LOGINUma hora depois, Noemi finalmente conseguiu convencer Beatrice a entrar. Ou, pelo menos, foi isso que Carlo pensou ao ouvir os passos se aproximando da porta principal.
Ele estava na sala de estar, revisando documentos que não conseguia ler de verdade, as palavras dançavam diante de seus olhos enquanto sua mente continuava presa no jardim, naquele sorriso minúsculo, na frase da governanta.
Quando as duas atravessaram o hall de entrada, Carlo levantou os olhos e sentiu algo entre a exasperação e o assombro. Noemi carregava a coroa torta sobre os cachos revoltos, que agora estavam salpicados de pequenas folhas verdes. Beatrice não estava muito melhor, tinha lama nos sapatos, uma mancha de terra na barra do vestido azul e uma pena de algum pássaro desconhecido presa nos fios escuros de cabelo.
Carlo fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando os abriu novamente, sua voz saiu controlada, mas com um tom que beirava o cansaço.
— Senhorita Noemi...
Ela sorriu, e havia um brilho travesso em seus olhos escuros.
— Bom dia, chefe. Dormiu bem? Eu dormi otimamente, obrigada por perguntar. O colchão do quarto de hóspedes é divino.
— Por que minha filha está coberta de terra?
Noemi olhou para Beatrice com uma expressão de falsa indignação, como se a resposta fosse óbvia demais para precisar ser enunciada. Depois voltou os olhos para Carlo, dando de ombros.
— Porque dragões gostam de lama. Todos sabem disso. Está nos livros.
— Dragões não existem.
Ela apoiou a espada de espuma no ombro, inclinando a cabeça com uma expressão de quem estava prestes a dar uma notícia terrível.
— O senhor acabou de destruir uma excelente investigação científica. A revista Natureza Selvagem vai rejeitar nosso artigo por sua culpa.
Beatrice, que estava ao lado de Noemi, desviou rapidamente os olhos para o pai. Foi um olhar breve, quase furtivo, como se ela estivesse testando sua reação. Depois voltou a olhar para Noemi. E os cantinhos de sua boca tremeram outra vez, aquele mesmo movimento quase imperceptível que Carlo havia testemunhado no jardim.
Seus olhos capturaram o movimento, ela estava tentando esconder outro sorriso. Carlo percebeu. E pela primeira vez em muito tempo, ele não se importou com a sujeira no piso de mármore.
Não se importou com as folhas caindo dos cabelos. Não se importou com a mancha de grama que Beatrice estava deixando no tapete persa.
Ela quase sorriu.
Para ele. Na presença dele.
Era mais do que ele havia conseguido em quatro anos.
***
Mais tarde, depois do almoço, Noemi levou Beatrice ao quarto para tomar banho e trocar de roupa. A menina estava exausta, os olhos azuis ligeiramente pesados depois de uma manhã inteira de aventuras.
Enquanto Noemi a ajudava a vestir uma camiseta limpa, percebeu algo: Beatrice puxava repetidamente a gola do tecido. Uma vez. Duas. Três. Seus dedos voltavam ao mesmo ponto, cutucando a costura interna como se aquilo a estivesse incomodando profundamente.
Noemi se ajoelhou diante dela, aproximando-se com cuidado.
— Essa etiqueta está incomodando você, não está, princesa?
Beatrice não respondeu, mas seus dedos voltaram a puxar o tecido com uma insistência que dispensava palavras. Seus olhos estavam fixos em algum ponto distante, a mandíbula levemente tensa.
Noemi se levantou e chamou uma das funcionárias que passava pelo corredor.
— Tem outra camiseta igual a essa? Do mesmo tecido, mas sem etiqueta.
A moça assentiu prontamente.
— Temos, sim, senhorita. A senhora Bianca mandou fazer algumas peças adaptadas antes de... — Ela se interrompeu, os olhos se enchendo de uma tristeza antiga.
Noemi apenas acenou com a cabeça, compreendendo.
Minutos depois, a camiseta foi trocada. O novo modelo era idêntico em cor e tecido, mas a costura interna era selada, sem etiquetas ou relevos que pudessem irritar a pele sensível. Instantaneamente, Beatrice relaxou os ombros. A tensão em sua mandíbula desapareceu, e seus dedos pararam de cutucar o tecido.
Ela soltou um pequeno suspiro — quase inaudível — e voltou a brincar com Roberto, o dinossauro de pelúcia.
Carlo observava tudo da porta, os braços cruzados sobre o peito. Ele havia chegado silenciosamente, atraído pelo som da conversa. Seu olhar ia da filha para Noemi, de Noemi para a filha, tentando entender o que havia acontecido.
Esperou a funcionária sair do quarto antes de falar.
— Como você percebeu?
Sua voz estava mais baixa do que o normal, carregada de algo que não era exatamente curiosidade. Era quase vulnerabilidade, um tom que Carlo Dalmonte provavelmente nunca havia usado antes.
Noemi fechou a gaveta do armário e alisou a barra da blusa. Quando se virou, seus olhos escuros encontraram os dele sem hesitação.
— Ela estava me contando.
Ele franziu a testa, as sobrancelhas marcadas se juntando em uma linha de confusão.
— Ela não disse uma palavra.
Noemi sorriu de lado, aquele mesmo sorriso torto que parecia carregar uma sabedoria que ia além de sua idade. Seus lábios carnudos se curvaram com uma suavidade que contrastava com o peso de suas palavras.
— Nem tudo é falado, Carlo. Às vezes, a gente só precisa prestar atenção.
Ela passou por ele e saiu do quarto.
Carlo permaneceu parado no vão da porta, imóvel como uma estátua de mármore. Seus olhos claros encontraram a pequena figura de Beatrice, sentada no tapete felpudo do quarto. Ela fazia Roberto pular sobre algo imaginário, movendo os lábios em uma história silenciosa que ninguém mais podia ouvir.
A luz da tarde entrava pela janela e iluminava seus cabelos escuros, as bochechas rosadas, as mãos minúsculas que seguravam o brinquedo com tanto cuidado.
Pela primeira vez em quatro anos, Carlo Dalmonte percebeu algo que partiu seu coração em pedaços silenciosos.
Talvez ela tivesse tentado falar com ele inúmeras vezes.
Com o choro. Com o silêncio. Com as mãos sobre os ouvidos. Com as costas viradas. Com aqueles olhos azuis que tanto lembravam os seus, mas que ele nunca havia realmente olhado.
Ela vinha tentando. E ele simplesmente nunca aprendera a escutar. Naquele momento, Carlo Dalmonte desejou desesperadamente poder voltar no tempo.
Acordei com a sensação de estar sendo observado.Não era uma sensação desconfortável, pelo contrário. Era estranhamente acolhedora, como se alguém estivesse ali há tempo suficiente para que a presença se tornasse parte do ambiente. Abri os olhos lentamente, o escuro do quarto me recebendo com suavidade.Noemi estava acordada, deitada ao meu lado, os olhos escuros fixos em mim. Não fazia ideia quando ela havia deitado ali. Ela não disse nada quando percebeu que eu tinha acordado, apenas sustentou meu olhar, os cachos castanhos espalhados sobre o travesseiro, a expressão indecifrável.— Você está me olhando enquanto durmo. — Minha voz saiu rouca, arrastada pelo sono.— Estou verificando se você melhorou. — Ela sorriu de leve, aquele sorriso que não se decidia entre a timidez e a provocação. — Está com cara de quem dormiu.— Dormi. O remédio ajudou.— E a cabeça?— Melhor. A dor passou.— Que bom. — Ela se espreguiçou levemente, os braços se esticando sobre o lençol. — Agora precisa com
Saí do escritório pouco depois das dez da noite.O dia havia sido longo demais, e meu corpo cobrava o preço de cada hora que eu passara fingindo que estava tudo bem. A cabeça latejava desde o meio da tarde, uma dor surda e persistente que começara atrás dos olhos e se espalhara lentamente até ocupar cada centímetro do meu crânio. Eu conhecia aquele tipo de dor. Sabia o que significava: noite mal dormida, estômago vazio, tensão acumulada.A enxaqueca chegou sem avisar, como sempre fazia, e agora estava instalada com uma força que fazia cada passo ecoar dentro da minha cabeça como um martelo.Apaguei a luz do escritório e fechei a porta, meus dedos hesitando na maçaneta por um instante. O corredor estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes baixas de sempre. A casa inteira respirava em paz, mergulhada naquela quietude que só existia depois que Beatrice dormia.Caminhei devagar, uma mão apoiada na parede para manter o equilíbrio. A luz fraca parecia me furar os olhos, e cada pequeno
Passei os dedos pela borda da cadeira, mantendo minha voz calma e controlada. Eu sabia que precisava escolher bem as palavras, Carlo era do tipo que se fechava ao menor sinal de pressão, e eu não queria que aquela conversa terminasse com ele me expulsando do escritório.— Você não precisa fazer nada por mim, se é isso que está pensando. Não estou aqui pra cobrar nada, não espero nada em troca.Os olhos dele voltaram para os meus, atentos, como se tentassem decifrar alguma intenção oculta por trás das minhas palavras.— Eu não estou pensando isso.— Está. Dá para ver no seu rosto. Você tem essa expressão de quem está tentando descobrir qual é o preço de cada gesto.— Não estou. Você está projetando.— Carlo, eu não trouxe esses biscoitos porque quero alguma coisa de você. Não é uma troca, não é uma negociação, não é estratégia.Ele permaneceu imóvel, esperando que eu continuasse. Os olhos claros não se desviaram dos meus, e havia algo neles que eu não soube nomear. Uma expectativa sile
Não consegui esquecer que Carlo não havia almoçado.Tentei. De verdade. Depois de deixar Beatrice com Teresa, voltei para o meu quarto, tomei um banho rápido e passei alguns minutos tentando organizar as roupas que ainda estavam espalhadas pelas caixas abertas. Consegui dobrar exatamente três blusas antes de perceber que estava olhando para a mesma peça havia quase cinco minutos, meus dedos alisando o tecido sem propósito algum, minha mente completamente em outro lugar.Carlo não havia almoçado.Eu não sabia por quê, e aquilo estava me incomodando de uma forma desproporcional. Talvez porque ele tivesse passado os últimos dias agindo de maneira estranha, circulando pela casa como se procurasse algo que não sabia nomear. Talvez porque tivesse dormido mal — eu vi as olheiras escuras sob seus olhos naquela manhã, e a lembrança dele saindo do quarto de Beatrice com a expressão exausta ainda estava gravada na minha memória. Talvez porque eu ainda estivesse preocupada com a suposta febre qu
A constatação voltou sem qualquer piedade, instalando-se no meu peito com o peso de uma certeza. Fechei os olhos e, dessa vez, não tentei negar. Sim. Eu queria Noemi. Não apenas fisicamente, embora meu corpo já tivesse deixado isso bastante claro naquela madrugada. Eu queria a presença dela. Queria ouvir a voz dela pela manhã, vê-la na cozinha com Teresa, encontrá-la no jardim com Beatrice. Queria saber o que ela estava fazendo, o que estava pensando, de que jeito ela iria me provocar no próximo encontro. Queria que ela risse comigo — não por mim, não para mim, mas comigo.E aquilo era muito pior do que desejo. Porque desejo podia ser administrado, controlado, sufocado. Eu sabia controlar meu corpo, sabia ignorar necessidades físicas como quem desvia de obstáculos. Mas aquilo — aquela vontade de estar perto, de compartilhar, de dividir — parecia outra coisa. Algo que eu não sabia nomear e que me assustava profundamente.Minha mente voltou à noite anterior, implacável. A sensação dos
Passei a manhã inteira tentando agir normalmente. Falhei miseravelmente.Lembrei de Noemi, dos braços dela ao redor de mim, do peso do corpo dela contra o meu, do cheiro dos cabelos, da voz sonolenta pronunciando meu nome na madrugada.Fechei os olhos, sentindo o travesseiro afundar sob o peso da minha cabeça.— Merda.Virei-me na cama e puxei o travesseiro sobre o rosto, como se aquilo pudesse abafar os pensamentos. Era ridículo. Eu tinha quarenta anos — quarenta, não dezesseis. Tinha passado mais da metade da vida cercado por mulheres bonitas, interessadas, disponíveis, algumas das quais faziam qualquer coisa para chamar minha atenção. Nunca me importei com nenhuma delas. Nunca perdi uma noite de sono por causa de um sorriso. Nunca fiquei andando pela casa procurando desculpas para encontrar alguém.Passei a mão pelo rosto, sentindo a barba curta arranhar a palma.— Isso não está acontecendo.Levantei. Tomei banho. Troquei de roupa. Fiz tudo exatamente como fazia todos os dias: cami







