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Capítulo 1

Autor: CERCIE
last update Fecha de publicación: 2025-01-26 13:02:05

Dez anos.

Dez longos anos desde que o sangue de meus pais manchou a floresta.

Dez anos de sombras e silêncio, onde a solidão se fez minha única companheira, e a culpa, meu inimigo mais fiel.

A magia que envolvia minha infância se dissolveu. O mundo, agora sombrio, me devolveu uma mulher feita — marcada por um destino que jamais escolhi.

Minha rotina era previsível, e até o desconforto me parecia confortável. O trabalho como empregada na casa do Alfa dos Clãs, aquela mansão de pedra e madeira na borda da floresta, era tanto meu refúgio quanto minha prisão.

Movia-me como um fantasma, varrendo corredores, servindo refeições, tentando ser invisível — sempre esperando a Lua me chamar.

Mas ela não o fazia mais.

Apenas me observava, silenciosa, como se soubesse que eu ainda não estava pronta para o que viria.

Vivia entre os lobos, mas não era deles. Para todos, eu era apenas uma órfã resgatada após o ataque do Clã Selvagem.

Sem passado. Sem nome.

Mas dentro de mim queimava algo — uma força indomável, uma fúria contida, um desejo de ser mais do que uma sombra obediente.

O dia começou como qualquer outro. Acordei antes do sol, preparei o café para os líderes do Clã.

Entre eles, Rafael — o Alfa. O homem que eu mais temia… e o único que meu coração teimava em reconhecer.

Ele não sabia o que eu sentia. E eu me assegurava de que jamais soubesse.

Era o Alfa, o centro de tudo. E ao seu lado estava Selene — segura, linda, poderosa.

Sua companheira diante dos olhos de todos.

Menos dos meus.

Mas eu sabia a verdade.

Sabia que algo maior me ligava a ele.

Sentia sua presença como uma chama na pele, uma marca invisível.

O vínculo. O laço dos destinados.

O que deveria ser sagrado entre os nossos.

Fazia de tudo para ignorar.

Mas o destino — esse velho poeta cruel — decidiu que, naquela manhã, eu não conseguiria fugir mais.

Estava na cozinha, mãos ocupadas com xícaras e bandejas, quando seus passos pesados ecoaram.

Meu coração disparou.

Ele estava ali — inteiro, imenso, impossível de ignorar.

Parou à minha frente. Eu mantive os olhos baixos, as bochechas em fogo.

— Você está bem, Isadora? — perguntou com voz baixa, carregada de algo que eu não soube decifrar.

— Sim, Alfa — respondi, sem levantar o rosto. Minha voz, uma tentativa de armadura.

Ele não se afastou.

Sua presença me cercava, como a floresta em noite sem Lua.

— Tem estado calada. O que se passa?

Ah, se ele soubesse…

Minha loba rosnava por dentro, faminta por ele.

Antes que eu conseguisse responder, a porta se escancarou.

Selene.

Sorriso impecável, olhar afiado como unha de fera.

— Bom dia, meu Alfa — disse ela, pousando a mão sobre o braço dele como quem marca território.

E me lançou um olhar como se eu fosse poeira.

Desviei os olhos.

O vínculo doía como um dente envenenado.

Rafael era meu companheiro. E ela, sua amante.

Era mais do que dor. Era o dilacerar da alma.

Mas então ele se afastou de Selene.

Virou-se para mim.

E seus olhos, de repente, estavam cheios de um peso novo.

— Isadora… você sabe o que é o vínculo entre nós, não sabe?

O mundo parou.

O sangue deixou meu rosto.

Engoli em seco.

— Sei, Alfa — sussurrei.

E desejei nunca ter sabido.

Ele hesitou. E então, como quem arranca a pele com as próprias mãos, falou:

— Não posso aceitar esse vínculo. Estou comprometido com Selene. E você… não tem permissão para procurar outro. Não há mais ninguém para você aqui nesse clã.

As palavras atingiram como garras.

Rejeição.

E sentença.

Algo dentro de mim se partiu.

O que era para ser sagrado, ele transformou em prisão.

Mas ali, naquele exato instante, uma nova força nasceu em mim.

Não choraria por ele.

Nem me dobraria ao que me foi imposto.

O vínculo pode ser destino.

Mas o destino…

Ah, o destino é só o começo.

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Último capítulo

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Epílogo

    Dez anos depois O vento sopra suave no alto das colinas, trazendo consigo o perfume das flores silvestres que cobrem o campo. O céu está limpo, azul como as águas sagradas do lago da Lua, e o sol brilha com generosidade. As crianças correm entre as árvores, gargalhando, e seus risos se misturam ao som distante de tambores em celebração. Hoje é um dia de festa. Hoje celebramos paz. Estou de pé na varanda da mansão, observando os pequenos pés descalços cortarem a relva. Meus filhos, agora com dez anos, crescem com a força da linhagem que carregam no sangue e o brilho da magia ancestral nos olhos. Aurora tem o olhar de Caelum — firme, profundo — mas a sensibilidade da minha linhagem, capaz de sentir a energia do mundo como se fosse um segundo coração. Ela ainda prefere as flores às armas, mas Lis já a treina com feitiços antigos. Sua conexão com a Lua é intensa. Quando ela dança sob o luar, até os espíritos silenciam para assistir. Já Auren... ele é pura chama. Um guerreiro em cada

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 82

    O silêncio depois da batalha era mais ensurdecedor que o próprio caos da guerra. Meus passos eram lentos enquanto caminhava de volta pela trilha marcada por magia queimada e terra revirada. O cheiro de sangue ainda pairava no ar, misturado ao aroma mais sutil das ervas que Lis deixara atrás de si — sinais da proteção mágica que ela conjurara para manter o campo seguro. Atrás de mim, cambaleante, o feiticeiro seguia preso por correntes encantadas. As runas brilhavam num tom prateado-violeta, selos ancestrais trançados por minha magia com a força de gerações. Ele não dizia uma palavra. O olhar vazio, como se finalmente compreendesse o peso de sua derrota. Ao longe, ouvi os primeiros sons do nosso acampamento. Vozes. Risos abafados. O choro de um bebê que provavelmente havia sido retirado às pressas durante o ataque. O som da vida persistindo, mesmo diante da morte. Respirei fundo. Atravessamos o último trecho de floresta até emergir na clareira onde nossos aliados estavam reuni

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 81

    A terra parecia pulsar sob meus pés. O cheiro de magia corrompida se espalhava como veneno, encharcando o ar, pressionando contra minha pele como um peso invisível. Eu sentia Freiren se agitar sob minha carne, inquieta, pronta. Meus dedos apertavam com firmeza os cabos das espadas gêmeas, cada uma pulsando com minha energia, respondendo ao chamado do sangue. À minha frente, o campo se abria em um círculo silencioso. Os sons da guerra haviam se distanciado, como se o mundo entendesse que aquele instante exigia respeito. E ali, no centro de tudo, ele me esperava. O feiticeiro. Alto, magro como um galho seco, com olhos tão negros que pareciam fendas no tecido do mundo. Seu manto esvoaçava sem vento. A presença dele curvava o ar ao redor. Havia algo de impossível em sua forma — como se ele pertencesse a outro tempo, ou a nenhum. — Finalmente — ele disse, a voz ressoando como um sussurro dentro do meu crânio. — A herdeira do sangue antigo. A mãe das luas renascidas. Dei um passo

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 80

    O cheiro de magia corrompida enchia o ar. Denso. Podre. Uma neblina púrpura rastejava pelo campo de batalha como uma serpente viva. Eu a sentia tentar se enroscar nas raízes da minha alma, mas a empurrei de volta com um rugido vindo do meu centro. Meu olhar atravessou o caos até encontrá-lo. Ele. O homem que um dia partilhou comigo o ventre. O mesmo rosto, os mesmos olhos. Mas tão diferentes agora. Eu era lobo. Ele era sombra. Ele me viu também. E sorriu. Aquela curva fria dos lábios, que nunca pertenceu a mim. O sorriso que um irmão não deveria dar ao outro. Ele caminhou entre os corpos, abrindo espaço como se o próprio campo de batalha o temesse. — Caelum. — Sua voz era baixa, mas ressoava nos ossos. — Eu sabia que nos encontraríamos aqui. Parei à sua frente, firme. Os sons da guerra sumiram. Como se o mundo prendesse o fôlego. — Sempre soube que terminaria assim entre nós, irmão. — Ah, você sempre foi bom em prever tragédias, não é? — Ele deu um passo adiante. — Mas nunca

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 79

    O primeiro clarão no céu não veio de raios naturais — mas de magia. Um estrondo ressoou como se o próprio firmamento estivesse rachando. Um feixe de energia púrpura e escarlate desceu da colina onde os inimigos estavam agrupados, cortando o ar como uma lâmina dos deuses. Era o primeiro ataque. E um aviso. — Escudos agora! — gritou Lis. As bruxas ao nosso lado — as aliadas que atenderam ao chamado de Lis — levantaram as mãos em uníssono. Círculos rúnicos surgiram no ar, formando camadas de luz dourada e prateada. Uma cúpula mágica envolveu a linha de frente do nosso exército momentos antes da explosão atingir. O impacto fez a terra tremer. Eu senti a vibração subir pelas minhas botas, ecoar nos ossos, sacudir os galhos ao nosso redor. Mas a barreira resistiu. As bruxas aliadas, lideradas por uma mulher de olhos de âmbar e cabelos trançados com penas lunares, mantinham as mãos erguidas, os olhos brilhando. Cânticos antigos saíam de suas bocas em uníssono, enquanto uma delas sangra

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 78

    O som dos cascos ecoava pela terra úmida como um tambor de guerra que se aproximava mais a cada batida. A névoa matinal ainda rastejava sobre o chão, envolvendo as árvores em véus de silêncio. Mas não havia mais paz. Não havia mais tempo. Eu caminhava com os outros, sentindo o peso da armadura sobre meus ombros, ajustada ao meu corpo pela forja de Freiren e encantada com runas traçadas por Lis. Era negra como obsidiana, com detalhes prateados que cintilavam à luz mortiça. Nas costas, as duas espadas cruzadas pulsavam com a minha magia — lâminas que respondiam à fúria que eu carregava no peito. Ao meu lado, Lis caminhava em silêncio, a capa azul prateada esvoaçando atrás dela. Seu diadema com os símbolos da Lua brilhava sobre a testa, e seus olhos estavam tão atentos quanto os de um predador. Ela carregava seu bastão rúnico em uma das mãos e algumas poções presas ao cinto. Sua magia vibrava no ar, tão viva quanto o fogo de uma estrela. Caelum liderava a linha, imponente em sua arma

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