FAZER LOGINROSÁLIA DUARTE CINCO ANOS DEPOIS — Aurora! Dante! Desçam da árvore agora! Minha voz reverberou pelo jardim da casa de campo no Hudson Valley. Do alto do carvalho antigo, dois pares de olhos me encararam. Um par castanho, travesso e destemido, pertencente a Dante Petterson, agora com quase nove anos. E um par de olhos verdes intensos, idênticos aos do pai, pertencentes a Aurora Mirantes, de quatro anos e meio. — Mas mãe! — Aurora gritou, pendurada num galho com uma destreza que me dava mini-infartos diários. — O Dante disse que eu não conseguia subir! Eu tinha que provar! — E você provou! — gritei de volta, com as mãos na cintura. — Agora prove que consegue descer sem quebrar um braço, ou seu pai vai ter um treco! — Tarde demais. O pai já está tendo um treco. Virei-me. Celso estava vindo da varanda, com a pequena Ester Petterson no colo, filha mais nova de Cristina. Ele olhou para cima, viu nossa filha pendurada a três metros do chão e empalideceu sob o bronzeado. — Au
ROSÁLIA DUARTEDOIS ANOS DEPOIS Eu estava sentada na poltrona da biblioteca, com uma xícara de chá fumegante ao lado, segurando um envelope de papel simples com selos internacionais. A carta tinha chegado ontem, mas só agora, com o silêncio da manhã de domingo, tive coragem de abrir. Não havia remetente no verso, apenas iniciais: C.M. Desdobrei o papel. "Rosália, Escrevo de Hanói, no Vietnã. A condicional acabou semana passada, e eu cumpri a promessa. Estou longe. Aqui, ninguém sabe quem são os Mirantes. Ninguém se importa com sobrenomes ou heranças. Trabalho em uma empresa portuária. Estou na supervisão de turno. É trabalho duro, sujo e honesto. E, pela primeira vez na vida, durmo sem precisar de pílulas. Não vou pedir para voltar. Não vou pedir dinheiro. Só queria que soubesse que estou construindo algo, tijolo por tijolo, como você disse que eu deveria fazer. Espero que você e o cabeça-dura do meu irmão estejam felizes. Vocês merecem. Célio Mirantes." Passei o polegar sobre
ROSÁLIA DUARTE O mundo ainda estava girando. As ondas do orgasmo ainda percorriam minhas terminações nervosas, deixando meus dedos e pés formigando. Eu me sentia flutuando, leve e satisfeita. Mas então, Celso se moveu.Ele subiu, ficando sobre mim como uma montanha de músculos e desejo não resolvido. Os olhos dele estavam escuros, dilatados, quase negros. Havia algo primitivo neles. Não era o olhar carinhoso do altar. — Celso... — tentei chamar, mas a voz saiu um suspiro. Ele não respondeu. Com uma mão grande, ele segurou meus dois pulsos e os levou para cima da minha cabeça, prendendo-os contra o travesseiro com facilidade. Eu não lutei. Eu não queria lutar. A sensação de estar à mercê dele era embriagante. Com a outra mão, ele agarrou meu joelho direito e empurrou minha perna para cima e para o lado, dobrando-a contra o meu peito, me abrindo completamente. Ele se posicionou entre as minhas pernas. Senti a ponta do pau dele na minha entrada, inchada, quente e enorme. Ele não
CELSO MIRANTES A viagem de carro durou pouco menos de duas horas, mas para mim, pareceu uma travessia transatlântica. Deixamos a festa no auge, escapando dos convidados e das câmeras sob a desculpa de exaustão, mas a verdade era outra. Eu estava exausto de compartilhar Rosália com os outros. Precisava dela sozinha. Só minha. O destino era uma propriedade privada nas montanhas de Beacon, longe o suficiente para garantir privacidade absoluta, mas perto o suficiente para não perdermos tempo de estrada. O motorista parou em frente à entrada. As luzes automáticas se acenderam, iluminando o caminho de pedras. — Sr. Mirantes, Sra. Mirantes — o motorista disse, abrindo a porta. — Tenham uma boa noite. — Obrigado, Roberto. Pode tirar a semana de folga — respondi, puxando Rosália para fora do carro. Ela riu, segurando a saia do vestido branco curto que tinha trocado para a viagem. Era um vestido de seda simples, de alças finas, que deslizava pelo corpo dela como água. Eu tinha me livrado
ROSÁLIA DUARTESaímos do quarto. O corredor da mansão era longo, adornado com pinturas antigas. A cada passo, meu coração acelerava. Descemos a escadaria principal. O som de um quarteto de cordas tocando uma versão instrumental e suave de Can't Help Falling in Love flutuava pelo ar. Chegamos às portas duplas que davam para o jardim de inverno, onde a cerimônia aconteceria. As portas se abriram. Todos os rostos se voltaram para mim. Vi Lauro Tamiso, vi colegas de trabalho, vi amigos. Mas minha visão afunilou. O resto do mundo ficou desfocado. No fim do corredor, sob um arco de gardênias e rosas brancas, estava ele. Celso Mirantes. Ele estava de tirar o fôlego. O smoking parecia ter sido esculpido no corpo dele. No momento em que nossos olhos se encontraram, vi os olhos verdes dele brilharem com lágrimas não derramadas. Vi a boca dele se entreabrir em choque e adoração. Apertei o braço de Ethan. — Pronta? — Ethan sussurrou. — Mais do que nunca. Começamos a caminhar. Cada pa
ROSÁLIA DUARTE SEIS MESES DEPOIS... O espelho de corpo inteiro devolvia a imagem de uma mulher que eu conhecia intimamente, mas que, ao mesmo tempo, parecia uma estranha maravilhosa. O vestido não era o modelo "princesa exagerada", era um corte sereia em seda mikado, com um decote ombro a ombro que valorizava o colo. Levei a mão ao pescoço, tocando o colar de esmeraldas que pertencia à mãe de Celso, era o par do anel que agora repousava na minha mão esquerda, esperando pela aliança definitiva. — Você está... — Escutei a voz da maquiadora atrás de mim. — Você está uma obra de arte, Sra. Mirantes. Quer dizer, futura Sra. Mirantes. Sorri para o reflexo. Seis meses. Parecia uma vida inteira. Enquanto a maquiadora retocava, minha mente viajou. Não para o futuro que começaria em alguns minutos, mas para a estrada sinuosa que tínhamos percorrido até aqui. Os preparativos do casamento tinham sido, previsivelmente, uma briga de vontades. Celso queria fechar o Museu de História Natural.







