INICIAR SESIÓNPOV: Rafael FerrazSete e vinte da manhã.Eu já estava de terno azul-marinho alinhado, sapatos engraxados e a pasta de trabalho fechada sobre a bancada da cozinha.Depois das poucas horas mal dormidas na suíte master, o meu primeiro instinto ao acordar foi restabelecer a ordem. A trégua silenciosa da madrugada, quando dividimos água gelada descalços e olhamos a cidade desarmados, precisava ser soterrada com urgência sob camadas grossas de pragmatismo.Se eu começasse a tratar Isadora Montenegro como uma parceira de verdade em vez de uma aliança de risco, o controle daquela farsa escaparia das minhas mãos antes do fim da semana.O som de saltos firmes na escada de vidro anunciou a descida dela.Isadora entrou na cozinha usando saia lápis preta, camisa de seda branca com os primeiros botões abertos e o cabelo escuro solto caindo pelos ombros. Ela não parecia nem de longe alguém que tinha passado a noite em claro; parecia pronta para tratorar o conselho inteiro da minha empresa.Caminhou
POV: Isadora MontenegroTrês e dezessete da madrugada.Eu estava deitada de olhos abertos na cama da suíte leste, encarando as sombras que a janela projetava no teto branco do quarto.Passei as últimas duas horas tentando desligar a cabeça, mas o silêncio daquela cobertura não era como o silêncio da minha antiga casa. Era um vazio pesado, pontuado apenas pelo estalo térmico do vidro blindado contra o vento da serra e pelo zumbido quase inaudível do ar-condicionado.Cada músculo do meu corpo continuava alerta.A consciência de que Rafael estava a menos de vinte metros de mim, no mesmo mezanino, funcionava como um alarme ligado na minha cabeça.A cena dele girando a chave dourada na tranca antiga do quarto da mãe e batendo a porta na minha cara não saía da minha mente. O homem que me enfrentava nos tribunais e calculava cada movimento da empresa com a frieza de uma máquina tinha uma ferida aberta no meio daquela casa. E eu agora morava dentro dela.Desisti de tentar dormir.Jog
POV: Isadora MontenegroFechei a última gaveta do closet da suíte leste com um empurrão bem firme.Minhas roupas de trabalho estavam penduradas em cabides de veludo, minhas pastas de processos organizadas sobre a escrivaninha de madeira clara e meus perfumes alinhados na bancada de mármore do banheiro. Em menos de duas horas, eu tinha tomado posse de cada centímetro daquele quarto no fim do mezanino.Mas do lado de fora daquela porta, o resto da cobertura continuava sendo território inimigo.Saí para o corredor acarpetado e apoiei as mãos no parapeito de vidro que dava para a sala de estar no piso inferior.O duplex de Rafael Ferraz não parecia a casa de um homem de trinta e quatro anos; parecia a sede de uma embaixada privada.Tudo era monumental, simétrico e estéril. Paredes em concreto polido, sofás de linho grafite e telas de arte abstrata que pareciam escolhidas por um consultor de investimentos, não por alguém que realmente gostava de pintura. Não havia uma única fotografi
POV: Isadora MontenegroOs disparos dos flashes eram tão rápidos que deixavam clarões brancos na minha vista a cada piscada.A bancada de madeira no palco do centro de convenções estava forrada por mais de vinte microfones de emissoras de televisão e portais de economia. Ao meu lado, a menos de trinta centímetros, Rafael vestia um terno sob medida cinza-chumbo, com a postura impecável de quem nasceu para comandar o mercado.— Boa tarde a todos — a voz dele ressoou limpa pelos alto-falantes, calando o burburinho na primeira fila. — Eu e a doutora Isadora Montenegro convocamos esta coletiva para oficializar o fim de todas as disputas judiciais entre os grupos Ferraz e Montenegro, e para consolidar o nosso compromisso público.Uma repórter de finanças levantou a mão no mesmo segundo:— Doutor Ferraz, o mercado foi pego de surpresa pela nota. Como fica a divisão das patentes de inteligência artificial com a unificação das duas empresas?— A transição será coordenada diretamente pela
POV: Isadora Montenegro A caixinha de veludo azul-marinho foi deixada sobre a mesa de centro com uma brusquidão que dizia mais do que qualquer palavra. Rafael deu um passo para trás, enfiando as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, a cara fechada na mesma expressão de quem só estava riscando o próximo item de uma lista burocrática. — A assessoria marcou a nossa primeira coletiva de imprensa para quarta-feira de manhã — avisou, a voz no piloto automático de sempre. — O mercado quer a confirmação visual do noivado. Você não pode aparecer na frente dos repórteres com a mão vazia. Fiquei encarando a caixa fechada por dois segundos antes de esticar o braço e puxar para mim. O veludo estava levemente gasto nas bordas — um detalhe antigo, discreto, que não combinava em nada com o padrão de ostentação que eu esperava de um bilionário querendo impressionar os jornais. Abri a tampa de uma vez. A peça cravada no centro não era uma daquelas joias modernas de vitrine de shopping. Era u
POV: Rafael Ferraz Larguei a pasta de couro preto no centro da bancada de mármore da cozinha da minha cobertura. A certidão de casamento assinada em cartório há menos de vinte e quatro horas repousava no bolso interno do meu paletó, mas aquele papel era só a blindagem jurídica contra o conselho. O que estava prestes a começar entre quatro paredes exigia um nível de controle muito mais rígido. Isadora entrou na cozinha puxando uma mala de mão rígida. Vestia jeans escuro, blazer cinza e sapatos baixos. Correu os olhos pelo espaço amplo, pelas janelas de pé-direito duplo com vista para a serra e, finalmente, pela pasta aberta diante de mim. — Bom dia para você também, Rafael — disse, soltando a mala perto da ilha central. — Já imprimiu o organograma da nossa vida de casados? Ignorei o deboche, empurrando a folha com as diretrizes na direção dela. — O caminhão com as suas caixas chega às duas da tarde com a transportadora que contratei. A portaria já cadastrou o seu reconhecim