INICIAR SESIÓNCarlo nunca havia entendido por que a mesa de jantar da mansão era tão grande.
Doze lugares. Doze cadeiras de espaldar alto, estofadas em veludo azul-marinho, posicionadas ao redor de uma superfície de mogno polido que brilhava sob a luz do lustre de cristal. Uma mesa digna de reis, de banquetes, de famílias numerosas.
E, ainda assim, ele sempre tomava café sozinho.
Naquela manhã, desceu a escadaria de mármore já esperando ouvir o choro da filha ecoando pelos corredores, como acontecia quase todas as manhãs. Mas o silêncio o fez franzir a testa.
Nenhum choro. Nenhum grito. Nenhum dos ruídos abafados de funcionárias em pânico tentando acalmar uma criança em crise.
Estranho. Muito estranho.
Seus passos o levaram até a sala de jantar, onde encontrou a mesa impecavelmente posta. Café fresco na cafeteira de prata, frutas fatiadas em uma travessa de porcelana, pães artesanais dispostos em uma cesta de vime, sucos naturais em jarras de vidro. Tudo no lugar, como todas as manhãs.
Menos as duas pessoas que deveriam estar ali.
Carlo franziu a testa e seus olhos claros percorreram o ambiente com uma irritação crescente. A mão esquerda, com as tatuagens escuras nos nós dos dedos, tamborilou impaciente sobre o encosto da cadeira principal.
— Onde elas estão?
A governanta, que arrumava os talheres no aparador, ergueu os olhos. As finas sobrancelhas prateadas se arquearam e um sorriso discreto — quase imperceptível — curvou seus lábios rosados.
— No jardim, senhor.
Carlo arqueou uma sobrancelha, o maxilar angular se deslocando ligeiramente.
— Tomando café?
— Mais ou menos...
O sorriso da governanta se alargou, mas ela não ofereceu mais explicações. Apenas desviou os olhos de volta para a prataria, como se saboreasse um segredo que não pretendia compartilhar.
Carlo bufou e caminhou até a varanda que dava para os jardins. As portas de vidro estavam entreabertas, e uma brisa morna de Roma acariciou seu rosto quando ele pisou no terraço de pedra. Sua mão descansou na balaustrada, mas assim que olhou para o gramado, parou.
Completamente.
Noemi corria de um lado para o outro sobre a grama verdejante usando uma coroa de plástico cor-de-rosa que brilhava sob a luz do sol. Seus longos cachos castanhos saltavam descontroladamente a cada passo, e algumas folhas secas já haviam se enroscado nas camadas volumosas. Nas mãos, ela segurava uma espada de espuma prateada com a ponta desgastada de tanto uso.
— Princesa! — Gritou, a voz carregada de um falso desespero teatral. — O dragão está vindo! Ele vai devorar todo o reino!
Beatrice estava escondida atrás do tronco largo de uma oliveira centenária, abraçada a um pequeno dinossauro de pelúcia verde. Roberto, Carlo deduziu, lembrando-se da cena ridícula que o segurança contou sobre a revista da bolsa dela no dia anterior. Os olhos azuis da menina, espreitavam Noemi por entre as folhas prateadas da árvore.
Quando Noemi passou correndo em sua direção, Beatrice hesitou. Seus dedos apertaram o dinossauro contra o peito e seus pés se moveram quase involuntariamente, dois passinhos rápidos, trêmulos, mas decididos. Ela ergueu a espada de brinquedo que estava jogada na gama, e encostou a ponta de espuma na perna da babá.
Noemi arregalou os olhos de forma absolutamente exagerada, as sobrancelhas arqueadas subindo até quase tocar a linha da coroa.
— Fui atingida!
Levou a mão ao peito, sobre o coração, e cambaleou para trás. Girou uma vez, lentamente, com a graça trágica de uma atriz de Shakespeare. Girou uma segunda vez, o corpo tombando em câmera lenta. E então caiu na grama, os braços e pernas abertos como uma estrela-do-mar vencida.
— Ah... o poderoso dragão venceu... o reino está perdido... digam à minha mãe que eu a amo...
Sua voz foi sumindo até se transformar em um silêncio teatral. Ela fechou os olhos e deixou a língua cair de lado, imóvel como uma heroína derrotada.
Beatrice não falou. Não emitiu som algum. Mas o canto de seus lábios se curvou para cima em um arco minúsculo, um sorriso pequeno, discreto, quase tímido. Um sorriso que durou apenas alguns segundos antes de se esconder novamente atrás da expressão neutra que a menina usava como escudo.
Ainda assim, era um sorriso.
Carlo permaneceu imóvel na varanda, os dedos cravados na balaustrada de pedra com força suficiente para embranquecer as articulações. O ar pareceu ficar preso em seus pulmões.
Ele não lembrava da última vez que tinha visto a filha sorrir. Revirou memórias antigas — o nascimento, o primeiro ano, as fotos que Bianca insistia em tirar — e não encontrou nada. Talvez ela tivesse sorrido quando era bebê, como todos os bebês sorriem. Mas ele não se lembrava. Ele não estava lá para ver.
Nunca tinha estado.
A governanta apareceu ao lado dele em silêncio, os passos abafados pelas solas de tecido. Seus cabelos prateados estavam penteados para trás de forma elegante, e as marcas de expressão ao redor de seus olhos se aprofundaram quando ela sorriu.
— Elas estão caçando dragões desde cedo, senhor.
Carlo não desviou o olhar do jardim. Noemi ainda estava caída na grama, e Beatrice agora se aproximava dela com passos cautelosos, segurando a espada como se realmente acreditasse que havia derrotado um dragão de verdade.
— Existem dragões na minha propriedade? — Sua voz saiu mais rouca do que o normal, um traço de emoção que ele não soube disfarçar.
A governanta respondeu com uma naturalidade absoluta, como se aquela fosse uma informação perfeitamente razoável.
— Desde às sete da manhã, senhor. Avistei um perto da fonte e outro rondando o roseiral.
Ele quase acreditou. Quase.
Noemi levantou da grama, sacudindo as folhas dos cachos escuros e limpando a terra dos joelhos. Ela apontou a espada de espuma para um arbusto florido perto do muro, dramaticamente.
— Achei outro! Majestade, prepare sua espada! Esse parece feroz!
Beatrice caminhou até ela sem hesitar. Sem medo. Sem chorar. Sem cobrir os ouvidos ou se encolher no chão. Apenas caminhou, seus sapatinhos de verniz deixando pegadas na grama úmida do orvalho. Ela ergueu a espada com as duas mãos, assumindo uma posição que imitava a de Noemi.
Sua voz saiu baixa, quase um sussurro que o vento quase levou embora.
— Ela nunca brincou assim comigo.
Não era uma pergunta. Era uma constatação amarga, do tipo que queima na garganta e desce pesada até o estômago.
A governanta olhou para ele com uma delicadeza que só os anos de serviço permitiam.
— O senhor nunca brincou, senhor.
A frase ficou suspensa no ar, simples e devastadora. Sem acusação. Sem julgamento. Apenas como um fato, como quem comenta que o céu está azul ou que a primavera chegou.
Carlo não respondeu.
Doía ouvir aquilo. Doía porque era verdade, uma verdade que ele havia enterrado sob reuniões de negócios, telefonemas ameaçadores, acordos fechados em salas escuras e um luto do qual nunca se permitiu cuidar.
Ele havia terceirizado a própria filha. Havia contratado uma equipe inteira para alimentá-la, vesti-la, acalmá-la. Mas nunca havia se abaixado na grama para caçar dragões.
Nunca.
E, pela primeira vez em quatro anos, Carlo desejou voltar no tempo.
Acordei com a sensação de estar sendo observado.Não era uma sensação desconfortável, pelo contrário. Era estranhamente acolhedora, como se alguém estivesse ali há tempo suficiente para que a presença se tornasse parte do ambiente. Abri os olhos lentamente, o escuro do quarto me recebendo com suavidade.Noemi estava acordada, deitada ao meu lado, os olhos escuros fixos em mim. Não fazia ideia quando ela havia deitado ali. Ela não disse nada quando percebeu que eu tinha acordado, apenas sustentou meu olhar, os cachos castanhos espalhados sobre o travesseiro, a expressão indecifrável.— Você está me olhando enquanto durmo. — Minha voz saiu rouca, arrastada pelo sono.— Estou verificando se você melhorou. — Ela sorriu de leve, aquele sorriso que não se decidia entre a timidez e a provocação. — Está com cara de quem dormiu.— Dormi. O remédio ajudou.— E a cabeça?— Melhor. A dor passou.— Que bom. — Ela se espreguiçou levemente, os braços se esticando sobre o lençol. — Agora precisa com
Saí do escritório pouco depois das dez da noite.O dia havia sido longo demais, e meu corpo cobrava o preço de cada hora que eu passara fingindo que estava tudo bem. A cabeça latejava desde o meio da tarde, uma dor surda e persistente que começara atrás dos olhos e se espalhara lentamente até ocupar cada centímetro do meu crânio. Eu conhecia aquele tipo de dor. Sabia o que significava: noite mal dormida, estômago vazio, tensão acumulada.A enxaqueca chegou sem avisar, como sempre fazia, e agora estava instalada com uma força que fazia cada passo ecoar dentro da minha cabeça como um martelo.Apaguei a luz do escritório e fechei a porta, meus dedos hesitando na maçaneta por um instante. O corredor estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes baixas de sempre. A casa inteira respirava em paz, mergulhada naquela quietude que só existia depois que Beatrice dormia.Caminhei devagar, uma mão apoiada na parede para manter o equilíbrio. A luz fraca parecia me furar os olhos, e cada pequeno
Passei os dedos pela borda da cadeira, mantendo minha voz calma e controlada. Eu sabia que precisava escolher bem as palavras, Carlo era do tipo que se fechava ao menor sinal de pressão, e eu não queria que aquela conversa terminasse com ele me expulsando do escritório.— Você não precisa fazer nada por mim, se é isso que está pensando. Não estou aqui pra cobrar nada, não espero nada em troca.Os olhos dele voltaram para os meus, atentos, como se tentassem decifrar alguma intenção oculta por trás das minhas palavras.— Eu não estou pensando isso.— Está. Dá para ver no seu rosto. Você tem essa expressão de quem está tentando descobrir qual é o preço de cada gesto.— Não estou. Você está projetando.— Carlo, eu não trouxe esses biscoitos porque quero alguma coisa de você. Não é uma troca, não é uma negociação, não é estratégia.Ele permaneceu imóvel, esperando que eu continuasse. Os olhos claros não se desviaram dos meus, e havia algo neles que eu não soube nomear. Uma expectativa sile
Não consegui esquecer que Carlo não havia almoçado.Tentei. De verdade. Depois de deixar Beatrice com Teresa, voltei para o meu quarto, tomei um banho rápido e passei alguns minutos tentando organizar as roupas que ainda estavam espalhadas pelas caixas abertas. Consegui dobrar exatamente três blusas antes de perceber que estava olhando para a mesma peça havia quase cinco minutos, meus dedos alisando o tecido sem propósito algum, minha mente completamente em outro lugar.Carlo não havia almoçado.Eu não sabia por quê, e aquilo estava me incomodando de uma forma desproporcional. Talvez porque ele tivesse passado os últimos dias agindo de maneira estranha, circulando pela casa como se procurasse algo que não sabia nomear. Talvez porque tivesse dormido mal — eu vi as olheiras escuras sob seus olhos naquela manhã, e a lembrança dele saindo do quarto de Beatrice com a expressão exausta ainda estava gravada na minha memória. Talvez porque eu ainda estivesse preocupada com a suposta febre qu
A constatação voltou sem qualquer piedade, instalando-se no meu peito com o peso de uma certeza. Fechei os olhos e, dessa vez, não tentei negar. Sim. Eu queria Noemi. Não apenas fisicamente, embora meu corpo já tivesse deixado isso bastante claro naquela madrugada. Eu queria a presença dela. Queria ouvir a voz dela pela manhã, vê-la na cozinha com Teresa, encontrá-la no jardim com Beatrice. Queria saber o que ela estava fazendo, o que estava pensando, de que jeito ela iria me provocar no próximo encontro. Queria que ela risse comigo — não por mim, não para mim, mas comigo.E aquilo era muito pior do que desejo. Porque desejo podia ser administrado, controlado, sufocado. Eu sabia controlar meu corpo, sabia ignorar necessidades físicas como quem desvia de obstáculos. Mas aquilo — aquela vontade de estar perto, de compartilhar, de dividir — parecia outra coisa. Algo que eu não sabia nomear e que me assustava profundamente.Minha mente voltou à noite anterior, implacável. A sensação dos
Passei a manhã inteira tentando agir normalmente. Falhei miseravelmente.Lembrei de Noemi, dos braços dela ao redor de mim, do peso do corpo dela contra o meu, do cheiro dos cabelos, da voz sonolenta pronunciando meu nome na madrugada.Fechei os olhos, sentindo o travesseiro afundar sob o peso da minha cabeça.— Merda.Virei-me na cama e puxei o travesseiro sobre o rosto, como se aquilo pudesse abafar os pensamentos. Era ridículo. Eu tinha quarenta anos — quarenta, não dezesseis. Tinha passado mais da metade da vida cercado por mulheres bonitas, interessadas, disponíveis, algumas das quais faziam qualquer coisa para chamar minha atenção. Nunca me importei com nenhuma delas. Nunca perdi uma noite de sono por causa de um sorriso. Nunca fiquei andando pela casa procurando desculpas para encontrar alguém.Passei a mão pelo rosto, sentindo a barba curta arranhar a palma.— Isso não está acontecendo.Levantei. Tomei banho. Troquei de roupa. Fiz tudo exatamente como fazia todos os dias: cami







