FAZER LOGINAurora permaneceu imóvel.
Por alguns segundos, não conseguiu reagir.
As palavras de Vicente ficaram suspensas no ar, pesadas demais para serem assimiladas de imediato.
Ela está morrendo.
Lavínia.
A mulher que desapareceu quando ele mais precisou.
A mulher que o abandonou durante o período mais difícil de sua vida.
A mulher que nunca mais havia sido mencionada dentro daquela casa.
Aurora observou o rosto do noivo.
O choque ainda estava ali.
Misturado a algo que ela não conseguia identificar.
Preocupação.
Culpa.
Inquietação.
Talvez tudo ao mesmo tempo.
— O que aconteceu exatamente? — perguntou com cuidado.
Vicente demorou alguns segundos para responder.
— Ela está internada.
— Internada onde?
— No Hospital São Lucas.
Aurora conhecia o hospital.
Era um dos mais respeitados da cidade.
— Quem te ligou?
— Ela mesma.
Aquilo a surpreendeu.
Se Lavínia estava tão debilitada quanto ele dizia, por que teria ligado justamente para Vicente?
Depois de tantos anos.
Depois de simplesmente desaparecer.
— E o que ela disse?
Vicente caminhou até a janela da cozinha.
Passou as mãos pelos cabelos.
— Disse que precisava me ver.
Aurora ficou em silêncio.
Algo dentro dela parecia desconfortável.
Não era ciúme.
Ao menos não ainda.
Era estranheza.
A situação inteira parecia estranha.
— Você pretende ir?
Vicente virou-se.
— Aurora...
— É uma pergunta simples.
— Sim.
Ela assentiu devagar.
Tentando parecer compreensiva.
Tentando ser racional.
Porque uma mulher estava doente.
Porque ninguém deveria morrer sozinho.
Porque era isso que pessoas boas faziam.
Mas uma pequena voz dentro dela insistia em perguntar por que o coração estava tão apertado.
— Tudo bem.
— Você não parece achar isso.
— Eu só fui pega de surpresa.
Vicente se aproximou.
Segurou suas mãos.
— Ela faz parte do meu passado.
Nada mais.
Aurora tentou sorrir.
Tentou acreditar.
Tentou ignorar a sensação desagradável que continuava crescendo.
— Vá.
— Tem certeza?
— Sim.
Ele beijou sua testa.
Pegou as chaves do carro.
E saiu.
Aurora ficou sozinha na cozinha.
Observando a porta fechada.
Sem perceber que aquele simples telefonema acabara de mudar o rumo de sua vida.
Duas horas depois.
Aurora estava sentada no escritório improvisado que montara em casa.
Planilhas do casamento ocupavam a tela do notebook.
Lista de convidados.
Distribuição das mesas.
Cardápio.
Músicas.
Detalhes que normalmente a deixavam animada.
Mas não naquele dia.
Sua atenção continuava voltando para o relógio.
Vicente ainda não havia retornado.
Ela pegou o celular.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação.
Nada.
Suspirou.
Tentando se convencer de que estava exagerando.
Então o aparelho vibrou.
Seu coração acelerou.
Mas não era Vicente.
Era Marina.
Uma das amigas mais próximas dele.
"Você está em casa?"
Aurora estranhou.
"Estou. Por quê?"
A resposta chegou rapidamente.
"Preciso passar aí."
Aurora franziu a testa.
"Está tudo bem?"
Alguns segundos se passaram.
"Não sei."
O desconforto aumentou.
Quarenta minutos depois.
Marina entrou na casa com uma expressão que Aurora nunca tinha visto.
Parecia nervosa.
Incomodada.
Como alguém que carregava uma notícia que não queria dar.
— O que aconteceu?
Marina sentou-se no sofá.
— Você falou com Vicente?
— Não.
— Ele ainda está no hospital?
— Acho que sim.
Marina desviou o olhar.
Aurora sentiu um arrepio percorrer sua coluna.
— Marina.
— Eu não sei se deveria estar me metendo nisso.
— Em quê?
A amiga respirou fundo.
— Algumas pessoas viram Vicente.
— No hospital?
— Sim.
Aurora esperou.
— E?
— Ele não parecia alguém visitando uma ex-namorada.
O coração dela bateu mais forte.
— O que isso significa?
— Significa que ele passou o dia inteiro lá.
— Ela está doente.
— Eu sei.
— Então qual é o problema?
Marina hesitou.
— Aurora... ele estava segurando a mão dela.
O silêncio tomou conta da sala.
Aurora tentou rir.
Mas o som morreu antes mesmo de sair.
— Você está falando sério?
— Estou.
— E isso deveria significar alguma coisa?
— Não sei.
A resposta sincera foi pior do que qualquer acusação.
Porque significava que Marina também estava confusa.
Quando Vicente finalmente voltou para casa, já passava das nove da noite.
Aurora estava sentada no sofá.
Esperando.
Ele entrou cansado.
Com os ombros pesados.
Mas algo em seu rosto parecia diferente.
Distante.
Como se parte dele ainda tivesse ficado naquele hospital.
— Oi.
— Oi.
Vicente percebeu imediatamente o clima.
— O que aconteceu?
— Como ela está?
Ele suspirou.
— Mal.
— O que ela tem?
— Uma doença rara.
— Os médicos têm certeza?
— Sim.
Aurora observou seu rosto.
Cada expressão.
Cada movimento.
Tentando entender por que ele parecia tão abalado.
— Vocês conversaram?
— Sim.
— Sobre o quê?
— Sobre muita coisa.
— Sete anos de coisas?
Vicente fechou os olhos por um instante.
— Aurora...
— Estou tentando entender.
— Entender o quê?
— Por que você voltou tão diferente.
A frase saiu antes que ela pudesse impedir.
Vicente ficou imóvel.
— Diferente como?
— Eu não sei.
E era verdade.
Ela realmente não sabia.
Mas sentia.
Sentia uma mudança.
Pequena.
Quase imperceptível.
Mas presente.
Como uma rachadura surgindo numa parede aparentemente perfeita.
Na manhã seguinte.
Aurora acordou sozinha.
Estendeu a mão na cama.
O lado de Vicente estava vazio.
Frio.
Levantou rapidamente.
Encontrou um bilhete sobre a mesa da cozinha.
"Precisei voltar ao hospital. Conversamos depois."
Aurora ficou olhando para aquelas palavras.
Uma vez.
Duas.
Três.
O casamento aconteceria em apenas nove dias.
Nove dias.
E, de repente, parecia que tudo estava escapando por entre seus dedos.
Ela tentou afastar o pensamento.
Tentou se concentrar nos preparativos.
Tentou continuar acreditando que nada havia mudado.
Mas enquanto observava a cadeira vazia diante dela, uma sensação inquietante tomou conta de seu peito.
Lavínia tinha voltado.
E o retorno dela estava ocupando mais espaço na vida de Vicente do que Aurora gostaria de admitir.
Muito mais.
O silêncio permaneceu na sala durante vários segundos.Ninguém ousava desligar o computador.A imagem congelada da senhora de cabelos brancos continuava iluminando o ambiente escuro, como se seu olhar atravessasse o tempo.Aurora respirava com dificuldade.Tudo aquilo mudava completamente a história de sua família.Ela não era apenas uma sobrevivente.Não era apenas filha de Helena e herdeira dos Ferraz.Sua existência inteira havia sido marcada por um segredo que atravessava gerações.Álvaro foi o primeiro a recuperar a voz.— Precisamos encontrar essa mulher.Gustavo balançou lentamente a cabeça.— Não será necessário.Todos olharam para ele.Ele caminhou até a mesa, retirou do bolso um pequeno envelope já amarelado e o colocou diante de Aurora.— Ela pediu que eu entregasse isso apenas depois que vocês assistissem ao vídeo.Aurora abriu o envelope com cuidado.Havia apenas uma folha dobrada.Reconheceu imediatamente a caligrafia elegante.Era da mesma senhora.Ela começou a ler em
A imagem de Gabriel ocupava toda a tela do notebook.O vídeo apresentava pequenas falhas.As cores estavam desbotadas pelo tempo.Mesmo assim, seu olhar permanecia firme.Sereno.Como se soubesse exatamente quem estaria diante daquela gravação muitos anos depois.Aurora sentiu um nó na garganta.Nunca conhecera o avô.Durante toda a vida, ouvira apenas histórias contadas por Helena.Agora podia finalmente escutar sua voz.Gabriel sorriu discretamente para a câmera.— Se você está vendo este vídeo, minha querida Aurora, significa que eu falhei em proteger sua mãe. Mas talvez ainda exista tempo para proteger você... e salvar alguém que todos acreditam estar perdido.O silêncio tomou conta da sala subterrânea.Nem mesmo os policiais ousavam interromper.Gabriel continuou.— Antes de qualquer coisa, preciso que saiba de uma verdade.Sua mãe nunca fugiu por medo.Ela partiu porque eu pedi.Aurora levou a mão à boca.As lágrimas surgiram imediatamente.Augusto permaneceu imóvel.Sentia o pei
A imagem de Gabriel ocupava toda a tela.O vídeo tinha baixa qualidade.Alguns ruídos interrompiam o áudio em determinados momentos.Mesmo assim, seus olhos transmitiam uma serenidade impressionante.Aurora permaneceu imóvel.Sentia como se estivesse diante do avô que nunca conheceu.Ao seu lado, Augusto respirava com dificuldade.Samuel enxugava discretamente as lágrimas.Gustavo continuava sentado diante da mesa.Não desviava o olhar da tela.Era evidente que conhecia aquela gravação, mas jamais a assistira até o fim.Gabriel sorriu levemente.— Se chegou até aqui, Aurora, significa que encontrou pessoas dispostas a lutar ao seu lado. Isso me consola.Ele fez uma breve pausa.Depois continuou.— Também significa que Helena não conseguiu escapar do destino que tanto temia.Aurora abaixou os olhos.Ouvir o nome da mãe na voz do avô tornava tudo ainda mais doloroso.— Não culpe sua mãe.Ela foi muito mais forte do que qualquer um de nós.Lutou quando eu já não podia lutar.Protegeu voc
O relógio permanecia imóvel.O ponteiro dos segundos voltara a parar exatamente na mesma posição.Oito.Quinze.Aurora observava o mostrador enquanto Samuel permanecia em silêncio, mergulhado nas próprias lembranças.Ninguém ousava interrompê-lo.Depois de alguns minutos, ele respirou profundamente.— Gabriel sempre dizia que os códigos mais seguros eram aqueles escondidos diante dos olhos de todos.Álvaro fechou o notebook que utilizava para catalogar as provas.— O senhor lembrou de alguma coisa?Samuel assentiu.— Não é um horário.Nunca foi.É uma referência aos antigos registros das propriedades da Fundação São Gabriel.Augusto franziu a testa.— Explique.O velho caminhou até uma das mesas da sala.Pegou uma folha em branco.Desenhou rapidamente um antigo mapa cadastral.— Antes da informatização, todas as terras eram identificadas por setor e lote.O setor aparecia primeiro.Depois vinha o número do lote.Ele escreveu lentamente:Setor 8. Lote 15.Aurora sentiu o coração aceler
A escuridão tomou conta da Sala do Relógio.O estrondo da porta de aço ainda ecoava pelas paredes quando os policiais sacaram as lanternas.Feixes de luz cortaram o ambiente.Os rostos tensos de Augusto, Aurora, Caio, Samuel e Álvaro surgiram entre sombras inquietas.O computador permanecia completamente apagado.As estantes cheias de documentos pareciam desaparecer na penumbra.Então a voz voltou a ser ouvida.Calma.Grave.Segura.— Não adianta procurar a origem do áudio.Este sistema funciona de maneira independente há muitos anos.Álvaro correu até o computador.Tentou ligá-lo.Nada.Retirou o cabo de energia.Também não havia resultado.— O equipamento foi bloqueado remotamente.A voz soltou uma breve risada.— Não remotamente.Muito antes de vocês nascerem.Samuel fechou os olhos.Aquele homem falava como alguém que acompanhara toda a história da organização.Augusto permaneceu firme.— Quem é você?Alguns segundos de silêncio responderam à pergunta.Depois veio a resposta.— Um
O cheiro de café ainda permanecia no ar.Aurora tocou a xícara com a ponta dos dedos.Ainda estava quente.Ela olhou para Augusto.— Ele saiu há muito pouco tempo.O delegado aproximou-se da mesa.Examinou cuidadosamente o ambiente.— Dividam as equipes. Quero cada sala deste instituto revistada.Os policiais espalharam-se pelos corredores.O silêncio do prédio era perturbador.Nenhum funcionário.Nenhum aluno.Nenhum registro recente de atividade.Era como se todos tivessem desaparecido poucos minutos antes da chegada deles.Caio caminhou ao redor da grande mesa circular.As oito cadeiras permaneciam alinhadas.A nona, posicionada discretamente atrás da principal, estava caída no chão.Ele a levantou.Na madeira havia marcas profundas.Como se alguém tivesse arrastado o móvel inúmeras vezes.— Augusto...Venha ver isto.Augusto aproximou-se.Sob a cadeira existia um pequeno compartimento metálico.Álvaro utilizou uma chave de fenda para abri-lo.Dentro havia um cartão de acesso eletr







