FAZER LOGINImpulsionada pela promessa de Pedro na noite anterior, Isabella acordou com uma leveza que não sentia há tempos. O dia na casa dos pais passou voando, entre o almoço em família e a animada notícia de que sua irmã, Clara, iria visitar o país A daqui uma semana. A ansiedade para o reencontro com o marido crescia a cada minuto.
A despedida foi agridoce. Já no avião, ela enviou uma mensagem curta para Pedro: "Embarcando". A resposta, um simples "Ok", ameaçou seu bom humor, mas ela se recusou a deixar que a frieza a abalasse. Para ela, o importante é que ele sabia que estavam a caminho, e era isso que importava. Quando pousaram no país A, a voz animada de Benjamin cortou o barulho do saguão. — Olha, mamãe, é o papai! Isabella seguiu a direção que o dedinho de Benjamin apontava e o viu. Lá estava ele. Pedro. Atravessando a multidão como se ela se abrisse para ele, com aquela postura confiante que era tão sua. Ele usava uma camisa escura, de um tecido que parecia abraçar seus ombros largos, destacando a força de seus braços. Ele não estava sorrindo, seu rosto mantinha uma expressão concentrada, os olhos fixos neles. E, naquele instante, para Isabella, todo o resto desapareceu. Ele estava ali. Ele veio. Quando os olhares deles se encontraram, ele sorriu. Aquela era a contradição favorita de Isabella: a mandíbula forte e a barba bem-feita lhe davam um ar poderoso, mas seus olhos negros e profundos eram a combinação perfeita. O coração dela acelerou ao vê-lo. Talvez fosse porque não o via havia quatro dias, mas ele parecia mais bonito. Quando chegou perto deles, Pedro pegou Benja no colo, o abraçou e depois perguntou a Isabella: — Precisa de ajuda com as malas? — Não, está tudo bem. Ele a esperou pegar o restante e, mesmo ela dizendo que não precisava, tomou a mala que estava na mão dela e a levou até o carro, enquanto Benja permanecia em seu colo. Isabella ficou os observando, por um breve momento, ela se permitiu viver um conto de fadas do qual não queria acordar. A fantasia, no entanto, terminou no estacionamento. O motorista, Bruno, os esperava. — Tenho que voltar para a construtora agora — disse Pedro, a voz apressada. — Nos vemos à noite, no jantar. Ele se despediu do filho, entrou em seu próprio carro e partiu. A indiferença doeu. Menos de uma hora juntos, sem um abraço, sem um beijo. A distância entre eles parecia um abismo. Ao chegar em casa, o ar familiar parecia sufocante. Na sala, Madalena e sua filha, Susi, a cumprimentaram, os rostos uma mistura de curiosidade e preocupação. — Sra. Isabella, está tudo bem? — perguntou Madalena. — Sim... só estou cansada — respondeu Isabella, a voz fraca. — Pode cuidar do Benja hoje? Por favor. Assim que Madalena concordou com a cabeça, Isabella subiu as escadas rapidamente em direção ao seu quarto. A compostura que ela lutou tanto para manter durante todos esses últimos dias se desfez em um instante. Ela não se deu ao trabalho de acender a luz ou tirar os sapatos. Apenas se atirou na cama, o corpo caindo sobre o edredom macio. Seu rosto afundou no travesseiro, e o primeiro soluço rasgou sua garganta, violento e doloroso. Não era um choro silencioso. Eram ondas de angústia que a sacudiam por inteiro. Ela chorou pela humilhação, pela confusão, pela raiva que borbulhava sob a superfície. Mas, acima de tudo, chorou porque se sentia sozinha. Terrivelmente, absolutamente sozinha, no meio da casa que chamavam de lar, na cama que compartilhavam. Em algum ponto, no meio daquela escuridão e daquele silêncio que só era quebrado por sua própria dor, a exaustão a venceu. O choro a levou para um sono pesado, do qual ela só acordou quando a luz do sol da manhã invadiu o quarto. **** Pedro não voltou para casa naquela noite. Ele só retornou na manhã seguinte, bem cedo, movido por uma necessidade urgente de se reconectar com o filho. Foi direto ao quarto de Benjamin e o acordou com um sussurro: — Campeão, vamos buscar o café da manhã? A ideia era simples: ir à padaria, comprar pães quentinhos e os bolos que o menino adorava. Era uma desculpa. O que ele realmente queria era passar mais tempo com o filho, ouvir sua risada, ter um momento que fosse só deles, sem a sombra de mais ninguém. Antes de saírem, ele encontrou Madalena na cozinha e deu as instruções com uma voz baixa, mas firme. — Madalena, bom dia. Uma moça chamada Jessica virá hoje, ela será a nova babá. Quando ela chegar, por favor, peça para que espere na sala de estar. Não a deixe vagando pela casa. — Ele fez uma pausa e acrescentou: — E se Isabella acordar antes de voltarmos, avise a ela sobre a chegada da babá. Com as instruções dadas, ele pegou a mão de Benjamin e saiu, deixando para trás uma casa que mal sabia que estava prestes a ter sua paz abalada novamente. Quando Isabella acordou, a moça já estava na sala. Pedro ainda não tinha voltado. Madalena subia com o café da manhã e contou tudo. Isabella, curiosa para conhecer a nova babá, desceu, mesmo estando de pijama. Assim que a viu, percebeu que não parecia ser uma babá qualquer. A mulher que se apresentou como "Jessica, a nova babá" era uma completa contradição com tudo o que ela esperava. A palavra "babá" evocava imagens de praticidade, talvez um sorriso cansado e roupas confortáveis. Jessica não era nada disso. Sua beleza era do tipo que silencia um ambiente, com uma aparência angelical que lembrava uma boneca de porcelana: pele alva, rosto em formato de coração e olhos de um azul vívido. Mais o que quebrava mesmo a lógica eram suas roupas. Em vez de algo prático, ela vestia uma calça de alfaiataria branca e uma blusa de seda rosa, peças que denunciavam marcas de luxo. Cada detalhe, dos sapatos de couro ao bracelete de ouro, era um testemunho silencioso de que vinha de uma família rica. A pergunta era inevitável: o que uma garota como ela, que parecia uma boneca de porcelana vestida em alta costura, estava fazendo ali? Isabella achou que Madalena havia se enganado sobre ela ser a babá e perguntou: — Bom dia! — começou ela, com uma polidez que mal escondia a curiosidade. — Quem é você? A resposta não veio com palavras, mas com um olhar. Um olhar que a percorreu de cima a baixo, lento e deliberado, carregado de um desdém tão palpável que Isabella sentiu um arrepio. A mulher, Jessica, ergueu uma sobrancelha perfeitamente arqueada, como se a simples presença de Isabella fosse uma ofensa. — Não te interessa quem sou eu — a voz dela era fria, cortante como vidro. — Agora, saia daqui. Estou esperando o dono da casa.(Oscar) Um ano desde que a vi caminhar em minha direção, em um vestido que parecia feito de luz do sol, na vinícola de sua família. Um ano desde que prometi, diante de todos que amamos, dedicar minha vida a ela e ao nosso filho. E, esta noite, olhando para a casa que ela projetou, sinto que a promessa se renova a cada pôr do sol. A casa no topo da colina era mais do que uma estrutura de vidro, madeira e pedra, era o nosso lar. Projetada por Isabella, cada linha, cada janela panorâmica, cada ambiente era um reflexo da nossa história. Da ampla sala de estar, a vista do pôr do sol era espetacular, pintando o céu com os mesmos tons de laranja e coral das flores que um dia lhe dei, uma lembrança poética do início de tudo, que me faz sorrir sempre que a vejo. Observo Isabella, agora, concentrada em um esboço, e meu peito se enche de um orgulho que mal consigo conter. A carreira dela decolou. Seu escritório, agora com uma pequena e dedicada equipe, é um dos mais requisitados da cidade.
(Isabella) Três meses. Fazia três meses que eu estava me preparando para deixar de ser Isabella Andrade para me tornar Isabella Almonte, e a paz que eu sentia naquele dia ainda parecia tão vívida quanto a luz do sol que entrava pela janela do nosso quarto esta manhã. Fechei os olhos por um instante, aquele dia, nítido e perfeito. O sol do país Y derramava uma luz dourada e suave sobre os jardins da vinícola da minha família. O lugar, que guardava tantas memórias da minha infância, havia se transformado em um cenário de conto de fadas. Enquanto eu caminhava em direção ao altar, sentia o tecido do vestido que eu mesma desenhei fluir a cada passo, movendo-se como uma extensão da minha própria felicidade reencontrada. Eu não estava apenas deslumbrante; pela primeira vez em anos, eu estava em paz. Ao meu lado, Oscar me esperava. O sorriso em seu rosto não era apenas de alegria, mas de uma profunda reverência que fazia meu coração transbordar. Em seu terno de linho claro, ele parecia
A fúria que impulsionou Oscar do escritório de seu pai até o prédio de Isabella se transformou em uma ansiedade desesperada durante o trajeto. Cada semáforo vermelho era uma tortura, cada carro lento em seu caminho, um obstáculo para o que mais importava no mundo. Ele não estava mais pensando em negócios, em impérios ou em legados. Estava pensando nela. Na dor que ele, indiretamente, causou. Na mentira que ela foi forçada a contar. No amor que ele quase perdeu. Ele parou o carro de qualquer jeito em frente ao prédio, sem se importar com a vaga. Não anunciou sua chegada. Apenas entrou, o coração martelando contra as costelas, e torceu para que o porteiro, que já o reconhecia, o deixasse subir. No apartamento, o clima era de uma calma melancólica. Clara e Patrícia tentavam animar Isabella, que estava sentada no sofá, o olhar perdido, uma taça de vinho intocada na mesinha de centro. A campainha tocou, estridente, quebrando o silêncio. — Ué, está esperando alguém? — perguntou Pat
(Oscar) A imagem de Isabella, de joelhos, chorando em meio a cacos de vidro, se recusava a sair da minha mente. A dor que Pedro descreveu era tão vívida que eu podia senti-la como se fosse minha. Meu pai. Aquele desgraçado. Ele não apenas a ameaçou; ele a quebrou. Saí da sala privativa enfurecido, Rafael e Gabriel em meu encalço. Eu não via nada, não ouvia nada além do sangue pulsando, e em meus ouvidos o nome do meu pai ecoando como uma maldição. O caminho para o escritório do meu pai foi de uma fúria silenciosa. Cada passo que eu dava no mármore polido do lobby era uma batida surda de raiva contida. Rafael caminhava ao meu lado, o rosto sério, uma solidariedade silenciosa que valia mais do que mil palavras. A revelação de Pedro não tinha apenas me chocado, tinha acendido um pavio que queimava em direção a décadas de pressão, de expectativas, da constante sensação de ser uma peça no tabuleiro de xadrez do meu pai, e não um filho. Não bati na porta do escritório dele. Apen
(Pedro) Essas duas palavras eram como pequenas agulhas sendo enfiadas no meu peito... "Tio Oscar". Virei-me e olhei para onde ele apontava. E lá estava ele. Oscar Almonte, flanqueado por seu irmão e primo, sendo conduzido por um maître em direção a uma área de salas privativas. Ele não parecia o mesmo homem da festa. Havia uma sombra em seu rosto, uma ausência daquele brilho arrogante e confiante. Parecia... Triste, derrotado. — Tio Oscar! — gritou Benjamin, a voz aguda ecoando no lobby. Mas o trio não ouviu. Eles desapareceram atrás de uma porta de madeira escura. O rosto de Benjamin se encheu de uma decepção genuína. — Ele não me ouviu, papai. — Ele devia estar ocupado, filho — disse eu, tentando guiar o grupo para a mesa, sentindo uma estranha e indesejada pontada de algo. Enquanto caminhávamos, Benjamin puxou a manga da minha camisa e se aproximou, como se fosse contar um grande segredo. — Papai... — sussurrou ele, a voz infantil cheia de uma seriedade que não c
(Pedro) A manhã de terça-feira começou como qualquer outra. Reuniões, telefonemas, a pressão constante de gerenciar um império. Eu estava no meio de uma análise de projeções financeiras, os números se embaralhando na minha frente, quando uma sensação estranha começou a se instalar. Um vazio. Uma ansiedade que não tinha nada a ver com as planilhas ou os contratos. Era a ausência de barulho. A ausência do som de pezinhos correndo pelo corredor, de uma risada infantil interrompendo uma ligação importante. A ausência de do meu filho, Benjamin. Larguei a caneta e me recostei na cadeira, olhando pela janela do meu escritório sem realmente ver a cidade. Desde o divórcio, os dias em que Benja não estava comigo eram mais silenciosos, mais longos. E naquela manhã, o silêncio estava particularmente ensurdecedor. Peguei o celular, movido por um impulso que era mais forte que qualquer lógica de negócios. A desculpa era o almoço, mas a necessidade era minha. Eu precisava de algo real,







