ログイン(Dominic)
Eu deveria ter esquecido aquela noite.
Era apenas uma conversa na cozinha.
Um encontro por acaso.
Uma esposa de mentira irritada procurando água no meio da madrugada.
Nada além disso.
Pelo menos era isso que eu tentava repetir para mim mesmo.
Mas a verdade era outra.
Desde que Valentina entrou naquela cozinha, com aquela camisola sacana, os cabelos bagunçados e aquele olhar de poucos amigos, alguma coisa estava diferente.
Eu conhecia aquela mulher.
Conhecia sua teimosia.
Conhecia a forma como ela levantava o queixo quando estava irritada.
Conhecia o jeito como fingia não se importar.
Mas naquela noite eu enxerguei algo que ela tentava esconder.
Ela estava perdida.
Assustada.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não vi a mulher que me odiava.
Vi apenas a Valentina do passado.
A garota que fazia minha irmã sorrir.
A garota que eu nunca deveria ter deixado tão perto dos meus pensamentos.
Voltei para o meu quarto depois daquela conversa tentando ignorar a sensação estranha que ficou no meu peito.
Minha vida não permitia distrações.
Minha missão era outra.
Não permitia envolvimento
Principalmente com aquela mulher.
Os dias seguintes passaram rápido.
A mudança e fusão da Valença para a sede da Castellani aconteceu antes que todos pudessem se acostumar com a ideia.
Como eu já esperava, Valentina não discutiu.
Não reclamou. Não fez perguntas. Apenas apertou a pasta contra o peito e entrou na sala de reuniões.Quem não a conhecia diria que ela tinha aceitado tudo.
Eu sabia reconhecer aquele silêncio. Era o tipo de calma que antecedia uma explosão.Mas ela também era inteligente.
E sabia separar sentimentos de negócios.
Foi isso que sempre admirei nela.
Mesmo quando queria me mandar para o inferno, ela entrava naquela sala de reuniões e agia como uma profissional.
A nova estrutura da empresa estava pronta.
A fusão era oficial.
A Valença e a Castellani agora caminhavam juntas.
E naquele dia, diante dos principais investidores, funcionários e parceiros, Valentina assumiria oficialmente a presidência da nova fase de sua empresa.
Observei enquanto ela caminhava pelo salão.
O vestido social impecável.
Os cabelos presos de forma elegante.
A postura firme.
Era a mesma mulher que dias antes dizia que eu tinha destruído sua vida.
Mas agora todos olhavam para ela com respeito.
Não como a filha do dono.
Não como a esposa de Dominic Castellani.
Mas como uma verdadeira líder.
Meu pai estava ao meu lado.
— Ela está pronta.
Olhei para ele.
— Sempre esteve.
Ele sorriu discretamente.
— Você sabe disso há muito tempo, né meu filho.
Não respondi.
Porque sabia.
Eu sabia antes mesmo dela perceber.
Valentina tinha algo que muitas pessoas nunca conseguiriam construir.
Coragem.
Ela podia estar com medo.
Podia estar quebrada por dentro.
Mas ainda assim entrava em uma sala e fazia todos acreditarem que estava no controle.
Talvez fosse exatamente isso que me incomodava.
Ela era muito parecida comigo.
Nenhum dos dois sabia pedir ajuda.
Nenhum dos dois permitia que o mundo enxergasse suas rachaduras.Depois do evento, todos foram embora aos poucos.
Eu fiquei alguns minutos sozinho no meu escritório.
A cidade brilhava pela janela.
Peguei um copo de uísque e fiquei observando as luzes.
Eu precisava desligar.
Precisava esquecer.
Era o que eu sempre fazia.
Quando os pensamentos ficavam pesados demais, eu procurava uma forma de silenciá-los.
Durante anos foi simples.
Sem promessas.
Sem sentimentos.
Sem envolvimento.
Apenas uma maneira de aliviar a tensão.
Mas naquela noite, pela primeira vez, eu hesitei.
Meu celular estava na minha mão.
Eu poderia ligar para qualquer uma das mulheres que aceitavam encontros sem perguntas.
Poderia repetir a rotina que mantive durante anos.Alguém que não olhasse para mim como se tentasse descobrir quem eu realmente era.
Mas a imagem que apareceu na minha mente não era de uma desconhecida.
Era Valentina.
Irritada.
Orgulhosa.
Me chamando de arrogante.
De troglodita.
Suspirei.
Aquilo era um problema.
Um grande problema.
Porque eu sabia exatamente o que estava acontecendo.
Eu estava começando a perder o controle.
E eu odiava perder o controle.
Mesmo assim, peguei as chaves do carro.
Dirigi sem destino durante quase meia hora.
Como tantas outras vezes, acabei parando no único lugar onde ninguém esperava nada de mim.
Não para fugir dela.
Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo.
Fui para um lugar onde ninguém fazia perguntas.
Um lugar discreto.
Onde eu não era o CEO da Castellani.
Não era o homem que todos esperavam que eu fosse.
Eu era apenas Dominic.
Mas quando a noite terminou, eu descobri uma coisa que me incomodou ainda mais.
O vazio continuava ali.
Eu tinha procurado uma distração.
E encontrei apenas silêncio.
Voltei para casa antes do amanhecer.
A mansão estava completamente quieta.
Subi as escadas tentando não fazer barulho.
Quando passei pelo corredor, parei diante da porta do quarto dela.
Não deveria.
Eu sabia disso.
Mas parei.
Por alguns segundos.
Pensei em bater.
Pensei em perguntar se ela estava bem.
Pensei em coisas que Dominic Castellani jamais faria.
Em coisas que não faziam sentido, muito menos parte do acordo.
Então lembrei.
Contrato.
Dois anos.
Regras.
Limites.
Era disso que eu precisava me lembrar.
Afastei-me da porta.
Porque Valentina era muitas coisas.
Teimosa.
Intensa.
Difícil.
Mas acima de tudo...
Era perigosa.
Não porque pudesse destruir meu império.
Empresas eu sabia reconstruir.
Dinheiro sempre podia ser recuperado.
O problema era outro.
Valentina tinha o poder de derrubar todas as barreiras que passei anos construindo.
E, se isso acontecesse...
O homem por trás do contrato finalmente seria visto.
DominicNinguém respondeu.Por alguns segundos, tive a sensação de que até o ar havia desaparecido daquela sala.Isabel me encarava sem entender.Bia alternava o olhar entre mim e os outros.Regina permanecia ao lado de Augusto, segurando o próprio braço como se já soubesse que aquela conversa não terminaria bem.Valentino...Valentino não tirava os olhos de mim.E foi justamente isso que me fez ter certeza.Ele sabia.Talvez não soubesse exatamente o que eu havia descoberto.Mas sabia que alguma coisa estava prestes a ser revelada.Caminhei até a mesa de centro.Peguei o envelope que havia levado comigo.Coloquei-o sobre a madeira.O som foi pequeno.Mas pareceu alto demais naquele silêncio.— Antes de qualquer coisa, quero que todos entendam uma coisa.Olhei para Isabel.— Valentina não foi embora porque quis abandonar vocês.Os olhos dela imediatamente se encheram de lágrimas.— Como assim embora, porque ela iria?Não respondi imediatamente.Meu olhar passou por Augusto.Depois por
DominicExistem dores que fazem a gente gritar.Outras simplesmente tiram a vontade de falar.Desde sexta-feira, eu pertencia à segunda categoria.Não voltei para a mansão naquela noite.Não conseguiria.Aquela sexta-feira deveria ter sido diferente.Era o dia em que completaríamos um ano de casamento.Eu deveria estar pensando em como passaríamos aquele final de semana longe das câmeras, em algum hotel discreto, sem precisar representar diante de ninguém aquilo que já não podíamos mais ser.Em vez disso, passei a noite sozinho em um quarto de hotel, com uma carta de Valentina sobre a mesa e a certeza de que ela havia partido sem intenção de voltar.O mais cruel era que eu entendia o motivo.Pelo menos parte dele.Éramos irmãos.E agora eu sabia que ela estava grávida.Grávida de uma criança que, na cabeça dela, era fruto de algo que jamais poderia existir.Não havia espaço para romantizar aquilo.Não havia futuro que ela pudesse enxergar.Ela não tinha ido embora porque deixara de se
DominicEla foi embora.As palavras ainda ecoavam na sala quando um silêncio pesado caiu sobre nós.Ninguém dizia absolutamente nada.Ana permanecia imóvel diante da minha mesa.Levi continuava parado ao lado da porta.E eu...Eu simplesmente me recusava a acreditar.Não.Valentina não faria isso.Ela podia estar magoada.Podia estar sofrendo.Podia até decidir terminar nosso casamento.Mas desaparecer?Sem uma conversa?Sem uma despedida?Sem me olhar uma última vez?Balancei a cabeça.Não.Alguma coisa estava errada.Muito errada.Peguei o telefone sobre a mesa quase por impulso.Procurei o nome dela.Valentina ❤️Meu dedo hesitou por um segundo.Depois pressionei o botão de chamada.Levi e Ana me observavam em silêncio.O telefone chamou apenas uma vez.Logo depois, uma gravação automática substituiu o toque."O número chamado não está disponível ou não existe. Verifique e tente novamente."Afastei lentamente o aparelho do ouvido.Olhei para a tela.Respirei fundo.Liguei outra vez
Dominic Nunca imaginei que quase sete dias pudessem ser tão longos. A mansão continuava exatamente igual. Os corredores. Os funcionários. As reuniões. O café servido todas as manhãs por Carlos. As ligações intermináveis. As pilhas de contratos. Nada havia mudado. E, ao mesmo tempo... Tudo parecia diferente desde que Valentina embarcara para Roma. Era estranho. Durante semanas eu desejei distância. Depois da descoberta de que éramos irmãos, convenci a mim mesmo de que afastá-la era a única forma de protegê-la. Funcionou. Pelo menos na teoria. Na prática... Cada refeição naquela mesa enorme parecia vazia. Cada vez que passava pela porta do quarto dela, meu olhar procurava, por instinto, qualquer sinal de
Valentina Na quinta-feira, o congresso foi encerrado antes mesmo do horário previsto. Pouco depois do meio-dia, os organizadores agradeceram a presença das empresas participantes, anunciaram os últimos painéis e deram oficialmente por concluído o evento. Os aplausos ecoaram pelo auditório. As pessoas começaram a se despedir. Trocar cartões. Prometer futuras reuniões. Enquanto todos comemoravam os negócios fechados... Eu comemorava outra coisa. Cada minuto que passava me aproximava da vida que eu havia escolhido. Ou da vida que restava para mim. Passei mais de uma hora organizando tudo o que seria enviado para a CV Group. Ana conhecia meu método de trabalho. Mesmo assim, deixei tudo tão detalhado que qualquer diretor conseguiria dar continuidade às negociações sem depender de mim.
Valentina Quando o avião pousou em Roma, a noite já havia tomado conta da cidade. Olhei pela pequena janela enquanto as luzes da pista riscavam a escuridão. Durante doze horas... Tentei dormir. Tentei ler. Tentei distrair minha mente de tudo. Passei boa parte da viagem olhando para as nuvens, pensando em como uma única decisão era capaz de dividir uma vida inteira em duas partes. Antes. E depois. Assim que desembarquei, o ar fresco da primavera italiana tocou meu rosto. Respirei profundamente. Pela primeira vez desde que descobri toda a verdade... Meu peito pareceu um pouco mais leve. Não porque a dor tivesse diminuído. Ela continuava ali. Mas porque, eu estava longe de tudo aquilo que alimentava aquela dor. Longe da mansão.







