INICIAR SESIÓNAurora passou o restante da manhã tentando ignorar a inquietação que se instalara dentro dela.
Tentando.
Porque ignorar e conseguir eram coisas completamente diferentes.
O celular continuava sobre a mesa.
Silencioso.
Sem mensagens de Vicente.
Sem ligações.
Sem qualquer sinal de que ele se lembrava que o casamento deles aconteceria em poucos dias.
Ela abriu novamente a planilha dos convidados.
Duzentas e oitenta confirmações.
A decoração já estava paga.
O buffet contratado.
A banda reservada.
A lua de mel escolhida depois de semanas de discussão sobre destinos.
Vicente queria algo simples.
Aurora queria algo inesquecível.
Acabaram escolhendo a Itália.
Ela lembrava exatamente do sorriso dele quando assinaram a reserva.
Lembrava da forma como ele a puxou para perto naquele dia.
Lembrava das promessas.
Das certezas.
Dos planos.
E talvez fosse isso que mais a assustava.
Porque tudo parecia sólido demais para começar a desmoronar tão rápido.
O toque do celular interrompeu seus pensamentos.
Seu coração acelerou.
Vicente.
Finalmente.
Ela atendeu imediatamente.
— Oi.
— Aurora.
A voz dele parecia cansada.
— Está tudo bem?
— Sim.
Mentira.
Ela percebeu no mesmo instante.
— Você ainda está no hospital?
Houve um silêncio curto.
— Estou.
Aurora fechou os olhos.
— Vicente... você passou a noite aí.
— Eu sei.
— E agora está passando o dia inteiro também.
— Ela está sozinha.
A resposta veio rápida demais.
Como se ele já estivesse preparado para defendê-la.
Aurora sentiu algo apertar dentro do peito.
— Eu não disse que ela não está.
— Então por que está questionando?
Ela ficou alguns segundos sem responder.
Porque aquilo não parecia uma conversa entre noivos.
Parecia uma discussão.
E ela não entendia por quê.
— Eu só estou preocupada com você.
Vicente suspirou.
— Desculpa.
A voz dele suavizou.
— Estou nervoso.
— Eu percebi.
— Os médicos foram sinceros hoje.
Aurora endireitou a postura.
— O que aconteceu?
— Lavínia tem poucos meses.
O silêncio se espalhou entre eles.
Aurora não sabia o que dizer.
Porque independentemente de qualquer coisa...
Aquilo era triste.
Muito triste.
Ninguém merecia receber uma notícia assim.
— Sinto muito.
— Ela está apavorada.
Aurora apertou o celular.
— Imagino.
— Ela não tem ninguém.
A frase ficou ecoando dentro dela.
Ela não tem ninguém.
Como se Vicente estivesse tentando justificar alguma coisa.
Como se estivesse construindo uma defesa para algo que ainda nem tinha acontecido.
— Você vai voltar para casa hoje?
Mais silêncio.
E aquele silêncio respondeu antes mesmo que ele falasse.
— Não sei.
O coração dela afundou.
— Não sabe?
— Talvez eu fique mais algumas horas.
Aurora desviou o olhar para a janela.
As mãos começaram a ficar frias.
— Certo.
— Aurora...
— Está tudo bem.
Mas não estava.
Ela apenas não queria admitir.
Naquela tarde, Aurora decidiu ir ao hospital.
Não para fiscalizar Vicente.
Não para criar problemas.
Mas porque precisava enxergar aquela situação com os próprios olhos.
Precisava entender quem era Lavínia.
Precisava entender o que estava acontecendo.
O Hospital São Lucas era elegante.
Silencioso.
Frio.
Aurora caminhou pelos corredores seguindo as informações recebidas na recepção.
Quando chegou ao quarto indicado, parou antes de entrar.
A porta estava entreaberta.
E a cena diante dela fez seu coração desacelerar.
Lavínia era bonita.
Muito bonita.
Os cabelos castanhos caíam sobre os ombros.
A pele estava pálida.
Os olhos pareciam cansados.
Mas ainda havia beleza nela.
Muita.
Sentado ao lado da cama estava Vicente.
Segurando sua mão.
Conversando baixinho.
Aurora não conseguiu ouvir as palavras.
Mas viu o sorriso.
Viu a forma como ele olhava para Lavínia.
Viu a maneira como ela o observava.
Como se aqueles sete anos nunca tivessem existido.
Como se nada tivesse mudado.
Como se ainda fossem eles.
Algo dentro dela doeu.
Não porque acreditava que Vicente estava traindo.
Mas porque percebeu uma verdade desconfortável.
Lavínia ocupava um espaço que jamais havia desaparecido completamente.
Aurora bateu na porta.
Os dois se viraram.
Vicente levantou imediatamente.
— Aurora.
O tom da voz dele denunciava surpresa.
Talvez até nervosismo.
— Achei que deveria vir conhecer a mulher que está monopolizando meu noivo.
Ela tentou transformar a frase em brincadeira.
Mas nem ela acreditou no próprio sorriso.
Lavínia sorriu.
Um sorriso gentil.
Delicado.
— Você deve ser Aurora.
— E você deve ser Lavínia.
As duas se observaram.
Medindo-se.
Estudando-se.
Como duas mulheres tentando entender o próprio lugar naquela história.
— Vicente fala muito sobre você — disse Lavínia.
Aurora quase perguntou quando.
Porque nos últimos dois dias ele parecia não falar de outra coisa além dela.
Mas se conteve.
— Espero que esteja se recuperando.
— Estou tentando.
A resposta veio acompanhada de um sorriso triste.
Tão triste que Aurora se sentiu culpada por qualquer ressentimento.
Talvez fosse exatamente por isso que aquela situação era tão perigosa.
Porque Lavínia não parecia uma vilã.
Não parecia manipuladora.
Não parecia má.
Parecia apenas uma mulher assustada.
Uma mulher morrendo.
E isso tornava tudo mais complicado.
Muito mais complicado.
No final da visita, quando Aurora já se preparava para sair, Lavínia chamou Vicente.
— Você pode ficar mais um pouco?
O pedido foi simples.
Inocente.
Mas Aurora viu a hesitação surgir no rosto dele.
A breve dúvida.
O conflito.
E depois a decisão.
— Claro.
A resposta veio sem esforço.
Sem reflexão.
Sem sequer olhar para Aurora.
Apenas claro.
Como se fosse óbvio.
Como se não existisse outra opção.
Aurora sorriu.
Ou fingiu sorrir.
Nem ela sabia mais.
— Eu vou indo.
Vicente finalmente a encarou.
— Eu te acompanho.
— Não precisa.
— Aurora...
— Fique.
Ela saiu antes que ele pudesse responder.
Naquela noite.
Vicente chegou em casa perto da meia-noite.
Aurora ainda estava acordada.
Sentada na varanda.
Observando as luzes da cidade.
— Você devia estar dormindo.
— Você devia estar aqui.
A frase escapou antes que ela pudesse impedir.
Vicente ficou imóvel.
— Não faz isso.
— Fazer o quê?
— Me fazer sentir culpado.
Aurora virou o rosto lentamente.
— Você está se sentindo culpado?
— Eu estou tentando ajudar alguém.
— E eu estou tentando entender por que isso está custando tanto ao nosso relacionamento.
O silêncio voltou.
Pesado.
Desconfortável.
Cada vez mais frequente.
— Ela fez um pedido hoje.
Aurora sentiu um arrepio.
— Que pedido?
Vicente passou a mão pelo rosto.
Como fazia quando estava nervoso.
— Ela quer realizar alguns sonhos antes de morrer.
Aurora não gostou da forma como aquilo soou.
Nem um pouco.
— Que sonhos?
— Coisas simples.
— Como o quê?
— Lugares que ela queria visitar.
Aurora permaneceu em silêncio.
Esperando.
Instintivamente esperando.
Porque sentia que havia mais.
Muito mais.
E havia.
— Ela queria ver o mar novamente.
— Certo.
— Então pensei em levá-la.
Aurora ficou imóvel.
— Você pensou em quê?
— É só um final de semana.
O coração dela afundou.
— Final de semana?
— Sim.
— O próximo final de semana?
Vicente desviou o olhar.
E isso foi suficiente.
Porque Aurora sabia exatamente o que aconteceria naquele final de semana.
A prova final do vestido.
A reunião com os padrinhos.
Os últimos ajustes do casamento.
O casamento deles.
O casamento que parecia começar a perder espaço para os últimos desejos de Lavínia.
E pela primeira vez desde que aquela mulher voltou...
Aurora sentiu medo.
Não medo de perder Vicente.
Mas medo de descobrir até onde ele estava disposto a ir por pena.
O silêncio permaneceu na sala durante vários segundos.Ninguém ousava desligar o computador.A imagem congelada da senhora de cabelos brancos continuava iluminando o ambiente escuro, como se seu olhar atravessasse o tempo.Aurora respirava com dificuldade.Tudo aquilo mudava completamente a história de sua família.Ela não era apenas uma sobrevivente.Não era apenas filha de Helena e herdeira dos Ferraz.Sua existência inteira havia sido marcada por um segredo que atravessava gerações.Álvaro foi o primeiro a recuperar a voz.— Precisamos encontrar essa mulher.Gustavo balançou lentamente a cabeça.— Não será necessário.Todos olharam para ele.Ele caminhou até a mesa, retirou do bolso um pequeno envelope já amarelado e o colocou diante de Aurora.— Ela pediu que eu entregasse isso apenas depois que vocês assistissem ao vídeo.Aurora abriu o envelope com cuidado.Havia apenas uma folha dobrada.Reconheceu imediatamente a caligrafia elegante.Era da mesma senhora.Ela começou a ler em
A imagem de Gabriel ocupava toda a tela do notebook.O vídeo apresentava pequenas falhas.As cores estavam desbotadas pelo tempo.Mesmo assim, seu olhar permanecia firme.Sereno.Como se soubesse exatamente quem estaria diante daquela gravação muitos anos depois.Aurora sentiu um nó na garganta.Nunca conhecera o avô.Durante toda a vida, ouvira apenas histórias contadas por Helena.Agora podia finalmente escutar sua voz.Gabriel sorriu discretamente para a câmera.— Se você está vendo este vídeo, minha querida Aurora, significa que eu falhei em proteger sua mãe. Mas talvez ainda exista tempo para proteger você... e salvar alguém que todos acreditam estar perdido.O silêncio tomou conta da sala subterrânea.Nem mesmo os policiais ousavam interromper.Gabriel continuou.— Antes de qualquer coisa, preciso que saiba de uma verdade.Sua mãe nunca fugiu por medo.Ela partiu porque eu pedi.Aurora levou a mão à boca.As lágrimas surgiram imediatamente.Augusto permaneceu imóvel.Sentia o pei
A imagem de Gabriel ocupava toda a tela.O vídeo tinha baixa qualidade.Alguns ruídos interrompiam o áudio em determinados momentos.Mesmo assim, seus olhos transmitiam uma serenidade impressionante.Aurora permaneceu imóvel.Sentia como se estivesse diante do avô que nunca conheceu.Ao seu lado, Augusto respirava com dificuldade.Samuel enxugava discretamente as lágrimas.Gustavo continuava sentado diante da mesa.Não desviava o olhar da tela.Era evidente que conhecia aquela gravação, mas jamais a assistira até o fim.Gabriel sorriu levemente.— Se chegou até aqui, Aurora, significa que encontrou pessoas dispostas a lutar ao seu lado. Isso me consola.Ele fez uma breve pausa.Depois continuou.— Também significa que Helena não conseguiu escapar do destino que tanto temia.Aurora abaixou os olhos.Ouvir o nome da mãe na voz do avô tornava tudo ainda mais doloroso.— Não culpe sua mãe.Ela foi muito mais forte do que qualquer um de nós.Lutou quando eu já não podia lutar.Protegeu voc
O relógio permanecia imóvel.O ponteiro dos segundos voltara a parar exatamente na mesma posição.Oito.Quinze.Aurora observava o mostrador enquanto Samuel permanecia em silêncio, mergulhado nas próprias lembranças.Ninguém ousava interrompê-lo.Depois de alguns minutos, ele respirou profundamente.— Gabriel sempre dizia que os códigos mais seguros eram aqueles escondidos diante dos olhos de todos.Álvaro fechou o notebook que utilizava para catalogar as provas.— O senhor lembrou de alguma coisa?Samuel assentiu.— Não é um horário.Nunca foi.É uma referência aos antigos registros das propriedades da Fundação São Gabriel.Augusto franziu a testa.— Explique.O velho caminhou até uma das mesas da sala.Pegou uma folha em branco.Desenhou rapidamente um antigo mapa cadastral.— Antes da informatização, todas as terras eram identificadas por setor e lote.O setor aparecia primeiro.Depois vinha o número do lote.Ele escreveu lentamente:Setor 8. Lote 15.Aurora sentiu o coração aceler
A escuridão tomou conta da Sala do Relógio.O estrondo da porta de aço ainda ecoava pelas paredes quando os policiais sacaram as lanternas.Feixes de luz cortaram o ambiente.Os rostos tensos de Augusto, Aurora, Caio, Samuel e Álvaro surgiram entre sombras inquietas.O computador permanecia completamente apagado.As estantes cheias de documentos pareciam desaparecer na penumbra.Então a voz voltou a ser ouvida.Calma.Grave.Segura.— Não adianta procurar a origem do áudio.Este sistema funciona de maneira independente há muitos anos.Álvaro correu até o computador.Tentou ligá-lo.Nada.Retirou o cabo de energia.Também não havia resultado.— O equipamento foi bloqueado remotamente.A voz soltou uma breve risada.— Não remotamente.Muito antes de vocês nascerem.Samuel fechou os olhos.Aquele homem falava como alguém que acompanhara toda a história da organização.Augusto permaneceu firme.— Quem é você?Alguns segundos de silêncio responderam à pergunta.Depois veio a resposta.— Um
O cheiro de café ainda permanecia no ar.Aurora tocou a xícara com a ponta dos dedos.Ainda estava quente.Ela olhou para Augusto.— Ele saiu há muito pouco tempo.O delegado aproximou-se da mesa.Examinou cuidadosamente o ambiente.— Dividam as equipes. Quero cada sala deste instituto revistada.Os policiais espalharam-se pelos corredores.O silêncio do prédio era perturbador.Nenhum funcionário.Nenhum aluno.Nenhum registro recente de atividade.Era como se todos tivessem desaparecido poucos minutos antes da chegada deles.Caio caminhou ao redor da grande mesa circular.As oito cadeiras permaneciam alinhadas.A nona, posicionada discretamente atrás da principal, estava caída no chão.Ele a levantou.Na madeira havia marcas profundas.Como se alguém tivesse arrastado o móvel inúmeras vezes.— Augusto...Venha ver isto.Augusto aproximou-se.Sob a cadeira existia um pequeno compartimento metálico.Álvaro utilizou uma chave de fenda para abri-lo.Dentro havia um cartão de acesso eletr







