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06 - O QUE ACONTECE QUANDO AS LUZES APAGAM

Author: Aurora Grace
last update publish date: 2026-07-11 23:19:53

CAPÍTULO 6 – O QUE ACONTECE QUANDO AS LUZES APAGAM

(Valentina)

Depois de algumas horas no apartamento da Ana, pela primeira vez desde que tudo começou, senti que conseguia respirar novamente.

Eu não contei tudo.

Não podia.

Algumas coisas ainda precisavam permanecer apenas comigo.

Mas falar com ela, colocar para fora uma parte daquela confusão que estava presa dentro do meu peito, já tinha sido suficiente para aliviar um pouco o peso.

Ana sempre teve esse efeito sobre mim.

Ela não precisava resolver meus problemas.

Às vezes, tudo que eu precisava era alguém que me lembrasse que eu ainda era eu.

Quando saí do apartamento dela, já era tarde.

A cidade estava silenciosa, e as luzes dos prédios refletiam nas ruas quase vazias.

Chamei o motorista, que me levou de volta para a mansão Castellani.

Minha nova casa.

Ou minha nova prisão.

Isso ainda não estava definido.

Assim que entrei, tudo estava em silêncio.

Aquele silêncio elegante de casas grandes demais.

O tipo de silêncio que parecia esconder segredos atrás de cada porta.

Subi as escadas devagar.

Quando passei pelo corredor, meus olhos pararam por alguns segundos na porta do quarto de Dominic.

Parei.

Sem querer.

Sem motivo.

Ou talvez por um motivo que eu não queria admitir.

Balancei a cabeça.

Ridículo.

Eu tinha acabado de passar horas reclamando dele para minha melhor amiga e agora estava parada olhando para a porta do quarto dele.

— Definitivamente enlouqueci, não posso mais beber vinho.

Entrei no meu quarto e fechei a porta.

Tomei um banho rápido, coloquei uma camisola confortável e me joguei na cama.

Mas dormir parecia impossível.

Minha mente insistia em voltar para aquele dia.

Para o casamento.

Para o contrato.

Para o momento em que Dominic me colocou no ombro e deu um tapa em minha bunda diante dos funcionários.

O pior de tudo, era que eu conseguia lembrar do toque daquele merda.

E isso me irritava.

Muito.

Porque eu deveria lembrar da arrogância.

Da frieza.

Do homem que praticamente comprou minha vida, minha liberdade.

Não daquele maldito arrepio que senti quando ele se aproximou.

Virei para o lado, sentindo minha embriaguez.

— Culpa do vinho.

Sim.

Só podia ser.

Eu estava cansada.

Emocionalmente destruída.

Há meses sem sair e me divertir.

E tinha bebido.

Essa era a explicação.

Fechei os olhos tentando convencer meu próprio cérebro.

Mas, antes de conseguir dormir, uma última imagem apareceu na minha mente.

Dominic Castellani olhando para mim.

E pela primeira vez em muito tempo...

Eu não sabia dizer se queria fugir dele.

Ou entender por que ele mexia tanto comigo.

— Que merda garota idiota, para de pensar.

Como se meu próprio cérebro fosse me obedecer.

Virei para o outro lado da cama.

O problema era que eu conhecia Dominic há anos.

Conhecia aquele olhar frio.

Aquela postura de homem que parecia nunca perder o controle.

Mas naquela noite, quando ele se aproximou para manter aquele teatro diante dos funcionários, alguma coisa dentro de mim reagiu de um jeito que minha raiva se recusava a aceitar.

E isso me deixava ainda mais irritada.

Porque odiar Dominic Castellani era fácil.

Difícil era entender por que, às vezes, eu esquecia por alguns segundos o motivo.

Suspirei.

Talvez fosse o vinho.

Sim.

Só podia ser o vinho.

Eu tinha bebido demais.

Essa era a única explicação.

Fechei os olhos novamente.

E finalmente consegui dormir.

Ou pelo menos achei que tinha conseguido.

— Valentina...

A voz dele invadiu meu sonho.

Abri os olhos lentamente.

Mas não era o quarto.

Não era a mansão.

Era um lugar diferente.

Escuro.

Silencioso.

Eu conseguia sentir a presença dele antes mesmo de vê-lo.

Dominic estava parado na minha frente.

Sem aquele terno impecável.

Sem aquela expressão fria.

Apenas ele.

O homem por trás da máscara.

— Ainda é mais fácil me odiar? — perguntou.

Eu queria responder.

Queria dizer que sim.

Que ele era arrogante.

Que ele tinha destruído minha paz.

Mas nenhuma palavra saiu.

Porque ele estava perto demais.

Perto o suficiente para eu sentir seu perfume.

Perto o suficiente para meu coração esquecer que deveria estar com raiva.

A mão dele tocou meu rosto.

E naquele instante...

Eu acordei.

Abri os olhos assustada.

O quarto estava escuro.

Silencioso.

Meu coração batia rápido.

Passei a mão pelo rosto.

— Não acredito nisso.

Eu tinha acabado de sonhar com Dominic.

Com aquele homem.

O mesmo homem que eu jurava odiar há tantos anos.

Sentei na cama.

— Isso que dá beber duas garrafas de vinho.

Só podia ser.

Levantei irritada comigo mesma.

Precisava de água.

Talvez uma boa caminhada até a cozinha ajudasse meu cérebro a voltar ao normal.

Saí do quarto em silêncio.

A mansão durante a madrugada parecia outra.

Sem funcionários.

Sem vozes.

Sem movimentos.

Apenas o som dos meus passos de pés descalços pelo corredor.

Desci as escadas lentamente.

Quando cheguei ao último degrau, virei em direção à cozinha.

E foi exatamente nesse momento que meu corpo bateu contra algo.

Ou melhor...

Alguém.

Um braço forte segurou minha cintura antes que eu caísse.

Meu coração disparou.

Conhecia aquele perfume.

Conhecia aquela presença irritantemente calma

Levantei o rosto lentamente.

Por um segundo senti o peitoral firme dele contra o meu corpo.

Mesmo no escuro, consegui enxergar aqueles olhos.

Dominic.

Ficamos alguns segundos sem dizer nada.

Era estranho.

A mansão inteira parecia ter parado junto conosco.

— Você sempre anda pela casa no escuro? — ele perguntou.

A voz baixa dele fez um arrepio percorrer minha pele.

Afastei-me imediatamente.

— Eu poderia perguntar o mesmo.

Ele soltou minha cintura devagar.

— Eu estava indo pegar água.

Cruzei os braços.

— Pois é, eu também.

Silêncio.

Perfeito.

Dois adultos em uma cozinha enorme no meio da madrugada.

Casados.

Por contrato.

E completamente incapazes de agir como se aquilo fosse normal.

Ele abriu o armário e pegou um copo.

Eu fui até a geladeira.

Nossos braços se encostaram novamente.

Foi apenas um toque.

Um segundo.

Mas foi o suficiente para eu me afastar rapidamente.

Dominic percebeu.

Claro que percebeu.

Ele percebia tudo.

— Você ainda me odeia?

A pergunta me pegou desprevenida.

Olhei para ele.

— Essa é uma pergunta séria?

Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.

Quase imperceptível.

— Talvez.

Peguei meu copo de água.

— Sim.

Ele inclinou a cabeça.

— Muito convincente.

Revirei os olhos.

— Cala a boca, nem começa.

— Eu nem falei nada.

— Seu olhar fala.

Por alguns segundos, ele apenas me observou.

E isso era pior.

Muito pior.

Porque Dominic em silêncio era mais perigoso do que Dominic discutindo.

— Você deveria dormir.

— Engraçado, eu ia dizer exatamente a mesma coisa Dominic.

A frase saiu antes que eu pudesse impedir.

Ele ficou sério.

E pela primeira vez eu vi algo diferente naquele rosto.

Não era arrogância.

Não era frieza.

Era algo que eu não consegui identificar.

— Valentina...

Interrompi.

— Não.

Balancei a cabeça.

— Não tenta fingir que isso é fácil pra mim Dominic.

Ele permaneceu parado.

— Eu nunca disse que seria fácil. Acredite... não é.

A resposta me surpreendeu.

Porque eu esperava uma provocação.

Uma resposta arrogante.

Qualquer coisa que confirmasse que ele era o homem que eu odiava.

Mas não veio.

Apenas silêncio.

E isso me incomodou ainda mais.

Peguei meu copo.

— Boa noite, Dominic.

Passei por ele.

Mas antes de subir as escadas, ouvi sua voz.

— Valentina.

Parei.

Sem olhar para trás.

— O quê?

Alguns segundos se passaram.

— Nada não.

Respirei fundo.

- Lembrei porque te odeio. Você é um idiota e nunca vai mudar.

Ele sempre fazia isso.

Sempre deixava uma pergunta no ar.

Subi as escadas tentando convencer meu coração de que aquele encontro não tinha significado nada.

Era apenas uma cozinha.

Um copo de água.

Uma conversa ridícula no escuro.

Nada mais.

Mas quando voltei para o quarto e fechei a porta...

Eu sabia que estava mentindo para mim mesma.

Porque pela primeira vez desde que Dominic voltou para minha vida...

Eu não tinha pensado no contrato.

Eu tinha pensado nele, e o que aquelas palavras soltas escondiam.

E isso me assustava muito mais do que qualquer cláusula que eu tivesse assinado.

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