisíveis de vampiros movendo-se a velocidades colossais agora se revelava como trajetórias claras e previsíveis.Lirah enxergava cada músculo se contraindo nas feras da noite, cada desvio de ar, cada intenção de ataque antes mesmo que o inimigo completasse o movimento.Ao mesmo tempo, as pontas dos seus dedos queimaram.Suas u
Cap.161O ar fresco e tranquilo da manhã na fortaleza Carmesin foi despedaçado pela chegada do batedor.Antes que os guardas da entrada pudessem alcançá-lo, o jovem lobo colapsou de joelhos no pátio central, o rosto coberto por suor e terra.Lirah, que inspecionava as ervas de cura no alpendre do casarão principal, correu em direção ao soldado no momento em que ele caiu com a face contra a poeira.— Luna! Problemas! Problemas na capital lua de prata! — ele esbaforiu desesperado.— Respire! O que aconteceu? — exigiu ela, ajoelhando-se ao lado dele e pressionando a palma sobre suas costas para estabilizar sua respiração.O batedor ergueu a cabeça com dificuldade, os olhos injetados de pavor. A voz saiu rouca, rasgando-lhe a garganta:— A capital... a capital caiu, Luna! O Alfa Lucien... ele foi interceptado! O Conselho dos vampiros mobilizou milhares de soldados de sombra... cercaram os portões! Eu vi... eu vi quando as correntes de prata caíram sobre o Alfa Lucien! Ele está imobilizado
Cap160— Kaelom... me desculpe... eles eram muitos... — implorou ela, a voz embargada. — Por favor... não se renda! Mande as Quimeras atacarem! Não precisa se preocupar comigo!Kaelom encarou as lâminas a milímetros da jugular de Rosalie. O instinto de líder rugia em seu peito para ordenar o massacre, mas o peso da responsabilidade por seu povo paralisou sua mão.Com o peito subindo e descendo em espasmos de raiva contida, Kaelom cravou a espada no chão de mármore.— Baixem as armas... — ordenou o Alfa Supremo, a voz morrendo na garganta. — Todos vocês... rendam-se.Fael e Aron arregalaram os olhos, mas, sob o comando direto de seu líder, os soldados soltaram suas lanças e rifles. As Quimeras, desprovidas da ordem de ataque de Kaelom, foram contidas pelas correntes dos soldados.Kaelom deu dois passos à frente, desarmado, o olhar queimando em direção aos Anciões.— O que vocês querem?! — rosnou ele. — Vocês têm o império nas mãos! O que vieram buscar?!O Ancião sorriu, um sorriso esqu
Cap.159Apesar do isolamento geográfico do vale oculto, Lucien jamais permitira que a alcatéia Carmesin ficasse cega para o restante do mundo. Uma rede tecida ao longo de séculos, composta por batedores invisíveis e espiões infiltrados nas rotas comerciais, mantinha o Alfa informado de cada suspiro do Norte. E, acima de tudo, dos movimentos da capital Lua de Prata, para sempre conseguir manter sua alcateia segura.Por semanas, uma constatação incômoda minava a compostura de Lucien.o silêncio do Conselho dos Vampiros. Era uma quietude antinatural, densa demais para ser atribuída ao mero cumprimento do tratado assinado por Kaelom. Vampiros ancestrais não aceitavam termos sem testar as brechas.Foi essa desconfiança que o levou de volta ao coração do império.Quando Lucien cruzou as portas de bronze da sede da capital, a guarda de honra travou.O híbrido caminhava sem escolta, trajando um sobretudo escuro sobre a túnica militar Carmesin. Kaelom, avisado da chegada do visitante, recebeu-
Cap.158Um mês se passou desde a descoberta que mudara o destino de Lirah para sempre.Longe das centrifugadoras do laboratório, sem precisar extrair diariamente a própria essência vital para alimentar a esperança de um império ingrato, o corpo da jovem floresceu. Sua barriga, outrora plana, agora ostentava uma curvatura suave e visível sob o tecido leve das túnicas carmesins.Com o repouso e a nutrição adequada fornecida pela alcatéia de Lucien, o desenvolvimento congelado das três vidas em seu ventre despertara com uma força avassaladora. Lirah costumava passar as manhãs com as mãos espalmadas sobre o próprio ventre, sentindo os pequenos e ritmados espasmos das crianças que cresciam a uma velocidade inacreditável.Foi a Deusa da Lua..., pensava ela, enquanto encarava o reflexo no espelho da grande casa do Alfa. A Mãe Suprema sabia que, se aqueles bebês tivessem se desenvolvido durante os meses em que Lirah definhava na capital Lua de Prata, fraca, anêmica e no limite da exaustão, e







