Compartir

Capítulo 03

last update Fecha de publicación: 2025-11-03 09:30:00

Felipe 

Meu pai sempre dizia que, quando eu tivesse experiência suficiente, assumiria a empresa.

— E então, filho, eu e sua mãe vamos finalmente poder viajar pelo mundo. Já trabalhamos demais. — Ele repetia isso em quase todos os almoços de domingo.

Quando terminei a faculdade, comecei no setor financeiro da companhia, fazendo todos os papéis possíveis. Segundo ele, eu precisava aprender a fazer tudo — do básico ao estratégico. Foram três anos intensos, até que ele me chamou para trabalhar diretamente ao seu lado. Mais três anos depois, em uma reunião que eu jamais vou esquecer, me anunciou como novo responsável pela empresa.

Aquela empresa carregava um legado.

Meu avô a havia fundado praticamente com as próprias mãos, e meu pai, com visão e disciplina, fez dela a maior do setor de logística da América Latina. Agora era a minha vez. Minha missão: expandir os negócios pela Europa. Uma responsabilidade enorme, mas também o tipo de desafio que sempre me moveu.

Quando decidimos organizar o evento para anunciar nosso primeiro escritório na Espanha, eu não imaginava que seria um sucesso tão grande — principalmente por causa da música.

Lorena.

Eu já havia ouvido o nome dela antes — uma jovem pianista promissora, conhecida por se apresentar em eventos de gala. Mas nada, absolutamente nada, me preparou para vê-la ao vivo.

Aquela mulher tinha algo… diferente. Não era apenas o talento. Era a forma como ela se movia, como cada nota parecia vir de um lugar profundo. Ela tocava com alma — e, por alguns minutos, o salão inteiro desapareceu. Fiquei apenas observando.

Quando a apresentação terminou, me aproximei. Quis cumprimentá-la, agradecer por ter tornado aquele momento ainda mais grandioso.

A primeira impressão foi a melhor possível: educada, discreta, inteligente e muito mais bonita de perto do que nas fotos que já tinha visto em revistas.

Quando disse a ela que gostaria de ver outras apresentações, falei sério. E, curiosamente, o destino tratou de providenciar isso mais rápido do que eu esperava.

Dias depois, em outro evento corporativo, lá estava ela novamente — elegante, concentrada, com aquele olhar sereno e distante. Toque impecável. Presença marcante.

Foi nesse momento que uma ideia me ocorreu. Minha avó faria oitenta anos. Ela sempre amou música — especialmente piano. Contratar uma pianista talentosa para tocar na festa parecia o presente perfeito.

E por que não Lorena?

Decidi ali mesmo.

Me aproximei após a apresentação, elogiando o desempenho, e pedi o contato dela. Conversamos por um bom tempo, e a cada palavra trocada, minha impressão só melhorava. Havia algo nela que me despertava curiosidade, uma mistura de doçura e reserva, como se estivesse sempre tentando se proteger de algo.

Nos despedimos, e, logo em seguida, encontrei Marina — uma velha amiga da época da faculdade.

Nos conhecemos quando ela cursava administração e eu economia. Saímos algumas vezes e nossos caminhos se cruzavam com frequência em eventos do setor, e era sempre bom revê-la.

— Felipe Andrade! — disse ela, sorrindo ao me ver. — Então é você que anda expandindo impérios agora?

— Só tentando manter o legado de família — respondi, rindo. — E você, continua dominando o mercado financeiro?

— Tentando. — Ela sorriu. — Senti falta de te ver nas últimas conferências.

Conversamos por alguns minutos, mas, mesmo enquanto falávamos, minha mente insistia em voltar para outro lugar. Para o som do piano. Para o olhar tímido de Lorena.

Era estranho… eu mal a conhecia, mas algo nela me intrigava.

E, de algum modo, eu sabia que ainda a veria novamente.

— Sabe que adoro te encontrar nesses eventos, né? Eles ficam bem menos chatos com a sua presença — disse ela, com um sorriso largo.

— Também é sempre um prazer te encontrar — respondi.

Eu e Marina nos dávamos muito bem. Já tentamos namorar, tentamos sexo casual — que, por sinal, era muito bom —, mas funcionávamos melhor como amigos. E já tínhamos entendido isso.

— E a pianista? Ela é muito bonita — disse ela, me provocando.

— Não é o que está pensando. Vou contratá-la para o aniversário da minha avó — respondi.

— Sei… se eu fosse você, aproveitava. Já tem um monte de cara em cima dela — disse ela, sorrindo.

— Não seja intrometida. Não tenho segundas intenções com ninguém… só com você — retruquei, provocando.

— Aham, acredito — respondeu Marina, arqueando a sobrancelha. — Você está precisando de uma namorada pra parar de correr atrás de mim.

— Eu nunca vou parar de correr atrás de você — disse, rindo.

— Se a gente tivesse dado certo, né? Mas eu sou demais pra você — provocou ela.

— Com certeza você é — respondi, divertido.

Olhei para onde Lorena estava. Marina tinha razão — ela estava rodeada de caras, todos sorrindo a cada palavra que ela dizia. Mas não me interessava. Ela parecia muito jovem, e meu interesse era completamente profissional.

[...]

— Mãe, achei o presente perfeito para o aniversário da vovó — disse, empolgado.

— O quê? — perguntou ela, curiosa.

— Uma apresentação de piano — respondi.

— Felipe, você sabe que ela não está saindo de casa e se cansa rápido. Além disso, a quantidade de pessoas pode deixá-la nervosa — disse minha mãe, preocupada.

— Não, mãe. Eu vou trazer ela. Vai ser uma apresentação exclusiva, só para a vovó.

— Então ela vai adorar — respondeu minha mãe, com um sorriso.

O aniversário seria dali a duas semanas. Eu sabia que estava em cima da hora, mas torcia para que Lorena aceitasse.

Peguei o celular e escrevi:

Oi, bom dia. Aqui é o Felipe Andrade, lembra de mim?

Comentei com você sobre uma apresentação particular e gostaria de saber se está livre no próximo sábado.

É aniversário da minha avó e eu adoraria presenteá-la com sua apresentação.

Enviei a mensagem e torci para que desse certo.

Estava mais ansioso do que imaginei. Toda hora pegava o celular para ver se ela tinha respondido — nada. Até que, duas horas depois, chegou a notificação. Era dela.

Bom dia, Felipe. Será um prazer tocar no aniversário da sua avó.

Sem perceber, me peguei sorrindo para o celular.

Obrigado! E, por favor, me envie os dados para que eu possa realizar o pagamento.

Guardei o telefone e tentei ocupar a mente com outras coisas. Em casa, havia um piano simples — daqueles que minha mãe usava quando fazia aula —, e eu achei que serviria. Seria algo em família, nada grandioso. Eu só esperava que minha avó gostasse.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Minha Querida Pianista   Capítulo 143

    LorenaEu estava sentada ao piano.Meus dedos deslizavam lentamente pelas teclas enquanto eu experimentava algumas notas, alguns acordes, algumas ideias.Eu estava compondo.Uma canção.E, de certa forma, aquela música contava a minha história.A história da menina que cresceu em meio à dor.Que conheceu o medo cedo demais.Que acreditou por muito tempo que não teria um futuro diferente.Mas que, de alguma forma, encontrou um caminho.Uma saída.

  • Minha Querida Pianista   Capítulo 142

    LorenaEle não foi misericordioso.Definitivamente não foi.E eu gostei disso.Felipe me beijava com intensidade, como se estivesse tentando recuperar todo o tempo que a nossa rotina tinha roubado de nós. Seus lábios percorriam minha pele com vontade, com desejo, e cada toque parecia familiar, como se nossos corpos soubessem exatamente o caminho de volta um para o outro.— Felipe… eu preciso de você — sussurrei, quase sem fôlego.Ele apenas encostou a testa na minha por um instante.— Agora não…Mas o jeito como

  • Minha Querida Pianista   Capítulo 141

    LorenaMeus dedos corriam pelas teclas do piano, deslizando quase sozinhos, como se cada nota já soubesse exatamente para onde precisava ir. A música crescia no salão silencioso, preenchendo cada espaço do ambiente.Quando a última nota se dissipou no ar, houve alguns segundos de silêncio.E então vieram os aplausos.Muitos aplausos.Sorri enquanto me levantava do banco do piano e fazia uma pequena reverência. Eu amava aquela sensação — não apenas o reconhecimento, mas a conexão que a música criava com as pessoas.Naquela noite eu tocava em um evento de conscientização contra a violência doméstica.Era um tema profundamente sensível para mim.Durante muito tempo da minha vida eu carreguei cicatrizes que ninguém via. Medos, lembranças, marcas invisíveis que demoraram anos para desaparecer.Por isso, quando fui convidada para tocar naquele evento, não hesitei um segundo.Eu queria estar ali.Queria apoiar aquela causa.Porque eu sabia exatamente como era viver com medo… e sabia o quanto

  • Minha Querida Pianista   Capítulo 140

    LailaEu poderia dizer que nossa vida a dois era boa. Mas estaria mentindo.Nossa vida era ótima.Melhor do que eu jamais imaginei.Três meses haviam se passado desde o nosso casamento e, naquele dia, eu estava parada em frente ao espelho do banheiro, segurando um teste de gravidez nas mãos.Minhas mãos tremiam.Eu estava nervosa. Muito nervosa.Eu e Pedro nunca tínhamos conversado seriamente sobre filhos. Claro, às vezes o assunto surgia em alguma brincadeira ou comentário distante, mas nunca como um plano real.E ali estava eu… com a maior notícia da minha vida.Eu estava grávida.Eu teria um filho.Ou uma filha.Meu coração batia tão forte que parecia ecoar dentro do pequeno banheiro.— Amor?Ouvi a voz de Pedro vindo da sala. Ele devia ter acabado de chegar em casa.Rapidamente enfiei o teste na última gaveta do armário, lavei o rosto na tentativa de parecer normal e saí do banheiro.— Oi… está tudo bem? — perguntou ele, aproximando-se de mim e me olhando com atenção.— Está sim —

  • Minha Querida Pianista   Capítulo 139

    LailaNossa lua de mel começou com o céu azul infinito de Atenas nos recebendo.Quando descemos do táxi em frente ao hotel, Pedro entrelaçou os dedos nos meus e me puxou para perto.— Senhora Laila — disse ele com um sorriso provocador. — Bem-vinda à nossa lua de mel.Eu ri, ainda um pouco atordoada com tudo que tinha acontecido nos últimos dias.Casamento. Festa. Despedidas. Abraços.E agora… nós dois.— Ainda estou me acostumando com isso — falei, olhando para minha aliança.— Com o casamento?Balancei a cabeça.— Com ser tão feliz.Ele me beijou ali mesmo, na entrada do hotel, como se não houvesse ninguém ao redor.E aquela foi apenas a primeira de muitas vezes.Depois de deixarmos as malas no quarto — um lugar lindo com varanda e vista para a cidade — decidimos sair para caminhar.As ruas de Plaka pareciam saídas de um filme.Casinhas coloridas, varandas com flores, restaurantes pequenos espalhados pelas calçadas e músicos tocando violão em algumas esquinas.— Esse lugar parece má

  • Minha Querida Pianista   Capítulo 138

    LailaSim. Mil vezes sim.Na manhã do Ano-Novo eu tinha dito sim.Sim ao amor.Sim ao companheirismo.Sim ao meu coração.Eu havia dito sim a Pedro.O anel brilhava em meu dedo sempre que a luz o alcançava, e todas as vezes que eu o olhava meu coração disparava outra vez, como se eu revivesse o pedido. Eu estava feliz. Não apenas feliz… eu estava profundamente feliz.Pedro e eu estávamos maravilhosamente bem. Passávamos cada vez mais tempo juntos, rindo, planejando, vivendo aquele começo de vida que parecia tão natural entre nós. Em uma dessas conversas, quase sem perceber, decidimos que não havia motivo para esperar.Seis meses.Em seis meses estaríamos casados.E, de repente, nossas noites passaram a ser dominadas por listas, pesquisas e decisões. Locais para a cerimônia, degustação de buffet, ideias de decoração, possíveis destinos para a lua de mel. Quando Pedro ia dormir e eu ficava sozinha com o celular na mão… acabava inevitavelmente olhando os vestidos de noiva.Muitos vestido

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status