Compartilhar

3

Autor: Darlla Vi
last update Data de publicação: 2024-03-06 10:03:35

Passei tempo demais correndo com a papelada e esqueci que depois do turno eu precisaria voltar para a faculdade, talvez Mike estivesse certo, diminuir um pouco das horas que eu estendia do plantão poderia me ajudar.

Corri pelo campus tendo certeza de que eu perdi algumas das minhas canetas durante a maratona, perderia o início da aula e isso seria péssimo para o meu currículo estudantil.

Esqueci dos elevadores e corri pelas escadas na expectativa de encontrar a sala em seu estopim de conversas fiadas e falta de um professor dentro da classe.

— Não diagnostiquem imediatamente. O maior erro do médico é achar que ele entende mais do que os estudos feitos durante décadas, você não é especial e não deve se achar o maioral quando estiver com as maiores cartas na manga para dar a sentença para seu paciente. — Eu abri a porta no meio da explicação, Não olhei para o rosto do Sr. Clark que pausou drasticamente suas palavras até que minha bunda estivesse presa a cadeira. — Vocês precisam de limites, seu diagnóstico deve ir além das vozes da sua cabeça. Você pode acabar com a vida de uma pessoa com um diagnóstico errado.

Tentei manter silêncio, o que eu menos queria era chamar ainda mais atenção depois do fiasco do meu atraso. Tirei os cadernos da bolsa e minhas suspeitas estavam certas, eu havia perdido as minhas canetas no caminho para a sala. Fechei os olhos e respirei algumas vezes antes de pesar minhas opções.

Pedir a Jess ou suas amigas, usar meu telefone para fazer as anotações — o que foi expressamente proibido pelo Sr. Clark —, ou apenas deixar passar a aula e tentar me lembrar dela mais tarde.

— Suponhamos que vocês estejam com problemas mentais, e, convenientemente, precisem passar com um psiquiatra. — A aula continuou e o Sr. Clark caminhou despreocupadamente pelos corredores das carteiras até que se posicionou ao meu lado. — Confiarão em seu diagnóstico precoce, ou pedirão exames para que seja mesmo que minimamente comprovado o que vocês supostamente tenham? — Lentamente, ele mexeu no bolso de seu paletó acinzentado escuro e posicionou uma caneta ao lado do meu caderno enquanto parte da classe respondia sua pergunta. — Exatamente, o profissionalismo vem muito antes do seu achismo.

Pisquei algumas vezes para entender a situação, eu não havia demonstrado nada, sequer informado que não havia nada para que eu pudesse anotar de sua aula. Assim que cheguei, apenas retirei meus cadernos e os coloquei em cima da carteira.

Recebi um leve aperto em meu ombro e um olhar fuzilante de Jess e o bando da morte.

— Terminamos por hoje, nos vemos amanhã. Lembrando o que os informei no começo da aula, também darei a vocês filosofia nesse semestre e as regras durante a minha aula não mudarão.

Os alunos se arrumaram e lentamente foram saindo da sala, eu precisava enfrentar o olhar acinzentado e irrefutável do Sr. Clark, além de suas tietes que me comiam viva com os olhos, me levantei já sabendo que o restante da minha semana seria um doce tortura.

— Obrigada pela caneta, desculpe interromper a aula no meio, não irá mais acontecer.

Ele me entregou a folha de chamada e eu a devolvi após assiná-la.

— Trabalho, casa, faculdade. Me lembro como isso era na minha época, senhorita Taylor, já informei a você que relevo apenas os alunos que eu vejo potencial e que tenho certeza que finalizaram a pós. Mas deveria diminuir a quantidade de horas em seu turno, ou acabará perdendo não só as minhas aulas e sairá muito mais prejudicada do que imagina.

— Sim, eu sei. — Engoli o pequeno nó que se instalou na minha garganta. — Como eu disse, obrigada pela caneta, isso não irá se repetir.

Eu me sentia um tanto quanto histérica, e precisei respirar algumas vezes para manter meus batimentos cardíacos em sintonia com a minha respiração. Ele me fitou ligeiramente e sorriu criando poucas e finas marcas de expressão debaixo de seus olhos, estendi a caneta apenas esperando que ele pegasse para que eu pudesse sair o mais rápido possível dali, mas ele apenas tirou os óculos e passou a mão nos cabelos escuros.

— Leve-a, talvez assim se lembre de não chegar atrasada na próxima aula.

Eu tossi um obrigada e furei a fila de tietes que estavam logo atrás de mim travando a passagem para fora da sala de aula.

...

Me peguei mordendo a tampa daquela caneta, simplesmente pensando em absolutamente nada. Fiquei assim por algum tempo, pelo o que eu me lembre. Foi logo após assinar o prontuário de um dos meus pacientes, fiquei presa entre um limbo inconsciente e a visão fixa de um ponto negro na parede do quarto.

O cansaço estava agora tirando a minha atenção, se eu continuasse assim, talvez não poderia lidar com nenhum paciente. Mike tinha razão e eu odiava admitir isso.

Mas eu precisava do dinheiro que aquelas horas extras me pagavam, não era só pelo amor da minha profissão, claro que não. Estudar não era barato, principalmente na minha área e com um aluguel nas costas.

Mordisquei mais algumas vezes a caneta que ainda estava presa entre meus dentes. Eu precisava de um emprego que me pagasse melhor, mesmo amando meus pacientes eu tinha que pensar em como sobreviver antes que o dinheiro não desse mais para pagar nada além da faculdade. Era um jeito de conseguir me manter, mas, era ainda mais difícil conseguir uma vaga na área em que eu trabalhava.

— Os prontuários estão prontos? — Mordisquei um pouco mais ferozmente a tampa da caneta.

O som de suspiro pesado invadiu meus tímpanos e minha mente ignorou, aquele ponto negro na parede não deveria estar ali.

— Sarah? — O gosto do plástico era de algum modo, viciante, talvez fosse por isso que todos tinham essa mania irritante. — Sarah!

Pisquei mais vezes do que seria considerado normal, a Sra. Jones me encarava com uma carranca de fazer inveja aos amantes de filmes de terror. Os olhos fundos debaixo das pálpebras caídas eram apenas o charme do seu visual aterrorizante, a chefe das enfermeiras era um pouco mais alta do que eu e não admitia erros em sua supervisão.

— Estão aqui. — Entreguei os papéis e ela expirou com os lábios abertos. — Estão prontos desde cedo.

Ela me mediu com desdém como fazia todo santo dia e voltou para a sua sala, mau humorada, suspirei e fiquei apenas com a caneta na mão sentada na cama vazia do quarto. Hoje seria a última aula da semana com o Sr. Clark e eu me vi pensando em como eu devolveria para ele uma caneta com sua tampa completamente mordida.

Merda.

Tenho estado em um transe frequente nos últimos dias, e por vezes esses transes me traziam os olhos acinzentados quase beirando os azuis atrás daqueles óculos Ray-ban. Trauma, poderia ser claramente isso. Medo de não me dar bem o suficiente nas aulas dele por causa da pressão que ele tinha colocado em mim, inconscientemente.

Estava sendo obrigada a ser o exemplo da turma, e só agora, longe do olhar incisivo eu conseguia ver isso. Seria rude da minha parte se eu buscasse outro professor de Filosofia e Psicologia? Certamente que sim.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Meu professor pervertido   53. Epílogo

    — David! — Berrei e ele entrou na garagem do apartamento dele. — Que merda pensa que está fazendo?— Tomando o que é meu. — Ele disse quando estacionou.Eu me recusei a sair do carro, minhas emoções estavam a flor da pele quando ele abriu a porta e me puxou para fora. Fui jogada em seu ombro e carregada para aquele maldito elevador.— Me solta, maldito filha da puta! Eu vou quebrar a sua cara! — Gritei dentro do elevador, mas ele não fez nada além de receber meus tapas e socos em suas costas.Ele continuou o caminho até o apartamento e só me colocou no chão após fechar a porta e trancá-la por dentro.— Porque você não estava lá? Porque não estava comigo? — Eu chorei batendo no peito dele e David apenas começou a me empurrar devagar contra o seu sofá, eu mudei a direção e sa&i

  • Meu professor pervertido   52

    Passei talvez algumas horas desidratando o meu corpo e relembrando cada uma das coisas que vivi por causa de Michael. Por alguma razão a dor se transformou em ódio e eu queria ter tido a chance de me descontar a minha raiva, o maldito rancor que eu estava sentindo no que eu pensava ser meu único amigo.Meu corpo doía tanto que a adrenalina do ódio me fez levantar a força, coloquei um jeans e uma camiseta larga para não arranhar minhas feridas e sai. Não vi Ben em lugar algum e eu sinceramente não me importava, havia algo que eu queria fazer e com tudo o que eu tinha passado e ele também presenciado, duvido que me deixaria sair sem que eu estivesse completamente bem.Não peguei nada além da minha carteira corri para a frente da faculdade, não senti fome, nem sede. A única coisa que eu queria fazer era estar ali e esperar e foi o que eu fiz, escorada nos muros das casas do outro

  • Meu professor pervertido   51

    Não era o mesmo filho da puta de anos atrás, mas ele era o mesmo tipo de cara que arrancaria delas o que queria sem se importar com suas dores.— Leve-a para a sua casa. — Conclui mudando de ideia. — O hospital fará perguntas e eu mesmo quero lidar com o merdinha do seu irmão, a polícia não fará nada além de prendê-lo por alguns anos. Eu não posso arriscar, não dessa vez.Ele assentiu e puxou ela dos meus braços, meu corpo doeu e as feridas minaram mais sangue enquanto eu forçava para levantar. Puxei Michael inconsciente do chão antes que eu não tivesse mais tempo e o coloquei na mesa onde Sarah deveria estar antes que chegássemos, era a vez dele de sentir o que ela sentiu. Só que ninguém viria salvá-lo.— Dessa vez não quebre só os dedos, David, esse merdinha nunca foi meu irmão e me recuso sa

  • Meu professor pervertido   50

    Continuei avançando cada vez mais rápido vendo nos olhos de Mike a dúvida, correr para a arma ou me enfrentar antes que eu afundasse a sua cabeça contra o chão. Ele correu para a arma deixando o corpo de Sarah descoberto e praticamente nu em cima de cobertores sujos e antigos de hospital, se algum dia pensei na possibilidade de deixá-lo viver, essa vontade havia sumido no mesmo momento em que vi minha garotinha debaixo dele sem realmente saber o que estava acontecendo.— Filho da puta! — Joguei a haste e ela errou por pouco, no entanto, tudo o que eu queria era tirar Sarah dali.— Nem mesmo morto você consegue ficar! Mas que porra! — Michael gritou segurando a arma na minha direção outra vez. — Você não cansa? Quantas vezes eu vou ter que atirar em você até que pare de se meter na porra da minha vida?— Mike... — Benjamin deixou a madeira q

  • Meu professor pervertido   49

    Benjamin encurtou a distância que faltava para chegar nela e ameaçou apertar a lamina sobre parte do decote exposto, eu sai do banco do motorista e entrei na parte detrás do carro apertando Jess contra o corpo de Benjamin.— E se fizermos você gritar de outra forma? — Eu avancei sobre o pescoço dela, apertando meus dedos contra a pele, sentindo o sangue dela pulsar embaixo dos meus dedos.— Não me parece uma ideia ruim, embora eu curta mulheres com mais carne. Se é que me entende... — Benjamin sorriu malicioso para os olhos assustados dela.— Entendo, essa aqui também não faz o meu tipo. — Conclui fingindo puxar a alça da blusa dela. — O quadril largo de Sarah aguentava perfeitamente toda a força que eu quisesse colocar, mas não vejo problemas em desmontar essa aqui.— Se ela não aguentar, podemos jogar ela no terreno no fim da

  • Meu professor pervertido   48

    Ergui o quadril e encaixei a mão embaixo do cóccix fazendo pressão na junção dos ossos, então forcei de uma vez. O estalo me fez ficar tonta, a dor tinha me entorpecido. Puxei devagar o aparelho e olhei a tela, mensagens de Ben e diversas ligações de David. Meu olhos lacrimejaram e eu simplesmente apertei o botão para retornar, o telefone tocou apenas uma vez antes de uma voz desesperada atender.— Sarah! — Eu chorei em vez de pedir ajuda, o som da voz de David do outro lado da linha me fez perder o ar. — Sarah! Meu amor, responda!Eu busquei fôlego para conseguir responder, mas era difícil sabendo que ele estava bem.— David... — Sussurrei cansada.— Estou indo, querida.Meu aparelho voou longe e o estalo fez meu corpo convulsionar, eu não tinha mais fôlego para gritar e minha consciência se desfez em pedaços antes de con

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status