FAZER LOGIN— Entre. — A voz grave, masculina e firme atravessou a porta como uma ordem que não admitia hesitação.
Julietta respirou fundo e empurrou a maçaneta.
— Boa noite, Sr. Vasconcellos. Eu sou Julietta Sampaio, do setor de Finanças.
Ele estava sentado atrás da mesa, vestindo um terno cinza impecável — se era de uma marca exclusiva ou sob medida por algum estilista de renome, ela jamais saberia. Mas não importava. O que realmente impressionava era a aura invisível que o cercava, como se fosse um feitiço. Perto dele, Julietta sentiu na pele por que aquele homem tinha uma reputação inabalável no mundo dos negócios.
Heitor ergueu os olhos, sorriu levemente e fez um gesto para que ela se sentasse. Folheava calmamente o relatório em mãos. Julietta aguardava a primeira pergunta difícil sobre o orçamento, para a qual vinha ensaiando respostas desde a reunião mais cedo.
— Há quanto tempo você trabalha aqui? — Ele perguntou de repente.
A pergunta a desarmou. Não era nada do que havia previsto. Julietta piscou, confusa, sentindo o cérebro “travar” na hora errada. Antes que respondesse, Heitor digitou algumas teclas no laptop.
— Dois anos e meio, com seis meses de estágio. — Ele mesmo completou, sem pressa.
Ela assentiu, sem entender o rumo daquela conversa. Então, veio o golpe.
— Trabalhando para os Vasconcellos… seu salário não é suficiente para cobrir suas necessidades básicas, certo? — Ele fez uma pausa gelada. — Isso significa que você não está satisfeita em trabalhar aqui?
Julietta engasgou.
— Mas que… — Ela se calou a tempo, cobrindo a boca em horror. — Perdão, Sr. Vasconcellos, não entendo…
O sangue sumiu de seu rosto. Sentia-se presa numa armadilha invisível. As palmas ficaram úmidas, o ar pesou ao redor, como se fosse difícil respirar. O medo de ser demitida naquele instante a consumia.
— Sr. Vasconcellos, deve haver um grande mal-entendido. Eu amo meu trabalho. Sempre dei o melhor de mim pela empresa. Não tenho nenhuma reclamação quanto ao salário. Estou feliz aqui. Por favor, acredite em mim. — Ela despejou as palavras numa única respiração, desesperada.
Mas dentro dela, uma dúvida latejava: quando, afinal, teria transmitido tamanha insatisfação? E por que o chefe acreditava nisso?
O suor escorria de sua testa como se tivesse corrido uma maratona. O coração martelava contra as costelas. Heitor a observou em silêncio, frio, calculista. Depois, como se notasse a ansiedade, pegou um copo de água e empurrou para ela. Julietta bebeu em segundos, com mãos trêmulas.
Ele se levantou. Julietta quase saltou da cadeira, mas um gesto firme a fez permanecer.
— Srta...?
— Julietta Sampaio, senhor.
— Sim, Srta. Sampaio. Relaxe. — O tom dele suavizou, quase em contradição com o ambiente de tensão. — Não estamos discutindo sua demissão. Hoje pelo menos.
As palavras a atingiram como um alívio imediato, mas ainda havia algo sombrio naquele olhar que a mantinha em alerta.
— Se não me falha a memória… foi indicada pessoalmente pelo professor Almeida, da PSU. Estou certo?
Julietta apenas assentiu, atônita.
Heitor ergueu uma sobrancelha.
— Interessante. Mas me diga… por que finanças?
Era sua zona de conforto. Julietta respirou fundo, firme desta vez:
— Porque acredito que matemática não é só números. É poder. Qualquer negócio pode ser estruturado por meio de fórmulas, teorias e cálculos. Riscos calculados, políticas fiscais, análise de dados, decisões de investimento… é assim que se constrói algo sólido.
Ao falar de sua paixão, os olhos dela brilharam. Heitor percebeu. Um leve, quase imperceptível sorriso surgiu em seus lábios.
Do nada, a voz grave de Heitor quebrou o silêncio:
— Você gosta de desenhar?
Ele a encarava com frieza. Julietta piscou, confusa.
— Às vezes… quando estou entediada. — respondeu, hesitante.
As sobrancelhas dele se ergueram com curiosidade. Mas antes que ela entendesse aonde queria chegar, veio a pergunta que a fez engasgar no próprio ar:
— Qual sua marca de lingerie favorita?
Julietta arregalou os olhos, sufocada. Ficou sem voz, sem reação, como se tivesse entrado em um drama coreano sem legenda.
— Se soubéssemos, seria mais fácil alocar fundos e salários de acordo. — Heitor soltou com naturalidade, como se falasse de números.
Julietta queria desaparecer. Felizmente, a porta se abriu. Jade entrou, séria como sempre.
— Senhor, a videoconferência já está prestes a começar.
Heitor assentiu.
— Conecte a chamada. — E, voltando-se para Julietta: — Srta. Sampaio, pode se retirar. E, da próxima vez, sempre confira duas vezes um arquivo antes de enviá-lo.
Julietta saiu às pressas, como alguém que escapa da jaula de um leão. No corredor, ainda em transe, encontrou Rita, que a arrastou até o canto da sala, faminta por detalhes. Julietta contou cada palavra, mas juntas não conseguiam decifrar o verdadeiro motivo daquela reunião absurda.
***
Aquela noite, Julietta não conseguiu dormir. A cena se repetia sem parar na sua mente. A estranha pergunta, o tom do chefe, o enigma. Por quê? Qual era o propósito? Virava de um lado para o outro até que, exausta, pegou no sono por poucas horas.
Na manhã seguinte, foi ao escritório com olheiras e sem tomar café. Lá, encontrou Theo, colega de trabalho que estivera de folga no dia anterior. Ele perguntou pelas anotações da reunião com Augusto. Julietta começou a revirar a bolsa… mas as notas não estavam lá.
Um frio percorreu sua espinha. Pensando melhor, lembrou do esbarrão em Rita no corredor. As anotações deviam ter se misturado com o arquivo enviado ao chefe.
— Não! — Julietta levou as mãos ao rosto, desesperada. — Eu me ferrei!
Rita a puxou para o lado.
— O que houve?
Julietta desabou, envergonhada:
— Eu estava entediada na reunião do orçamento… comecei a rabiscar uma modelo de biquíni, fazendo cálculos de como o orçamento poderia ser usado para aumentar salários, o que me ajudaria a comprar lingerie nova e até planejar uma viagem pra Disney. Também rabisquei um orçamento pessoal… E foi isso que ele viu! Por isso aquelas perguntas ridículas sobre marca de lingerie e salário. Meu Deus, ele deve achar que sou louca!
Queria que o chão se abrisse.
— Cavei minha própria cova! Como vou encarar aquele homem de novo?
Rita ficou em silêncio, deixando a amiga desabafar até a última gota. Depois, com calma, disse:
— Julietta, pense bem. Ele não te demitiu. Não te humilhou na frente de ninguém. Só disse para revisar melhor seus arquivos. Isso é consideração.
Mas as palavras não aliviaram. Pelo contrário, Julietta se sentia ainda mais envergonhada. Sempre fora organizada, dedicada, alguém que trabalhava duro desde a escola. Atenta aos detalhes, focada, meticulosa. Errar daquela forma, ainda mais diante de Heitor Vasconcellos, era um peso insuportável.
Sábado de manhã O evento estava começando na escola do Lucas. Ele olhava nervoso para a porta. Cada criança era chamada para entrar com a mãe e sentar no lugar correspondente. O nome de Lucas foi ignorado — a Sra. Ross tinha mandado uma mensagem para a professora sobre a surpresa. Finalmente, ao chamar o nome dele, ele se levantou com o coração apertado. Olhou mais uma vez para a porta… e viu alguém atrás de um monte de balões que escondia o rosto. Curioso, ele avançou. Julietta espiou por trás dos balões, mostrou o rosto… e Lucas correu gritando seu nome. Julietta passou os balões para a Sra. Ross e correu para pegá‑lo no colo. Eles não conseguiram conter as lágrimas de alegria. Ela girou com ele nos braços. Todas as pessoas na sala sorriam com aquele
Quando acordaram no meio‑dia, já que mal haviam dormido, Heitor admirava a beleza da mulher com quem havia compartilhado uma noite incrível. Seu coração nunca estivera tão pleno, feliz, contente. Ela abriu os olhos lentamente, ajustando‑se à luz do dia. Ele bloqueou o sol para ela. Ela deu um sorriso tão lindo que aqueceu todo o peito dele. Ele passou a ponta dos dedos nos cabelos finos dela na testa, apreciando a pele dela — as poucas sardas, as bolinhas rosadas de acne — tudo perfeito.— Como você consegue não me afastar quando está com raiva de mim? — Julietta perguntou, voz firme.— É simples. Amamos e lutamos juntos. — Heitor beijou seus olhos. — Nunca passou pela minha cabeça te manter longe.
O trajeto de carro foi absolutamente silencioso. Quando chegaram à casa no meio da mata, a chuva começou a cair com força e a escuridão desceu rápido. Julietta mantinha uma expressão indecifrável. Heitor desceu do carro, Julietta ficou parada. João ao lado dela quebrou o silêncio: — Com medo de ficar sozinho com ele? Tá achando que ele vai te machucar? Ela balançou a cabeça: — Nunca. — Então se nem você acha isso… o que te incomoda? — Ele insistiu. — Eu me odeio por te
— GIA! PELO AMOR DE DEUS! — berrou.Gia correu. Examinou pulso, respiração, abriu as vias aéreas. Ter uma médica ali era a única esperança.Heitor jamais se sentiu tão impotente. O desespero que tomava conta dele era maior que qualquer dor física. Suava, tremia, apertava a mão de João com tanta força que os dedos do amigo ficaram brancos. Mas João não reclamou — sabia exatamente o que aquilo significava.Heitor viveu anos fechado, sozinho. Depositou tudo que sentia em Julietta. Se algo acontecesse com ela, nada mais o salvaria do buraco.Gia começou a ventilação boca-a-boca, intercalando com compressões no peito.
Sentou ao lado de Heitor, que assistia a algo no celular de João.— Vou colocar essa como papel de parede. A expressão dele me dá prazer — brincou João.— Prazer… de culpa — corrigiu Heitor, rindo.— Ou então vou postar com a legenda: “Se ser atingido pela própria arma tivesse um rosto” — João gargalhou.— O quê? Mostra aí — Camila se intrometeu, curiosa.Era a foto de Heitor entregando um prêmio a Julietta num evento da ONU.— Essa é a Julietta? — ela perguntou, surpresa. João assentiu.
Heitor apresentou Alan, Jamie... e simplesmente ignorou João. Depois apontou para as meninas:— Amanda — a noiva —, Gia e Jane.João fez drama:— Alô? Eu sou o gato irresistível que nem precisa de apresentação! — estendeu a mão para Julietta. Heitor deu um tapa na mão dele e saiu puxando Julietta.Todos riram da provocação. Julietta olhou por cima do ombro e gritou:— Oi, Sr. Arrogante! — acenou com um sorriso, enquanto era arrastada.— Pelo menos ela tem educação — João murmurou, divertido.Co







