MasukElas transbordaram antes que eu pudesse impedi-las. Trilhas quentes descendo pelas minhas bochechas.Mãe. Ah, mãe.Se ela pudesse ver o dia de hoje. Se pudesse estar aqui agora. Se pudesse ver como aquelas palavras ditas casualmente anos atrás se tornaram realidade dessa forma tão milagrosa. Me ver vestindo o vestido que ela idealizou. Caminhando em direção a alguém que realmente me valoriza e me ama. Ela ficaria tão, tão feliz. Eu sabia disso até os ossos.O dia do casamento chegou. Foi grandioso. Magnífico. Muito além de tudo o que eu jamais imaginei. O local estava decorado com milhares de rosas brancas. Lustres de cristal pendiam do teto, espalhando luzes coloridas por todo o ambiente. Quando vesti aquele vestido, mal consegui respirar. Ele servia perfeitamente. Como se tivesse sido feito sob medida para mim. O que, de certa forma, tinha sido.O tecido era suave contra a minha pele. Os bordados captavam a luz a cada movimento. Olhei no espelho e vi a visão da minha mãe ganhar v
Uma semana antes do casamento, os pais de Caspian finalmente retornaram às pressas da África. Pareciam cansados da longa viagem. Empoeirados pelo deslocamento. Mas os olhos brilhavam de entusiasmo. Os ventos do deserto não diminuíram em nada o ânimo da Sra. Shore. Nem um pouco sequer.No momento em que entrou pela porta, largou as malas e veio direto até mim.— Aria! Deixa eu te ver!Ela segurou minhas mãos. Apertou com força. O sorriso era tão caloroso que fez meu peito doer.O Sr. Shore veio logo atrás, carregando várias malas. Colocou-as no chão com um resmungo e me dirigiu um aceno gentil.— Bom te ver novamente, Aria. Você parece bem.— Obrigada por voltarem tão rápido. — Eu disse. — Sei que estavam no meio de um trabalho importante.— Bobagem! — A Sra. Shore me interrompeu. — O casamento do nosso filho é a coisa mais importante do mundo! Todo o resto pode esperar!Ela me puxou até o sofá. Fez com que eu me sentasse. A energia dela era contagiante.— Agora, tenho algo pa
A encenação caiu por completo, substituída por um medo cru e verdadeiro. Ela voltou a rastejar em direção a ele, de quatro, abandonando qualquer resquício de dignidade. Agarrou-se desesperadamente à perna dele com as duas mãos, desta vez chorando de verdade. Lágrimas reais, não as fabricadas sinteticamente de antes.— Não, não faça isso! Por favor, Ethan, não faça isso!A voz dela quebrou, ficando aguda e desesperada.— Eu errei! Eu sei que errei de verdade! Eu admito, eu admito tudo!A confissão saiu atropelada, num jorro.— Fui eu! Tudo foi eu! Mas eu só fiz essas coisas porque te amava demais!Ela já soluçava, catarro e lágrimas se misturando no rosto.— Eu não suportava o jeito que você olhava para ela! Não suportava você se casar com ela quando deveria ser comigo!Os dedos cravaram-se na perna dele, as unhas prendendo no tecido.— Por favor, pelo tempo que nos conhecemos, pelo acidente de carro que eu sofri por você, não chame o executor! Por favor!Agora ela implorava,
Ethan empurrou violentamente a porta da vila com as duas mãos. A força foi tamanha que a porta bateu contra a parede com estrondo. O som pesado ecoou pela sala de estar vazia, reverberando no teto alto e fazendo o espaço parecer ainda mais oco do que já era.Selene estava sentada no sofá no centro da sala, completamente à vontade. Pintava as unhas com tranquilidade, num tom vermelho profundo. A própria imagem do conforto doméstico, como se aquele lugar lhe pertencesse. Ao ver que apenas ele voltara, sozinho e em desalinho, um lampejo de alegria triunfante atravessou seus olhos.Vitória. Finalmente.Mas a expressão desapareceu num instante, substituída pela máscara de sempre. Uma inocência suave se espalhou por seu rosto, como um figurino usado vezes demais. Só naquele momento Ethan realmente enxergou. Enxergou de verdade que tipo de coração venenoso se escondia por trás daquela aparência frágil. Como ele tinha sido tão cego?Selene pousou o esmalte com cuidado, certificando-se de n
Ethan praticamente fugiu em pânico, as pernas o carregando para longe antes que a mente conseguisse processar completamente o que acabara de testemunhar. Sem ousar olhar para trás, sem coragem de encarar minha figura sendo envolvida nos braços de outra pessoa. Ele tropeçou de volta para aquela vila que agora parecia insuportavelmente vasta e fria.Seu coração parecia estar sendo esmagado por uma mão gelada, a pressão aumentando a cada batida. Uma dor sufocante se espalhava por seus membros, tornando cada passo mais pesado que o anterior. Ele não conseguia acreditar. Não conseguia aceitar. A pessoa que ele sempre favoreceu, protegeu, defendeu contra todos — inclusive contra mim —era, na verdade, uma mulher tão cruel e dissimulada. Como ele tinha sido tão cego?Parado diante da porta fechada da vila, Ethan se sentiu completamente perdido pela primeira vez na vida. O vento noturno soprou, trazendo um frio cortante que atravessava o casaco e atingia os ossos. Mas ele mal percebeu. Estav
Mas meu olhar de repente congelou. Meus pés pararam de se mover. Não muito longe, Caspian estava ali parado em silêncio. Completamente imóvel. Seus olhos escuros fixos em mim. Eu não sabia há quanto tempo ele estava ali. Quanto tinha ouvido. Meu coração deu um solavanco violento. O chão pareceu sumir sob meus pés. Um constrangimento e um pânico indescritíveis me tomaram instantaneamente. Apertaram minha garganta como um punho. Todas aquelas acusações histéricas que eu tinha acabado de fazer. Todas aquelas emoções feias que eu tinha despejado. Toda a minha dor, minha raiva e minha amargura. Ele tinha ouvido tudo. Cada palavra. Eu quis que o chão se abrisse e me engolisse inteira.Forcei-me a reprimir o alarme que gritava pelas minhas veias. Tentei agir com naturalidade enquanto caminhava em direção a ele. Como se meu mundo não estivesse desmoronando. Como se eu não estivesse morrendo por dentro. Mas meu corpo me traiu. As pontas dos meus dedos tremiam levemente. Afundei as unhas com ma