INICIAR SESIÓNO silêncio que tomou conta da cabana durou apenas alguns segundos.
Mas foram suficientes para que Elara percebesse a gravidade da situação.
Orion afastou discretamente a cortina da janela.
Lá fora, homens e mulheres cruzavam o pequeno vilarejo escondido entre as montanhas. Ninguém corria em desespero. Não havia gritos. Todos se moviam com rapidez e disciplina, como se estivessem acostumados a enfrentar perigos muito maiores.
Era um povo treinado.
Um povo que sobrevivera séculos escondido.
— Toquem o terceiro sino — ordenou Seraphine.
Uma jovem que aguardava do lado de fora fez uma reverência e desapareceu correndo.
Poucos instantes depois, um som grave atravessou todo o vale.
Diferente dos anteriores.
Mais longo.
Mais profundo.
Os lobos negros espalhados pelo bosque responderam com uivos sincronizados.
O chão pareceu vibrar.
Elara aproximou-se da janela.
A vila era muito maior do que imaginara.
Entre as árvores erguiam-se dezenas de construções de pedra escura, cobertas por musgo e trepadeiras. Pequenos riachos cortavam o terreno, enquanto pontes de madeira ligavam um lado ao outro do vale.
Tudo permanecera escondido do restante do mundo.
Até aquele momento.
— Como encontraram este lugar? — perguntou ela.
Orion continuava observando a movimentação.
— É exatamente isso que precisamos descobrir.
Seraphine caminhou até uma parede e pressionou discretamente uma pedra.
Um compartimento secreto se abriu.
Dentro havia espadas de lâmina negra, arcos esculpidos em madeira branca e pequenas adagas gravadas com o mesmo símbolo que marcava o pulso de Elara.
A mulher retirou uma espada.
Apesar da idade aparente, seus movimentos eram firmes.
Elegantes.
Não havia qualquer hesitação.
— Faz muito tempo que não usamos estas armas.
Orion sorriu de lado.
— Eu estava começando a acreditar que enferrujariam penduradas na parede.
Seraphine lançou-lhe um olhar severo.
— Nunca deseje uma guerra.
Ela respirou fundo.
— Principalmente quando ainda não sabemos quem é o verdadeiro inimigo.
Elara observava tudo em silêncio.
Até poucos dias atrás, sua maior preocupação era tornar-se Luna.
Agora descobria uma linhagem esquecida, uma vila secreta e uma guerra prestes a começar.
Tudo parecia distante da vida que conhecia.
Ou talvez sua antiga vida jamais tivesse sido tão verdadeira quanto imaginava.
A porta da cabana abriu-se novamente.
Entrou um homem alto, de barba grisalha e expressão preocupada.
Vestia uma armadura antiga de couro negro.
Ao ver Elara, fez uma breve reverência.
— Minha Rainha.
Ela deu um passo para trás.
— Não me chamem assim.
O homem sorriu com respeito.
— Ainda não aceita.
É compreensível.
Mas isso não muda quem você é.
Seraphine aproximou-se.
— Cedric, o que descobriram?
— Os batedores retornaram.
Não são centenas.
São apenas quarenta guerreiros.
Orion franziu a testa.
— Quarenta?
— Sim.
— Então não vieram atacar.
Cedric concordou.
— Estão procurando alguma coisa.
Elara sentiu um aperto no peito.
— Estão me procurando.
Seraphine permaneceu pensativa.
— Talvez.
Ou talvez procurem outra pessoa.
Antes que pudesse continuar, outro guarda surgiu à porta.
— Encontramos pegadas.
Orion virou-se imediatamente.
— Onde?
— Atrás das montanhas.
Não pertencem aos guerreiros do Norte.
São de apenas um lobo.
Cedric estreitou os olhos.
— Um espião?
— Não sabemos.
Mas entrou no vale antes dos soldados.
Seraphine fechou lentamente os olhos.
— Então nossa suspeita estava certa.
Alguém revelou nossa localização.
Elara cruzou os braços.
— Vocês vivem escondidos há séculos.
Como podem confiar tão rapidamente em mim e desconfiar de pessoas que estão aqui há anos?
Seraphine sorriu discretamente.
— Excelente pergunta.
Ela caminhou até a janela.
— Não confiamos em ninguém apenas porque vive ao nosso lado.
Confiamos em quem prova merecer essa confiança.
Virou-se para Elara.
— Inclusive você.
A resposta surpreendeu a jovem.
Ela esperava encontrar pessoas cegamente devotas.
Em vez disso, encontrou prudência.
Seraphine continuou:
— O selo escolheu você.
Mas isso não significa que conhecemos seu coração.
Ainda terá muito a demonstrar.
Elara abaixou o olhar.
Era justo.
Ela também não confiava naquelas pessoas.
Nem em si mesma.
Ainda tentava entender por que sobrevivera ao rompimento do vínculo.
Lembrou-se de Kael.
Seu rosto sério.
A voz fria.
As palavras que jamais seriam esquecidas.
Sentiu a dor voltar.
Menor.
Mas suficiente para fazê-la cerrar os punhos.
— Ainda pensa nele.
Seraphine havia percebido.
Elara não respondeu.
— Não precisa sentir vergonha.
Amar alguém não é uma fraqueza.
Fraqueza é permitir que esse amor destrua quem você é.
Essas palavras permaneceram ecoando dentro dela.
Desde menina, aprendera que uma companheira existia para apoiar seu Alfa.
Para segui-lo.
Para protegê-lo.
Jamais lhe ensinaram que também merecia ser protegida.
Cedric rompeu o silêncio.
— Há outra informação.
Todos voltaram a atenção para ele.
— Um dos guerreiros do Norte foi capturado.
Orion arqueou as sobrancelhas.
— Vivo?
— Sim.
Foi encontrado sozinho perto do rio.
Estava ferido.
Seraphine refletiu por alguns instantes.
— Levem-no para o salão.
Quero interrogá-lo.
O prisioneiro permanecia ajoelhado no centro de uma grande construção circular.
As paredes eram iluminadas apenas por tochas.
No teto havia uma enorme abertura por onde a luz da lua entrava diretamente.
Elara acompanhava tudo à distância.
O guerreiro parecia jovem.
Seu rosto estava coberto por cortes.
As mãos permaneciam amarradas.
Mesmo assim, mantinha a postura firme.
Orion aproximou-se.
— Nome.
— Nolan.
— Patente.
— Capitão da Terceira Divisão.
— Quem enviou você?
— O Supremo Alfa.
Elara prendeu a respiração.
Orion continuou.
— Qual é sua missão?
Nolan permaneceu em silêncio.
Cedric aproximou-se.
— Se continuar calado, perderá a oportunidade de voltar vivo.
O guerreiro sorriu.
— Não vim para lutar.
— Então explique.
Ele respirou fundo.
Depois olhou diretamente para Elara.
— Recebemos ordem para encontrá-la.
Ela deu um passo à frente.
— Para me prender?
— Não.
— Então?
Nolan demorou alguns segundos antes de responder.
— O Supremo descobriu que as provas contra você podem ter sido falsas.
O salão inteiro mergulhou em absoluto silêncio.
Elara sentiu o mundo girar.
— O quê?
— Encontraram novos indícios sobre o desaparecimento da senhorita Lyanna.
Orion estreitou os olhos.
— Que indícios?
— Não sei.
O Conselho mantém segredo.
Só sei que o Supremo cancelou todas as caçadas da fronteira e ordenou que procurássemos Elara antes que qualquer outra alcateia a encontrasse.
O coração dela disparou.
Kael...
Estaria arrependido?
Ou havia outro motivo?
Seraphine permaneceu imóvel.
Seu olhar estava distante.
Como se analisasse algo muito além daquelas palavras.
— Isso aconteceu rápido demais.
Cedric concordou.
— Também achei estranho.
Ela voltou a encarar Nolan.
— Quando receberam essa ordem?
— Ontem ao amanhecer.
Seraphine respirou lentamente.
Então perguntou aquilo que realmente importava.
— O Supremo pediu que ela fosse trazida viva...
ou morta?
Nolan respondeu sem hesitar.
— Viva.
A qualquer custo.
Elara fechou os olhos.
Uma parte de seu coração insistia em acreditar que Kael havia descoberto a verdade.
Outra parte lembrava do olhar frio que ele lhe dirigira diante de toda a alcateia.
Não.
Ela não cometeria o erro de confiar novamente apenas por causa de algumas palavras.
Enquanto todos permaneciam concentrados no interrogatório, um vulto escondido entre as vigas do teto observava cada movimento.
Vestia roupas completamente negras.
O rosto permanecia oculto por uma máscara.
Em silêncio absoluto, retirou um pequeno cristal vermelho do bolso.
O objeto brilhou por um breve instante.
Uma mensagem silenciosa atravessou quilômetros de floresta.
Muito longe dali, dentro da Fortaleza do Norte, uma mulher elegante abriu um sorriso discreto ao sentir o cristal responder.
Ela caminhou até a janela de seus aposentos.
— Então ela está viva...
Seus dedos acariciaram o pingente dourado pendurado em seu pescoço.
No reflexo do vidro, seus olhos adquiriram um brilho avermelhado.
— Que pena, Elara.
Você deveria ter morrido naquela noite.
A mulher virou-se lentamente.
Sobre sua mesa repousava um retrato antigo.
Nele apareciam Kael ainda adolescente...
ao lado da irmã desaparecida.
E, discretamente escondida atrás da moldura, havia uma carta envelhecida.
A mesma carta que Lyanna recebera poucas horas antes de desaparecer.
A assinatura permanecia perfeitamente legível.
Não era de Elara.
Era da própria mulher que agora sorria diante da janela.
Elara abriu os olhos.Não estava mais no Salão das Memórias.Não estava em Arkan.Não estava sequer em seu próprio corpo.O cheiro de fumaça entrou em seus pulmões.O céu estava vermelho.As pedras do chão tremiam sob seus pés.Ao longe, torres desabavam uma após outra, lançando nuvens de poeira sobre as ruas.Gritos ecoavam por toda a cidade.Elara virou-se rapidamente.— Kael?Ninguém respondeu.— Mirena?Silêncio.— Thalos?Apenas o som de uma explosão respondeu.Ela tentou correr, mas suas pernas não obedeceram.Então percebeu.Não estava apenas observando uma memória.Estava dentro dela.Podia sentir o vento.O calor das chamas.A poeira entrando em seus olhos.Podia ouvir cada grito.Podia sentir o desespero das pessoas que corriam pelas ruas.Mas não conseguia mudar nada.Uma mão pequena segurou a sua.Elara olhou para baixo.Era uma criança.Uma menina de cabelos escuros.Seu próprio rosto.Seu próprio rosto de muitos anos atrás.Elara prendeu a respiração.A menina levantou o
Ninguém baixou a arma.O homem parado diante da porta parecia uma cópia perfeita de Eryon.Mesmo rosto.Mesmos olhos.A mesma cicatriz.Até a voz carregava o mesmo timbre.Mas havia algo diferente.Uma frieza que Eryon não possuía.Uma segurança quase arrogante.Elara segurava a espada diante do corpo.— Se sabe onde está o verdadeiro Cofre Real, fale.O homem sorriu.— Você herdou a impaciência de Aurora.— E você parece conhecer minha mãe muito bem.— Conheci.Eryon deu um passo à frente.— Quem é você?O homem voltou os olhos para ele.— Essa é uma pergunta interessante.Porque você deveria saber a resposta melhor do que todos.Eryon apertou os punhos.— Não reconheço você.— É claro que não.Foi você quem pediu para esquecer.A frase fez o salão inteiro ficar em silêncio.Eryon permaneceu imóvel.— Eu nunca pediria isso.O homem sorriu.— Não conscientemente.Thalos aproximou-se de Elara.— Não confie nele.O desconhecido riu.— Engraçado ouvir isso de você.Thalos ergueu a espada
Ninguém respondeu.A imagem permanecia suspensa sobre a árvore de cristal.O homem que retirara a máscara tinha o rosto de Eryon.Não apenas parecido.Era exatamente o mesmo.Os mesmos cabelos escuros.Os mesmos olhos.A mesma cicatriz pequena próxima à sobrancelha.Até o modo como inclinava a cabeça era idêntico.Elara olhou para o homem ao seu lado.Depois voltou os olhos para a memória.Eryon parecia incapaz de respirar.— Não era eu.Sua voz saiu baixa.Thalos permaneceu imóvel.— O rosto é seu.— Eu sei.— A voz também.Eryon fechou os olhos.— Eu sei.Cassian segurou a espada com mais força.— Então explique.— Não posso.A resposta provocou uma reação imediata.Kael avançou um passo.— Você espera que acreditemos nisso?Eryon ergueu os olhos.— Não.Mas eu também quero saber quem era aquele homem.Elara não tirava os olhos da memória.Aurora ainda estava diante da figura mascarada.A esfera negra permanecia entre suas mãos.O homem havia acabado de dizer que Elara não poderia d
A voz de Althaea ecoou pelas raízes.Diferente da voz falsa que imitava Aurora, ela não carregava doçura.Era firme.Cansada.Mas havia nela uma força impossível de ignorar.Elara permaneceu imóvel.A voz de sua mãe continuava chamando do fundo da passagem.— Elyra...Venha até mim.A jovem fechou os olhos.Por alguns segundos, tudo dentro dela queria obedecer.Queria correr.Queria acreditar.Queria ouvir Aurora novamente, mesmo que fosse apenas uma ilusão.Mas as palavras de Nythar voltaram à sua mente."Se ouvir alguém chamando seu nome, não responda."Elara respirou profundamente.— Não é ela.Kael permaneceu ao seu lado.— Tem certeza?— Não.Mas sei que minha mãe jamais me pediria para ignorar um aviso.A voz falsa tornou-se mais insistente.— Filha...Você precisa confiar em mim.Elara abriu os olhos.— Minha mãe nunca usava essa voz quando queria que eu obedecesse.Kael franziu a testa.— Como sabe?Elara respondeu sem hesitar:— Porque quando eu era criança, ela dizia que que
A bússola permanecia imóvel.A pequena agulha apontava diretamente para o chão do Salão das Memórias.Ninguém ousava ignorar aquele sinal.Durante alguns segundos, todos permaneceram em silêncio, observando o círculo perfeito formado no mármore negro.Elara segurava a bússola com força.Seu coração batia acelerado.A cidade inteira havia despertado.O oitavo registro surgira.As memórias de Aurora começavam a retornar.E agora um portal escondido sob Arkan revelava que o caminho para a Árvore da Origem estava muito mais perto do que imaginavam.Kael aproximou-se dela.— Tem certeza de que a bússola está apontando para baixo?Elara mostrou o objeto.— Não há dúvida.A agulha não se move.Thalos caminhou até o centro do salão.A expressão em seu rosto havia perdido qualquer traço de tranquilidade.— Então o selo externo já caiu.Eryon aproximou-se.— Isso não deveria acontecer tão rápido.— Não aconteceu sozinho.Thalos olhou para as paredes.— Alguém abriu o caminho.Cassian apertou a
O brilho do oitavo registro continuava pulsando.Diferente dos outros pilares, ele não possuía uma base de pedra sólida. Sua estrutura parecia formada por fragmentos de luz, como se a própria memória ainda lutasse para permanecer existindo.Lyssara caminhou lentamente ao seu redor.Cada passo era acompanhado pelo acender de pequenas runas espalhadas pelo piso.Ela passou a mão sobre a superfície luminosa.Seus dedos atravessaram o monumento como se tocassem água.— Agora compreendo...Mirena aproximou-se.— O que aconteceu?A guardiã voltou-se para todos.— Este nunca foi um oitavo pilar.Foi um registro oculto.O Oráculo não conseguiu destruí-lo.Então fez algo ainda mais perigoso.Lucien cruzou os braços.— Escondeu sua existência.— Sim.Respondeu Lyssara.— Alterou todas as lembranças preservadas em Arkan para que acreditássemos que existiam apenas sete guardiões.Nythar soltou um longo suspiro.— É por isso que minhas recordações sempre terminavam incompletas.Cassian fechou os o







