FAZER LOGINIsabella Still
... Faço uma concha com as mãos para pegar um pouco da água que escorre da torneira e a jogo no rosto, fazendo de tudo para espantar o sono. Pego algumas folhas de papel-toalha, seco o rosto e encaro meu reflexo no espelho. Mordo o lábio inferior. Papai iria rir de mim agora. Solto um suspiro e saio do banheiro, alisando a saia com as mãos para garantir que tudo esteja em ordem. Sigo em direção à minha ilha de trabalho, mas interrompo os passos por alguns segundos ao vê-lo de costas, apoiado em meu balcão. Senhor Morrone. Seus ombros largos e fortes se destacam sob o terno feito sob medida, assim como seus braços firmes. Meu olhar desliza até sua bunda perfeitamente desenhada sob o tecido, e um leve sorriso escapa dos meus lábios. Ele é absurdamente atraente. Será que percebe o efeito que causa em mim? Ou consigo disfarçar bem? Ainda custa acreditar que consegui esse emprego. Anos de estudo e especialização me trouxeram até aqui, trabalhando lado a lado com o maior CEO do mundo. Gosto de conhecer cada detalhe da rotina dele. Sei exatamente como prefere o café, a temperatura do ar-condicionado, os horários, os compromissos, as pequenas manias e até aquilo de que ele não gosta. Faço de tudo para que a atração que sinto por ele jamais interfira no meu trabalho. Preciso desse emprego para pagar minhas contas, e não posso me dar ao luxo de misturar sentimentos com profissionalismo. Mesmo assim... há momentos em que desejo que ele me toque. — Senhor Morrone! — Chamo sua atenção ao me aproximar. Ele se vira. Seus intensos olhos verdes encontram os meus. — Senhorita Still... — Meu sobrenome escapa lentamente de seus lábios, como se cada sílaba fosse pronunciada com cuidado. Às vezes, tenho a impressão de que ele me acaricia apenas ao dizer meu nome. — Minha mãe comentou que você reservou um restaurante para o meu almoço. — Ele diz. Faço um breve aceno com a cabeça. — Sim, senhor. O de sempre. Nunca consigo decifrar o que ele está sentindo. Sua expressão quase nunca muda. Em raros momentos, consigo admirar o discreto sorriso que insiste em escapar de seus lábios, mas isso acontece tão pouco que já era de se esperar de um homem conhecido por ser implacável. — Venha almoçar comigo. — Ele convida. Ergo uma sobrancelha. Essa é nova. Thomas costuma almoçar sozinho. Mordo discretamente o lábio inferior. — Claro, senhor. — Respondo, sem conseguir esconder a desconfiança. Thomas abre a porta do carro para mim. Entro, e ele dá a volta no veículo antes de ocupar o lugar ao meu lado. O motorista sequer pergunta para onde vamos. Já está acostumado com a rotina. Todos os dias, naquele mesmo horário, Thomas almoça no mesmo restaurante. Mordo discretamente o lábio ao sentir seu perfume amadeirado invadir minhas narinas. Não consigo evitar de imaginar como seria sentir aquele aroma diretamente em sua pele. Controle-se, Isabella. O trajeto segue em completo silêncio. O motorista estaciona em frente ao restaurante. Descemos do carro e caminhamos lado a lado até a recepção. — Boa tarde. Reserva no nome de Thomas Morrone. — Thomas diz, usando aquele tom firme e autoritário de sempre. A recepcionista cora no instante em que percebe quem está diante dela, mas Thomas sequer parece notar a reação. Ou talvez simplesmente esteja acostumado com ela. — Podem me acompanhar, por favor. — Ela diz timidamente. Seguimos a recepcionista pelo salão. O restaurante é extremamente sofisticado. Tudo transmite luxo, da decoração à iluminação, passando pelo atendimento impecável. Eu não passo necessidade. Meu salário é excelente. Ainda assim, mesmo ganhando bem, este lugar está muito acima da minha realidade. Isso aqui é outro nível. — Podem se acomodar. Gostariam de beber alguma coisa antes de fazerem o pedido? — A recepcionista pergunta, ainda um pouco tímida. — Apenas uma água, por enquanto. — Thomas responde. Ela faz um breve aceno e se afasta. Thomas puxa a cadeira para mim e faz um gesto para que eu me sente. Obedeço. Depois de acomodar minha cadeira, ele contorna a mesa e se senta à minha frente. — Pode pedir o que quiser, Still. — Diz, entregando-me um dos cardápios. — Claro, senhor. Abro o cardápio. Nenhum prato possui o preço ao lado. Apenas o nome e uma breve descrição dos ingredientes. Solto um sorriso discreto. É como se o restaurante dissesse: "Se você precisa perguntar o preço, talvez este lugar não seja para você." É realmente um lugar para a elite. — Já decidiu? — A voz de Thomas chama minha atenção. Ergo os olhos e encontro o verde intenso dos seus. Tento ignorar a forma como meu coração acelera. Como sempre, ajeito uma mecha do cabelo atrás da orelha e finjo indiferença. — Ainda estou indecisa. Acho que vou confiar na opinião do especialista. — Digo, abrindo um leve sorriso. Ele apenas faz um discreto aceno com a cabeça e chama o garçom com um gesto. Faz nossos pedidos sem sequer precisar consultar o cardápio. Mordo discretamente o lábio enquanto observo o garçom se afastar, deixando-nos novamente a sós. Volto minha atenção para Thomas. Ainda não consigo entender o motivo daquele convite repentino. Ele confere o celular por um instante antes de erguer novamente os olhos para mim. — Imagino que esteja curiosa para saber por que a convidei para almoçar comigo. — Diz, por fim. Solto uma breve risada. — Confesso que sim, senhor. Ele sustenta meu olhar por alguns segundos antes de continuar. — Estamos trabalhando juntos há alguns anos, Isabella, e acredito que ninguém me conheça tão bem quanto você. Meu coração dispara. — Tenho uma proposta para lhe fazer. E quero que saiba que pode recusá-la. Não há problema algum se não aceitar. Franzo levemente a testa. — Uma proposta? — Pergunto. — Sim. Ele faz uma breve pausa. Curta. Mas suficiente para prender minha respiração. — Quero que se case comigo, Isabella. Meu corpo inteiro paralisa. Fico encarando Thomas Morrone à minha frente, mas minha mente está longe dali. Meu corpo continua paralisado. Nenhum som consegue sair da minha boca. Estou completamente petrificada. — Senhorita Still, está pálida. Tome um pouco de água. — Ele diz, enchendo um copo e estendendo-o em minha direção. Pego o copo com movimentos lentos e dou um pequeno gole. A água gelada percorre minha garganta e parece despertar meu corpo, quebrando a paralisia que havia tomado conta de mim. — Senhor... acho que não entendi muito bem a sua proposta. — Minha voz sai quase como um sussurro. Ele faz um leve aceno com a cabeça, como se já esperasse aquela reação. Caramba... Thomas Morrone acabou de me pedir em casamento. A parte de mim completamente fascinada por ele quase entra em colapso, mas minha razão se agarra ao pouco de lucidez que ainda resta, tentando compreender aquele absurdo. — Sim, eu entendo seus questionamentos e vou explicar. — Ele diz. — Minha autoridade está sendo questionada e minha reputação corre o risco de ser manchada. Preciso de uma esposa para manter uma boa imagem perante a mídia e evitar que isso afete meus negócios. Além disso, minha mãe finalmente deixará de insistir nesse assunto. Negócios... Ele realmente se casaria sem amor. Apenas por negócios. Eu sabia que Thomas era um homem extremamente racional, mas não imaginava que chegasse a esse ponto. — Então... você precisa se casar e enxergou em mim uma boa opção? — Pergunto. — Você me conhece bem. Sei que não envolveria sentimentos nisso. — Responde. — Preparei um contrato. Ainda hoje vou entregá-lo a você. Leia com calma e, se concordar com os termos, podemos assiná-lo e nos casar em breve. Caramba... É informação demais para processar. — Espero que o senhor compreenda a minha reação. É que... eu realmente não esperava por isso. — Digo. — Não a julgo, Still. Sei que minha proposta é bastante inusitada. Vou lhe entregar o contrato, e você poderá lê-lo com calma antes de decidir. Tudo bem? — Pergunta. Apenas faço um leve aceno com a cabeça, incapaz de dizer qualquer outra coisa.Ares dá um passo na minha direção, obrigando-me a recuar outro instintivamente, determinada a manter a distância entre nós.— Está com medo, lobinha? — provoca, um sorriso torto surgindo no canto dos lábios.Droga.Meu coração disparava contra o peito, mas não era medo dele.Era da ligação.Eu conhecia bem a força que unia companheiros destinados. Bastava um único instante de fraqueza, alguns minutos sem controle... e ele poderia me marcar. A simples possibilidade fazia um arrepio percorrer minha espinha.— Nunca vou ter medo de você! — retruco, sustentando seu olhar.Ele avança mais um passo.Eu recuo outro.A parte de trás das minhas pernas encontra a cama, e acabo me sentando sobre o colchão sem perceber. Ares continua avançando até parar a poucos centímetros de mim. O calor que emanava de seu corpo parecia envolver todo o quarto.Um rosnado grave vibra em seu peito.Minha loba estremece.Ela quer abaixar a guarda. Quer se aproximar. Quer se render ao alfa que reconhece como seu.E
Daniel encosta um dos ombros na parede e cruza os braços.— Não liga para a Amélia. Ela implica com qualquer um que considere uma ameaça para a alcateia.Solto uma risada baixa.— Então ela implica com frequência.Ele sorri.— Bastante.O silêncio dura apenas alguns segundos.— Você realmente é diferente do que eu imaginava. — Daniel comenta.Ergo uma sobrancelha.— Diferente como?— Achei que uma híbrida odiaria qualquer lobo.Dou de ombros.— Eu odeio alguns.— Alguns?— Os arrogantes... os que se acham superiores... os que vivem dando ordens.Ele ri.— Então você definitivamente não vai gostar do Ares.Acabo rindo também.— Finalmente encontramos algo em comum.Daniel balança a cabeça, divertido.— Você fala desse jeito porque ainda não conhece o verdadeiro Supremo Alfa.— E ele fala daquele jeito porque ainda não conhece a verdadeira Kiara.Ele me encara por alguns instantes antes de cair na risada novamente.— Você é maluca.— Já ouvi isso algumas vezes.Pela primeira vez desde q
Respiro fundo algumas vezes antes de deixar o corredor para trás.Não vou ficar trancada naquele quarto o dia inteiro.Desço a enorme escadaria de madeira, observando o movimento da casa. Alguns lobos passam por mim carregando caixas, outros conversam em voz baixa. Todos, sem exceção, interrompem o que estão fazendo por alguns segundos para me encarar.Os olhares são os mesmos.Desconfiança.Nojo.Repulsa.Mantenho o queixo erguido e continuo andando, fingindo que aquilo não me incomoda.Assim que entro na ampla sala principal, uma mulher para no meio do caminho.Ela é alta, de cabelos loiros presos em uma trança impecável. Os olhos castanhos percorrem meu corpo de cima a baixo, como se eu fosse algum animal morto jogado no chão.Seu nariz se contrai em evidente desprezo.— Então os boatos eram verdade... — diz ela, cruzando os braços. — O Supremo Alfa realmente trouxe uma híbrida para dentro da alcateia.Não respondo.Já esperava esse tipo de recepção.Ela dá alguns passos na minha d
Entro no banheiro e fecho a porta atrás de mim. Por alguns segundos, apenas encaro meu reflexo no enorme espelho. Estou um desastre. Meus cabelos estão cheios de folhas secas e pequenos galhos. Há terra espalhada pelo meu rosto, e o corte em meu braço já formou uma fina camada de sangue seco ao redor da ferida. Solto um longo suspiro. Abro o registro da banheira e observo a água quente enchê-la lentamente. O vapor sobe pelo ambiente, tornando tudo mais aconchegante. Mergulho devagar. O calor envolve meu corpo, relaxando músculos que eu nem percebia estarem tão tensos. Fecho os olhos. Pela primeira vez em dias, não preciso correr. Não preciso olhar por cima do ombro. Não preciso dormir com um olho aberto. A sensação é tão estranha que quase me incomoda. Depois de algum tempo, lavo os cabelos, limpo cuidadosamente o machucado no braço e saio da banheira. O vestido que Ares deixou sobre a cama me serve perfeitamente. O tecido azul-escuro é simples, mas elegante. A saia cai
A caminhada até a alcateia é silenciosa. Nenhum de nós diz uma palavra. Assim que as árvores começam a se abrir, meus passos diminuem involuntariamente. Meu fôlego chega a falhar. À minha frente ergue-se um casarão tão gigantesco que, por um instante, me pergunto se estou olhando para uma fortaleza ou para uma residência. A construção domina o topo de uma pequena colina, cercada por enormes pinheiros. Feita de pedra escura e grossas vigas de madeira, parece ter sido erguida para resistir ao tempo, às guerras e até mesmo à própria natureza. Suas enormes janelas de vidro refletem a luz do sol, enquanto as varandas de madeira contornam parte da fachada. O telhado inclinado, sustentado por grossas colunas, dá ao lugar um aspecto imponente, quase intimidador. A entrada principal é marcada por duas portas de madeira maciça, altas o suficiente para que um lobo transformado pudesse atravessá-las sem dificuldade. Tudo naquela construção transmite poder. Força. Autoridade.
— Há quanto tempo os caçadores estão rondando nossas fronteiras? — Ares pergunta, sem desviar os olhos de mim. — Algumas semanas. — Bros responde prontamente. — Estamos monitorando cada movimento deles, mas ainda não descobriram uma forma de atravessar a fronteira. Ares faz um breve aceno com a cabeça, absorvendo a informação. Então volta sua atenção para mim. — Você permanecerá em minha alcateia até resolvermos esse problema. Será tratada como minha convidada de honra. Quando os caçadores deixarem a região, poderá voltar para sua vida... longe da fronteira. Reviro os olhos. — Não se preocupe. Assim que eu puder ir embora, nunca mais volto a este lugar. Bros se aproxima da cama. Sem dizer uma palavra, desfaz o nó das cordas que prendiam meus pulsos. No instante em que sinto meus braços livres, não penso. Apenas ajo. Meu punho encontra o estômago dele com força. O Beta solta o ar em um gemido abafado e se dobra para a frente. Aproveito a oportunidade para empurrá-lo e salt







