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Capítulo 5 — A Chegada ao Povoado

last update publish date: 2026-08-25 22:58:47

A chuva aumentou assim que Lucas e Romeu deixaram o trevo para trás. O céu parecia ter escurecido de repente, e os pingos batiam com força contra o pára-brisa. A estrada, que já era estreita, começou a ficar ainda mais difícil de enxergar.

Romeu reduziu a velocidade.

— Espero que essa estrada esteja certa.

Lucas olhou para a frente.

— A moça disse que era por aqui.

— Você confia nela?

— Não temos muitas opções.

Romeu soltou uma risada.

— Essa é uma ótima maneira de tomar decisões.

Lucas sorriu de leve.

— Continue dirigindo.

Durante alguns quilômetros, os dois seguiram em silêncio. A paisagem havia mudado completamente. Não havia prédios, lojas ou movimento de carros. Apenas árvores, pequenas propriedades e algumas casas distantes umas das outras.

Então, ao longe, surgiram as primeiras luzes.

— Acho que chegamos — disse Romeu.

Lucas se inclinou um pouco para a frente.

Depois de uma curva, apareceu uma placa simples indicando o nome do povoado.

— Finalmente — comentou Romeu.

A entrada era humilde, mas havia sinais de que os moradores estavam esperando aquela visita há algum tempo. Algumas pessoas permaneciam perto da pequena praça, enquanto outras corriam para proteger objetos da chuva.

Lucas estacionou o carro próximo ao prédio onde aconteceria a reunião.

Assim que desceram, um homem de meia-idade correu para recebê-los.

— Senhores Lucas Monteiro e Romeu Tavares?

— Somos nós — respondeu Lucas.

— Sejam bem-vindos. Meu nome é Antônio. Sou responsável pela organização do projeto aqui no povoado.

Antônio apertou a mão dos dois.

— Pedimos desculpas pela chuva.

— Não precisam pedir desculpas — respondeu Lucas. — O tempo não está sob controle de ninguém.

— Mesmo assim, o pessoal estava muito animado para conhecer vocês.

Romeu olhou para o céu.

— Acredito que teremos que esperar.

Antônio assentiu.

— Infelizmente.

Um trovão forte fez algumas pessoas olharem para cima.

— A reunião estava marcada para esta noite, mas não temos condições de reunir os moradores. Algumas famílias vivem longe daqui e precisam voltar antes de escurecer completamente.

Lucas concordou.

— Então adiamos.

Antônio pareceu aliviado.

— Amanhã pela manhã será melhor.

— Qual horário? — perguntou Romeu.

— Nove horas.

— Estaremos aqui.

Antônio sorriu.

— A pousada já está preparada para vocês.

Lucas agradeceu.

— Vamos conhecer o local antes de escurecer.

Antônio fez um gesto para que o acompanhassem.

Os três caminharam por uma área coberta enquanto a chuva continuava caindo.

Lucas observava tudo com atenção.

A escola ficava próxima à praça. Era pequena, com paredes antigas e algumas janelas que precisavam de reparos. Mais adiante havia o restaurante, também simples, mas bastante organizado.

— O projeto é realmente necessário — comentou Lucas.

Antônio assentiu.

— O povoado cresceu, mas a estrutura ficou para trás.

— Quantas famílias vivem aqui?

— Aproximadamente duzentas.

Romeu observou a escola.

— E as crianças?

— Muitas precisam estudar em condições que poderiam ser melhores. Por isso a reforma da escola é uma das nossas prioridades.

Lucas ficou alguns segundos em silêncio.

Aquela realidade era muito diferente da que conhecia na capital.

Não havia luxo, grandes edifícios.Mas havia algo que chamou sua atenção.

As pessoas se conheciam.Cumprimentavam-se pelo nome.

Ajudavam umas às outras.

— A cachoeira fica muito longe daqui? — perguntou Romeu.

Antônio sorriu.

— Não. É um dos lugares mais bonitos que temos. Existe um pequeno lago de águas cristalinas e, depois dele, a cachoeira.

— Então teremos que conhecer.

— No fim de semana o lugar fica cheio. Pessoas de outras cidades vêm passar o dia. Alguns moradores aproveitam para vender doces, artesanato e alimentos.

Lucas olhou para o restaurante.

— Isso pode ajudar muito quando o projeto estiver concluído.

— É justamente o que esperamos.

A chuva começou a diminuir.

Antônio mostrou alguns documentos e explicou os detalhes iniciais das obras. Lucas fez perguntas, anotou observações e conversou sobre os prazos.

Apesar do cansaço da viagem, ele estava interessado.Havia algo diferente naquele projeto.

Não era apenas colocar dinheiro em uma obra.Era ajudar a construir oportunidades.

Depois de quase uma hora, Antônio os acompanhou até a pequena pousada.

O estabelecimento era simples, mas muito aconchegante. Tinha poucos quartos, todos limpos e organizados.

— Espero que fiquem confortáveis — disse Antônio.

— Tenho certeza de que ficaremos — respondeu Lucas.

— O jantar será servido no restaurante da praça, caso queiram.

Romeu sorriu.

— Depois de cinco horas de estrada, qualquer coisa servida será bem-vinda.

Antônio riu.

— Então vou avisar que chegaram.

Depois que ele saiu, Romeu colocou a mala sobre a cama.

— O que acha?

Lucas olhou pela janela.

— É um lugar interessante.

— Só isso?

— O que quer que eu diga?

— Que estamos no meio do nada.

Lucas riu.

— Estamos em um povoado.

— Para mim, é quase a mesma coisa.

Lucas balançou a cabeça.

— Você reclama demais.

— E você está tranquilo demais.

Lucas não respondeu.

Na verdade, estava pensando na jovem que encontrara na estrada.

Aquela imagem ainda estava em sua cabeça.A moça carregando lenha.

As duas crianças caminhando ao lado dela.

O medo que apareceu em seus olhos quando o carro parou.

E a maneira como recusou a carona.

— Está pensando na moça? — perguntou Romeu de repente.

Lucas virou-se.

— Que moça?

Romeu começou a rir.

— A moça da estrada.

— Não.

— Está sim.

— Só estava pensando se ela conseguiu chegar em casa antes da chuva.

Romeu ficou olhando para ele.

— Você nem conhece aquela mulher.

— Eu sei.

— Então por que está preocupado?

Lucas deu de ombros.

— Ela estava com duas crianças.

Romeu sorriu.

— Interessante.

— Não comece.

— Não disse nada.

Lucas pegou o celular.

— Vou verificar alguns documentos.

Romeu continuou sorrindo.

— Claro.

Lucas tentou ignorar o amigo.

Mas, quando abriu o computador, sua concentração não estava nos documentos.

A imagem da jovem continuava voltando à sua mente.Ele não sabia o nome dela.

Não sabia onde morava.Não sabia por que estava carregando lenha.

E muito menos por que tinha ficado tão assustada quando eles ofereceram ajuda.

Só sabia que ela havia recusado a carona mesmo com a tempestade chegando.

Enquanto isso, em algum ponto daquele mesmo povoado, a jovem finalmente chegava em casa com as duas crianças.

Lucas não fazia ideia de que aquele encontro breve na estrada havia sido apenas o primeiro capítulo de uma história que nenhum dos dois havia planejado viver.

Na manhã seguinte, o povoado amanheceu diferente.

A notícia de que os responsáveis pelo projeto haviam chegado se espalhou rapidamente.

Os moradores estavam ansiosos.

A possibilidade de novas casas, uma escola maior, melhorias no restaurante, na pousada e na igreja significava muito mais do que obras.

Significava empregos, movimento e esperança.

Lucas e Romeu ainda não sabiam disso completamente.

Mas, quando saíssem da pousada naquela manhã e encontrassem dezenas de moradores reunidos na praça, começaram a perceber que aquele projeto poderia mudar muito mais do que algumas construções.

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