INICIAR SESIÓNO cheiro de ervas invadiu seus sentidos antes mesmo de Elara conseguir abrir os olhos.
Não era o aroma úmido da floresta.
Nem o perfume das flores cultivadas na Fortaleza do Norte.
Havia algo diferente.
Madeira antiga.
Folhas secas.
Lavanda.
Sálvia.
E uma fumaça suave que parecia acalmar a dor que ainda queimava em seu peito.
Ela tentou mover o braço.
Uma fisgada a fez prender a respiração.
— Não se levante.
A voz feminina era baixa, mas carregava uma autoridade natural.
Elara piscou algumas vezes até enxergar o teto de madeira escura acima de si.
Estava deitada sobre uma cama simples, coberta por mantas grossas de lã cinzenta.
A luz entrava por uma janela estreita, revelando um pequeno quarto construído em pedra e troncos antigos.
As paredes eram cobertas por símbolos desenhados com tinta prateada.
Nenhum deles lhe parecia familiar.
Ela virou lentamente a cabeça.
A mulher de cabelos brancos permanecia sentada diante de uma mesa, preparando um chá em silêncio.
O manto negro havia sido retirado.
Agora vestia roupas simples, mas elegantes.
Mesmo assim, sua presença continuava imponente.
— Onde estou?
A mulher sorriu discretamente.
— Em um lugar que desapareceu dos mapas há muitos séculos.
— Quem é você?
Ela colocou duas xícaras sobre a mesa.
— Meu nome é Seraphine.
Elara franziu a testa.
Nunca ouvira aquele nome entre as alcateias conhecidas.
— Você pertence a qual clã?
Seraphine virou-se.
— Ao único que sobreviveu escondido durante quase quinhentos anos.
O silêncio voltou a ocupar o quarto.
Elara apoiou as mãos na cama e conseguiu sentar-se.
Seu vestido branco havia sido substituído por uma túnica escura.
As manchas de sangue desapareceram.
As feridas em seus braços estavam cobertas por faixas limpas.
— Quem trocou minhas roupas?
— As curandeiras.
— Quanto tempo fiquei desacordada?
— Três dias.
Ela arregalou os olhos.
— Três...
Sua voz falhou.
— Kael...
Assim que pronunciou aquele nome, uma pontada atravessou seu peito.
A dor era menor do que antes, mas continuava ali.
Como uma cicatriz que ainda se recusava a fechar.
Seraphine observou sua reação.
— O vínculo rompido ainda deixará marcas durante algum tempo.
Elara abaixou a cabeça.
As lembranças voltaram como uma avalanche.
O altar.
Os olhares.
As acusações.
As risadas.
A rejeição.
Sentiu os olhos arderem.
Mas não chorou.
As lágrimas pareciam ter secado junto com a antiga vida que perdera.
— Você me chamou de rainha.
Seraphine aproximou-se lentamente.
— Chamei.
— Por quê?
A mulher segurou delicadamente seu pulso esquerdo.
A marca negra permanecia ali.
Agora brilhava com muito mais intensidade.
As linhas pareciam vivas.
Mudavam de forma lentamente, como se respirassem.
— Porque apenas uma pessoa pode carregar esse selo.
Elara tentou puxar a mão.
— Não sei do que está falando.
— Eu sei.
Seraphine levantou o olhar.
— Durante centenas de anos esperamos por você.
— Isso não faz sentido.
— Faz mais do que imagina.
Antes que continuasse, alguém bateu à porta.
Um rapaz entrou carregando uma bandeja com frutas e pão recém-assado.
Tinha cabelos negros presos em um rabo baixo e olhos verdes muito claros.
Ao ver Elara acordada, sorriu.
— Finalmente.
Ela o observou com cautela.
— Quem é você?
— Orion.
Ele fez uma leve reverência.
— Capitão da Guarda da Lua Negra.
Ela ficou confusa.
— Guarda?
Orion colocou a bandeja sobre a mesa.
— Você precisa comer.
— Quero respostas.
— E terá.
— Agora.
Seraphine trocou um olhar rápido com o capitão.
Pareciam decidir silenciosamente o que revelar.
Por fim, a mulher respirou fundo.
— Há quase seiscentos anos existia uma única nação de lobos.
Não havia dezenas de alcateias.
Não existiam Supremos.
Nem Conselhos.
Todos obedeciam apenas à Rainha da Lua.
Elara permaneceu imóvel.
— Isso é uma lenda.
— Foi transformado em lenda.
Há diferença.
Orion cruzou os braços.
— Quando a Rainha morreu, os Alfas iniciaram uma guerra pelo poder.
As alcateias dividiram-se.
Reinos caíram.
Famílias foram exterminadas.
E qualquer registro da antiga linhagem foi destruído.
Seraphine continuou.
— Ou quase todos.
Ela caminhou até uma estante.
Retirou um livro enorme, envolvido em couro escurecido pelo tempo.
Colocou-o diante de Elara.
A capa trazia exatamente o mesmo símbolo que surgira em seu pulso.
Elara passou os dedos sobre o desenho.
Sentiu um arrepio.
Ao abrir o livro, encontrou dezenas de retratos antigos.
Mulheres.
Todas usando coroas negras.
Todas carregando a mesma marca.
Seu coração acelerou.
Folheou mais algumas páginas.
Parou abruptamente.
O rosto estampado ali parecia assustadoramente familiar.
Não era igual.
Mas havia semelhanças impossíveis de ignorar.
Mesmo formato dos olhos.
Mesmo sorriso discreto.
Mesmo cabelo escuro.
A legenda dizia:
"A Rainha Lyra, última soberana da Lua Negra."
Elara fechou o livro imediatamente.
— Não.
Seraphine permaneceu serena.
— Está assustada.
— Isso é impossível.
— É difícil aceitar.
— Essas mulheres viveram há séculos.
— Sim.
— Não posso ser uma delas.
— Não é.
Seraphine aproximou-se.
— Você é descendente direta.
O quarto mergulhou no silêncio.
Elara balançou a cabeça repetidamente.
— Minha família morreu.
— Foi isso que contaram.
— Eu conhecia meus pais.
— Conhecia quem acreditava serem seus pais.
Ela levantou-se da cama.
— Basta!
Sua voz ecoou pela pequena cabana.
— Acabei de perder tudo.
Meu companheiro me rejeitou.
Minha alcateia me expulsou.
Fui acusada de assassinato.
E agora vocês aparecem dizendo que sou descendente de uma rainha esquecida?
Isso parece loucura!
Ninguém respondeu imediatamente.
Seraphine deixou que ela descarregasse toda a revolta.
Depois falou com extrema calma.
— Você sabe qual é a única característica impossível de existir entre os lobos comuns?
Elara respirava com dificuldade.
— Não.
— Sobreviver ao rompimento de um vínculo de companheiros.
Ela congelou.
— O quê?
Orion respondeu.
— Nenhum lobo suporta isso.
— Muitos morrem.
— Outros enlouquecem.
— Alguns jamais voltam a assumir forma humana.
Seraphine segurou novamente seu pulso.
— Você sobreviveu porque seu sangue é diferente.
Elara olhou para a marca.
O brilho aumentou.
Como se respondesse às palavras da mulher.
Nesse instante, um som grave ecoou do lado de fora.
Era um sino.
Curto.
Urgente.
Orion virou imediatamente para a porta.
Seu semblante endureceu.
— Temos visitantes.
Seraphine franziu a testa.
— Impossível.
Ninguém conhece este lugar.
Outro sino tocou.
Depois outro.
Desta vez muito mais forte.
O capitão caminhou rapidamente até a janela.
Seu rosto perdeu a cor.
— Como...
Isso não deveria acontecer.
Seraphine aproximou-se.
— O que houve?
Ele permaneceu olhando para a floresta.
— Há guerreiros cercando o vale.
Dezenas deles.
Talvez centenas.
Elara sentiu o estômago se contrair.
— Quem são?
Orion respondeu sem tirar os olhos da janela.
— Lobos do Norte.
Os soldados de Kael encontraram nosso esconderijo.
O silêncio caiu sobre a cabana.
Elara deu um passo para trás.
Era impossível.
Ela havia desaparecido havia apenas alguns dias.
Ninguém deveria saber onde estava.
Seraphine fechou lentamente o antigo livro.
Sua expressão, até então tranquila, transformou-se em algo muito mais sombrio.
— Não.
Eles não vieram atrás de você.
Vieram atrás da marca.
E isso significa apenas uma coisa...
Alguém dentro desta casa nos traiu.
Elara abriu os olhos.Não estava mais no Salão das Memórias.Não estava em Arkan.Não estava sequer em seu próprio corpo.O cheiro de fumaça entrou em seus pulmões.O céu estava vermelho.As pedras do chão tremiam sob seus pés.Ao longe, torres desabavam uma após outra, lançando nuvens de poeira sobre as ruas.Gritos ecoavam por toda a cidade.Elara virou-se rapidamente.— Kael?Ninguém respondeu.— Mirena?Silêncio.— Thalos?Apenas o som de uma explosão respondeu.Ela tentou correr, mas suas pernas não obedeceram.Então percebeu.Não estava apenas observando uma memória.Estava dentro dela.Podia sentir o vento.O calor das chamas.A poeira entrando em seus olhos.Podia ouvir cada grito.Podia sentir o desespero das pessoas que corriam pelas ruas.Mas não conseguia mudar nada.Uma mão pequena segurou a sua.Elara olhou para baixo.Era uma criança.Uma menina de cabelos escuros.Seu próprio rosto.Seu próprio rosto de muitos anos atrás.Elara prendeu a respiração.A menina levantou o
Ninguém baixou a arma.O homem parado diante da porta parecia uma cópia perfeita de Eryon.Mesmo rosto.Mesmos olhos.A mesma cicatriz.Até a voz carregava o mesmo timbre.Mas havia algo diferente.Uma frieza que Eryon não possuía.Uma segurança quase arrogante.Elara segurava a espada diante do corpo.— Se sabe onde está o verdadeiro Cofre Real, fale.O homem sorriu.— Você herdou a impaciência de Aurora.— E você parece conhecer minha mãe muito bem.— Conheci.Eryon deu um passo à frente.— Quem é você?O homem voltou os olhos para ele.— Essa é uma pergunta interessante.Porque você deveria saber a resposta melhor do que todos.Eryon apertou os punhos.— Não reconheço você.— É claro que não.Foi você quem pediu para esquecer.A frase fez o salão inteiro ficar em silêncio.Eryon permaneceu imóvel.— Eu nunca pediria isso.O homem sorriu.— Não conscientemente.Thalos aproximou-se de Elara.— Não confie nele.O desconhecido riu.— Engraçado ouvir isso de você.Thalos ergueu a espada
Ninguém respondeu.A imagem permanecia suspensa sobre a árvore de cristal.O homem que retirara a máscara tinha o rosto de Eryon.Não apenas parecido.Era exatamente o mesmo.Os mesmos cabelos escuros.Os mesmos olhos.A mesma cicatriz pequena próxima à sobrancelha.Até o modo como inclinava a cabeça era idêntico.Elara olhou para o homem ao seu lado.Depois voltou os olhos para a memória.Eryon parecia incapaz de respirar.— Não era eu.Sua voz saiu baixa.Thalos permaneceu imóvel.— O rosto é seu.— Eu sei.— A voz também.Eryon fechou os olhos.— Eu sei.Cassian segurou a espada com mais força.— Então explique.— Não posso.A resposta provocou uma reação imediata.Kael avançou um passo.— Você espera que acreditemos nisso?Eryon ergueu os olhos.— Não.Mas eu também quero saber quem era aquele homem.Elara não tirava os olhos da memória.Aurora ainda estava diante da figura mascarada.A esfera negra permanecia entre suas mãos.O homem havia acabado de dizer que Elara não poderia d
A voz de Althaea ecoou pelas raízes.Diferente da voz falsa que imitava Aurora, ela não carregava doçura.Era firme.Cansada.Mas havia nela uma força impossível de ignorar.Elara permaneceu imóvel.A voz de sua mãe continuava chamando do fundo da passagem.— Elyra...Venha até mim.A jovem fechou os olhos.Por alguns segundos, tudo dentro dela queria obedecer.Queria correr.Queria acreditar.Queria ouvir Aurora novamente, mesmo que fosse apenas uma ilusão.Mas as palavras de Nythar voltaram à sua mente."Se ouvir alguém chamando seu nome, não responda."Elara respirou profundamente.— Não é ela.Kael permaneceu ao seu lado.— Tem certeza?— Não.Mas sei que minha mãe jamais me pediria para ignorar um aviso.A voz falsa tornou-se mais insistente.— Filha...Você precisa confiar em mim.Elara abriu os olhos.— Minha mãe nunca usava essa voz quando queria que eu obedecesse.Kael franziu a testa.— Como sabe?Elara respondeu sem hesitar:— Porque quando eu era criança, ela dizia que que
A bússola permanecia imóvel.A pequena agulha apontava diretamente para o chão do Salão das Memórias.Ninguém ousava ignorar aquele sinal.Durante alguns segundos, todos permaneceram em silêncio, observando o círculo perfeito formado no mármore negro.Elara segurava a bússola com força.Seu coração batia acelerado.A cidade inteira havia despertado.O oitavo registro surgira.As memórias de Aurora começavam a retornar.E agora um portal escondido sob Arkan revelava que o caminho para a Árvore da Origem estava muito mais perto do que imaginavam.Kael aproximou-se dela.— Tem certeza de que a bússola está apontando para baixo?Elara mostrou o objeto.— Não há dúvida.A agulha não se move.Thalos caminhou até o centro do salão.A expressão em seu rosto havia perdido qualquer traço de tranquilidade.— Então o selo externo já caiu.Eryon aproximou-se.— Isso não deveria acontecer tão rápido.— Não aconteceu sozinho.Thalos olhou para as paredes.— Alguém abriu o caminho.Cassian apertou a
O brilho do oitavo registro continuava pulsando.Diferente dos outros pilares, ele não possuía uma base de pedra sólida. Sua estrutura parecia formada por fragmentos de luz, como se a própria memória ainda lutasse para permanecer existindo.Lyssara caminhou lentamente ao seu redor.Cada passo era acompanhado pelo acender de pequenas runas espalhadas pelo piso.Ela passou a mão sobre a superfície luminosa.Seus dedos atravessaram o monumento como se tocassem água.— Agora compreendo...Mirena aproximou-se.— O que aconteceu?A guardiã voltou-se para todos.— Este nunca foi um oitavo pilar.Foi um registro oculto.O Oráculo não conseguiu destruí-lo.Então fez algo ainda mais perigoso.Lucien cruzou os braços.— Escondeu sua existência.— Sim.Respondeu Lyssara.— Alterou todas as lembranças preservadas em Arkan para que acreditássemos que existiam apenas sete guardiões.Nythar soltou um longo suspiro.— É por isso que minhas recordações sempre terminavam incompletas.Cassian fechou os o







