LOGINCAPÍTULO 6 – O QUE ACONTECE QUANDO AS LUZES APAGAM
(Valentina)
Depois de algumas horas no apartamento da Ana, pela primeira vez desde que tudo começou, senti que conseguia respirar novamente.
Eu não contei tudo.
Não podia.
Algumas coisas ainda precisavam permanecer apenas comigo.
Mas falar com ela, colocar para fora uma parte daquela confusão que estava presa dentro do meu peito, já tinha sido suficiente para aliviar um pouco o peso.
Ana sempre teve esse efeito sobre mim.
Ela não precisava resolver meus problemas.
Às vezes, tudo que eu precisava era alguém que me lembrasse que eu ainda era eu.
Quando saí do apartamento dela, já era tarde.
A cidade estava silenciosa, e as luzes dos prédios refletiam nas ruas quase vazias.
Chamei o motorista, que me levou de volta para a mansão Castellani.
Minha nova casa.
Ou minha nova prisão.
Isso ainda não estava definido.
Assim que entrei, tudo estava em silêncio.
Aquele silêncio elegante de casas grandes demais.
O tipo de silêncio que parecia esconder segredos atrás de cada porta.
Subi as escadas devagar.
Quando passei pelo corredor, meus olhos pararam por alguns segundos na porta do quarto de Dominic.
Parei.
Sem querer.
Sem motivo.
Ou talvez por um motivo que eu não queria admitir.
Balancei a cabeça.
Ridículo.
Eu tinha acabado de passar horas reclamando dele para minha melhor amiga e agora estava parada olhando para a porta do quarto dele.
— Definitivamente enlouqueci, não posso mais beber vinho.
Entrei no meu quarto e fechei a porta.
Tomei um banho rápido, coloquei uma camisola confortável e me joguei na cama.
Mas dormir parecia impossível.
Minha mente insistia em voltar para aquele dia.
Para o casamento.
Para o contrato.
Para o momento em que Dominic me colocou no ombro e deu um tapa em minha bunda diante dos funcionários.
O pior de tudo, era que eu conseguia lembrar do toque daquele merda.
E isso me irritava.
Muito.
Porque eu deveria lembrar da arrogância.
Da frieza.
Do homem que praticamente comprou minha vida, minha liberdade.
Não daquele maldito arrepio que senti quando ele se aproximou.
Virei para o lado, sentindo minha embriaguez.
— Culpa do vinho.
Sim.
Só podia ser.
Eu estava cansada.
Emocionalmente destruída.
Há meses sem sair e me divertir.
E tinha bebido.
Essa era a explicação.
Fechei os olhos tentando convencer meu próprio cérebro.
Mas, antes de conseguir dormir, uma última imagem apareceu na minha mente.
Dominic Castellani olhando para mim.
E pela primeira vez em muito tempo...
Eu não sabia dizer se queria fugir dele.
Ou entender por que ele mexia tanto comigo.
— Que merda garota idiota, para de pensar.
Como se meu próprio cérebro fosse me obedecer.
Virei para o outro lado da cama.
O problema era que eu conhecia Dominic há anos.
Conhecia aquele olhar frio.
Aquela postura de homem que parecia nunca perder o controle.
Mas naquela noite, quando ele se aproximou para manter aquele teatro diante dos funcionários, alguma coisa dentro de mim reagiu de um jeito que minha raiva se recusava a aceitar.
E isso me deixava ainda mais irritada.
Porque odiar Dominic Castellani era fácil.
Difícil era entender por que, às vezes, eu esquecia por alguns segundos o motivo.
Suspirei.
Talvez fosse o vinho.
Sim.
Só podia ser o vinho.
Eu tinha bebido demais.
Essa era a única explicação.
Fechei os olhos novamente.
E finalmente consegui dormir.
Ou pelo menos achei que tinha conseguido.
— Valentina...
A voz dele invadiu meu sonho.
Abri os olhos lentamente.
Mas não era o quarto.
Não era a mansão.
Era um lugar diferente.
Escuro.
Silencioso.
Eu conseguia sentir a presença dele antes mesmo de vê-lo.
Dominic estava parado na minha frente.
Sem aquele terno impecável.
Sem aquela expressão fria.
Apenas ele.
O homem por trás da máscara.
— Ainda é mais fácil me odiar? — perguntou.
Eu queria responder.
Queria dizer que sim.
Que ele era arrogante.
Que ele tinha destruído minha paz.
Mas nenhuma palavra saiu.
Porque ele estava perto demais.
Perto o suficiente para eu sentir seu perfume.
Perto o suficiente para meu coração esquecer que deveria estar com raiva.
A mão dele tocou meu rosto.
E naquele instante...
Eu acordei.
Abri os olhos assustada.
O quarto estava escuro.
Silencioso.
Meu coração batia rápido.
Passei a mão pelo rosto.
— Não acredito nisso.
Eu tinha acabado de sonhar com Dominic.
Com aquele homem.
O mesmo homem que eu jurava odiar há tantos anos.
Sentei na cama.
— Isso que dá beber duas garrafas de vinho.
Só podia ser.
Levantei irritada comigo mesma.
Precisava de água.
Talvez uma boa caminhada até a cozinha ajudasse meu cérebro a voltar ao normal.
Saí do quarto em silêncio.
A mansão durante a madrugada parecia outra.
Sem funcionários.
Sem vozes.
Sem movimentos.
Apenas o som dos meus passos de pés descalços pelo corredor.
Desci as escadas lentamente.
Quando cheguei ao último degrau, virei em direção à cozinha.
E foi exatamente nesse momento que meu corpo bateu contra algo.
Ou melhor...
Alguém.
Um braço forte segurou minha cintura antes que eu caísse.
Meu coração disparou.
Conhecia aquele perfume.
Conhecia aquela presença irritantemente calma
Levantei o rosto lentamente.
Por um segundo senti o peitoral firme dele contra o meu corpo.
Mesmo no escuro, consegui enxergar aqueles olhos.
Dominic.
Ficamos alguns segundos sem dizer nada.
Era estranho.
A mansão inteira parecia ter parado junto conosco.
— Você sempre anda pela casa no escuro? — ele perguntou.
A voz baixa dele fez um arrepio percorrer minha pele.
Afastei-me imediatamente.
— Eu poderia perguntar o mesmo.
Ele soltou minha cintura devagar.
— Eu estava indo pegar água.
Cruzei os braços.
— Pois é, eu também.
Silêncio.
Perfeito.
Dois adultos em uma cozinha enorme no meio da madrugada.
Casados.
Por contrato.
E completamente incapazes de agir como se aquilo fosse normal.
Ele abriu o armário e pegou um copo.
Eu fui até a geladeira.
Nossos braços se encostaram novamente.
Foi apenas um toque.
Um segundo.
Mas foi o suficiente para eu me afastar rapidamente.
Dominic percebeu.
Claro que percebeu.
Ele percebia tudo.
— Você ainda me odeia?
A pergunta me pegou desprevenida.
Olhei para ele.
— Essa é uma pergunta séria?
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
Quase imperceptível.
— Talvez.
Peguei meu copo de água.
— Sim.
Ele inclinou a cabeça.
— Muito convincente.
Revirei os olhos.
— Cala a boca, nem começa.
— Eu nem falei nada.
— Seu olhar fala.
Por alguns segundos, ele apenas me observou.
E isso era pior.
Muito pior.
Porque Dominic em silêncio era mais perigoso do que Dominic discutindo.
— Você deveria dormir.
— Engraçado, eu ia dizer exatamente a mesma coisa Dominic.
A frase saiu antes que eu pudesse impedir.
Ele ficou sério.
E pela primeira vez eu vi algo diferente naquele rosto.
Não era arrogância.
Não era frieza.
Era algo que eu não consegui identificar.
— Valentina...
Interrompi.
— Não.
Balancei a cabeça.
— Não tenta fingir que isso é fácil pra mim Dominic.
Ele permaneceu parado.
— Eu nunca disse que seria fácil. Acredite... não é.
A resposta me surpreendeu.
Porque eu esperava uma provocação.
Uma resposta arrogante.
Qualquer coisa que confirmasse que ele era o homem que eu odiava.
Mas não veio.
Apenas silêncio.
E isso me incomodou ainda mais.
Peguei meu copo.
— Boa noite, Dominic.
Passei por ele.
Mas antes de subir as escadas, ouvi sua voz.
— Valentina.
Parei.
Sem olhar para trás.
— O quê?
Alguns segundos se passaram.
— Nada não.
Respirei fundo.
- Lembrei porque te odeio. Você é um idiota e nunca vai mudar.
Ele sempre fazia isso.
Sempre deixava uma pergunta no ar.
Subi as escadas tentando convencer meu coração de que aquele encontro não tinha significado nada.
Era apenas uma cozinha.
Um copo de água.
Uma conversa ridícula no escuro.
Nada mais.
Mas quando voltei para o quarto e fechei a porta...
Eu sabia que estava mentindo para mim mesma.
Porque pela primeira vez desde que Dominic voltou para minha vida...
Eu não tinha pensado no contrato.
Eu tinha pensado nele, e o que aquelas palavras soltas escondiam.
E isso me assustava muito mais do que qualquer cláusula que eu tivesse assinado.
VALENTINAAs palavras dele ficaram suspensas entre nós.Como se o tempo tivesse decidido parar apenas para me torturar.Meu cérebro simplesmente se recusava a processar o que meus ouvidos acabavam de ouvir.Dei um passo para trás.Depois outro.Balancei lentamente a cabeça.— Não...Minha voz saiu tão baixa que mal consegui escutá-la.Dominic permanecia sentado na beira da cama.Os olhos vermelhos.As mãos trêmulas.Nunca imaginei que veria Dominic Castellani destruído daquela forma.Mas, naquele instante...Aquilo deixou de importar.Porque o que ele acabava de dizer...Era impossível.Continuei recuando.— Não impossível...Sorri.Um sorriso completamente sem sentido.Daqueles que aparecem quando a mente tenta escapar da realidade.— Essa não teve graça.Ele não respondeu.
DOMINICA primeira sensação foi a dor.Não no peito.Na cabeça.Uma dor pesada.Como se cada pensamento batesse contra o meu crânio.Abri os olhos lentamente.A luz da manhã atravessava parcialmente as cortinas.Demorei alguns segundos para reconhecer meu próprio quarto.As lembranças vinham em pedaços.O bar.Os copos.Levi.Depois...Escuridão.Passei a mão pelo rosto.Quando tentei me sentar, senti o estômago protestar.Foi então que notei o balde ao lado da cama.As toalhas espalhadas pelo chão.Uma camisa dobrada sobre a poltrona.E...Alguém dormindo ao meu lado.Meu coração parou.Valentina.Ela estava sentada, encostada na cabeceira.O corpo levemente inclinado na minha direção.Uma das mãos ainda repousava sobre meu ombro.Como se tive
VALENTINAA mansão estava silenciosa.Estranhamente silenciosa.Passei a maior parte da noite tentando terminar alguns relatórios da CV Group.Sem sucesso.Lia a mesma página três vezes.E não entendia nenhuma linha.Meu telefone vibrou.Sorri discretamente ao ver o nome de Bia."Vou dormir na casa da Ana hoje. A gente acabou colocando a conversa em dia e perdi a hora kkk. Não me espera."Respondi apenas:"Aproveita. Boa noite."Poucos segundos depois ela enviou um emoji de coração.Sorri sem perceber.Pelo menos alguém naquela casa ainda parecia feliz.Olhei o relógio.Quase duas horas.Dominic ainda não tinha voltado.Estranhei.Ele nunca chegava tão tarde.Pensei em mandar mensagem.Peguei o celular.Desisti.Não fazia sentido.Havia duas semanas...Ele mal r
DOMINICDuas semanas.Dias fingindo que ainda existia alguma normalidade na minha vida.Quatorze dias acordando na mesma mansão.Trabalhando na mesma empresa.Sentando à mesma mesa de reuniões.Olhando para a mulher que eu amava...E repetindo para mim mesmo que nunca mais poderia tocá-la.Se existia algum tipo de punição pior do que aquela...Eu não queria conhecer.Naquela sexta-feira, permaneci na presidência muito depois de todos terem ido embora.O último andar da Castellani estava completamente silencioso.A cidade brilhava do lado de fora através da enorme parede de vidro do meu escritório.Bridgstone nunca dormia.Eu também não.Levantei da cadeira.Afrouxei a gravata.Caminhei até a janela.Lá embaixo...As pessoas continuavam vivendo.Entravam em restaurantes.Voltavam para casa.
VALENTINADuas semanas, foram necessários para eu entender que o silêncio também podia machucar.Ele não gritava.Não discutia.Não quebrava nada.Mas destruía aos poucos.A rotina voltou exatamente ao que era antes das montanhas.Reuniões.Contratos.Assinaturas.Almoços de negócios.Eventos.Coletivas.E Dominic...Sempre a poucos metros de mim.Tão perto.E completamente inacessível.Era estranho perceber como duas pessoas podiam dividir praticamente todos os dias de trabalho e, ainda assim, parecerem desconhecidas.Nas reuniões ele falava comigo apenas o necessário.Chamava meu nome.Ouvia minhas opiniões.Concordava ou discordava.Tudo com absoluta educação.Tudo absolutamente profissional.Nem uma palavra além daquilo.Nem um olhar que demorasse um segundo a mais.E, aos poucos...Eu comecei a fazer exatamente a mesma coisa.Se ele queria distância...Eu lhe daria distância.No começo doeu.Depois...Virou defesa....Naquela manhã desci para o café mais cedo do que de costume.
ValentinaDepois da coletiva que fomos forçados a fazer na biblioteca da mansão depois do evento com investidores.Ficamos apenas Eu, Dominic e Levi na sala.Levi fechou a porta, ficou ao lado como um cão de guarda.Até ele parecia diferente.Permaneci parada, em pé em frente a Dominic.Olhei pra ele e observei alguns segundos.— Então era isso...Ele levanta os olhos.— O quê?Dei uma risada amarga.— O homem das montanhas morreu mesmo.Ele apertou a mandíbula.Não respondeu.Aquilo me machucava de um jeito, que não precisava.Continuei.— Sabe qual é a pior parte?Ele permaneceu em silêncio.— Eu tentei resistir Dominic.Minha voz falhou.— Desde o primeiro beijo. Desde o hotel. Desde aquela primeira noite. Eu dizia que era errado. Que tínhamos um contrato. Que precisávamos parar. Quem sempre avançava...Era você.Ver a culpa atravessar os olhos dele.Mas ele continuar calado.Aquilo me destruia.— Minha mãe chegou a dizer...Dei uma pequena risada sem humor.— "Faz um novo contrato







