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Capítulo 46 – As raízes que restaram

last update Data de publicação: 2026-05-22 05:42:12

Ponto de vista: Pamela

O sol entrava pelas frestas do telhado da oficina, mas não aquecia o vazio dentro de mim.

A caixa de metal estava aberta. Vazia. Os diamantes que meu pai supostamente teria roubado — que ele nunca roubou — não estavam mais ali. Sônia levou. Ou alguém mandado por ela. Não importava mais. O que importava era que a gente tinha chegado tarde demais.

Apertei o envelope com a certidão de inocência contra o peito. As lágrimas secaram no meu rosto. Não sobrava mais choro. Só um c
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    Ponto de vista: PamelaTrês anos depois.O sol da tarde dourava as montanhas lá longe, pintando o céu de tons de laranja e rosa. O vento soprava macio, balançando as cortinas de voal da varanda, trazendo o cheiro de terra molhada e flores.O sítio do avô de Lucas estava irreconhecível.A casa velha tinha ganhado uma nova pintura — branca, com detalhes em azul marinho. O jardim, antes abandonado, agora era um mar de cores. Rosas vermelhas, amarelas, brancas, cor-de-rosa. Plantadas pelas nossas mãos. Regadas com paciência. Cuidadas com amor.E elas tinham florescido.— Mamãe! Mamãe! Olha o que eu achei!A voz infantil ecoou pelo jardim. Um menino de três anos, cabelos castanhos cacheados e olhos cor de mel — iguais aos do Lucas — corria na direção da varanda. Nas mãos pequenas, uma flor amarela murcha. Ele a ofereceu como se fosse um tesouro.— Para você — disse, o sorriso desdentado.— Obrigada, meu amor. — Me ajoelhei. Recebi a flor. Abracei ele com força. — É a flor mais linda do jar

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    Ponto de vista: PamelaDepois de tantos meses e tantas consultas, pela primeira vez, aquela maternidade não cheirava apenas a álcool, mas a esperança.Ou talvez fosse só o cheiro de sempre. Eu não sabia mais distinguir. Depois de tantas visitas, tantas consultas, tantos exames, o lugar tinha se tornado familiar. As paredes cor de rosa, as cadeiras de plástico branco, as revistas velhas na mesa de centro. As mulheres grávidas na sala de espera, as mãos nas barrigas, os sorrisos ansiosos.Eu nunca pertencia àquele lugar.Lucas estava ao meu lado dessa vez. A mão dele apertava a minha com força — não de nervosismo, de apoio. Ele tinha vindo a todas as consultas nos últimos meses. Não faltou uma. Nem quando o trabalho apertava. Nem quando a reunião era importante. Ele estava ali. Sempre.A médica, Dra. Lúcia, entrou na sala com uma pasta na mão.O rosto dela estava sério.Meu coração apertou.— Sra. Alencar. Sr. Alencar. — Ela sentou na cadeira em frente a nós. A pasta foi aberta. Os papé

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    Ponto de vista: LucasA ambulância cortava o trânsito como uma navalha.As sirenes berravam. As luzes vermelhas e azuis giravam, refletindo nos vidros dos prédios, nos rostos curiosos das pessoas nas calçadas. O paramédico trabalhava sem parar ao lado de Pamela — aferindo os sinais, ajustando o soro, comprimindo o ombro dela para estancar o sangue.Eu não tirava os olhos dela.Pálida. Tão pálida que os lábios estavam brancos. Os cabelos bagunçados espalhados na maca. A camiseta encharcada de sangue — o sangue dela, que não parava de escorrer mesmo com os curativos.— Ela vai ficar bem? — perguntei pela quinta vez.— Estamos fazendo o possível, sr. — O paramédico respondeu pela quinta vez. — O tiro acertou o ombro. Não pegou órgãos vitais. Mas ela perdeu muito sangue. Vai precisar de cirurgia.— Ela não pode morrer.— Vamos fazer de tudo para que não morra.Apertei a mão dela. A mão fria. Os dedos finos, trêmulos. Ela não respondia ao toque — estava apagada, os olhos fechados, a respir

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    Ponto de vista: LucasO tempo parou.Macedo ergueu a arma. O cano escuro apontou para o meu peito. Os olhos dele estavam vidrados, desesperados — um animal acuado que só sabia morder.— Você escolheu morrer — ele disse, o dedo no gatilho.Eu ia atirar primeiro.Já estava com o braço erguido, a mira na cabeça dele, o pensamento frio e calculado.Cabeça. Colete. Não erra. Um tiro só.Foi quando ela se moveu.Pamela.Amarrada. Amordaçada. Machucada. Exausta.Ela se jogou.Com um esforço sobre-humano, a cadeira rangendo, as cordas arranhando os pulsos, ela se lançou para a frente — para o lado — para dentro da linha de tiro.— NÃO! — gritei.O tiro veio.O estrondo ecoou pelo depósito como um trovão. Os pássaros lá fora voaram assustados. A luz fraca tremeu.E ela caiu.O sangue espirrou. Vermelho vivo. Brilhante. Quente.Pamela caiu no chão de terra batida como um boneco de pano. O ombro dela — o ombro direito — estava aberto, jorrando. Os olhos dela se arregalaram. A boca, mesmo com a f

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    Ponto de vista: LucasA arma estava apontada para o peito de Macedo.Mas eu não atirava.Não porque não quisesse. Não porque tivesse medo. Mas porque se eu atirasse e errasse, ele atiraria de volta. E se ele atirasse de volta, o tiro poderia acertar Pamela."Ele usa colete à prova de balas. Não atira no peito. Mira na cabeça."As palavras de Luciano ecoavam na minha mente. Colete. Ele usava colete. Se eu atirasse no peito, não morreria. E no tempo que eu levasse para mirar de novo, ele já teria atirado nela.Espera.Espera o momento certo.Macedo quer negociar. Ele sempre quer negociar. Use isso.— Você não tem coragem, Lucas. — Macedo repetiu, a arma ainda apontada para Pamela. O cano tremia levemente. Ele estava nervoso. Desesperado. Perigoso. — Eu conheço gente igual a você. Gente que nunca sujou as mãos. Gente que sempre teve empregados para fazer o trabalho sujo.— Você não me conhece. — Minha voz saiu calma. Mais calma do que eu me sentia. — Não sabe do que eu sou capaz.— Sei,

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    Ponto de vista: LucianoO escritório de arquitetura estava escuro quando entrei.A chave que Pamela tinha dado a Marcos — a chave reserva, guardada para emergências — girou na fechadura com um clique seco. A porta rangeu. O cheiro de café velho e papel impresso ainda pairava no ar, como se o dia tivesse terminado há minutos, não há horas.A luz do corredor iluminava parcialmente a sala. As plantas na estante. Os projetos na mesa. A xícara de café frio ao lado do computador.E Marina.Ela estava de costas para mim, curvada sobre a gaveta da mesa de Pamela. As mãos dela se moviam frenéticas, pegando papéis, rasgando, amassando, jogando no chão. O cabelo rosa estava bagunçado, preso num coque desfeito. A camiseta amassada. Ela tremia.— Marina. — Minha voz ecoou no silêncio.Ela congelou.Os ombros dela subiram e desceram com a respiração ofegante. Devagar, como se cada movimento doesse, ela virou o rosto.Os olhos dela estavam vermelhos, inchados de chorar. A maquiagem borrada. As olhei

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