INICIAR SESIÓNA Sra. Winters entrou no meu quarto antes do sol nascer.
Não com o passo firme de sempre. Dessa vez, ela estava diferente. Os ombros mais tensos. A mandíbula mais fechada. Os olhos de águia não piscavam.
— Levante-se. Vista isso.
Ela jogou um vestido na cama.
Preto.
Não azul bebê. Não rosa claro. Não creme ou lavanda.
Preto
O primeiro vestido preto que ela me dava desde que eu cheguei.
— Achei que Tessa não usava preto — eu disse, sentando na cama.
— Não usava.
— Então por que...
— Porque você não vai ser Tessa hoje. Vai ser você.
Meu coração deu um pulo.
— O quê?
— O Sr. Maximus quer você no escritório dele. Agora. E ele foi claro: sem maquiagem de Tessa. Sem perfume. Sem cabelo liso.
— Ele quer que eu vá como... eu?
— Ele quer que você vá como Natalie.
Eu não sabia o que significava. Mas o jeito que a Sra. Winters falou — com a voz um pouco mais baixa do que o normal — me disse que era sério.
Levantei. Tomei o banho mais rápido da minha vida. Vestido preto. Cabelo cacheado, solto. Nenhuma gota de maquiagem. Nenhum perfume francês.
Quando olhei no espelho, pela primeira vez em dias, vi EU.
Não Tessa.
Não uma boneca.
Eu.
E doeu.
Porque eu não sabia mais quem era essa mulher.
O escritório de Maximus ficava no terceiro andar.
Eu nunca tinha subido tão alto na mansão. As escadas eram mais estreitas, a luz mais fraca. No final do corredor, uma porta dupla de madeira escura.
A Sra. Winters parou antes de chegar.
— Eu não vou entrar. Ele pediu para você ir sozinha.
— O que tem lá dentro?
— Você vai ver.
Ela virou as costas e desceu as escadas.
Me deixou sozinha.
Mais uma vez.
Respirei fundo. Apoiei a mão na maçaneta de metal frio. Empurrei.
O escritório era enorme.
Parede inteira de vidro. Vista para os jardins. Uma mesa de carvalho escuro no centro, coberta de papéis. Livros empilhados no chão. Uma lareira acesa — mesmo com o sol lá fora.
Maximus estava atrás da mesa, de braços cruzados. Camisa azul-marinho, mangas dobradas. Rosto inexpressivo.
Ao lado do sofá, uma mulher.
Morena. Olhos verdes. Cabelo longo, preto, liso. Vestido vermelho justo, decote ousado, salto alto. Ela exalava dinheiro e perigo.
Lembro dela. A mesma da foto que a Sra. Winters tinha mostrado. Ela se referiu a ela como a “cunhada” e me informou que era seria a mais difícil. Mas ao vivo, ela era pior.
Muito pior.
Os olhos verdes me perfuraram assim que entrei.
— Então é ela — a mulher disse, sem tirar os olhos de mim. — A famosa Tessa.
A forma como ela disse "Tessa" foi um insulto.
Maximus não respondeu. Apenas apontou para a cadeira em frente à lareira.
— Sente-se, Natalie.
Meu nome.
Ele disse meu nome na frente dela.
Os olhos verdes brilharam.
— Natalie?
A mulher riu. Um riso curto, afiado, que não escondia o desprezo.
— Achei que ela era a Tessa.
— Ela é a Tessa para os outros — Maximus respondeu, com a calma de quem explica algo óbvio para uma criança. — Para você, é Natalie.
— Que intimidade.
— É prática.
O silêncio entre os dois era tão afiado que dava para cortar.
Eu não sabia onde sentar. Não sabia onde olhar. Não sabia o que fazer com as mãos.
Tessa sorria com os lábios fechados.
Tessa mantinha a coluna reta.
Tessa não demonstrava medo.
Eu não era Tessa naquele momento.
Eu era Natalie.
E Natalie estava apavorada.
— Senta — a mulher ordenou, apontando para a cadeira. — Você está me deixando tonta com esse vai e vem.
Sentei.
A mulher se aproximou. Andou ao meu redor como um tubarão.
— Parece fisicamente — ela disse, avaliando. — Cabelo diferente, claro. E os olhos... os olhos não são iguais.
— Os olhos são melhores — Maximus disse.
A mulher parou de andar.
— Melhor? Você está brincando, Maximus?
— Eu não brinco.
— Tessa era perfeita. Todo mundo sabia disso. Você sabia disso. Por isso casou com ela.
— Tessa era o que eu precisava na época.
— E essa... essa quem é? O que você precisa agora?
Maximus saiu de trás da mesa. Andou até a janela. Ficou de costas para nós.
— Ela representa o futuro.
O silêncio caiu.
A mulher me olhou. Dessa vez, não era desprezo. Era inveja.
Pura inveja.
— Ele nunca falou assim de Tessa — ela sussurrou, só para mim. — Nunca.
Meu coração disparou.
— Ele não está falando de mim — eu disse, com a voz mais firme do que me sentia. — Ele está falando do contrato.
A mulher riu de novo. Mas não era um riso de deboche. Era de surpresa.
— Você tem personalidade. Isso é... inesperado.
— Tessa não tinha?
— Tessa tinha o que ele mandava ela ter.
A mulher se chamava Camila.
Ela era irmã de Maximus. Não por sangue — ela mesma fez questão de esclarecer.
— Minha mãe casou de novo com o pai dele. Daí o pai de Maximus morreu. Não somos irmãos de verdade. Mas isso nunca fez diferença para ele.
— E para você? — perguntei.
Ela me olhou.
— Para mim, fez toda a diferença.
Camila não explicou o que queria dizer com aquilo. Mas o olhar que ela lançou para Maximus — uma mistura de raiva e tristeza — dizia mais do que mil palavras.
Ela se aproximou da mesa. Pegou uma das canetas. Girou entre os dedos.
— Você sabe o que aconteceu com as outras duas?
Meu sangue gelou.
— Outras duas?
— As mulheres que vieram antes de você. A primeira... — Ela fez uma pausa. — Bem, a primeira não está mais entre nós. Não literalmente. Ela está em um hospício. Mas é como se não estivesse mais entre nós, entende?
Eu não conseguia respirar.
— E a segunda? — minha voz saiu estranha.
— A segunda sumiu. Ninguém sabe onde está. Nem Maximus. E ele sabe de tudo.
— Camila — a voz de Maximus cortou o ar como uma navalha. — Chega.
— Ela tem o direito de saber, Maximus. Ela assinou um contrato. Ela vai dormir na mesma cama que elas dormiram. Ela merece saber o que pode acontecer.
— O que pode acontecer? — eu perguntei, levantando da cadeira.
Camila me olhou. Os olhos verdes estavam brilhando. Não era maldade. Era alerta.
— Você não pode fazer perguntas, Natalie. Essa é a regra. E as regras do Maximus... — Ela olhou para ele. — ...não são para ser quebradas.
— Camila, saia — Maximus ordenou.
Ela guardou a caneta. Ajeitou o vestido vermelho. Caminhou até a porta.
Antes de sair, virou para mim.
— Cuidado com os passos no corredor, Natalie. Nem tudo nesta casa é o que parece.
Ela saiu.
A porta fechou.
O silêncio voltou.
Eu fiquei parada no meio do escritório. Tremendo. Não de frio. De medo.
Maximus continuava na janela. De costas para mim.
— O que ela quis dizer? — perguntei. — Com "nem tudo nesta casa é o que parece"?
— Nada.
— Maximus.
— Nada, Natalie. Ela gosta de criar drama.
— E as outras duas mulheres? A primeira está em um hospital psiquiátrico? A segunda sumiu?
Ele virou.
O rosto estava diferente. Não era frieza. Não era controle.
Era raiva.
Mas não raiva de mim. Raiva de Camila.
— As outras duas mulheres falharam. Quebraram o contrato. Fizeram perguntas que não deviam.
— Perguntas sobre Tessa?
— Perguntas sobre mim.
O ar sumiu da sala.
— Perguntas sobre você? Que tipo de perguntas?
Ele andou até mim. Parou a um passo de distância.
— Você quer mesmo saber, Natalie?
— Sim.
— Mesmo sabendo que pode acabar como elas?
Eu hesitei.
— Você me ameaçando de novo?
— Te protegendo. A escolha é sua. Você pode continuar fazendo perguntas e correr o risco de terminar como as outras duas. Ou pode aceitar que algumas coisas não são da sua conta.
— Eu não posso aceitar.
— Por quê?
— Porque eu preciso saber se estou correndo risco. Se minha filha corre risco.
Ele se afastou.
Voltou para a janela.
— Sua filha não corre risco. Você também não. Desde que siga as regras.
— E as outras duas? Elas não seguiram?
Uma longa pausa.
— Elas não seguiram.
— O que aconteceu com a segunda? A que sumiu?
Maximus se virou. Me encarou.
A resposta dele foi tão baixa que eu quase não ouvi.
— Ela descobriu a verdade sobre Tessa.
— Qual verdade?
Ele não respondeu.
Apenas ficou ali, me olhando, com aqueles olhos cinza que paravam de brilhar sempre que o assunto era o passado.
— Maximus — insisti. — Qual verdade?
— A verdade que você nunca vai descobrir.
Ele foi para a porta.
Abriu.
— O jantar é às oito. Não se atrase.
E saiu.
Me deixou sozinha no escritório.
Com a lareira crepitando. Com a foto de Tessa na mesa. Com o cheiro de madeira e âmbar que não saía mais das minhas roupas.
E com um milhão de perguntas que eu não podia fazer.
Naquela noite, eu não consegui comer.
O salmão estava ali, no prato. Perfeito. Grelhado no ponto. Acompanhado de legumes que custavam mais do que minha compra do mês.
Mas eu não conseguia nem olhar.
Maximus comeu em silêncio. Como sempre.
Eu fiquei mexendo o garfo no prato. Sem fome. Sem vontade.
— Você não está comendo — ele observou.
— Não estou com fome.
— Precisa comer.
— Preciso de respostas.
Ele largou o garfo. O som ecoou pela sala.
— Natalie...
— Eu sei. Cláusula 12. Não posso perguntar. Mas você não pode me impedir de pensar.
Ele me olhou por um longo segundo.
— O que você está pensando?
— Que talvez a verdade sobre Tessa seja mais simples do que parece. Talvez ela não tenha sumido. Talvez você a tenha escondido.
O silêncio foi ensurdecedor.
— Talvez ela esteja aqui. Nesta casa. Atrás da porta trancada no final do corredor.
Maximus não disse nada.
Apenas levantou, pegou o prato e levou até a cozinha.
Quando voltou, sua expressão estava fechada.
— O jantar acabou.
— Maximus...
— Acabou.
Ele subiu as escadas.
Não olhou para trás.
Eu fiquei sozinha na sala de jantar.
Com o prato cheio.
Com o vestido preto que não era de Tessa.
Com a certeza de que a verdade estava mais perto do que eu imaginava.
E que talvez, quando eu a descobrisse...
Não houvesse volta.
Um ano depois.O sol nascia atrás das montanhas quando a mansão despertou. Não o sol pálido do inverno, não o sol tímido das manhãs cinzentas. Era um sol dourado, vibrante, daqueles que pintam o céu de laranja e rosa e prometem dias de felicidade. As flores no jardim estavam abertas. As árvores balançavam com o vento leve. A piscina refletia o céu como um espelho líquido.Eu estava no meu quarto — no nosso quarto — com os olhos fixos no espelho. O vestido branco caía sobre o meu corpo como uma segunda pele. O véu longo, transparente, bordado com flores de seda. Os sapatos de salto prateado brilhavam sob a luz da manhã. O buquê de lírios e rosas brancas descansava na mesa de cabeceira, ao lado da foto de Sophia, ao lado da aliança de ouro branco, ao lado da carta de Tessa.Não. A carta de Tessa estava no meu colo. Eu ainda não tinha aberto.A Sra. Winters não estava ali. Não podia estar. Ela ainda cumpria pena, em uma penitenciária feminina no interior do estado. Eu não a visitei depoi
O sol da manhã entrava pelas janelas da sala de audiências, mas não havia calor naquele lugar. Apenas o peso da justiça, o eco das palavras, o martelo do juiz batendo uma última vez. Eu estava sentada na primeira fila, ao lado de Maximus. O braço dele ainda estava enfaixado, o ombro ainda doía, mas ele estava ali. Firme. Vivo. Ao meu lado.Tessa estava na frente do juiz, com o uniforme cinza da prisão, o cabelo preso, o rosto pálido. Ela não olhou para trás. Não procurou meu olhar. Não procurou ninguém. Apenas ficou ali, ereta, aceitando o peso das suas escolhas.— Tessa Allegro — o juiz anunciou, a voz grave, cansada —, a senhora foi condenada por sequestro, lesão corporal grave, participação em organização criminosa e homicídio qualificado. A pena inicial seria de trinta anos. Em razão da colaboração com a justiça e do seu arrependimento demonstrado, a pena é reduzida para doze anos.O martelo bateu.O som ecoou.Tessa fechou os olhos.Doze anos.Doze anos longe do mundo. Doze anos
No dia seguinte, o telefone tocou.Era o hospital. Tessa tinha recebido alta. Não da prisão — da ala de observação. O ferimento estava cicatrizado. A infecção tinha passado. — Ela pediu para falar com você — a enfermeira disse. — Antes de ser transferida.— Eu vou.Cheguei no hospital no fim da tarde. O sol se punha atrás dos prédios, pintando o céu de laranja e rosa. O mesmo sol da mansão. O mesmo sol dos dias com Sophia. O mesmo sol do começo de tudo.Tessa estava sentada na cama, com a roupa comum do hospital, os cabelos escuros presos em um rabo de cavalo. O ombro ainda enfaixado, mas o rosto mais corado. Os olhos mais vivos.— Natalie.— Tessa.— Obrigada por vir.— Eu não vim por você.Ela sorriu. O sorriso triste de quem já ouviu essa frase antes.— Eu sei. Ninguém vem por mim.Sentei na cadeira ao lado da cama. O mesmo lugar onde Maximus sentou quando eu estava no hospital. O mesmo lugar onde eu chorei. O mesmo lugar onde eu esperei.— O que você vai fazer agora? — perguntei.
Dias depois. O sol entrava pelas janelas gradeadas da sala de visitas da penitenciária, mas não aquecia. A luz era fria, branca, impessoal, como tudo naquele lugar. As paredes cinzentas. O chão de cimento. O cheiro de desinfetante e desespero. Eu estava sentada em uma cadeira de plástico duro, com as mãos postas sobre a mesa de metal, os dedos entrelaçados, as unhas cravadas na pele. Não sentia dor. Não sentia nada.A porta do fundo se abriu. Os passos arrastados. As algemas tilintando. A Sra. Winters entrou, escoltada por uma agente penitenciária de rosto duro. O cabelo, antes sempre preso em um coque impecável, agora estava solto, bagunçado, grisalho. O uniforme laranja caía frouxo no corpo magro. O rosto marcado por olheiras profundas, por rugas que eu não lembrava de ter visto, por uma expressão de cansaço que não vinha só da prisão. Vinha de dentro.Ela me viu. Os olhos marejaram. Os lábios tremeram.A agente destrancou as algemas. A Sra. Winters esfregou os punhos. Sentou na cad
A Sra. Winters estava em pé.Eu não sabia há quanto tempo ela estava ali, apenas o avaliando. Talvez desde o começo. Talvez desde sempre. Atrás dele, atrás das cortinas, atrás das sombras, atrás das mentiras. Mas agora ela estava na frente. A arma na mão. O braço estendido. A mira fixa no peito do homem que ela amou. Do homem que a destruiu. Do homem que estava morrendo aos pés dela.O sangue do meu pai se espalhava pelo chão de madeira, manchava o terno escuro, formava uma poça escura que refletia a luz fraca do abajur. Ele não conseguia mais se levantar. Não conseguia mais apontar a arma. Não conseguia mais ameaçar ninguém. A respiração dele era curta, ofegante, úmida. O sangue escorria da boca.Mas os olhos ainda estavam abertos. Os olhos claros, iguais aos meus. E estavam fixos nela.— Amélia — ele chamou. A voz era um sussurro rouco, um fôlego, quase um suspiro. — Amélia, por favor.O nome dela ecoou na sala vazia. Amélia. Eu nunca tinha chamado a Sra. Winters por esse nome. Nunc
O barulho dos tiros não parecia real. Parecia uma memória ruim. Algo que eu já tinha vivido antes — ou que tinha jurado que nunca viveria de novo. Os estampidos ecoavam pelas paredes de madeira do sítio, ricocheteavam no teto, se espalhavam pela noite escura lá fora. Gritos. Homens correndo. Vidros se estilhaçando. O cheiro de pólvora invadiu a sala como um fantasma.Eu estava imóvel. Não conseguia me mexer. Não conseguia pensar. Só conseguia ouvir. E sentir.Cada tiro era um impacto no meu peito. Cada grito era uma faca na minha alma. Cada som de corpo caindo era um pedaço de mim que se despedaçava.Maximus ainda estava em pé. A arma na mão. Os olhos fixos no meu pai. O braço estendido, a mira firme, o corpo tenso — uma estátua de fúria e determinação.Meu pai também estava em pé.O sangue escorria do ombro dele, manchava o terno escuro, pingava no chão de madeira, mas ele não recuava. Não desviava o olhar. Os olhos claros, iguais aos meus, estavam fixos em Maximus como se ele fosse







