LOGINRonaldo
Eu estava ao telefone com Emma, prometendo que já estava a caminho de casa, quando o motorista faz uma curva tão brusca que o telefone escapa da minha mão e voa para o banco de trás. – Mas o que...?! – Senhor... ela se jogou na frente do carro. Parecia perdida. – Alfred fala, aflito, com as mãos ainda tremendo sobre o volante. – Ela?! A gente atropelou alguém? – pergunto, com o coração acelerado. A chuva despenca como uma maldição dos céus, batendo com força no para-brisa. Alfred j**a o carro para o acostamento e salta sem hesitar. Eu vou atrás, o peito apertado de pavor. Se atropelamos alguém, eu a levarei ao hospital. Não vou deixá-la ali. A cena à frente me faz prender a respiração. Alfred surge da penumbra, segurando uma mulher nos braços. – Ela está viva, mas desmaiou. Deve ter sido o susto. Ou... a queda. – Vamos. Rápido. Me dê ela aqui. – estendo os braços. Tomo-a em meus braços com cuidado, como se fosse feita de vidro. Sinto seu corpo gelado, tremendo, frágil demais para essa tempestade. Acomodo-me no banco de trás com ela no colo, protegendo-a o máximo possível do frio. Sua cabeça repousa contra meu peito. Seus lábios tremem. A pele está pálida como neve. Ela está... exausta. Como se o mundo tivesse acabado para ela. Meus olhos percorrem seu rosto, e há uma dor ali que me atinge sem explicação. Um corte na testa. Alguns arranhões nos braços. Nada profundo. Nada grave. Mas há algo mais. Algo que me faz olhar de novo. Enquanto tento ajustar seu corpo melhor para aquecê-la, percebo uma marca no pescoço, parcialmente escondida pelo cabelo molhado. Levo os dedos até lá, afastando os fios encharcados. Um sinal. Um sinal de nascença. Em formato circular. Tão perfeitamente desenhado que me faz congelar. Engulo em seco. Aquela marca... Aquele sinal... Eu conheço esse sinal. Fecho os olhos. A lembrança explode, nítida, como um raio rasgando a noite. — Não mexam com ele! Eu era apenas um menino, sozinho no pátio da escola, cercado por outros três garotos. Me chamavam de esquisito, de fraco, o garoto feio e gordo da escola. Empurravam meu lanche no chão. Até que ela apareceu. Pequena, determinada. Um furacão de cabelos negros e coragem. — Se tocarem nele de novo, eu juro que arranco os dentes de vocês! Ela chutou um dos meninos na canela, pegou meu braço e me puxou dali. — Meu nome é Margarida. E a partir de hoje, eu sou sua melhor amiga. – disse, uma mão na frente do corpo, para me cumprimentar. E foi. Todos os dias. Ela me defendia. Me fazia rir. Dividia o lanche. Me fazia sentir que eu era alguém. Lembro que uma vez perguntei sobre a marca no pescoço dela. – O que é isso no seu pescoço? – indaguei, curioso. — É meu sinal, já nasci com ele. – ela disse, tocando o círculo com orgulho. – Minha mãe disse que é como uma proteção que eu tenho. E ela protegeu. Até o dia em que minha família se mudou e a deixei para trás. Abro os olhos de novo. Olho para o rosto da mulher em meus braços. Não pode ser. – Margarida? – sussurro. Atônito. Como se meu mundo não estivesse girando, ela pareceu ouvir meu chamado e abriu levemente os olhos, mas logo apagou de novo. Mas é. Aquele sinal... Aquela boca... Aquela aura de tristeza e força. É ela. É Margarida. O mundo parece girar devagar. Meus braços a apertam com mais força, como se eu quisesse protegê-la agora como ela um dia me protegeu. – Mais rápido, Alfred! – minha voz falha. – Depressa, pelo amor de Deus! Não posso perdê-la de novo. Não agora. Não depois de tudo. O carro praticamente invade a entrada do hospital, derrapando na curva da emergência. Mal o veículo para, eu salto para fora com Margarida ainda nos braços, a chuva batendo como agulhas geladas nas minhas costas. – Socorro! – grito. – Ela precisa de ajuda! Enfermeiros correm em nossa direção com uma maca, o som dos alarmes e passos apressados ecoando nos corredores. O cheiro de antisséptico, o frio cortante do saguão, tudo acontece em um turbilhão indistinto. Entrego Margarida com cuidado, sentindo seu corpo frágil ser separado do meu. Uma parte de mim quer ir junto, segui-la até onde for, mas sou bloqueado por um dos profissionais. – O senhor é parente da paciente? Marido? Familiar direto? Eu paro. O mundo parece parar. Não. Eu não sou. Não sou nada. Nenhum título. Nenhuma ligação oficial. Apenas um rosto do passado… alguém que ela sequer reconheceu, porque nem acordada estava. Engulo a dor que sobe seca pela garganta e balanço a cabeça em negação, os olhos presos na maca que já se afasta. – Eu a encontrei caída na estrada... Mas eu a conheço. – minha voz falha, ainda assim firme. – Então, por favor, preencha os dados que souber. – aponta para a recepção. A caneta pesa na minha mão. Escrevo seu nome com letras tremidas: Margarida. Sobrenome? Não sei. Idade? Estimo. Informações de contato? Nenhuma. Me sinto patético diante do formulário quase em branco. Tão perto dela... e ao mesmo tempo, tão distante. Me sento. O hospital está frio. Ou sou eu. O banco parece pedra. A realidade me afunda. Ontem. Ontem eu me lembrei dela. Da menina que salvou minha infância. Do sorriso que me acolhia. Dos olhos que me protegiam. Pensei nela com saudade. Com carinho. Com um arrependimento inexplicável por tê-la deixado no passado. E hoje... hoje ela caiu nos meus braços. Literalmente. Ferida. Perdida. Quebrada. O telefone vibra no bolso. Olho a tela: o rostinho de Emma sorri para mim, através da foto salva no contato da babá. Atendo. – Sim, querida. – Papai, o senhor ainda não chegou. – a voz dela é baixinha, triste. Como se não quisesse me cobrar, mas também não conseguisse esconder a decepção. Meu peito dói. – Desculpe, anjo... o papai está com uma amiga. Ela se machucou e está no hospital. – Ela está doentinha? – pergunta com ternura. – Que triste... Fecho os olhos. Que triste... essa palavra soa pequena diante da dor que vi nos olhos de Margarida antes que desmaiasse. Uma dor que parecia vir de muitos lugares, não só do impacto no asfalto. – Sim, meu amor. Ela está doentinha. Mas vai ficar bem. O papai vai cuidar disso, tá bom? – Tá bom. Vai cuidar como cuida de mim? – Como cuido de você. Sempre. – Então boa noite, papai. Eu te amo. – diz, a voz já pesada de sono, e ainda assim carregada daquele amor puro que me salva todos os dias. – Eu também te amo, meu anjo. Muito. – respondo, a garganta embargando. Desligo. E fico ali. Sozinho, entre o som dos passos apressados dos médicos e a lembrança de uma amizade de infância, tentando entender por que o destino jogou Margarida de volta na minha vida assim. Tão quebrada. Tão calada. Mas viva. E agora... sob minha responsabilidade.— Mamãe, mamãe — Jake correu até mim, com as perninhas ligeiras e um sorriso aberto. — Oi, meu amor — sorri, me abaixando levemente. Ele agarrou minhas pernas e estendeu os bracinhos. Eu o peguei no colo e beijei suas bochechas macias. Jake estava a cada dia mais esperto e mais apegado a nós. Desde que as gêmeas nasceram, eu e Ronaldo tentávamos dar atenção a todos de forma equilibrada, mas principalmente aos mais velhos. As gêmeas ainda eram bebês; sentiam nossa falta de uma forma diferente. Emocionalmente, Emma e Jake compreendiam muito mais as mudanças. Jake apoiou a cabeça em meu ombro e ficou ali, quietinho, como se só aquele gesto já fosse suficiente. Ronaldo estava mais à frente no jardim, com Emma e as gêmeas. — Não quis brincar com suas irmãs? — perguntei em voz baixa. — Quero a mamãe — respondeu manhoso. — Oh… a mamãe está aqui, meu amor — murmurei, apertando-o um pouco mais contra mim. Lembrei da primeira semana com as irmãs em casa. Jake queria estar
— Vamos começar — avisou o médico, com a voz firme e serena. Eu estava deitada na sala de cirurgia, as luzes fortes acima de mim, o coração acelerado e a alma transbordando. Ronaldo permanecia ao meu lado, segurando minha mão com força, como se aquele simples gesto fosse capaz de me ancorar ao mundo. Estávamos prontos para viver o momento mais intenso de nossas vidas: o nascimento das nossas gêmeas. Os últimos meses tinham sido perfeitos. A barriga crescendo, os chutes sincronizados, as risadas em família, até uma sessão de fotos que eu jamais imaginei fazer e eu, que antes tinha tanto medo do futuro. Agora, o futuro estava ali, a segundos de existir. Ronaldo não parava de olhar para mim, os olhos marejados, repetindo baixinho, como um mantra: — Vai ficar tudo bem… eu estou aqui… você é incrível, meu amor. Sorri para ele, mesmo com o coração quase saindo pela boca. Apertei sua mão com toda a força que tinha. — Nós conseguimos chegar até aqui — sussurrei. — Elas já estão p
MESES DEPOIS — Tem certeza? — perguntei, surpreso. — Acabei de receber a confirmação. É verdade. Nos últimos meses, a vida dele foi miserável lá dentro, cheia de humilhações. Pelo que soube, ele foi… — Marcus pigarreou. — Você sabe, esnobes não costumam durar muito na cadeia. Fiquei em silêncio por alguns segundos. A notícia era inesperada, até perturbadora de certa forma, mas não despertava tristeza alguma. Tentei me sentir uma pessoa ruim por não lamentar aquela morte. Tentei buscar culpa, pesar, qualquer coisa. Mas não senti nada. — Tudo bem. Obrigado por avisar — respondi, por fim. Desliguei a ligação e soltei um suspiro profundo, como se algo antigo e pesado finalmente tivesse sido deixado para trás. Margarida estava sentada no tapete da sala, cercada pelos nossos filhos. A televisão exibia um filme qualquer, daqueles leves, e o som se misturava às risadas e comentários empolgados de Emma. A barriga dela, enorme e redonda, se destacava sob a blusa confortável. Emma e
Estar grávida novamente era como a realização do maior sonho da minha vida. Havia algo de profundamente mágico em tocar o ventre e saber que existia ali um serzinho que ainda nem havia nascido, mas que já significava tudo para nós. Quando descobrimos a gravidez, meses atrás, senti uma mistura intensa de euforia e medo. Tive receio de que Ronaldo não estivesse preparado para viver tudo aquilo outra vez. Afinal, este já seria o nosso terceiro filho. Agora, estávamos sentados lado a lado, aguardando sermos chamados para a consulta de rotina com uma médica nova, muito bem indicada por uma amiga. — Senhora Valvani, é a sua vez — anunciou uma mulher educada no corredor. A médica sorriu de forma acolhedora assim que entramos no consultório. Tinha a voz calma, o semblante sereno e um olhar atento, daqueles que inspiram confiança logo no primeiro instante. — Bom dia, eu sou a doutora Helena — apresentou-se, estendendo a mão. — Fiquem à vontade. Sentamos juntos, e Ronaldo apertou de leve
O dia começou com aquela sensação boa de casa cheia e o coração apertado de felicidade. Tudo havia sido pensado nos mínimos detalhes por Margarida e Anna, e ver Jake encantado com os balões, os bichinhos e as pessoas ao redor fazia cada esforço valer a pena. Um ano. Parecia impossível que o tempo tivesse passado tão rápido. Emma estava radiante, orgulhosa do irmão, como se a festa também fosse dela. E Jake… Jake era pura energia, curiosidade e risadas. Vê-lo tentando subir nos balões, batendo palmas durante o parabéns e, principalmente, dando seus primeiros passos, ainda desajeitados foi um daqueles momentos destinados a ficar gravados para sempre. O jeito como ele se lançou nos braços da irmã deixou claro quem era seu porto seguro, arrancando risadas, emoção e suspiros de todos. Aquilo, sem dúvida, tornou o dia ainda mais especial. Agora, ele dormia sereno em seu berço, o rostinho ainda manchado pela cobertura azul do bolo onde havia enfiado o rosto sem nenhum medo. Margari
Meses depois Dei uma boa olhada no espelho, o dia inteiro foi uma correria. Não, na verdade, a semana inteira foi uma correria. Eu e Anna trabalhamos muito para fazer deste dia algo memorável. Era o aniversário de um ano do meu filho Jake. Fizemos docinhos, balões, uma decoração de bichinhos que encantou o menino desde o momento em que ele viu. Os pais de Ronaldo chegaram de viagem só para nossa comemoração. E ainda tinha Emma; ela estava eufórica desde que o dia amanheceu. Ronaldo apareceu na porta e sorriu. — Amor, você está linda. Ele sempre fazia isso. Acabei sorrindo como uma boba, como sempre. — Você também, papaizão. — Vamos descer. Jake está tentando subir pela parede de balões e está um pouco frustrado porque não consegue; você tem que ver. Gargalhei. Olhei para Ronaldo e pensei se deveria contar a ele sobre a novidade ou se esperava pelo fim da festa. Por fim, decidi que o dia seria apenas de Jake. Quando desci, encontrei nossa família e alguns amig







