FAZER LOGINGuilherme
Quatro anos... É estranho pensar em como o tempo voa. Parece que foi ontem que deixei essa casa, os abraços apertados dos meus pais e aquele cheiro de café fresco que sempre me dava a sensação de lar. Mas, aqui estou eu, de volta… com 29 anos e trazendo comigo alguém muito especial.
— Eles vão gostar de você, Grace. sorri, apertando levemente a mão dela enquanto manobrava o carro para estacionar em frente à casa dos meus pais.
— Você acha mesmo? Ela ajeitou o cabelo, cruzando o olhar comigo. Sempre tão segura, mas naquele momento, parecia até um pouco nervosa. — Tenho certeza. garanti, sentindo aquele frio estranho no estômago.Desci do carro e, antes mesmo de bater na porta, ela se abriu. Minha mãe, como sempre, correu me abraçar, com aquele jeitinho
exagerado que só mãe tem.
— Meu menino! apertou meu rosto entre as mãos. — Você tá tão lindo, tão homem...E, então, seus olhos se voltaram pra mulher ao meu lado. — E essa moça linda?— Mãe, essa é a Grace. falei, sorrindo. — Minha namorada.
— É um prazer te conhecer, senhora. Grace sorriu, educada, estendendo a mão, mas minha mãe nem ligou pra formalidades. — Que senhora, menina! Me dá logo um abraço. respondeu ela, puxando Grace pra perto, rindo.Aquela cena me arrancou um sorriso. Meus pais sempre foram assim... de braços e coração abertos.
O almoço foi cheio de conversas, risadas e aquela típica fartura de comida que só casa de mãe tem. Eles logo se encantaram pela Grace, e não é pra menos. Ela é inteligente, educada, divertida e tem aquele charme natural que conquista qualquer um.
Depois do almoço, subi pro meu antigo quarto, querendo matar a saudade de cada detalhe daquele espaço que, de alguma forma, ainda parecia meu. Mas, assim que empurrei a porta, algo me fez parar. Sobre a cômoda, um envelope. Branco. Simples. Mas eu reconheceria aquela caligrafia até de olhos fechados.
Peguei. Meu coração acelerou, como sempre acontecia quando uma dessas cartas aparecia. Abri, quase segurando a respiração.
"Sua namorada é linda. Que vocês sejam muito felizes. Que a vida te sorria sempre. Com carinho, de quem te admira em silêncio."
Fiquei ali parado, lendo e relendo aquelas palavras. Meu peito apertou de um jeito estranho. Um misto de carinho, surpresa e… despedida. Eu senti. Aquilo soava diferente. Era como se, depois de tantos anos, aquela pessoa tivesse decidido que… era hora de me deixar ir.
E, de fato, nunca mais chegou outra. Nenhum bilhete, nenhuma mensagem escondida. Silêncio total.
O tempo passou. Três anos ao lado da Grace. Amamos, vivemos, crescemos… e, como muitas coisas na vida, chegou ao fim. Foi leve, sem mágoas, apenas dois caminhos que seguiram rumos diferentes. E, desde então, decidi viver assim. Solto. Sem compromissos, sem amarras. Aproveitando a liberdade e tudo que ela traz.
Agora, aos 33 anos, volto não mais como visita. Volto pra ficar. Decidi que era hora de deixar a vida lá fora pra trás e me reconectar com minhas raízes. Vou trabalhar no hospital da cidade, ficar perto dos meus pais, dos meus.
Enquanto ajeito minhas malas no quarto que, em breve, deixará de ser só meu antigo quarto de infância para se tornar meu novo recomeço, não consigo evitar olhar pra cômoda… vazia.
Nenhuma carta. Nenhum sinal.
E, pela primeira vez em muito tempo, me pergunto… Será que, um dia, eu ainda vou descobrir quem esteve do outro lado dessas palavras?
Estela
Por muitos anos, minhas palavras foram meu esconderijo. Escrevê-las pra ele era como acalmar meu coração, mesmo sabendo que ele jamais saberia quem eu era. Desde aquele dia em que, ainda menina, tomei coragem e escrevi minha primeira cartinha, nunca mais parei... até que, um dia, ele apareceu aqui, trazendo uma mulher linda ao seu lado.
Naquele instante, eu soub
e. Era meu sinal. Era hora de deixá-lo livre, seguir com a minha vida. Talvez ele nunca tenha notado, mas eu sempre estive por perto… acompanhando, de longe, o meu príncipe.
Engraçado pensar que, mesmo nutrindo um amor tão impossível, a vida seguiu seu rumo. Aos quinze anos, um garoto da escola, Joaquim, bonito, simpático, se encantou por mim. Me chamou pra sair e, pela primeira vez, eu me permiti viver algo que não fosse platônico. Foi com ele que aconteceu meu primeiro beijo. Não foi com quem eu sonhava desde menina, mas foi doce, leve, especial do seu jeito.
Durou pouco. Um namorico de alguns meses que ficou guardado nas minhas memórias como parte do meu crescimento.
O tempo passou. E, de alguma forma, meu amor pela saúde nasceu das histórias que eu ouvia dele… do homem que sempre foi meu amor secreto. Me encantava ouvi-lo falar sobre vidas, sobre ajudar pessoas, sobre ser útil no mundo. Foi assim que me vi, anos depois, na universidade, cursando enfermagem e construindo meu próprio caminho.
Mesmo depois de ter parado com as cartinhas, eu nunca me afastei de verdade. Sempre que ele vinha visitar a família, eu dava um jeito de estar por perto. Nem que fosse pra cruzar com ele na rua e, por poucos segundos, ouvir aquela voz que fazia meu coração acelerar de um jeito que ninguém mais conseguia.
Só que, dessa vez, tudo parecia diferente.
Ele tinha voltado. De vez. E, como se o destino não tivesse mais o que inventar, minha mãe, no meio do almoço, simplesmente soltou:— Guilherme, faz um favor pra mim? Leva a minha filha lá na fazenda. O Luca caiu e quebrou a perna e tá precisando de ajuda.
— Claro, Dona Soraya, ele respondeu, com aquele tom educado, seguro, e aquela voz absurdamente sedutora que sempre me desmontava. — Vou lá aproveito e vejo os exames dele e se posso fazer algo por ele. Vai ser um prazer.
Se fosse anos atrás, eu teria arranjado qualquer desculpa pra fugir. Mas hoje não. Hoje eu não sou mais aquela menina magricela, de óculos torto, aparelho e cabelo preso de qualquer jeito.
Hoje eu sou mulher. Tenho 1,60 de altura, cabelo escuro com mechas iluminadas que destacam meu tom de pele, seios fartos — herança da minha mãe, um rostinho que todos dizem parecer de boneca e uma personalidade forte, alegre e marcante.Mas, mesmo assim, meu coração parecia querer sair pela boca.
Entramos no carro. Eu, do lado dele. Do homem que fez e ainda faz parte de todos os meus sonhos.
E, meu Deus… que homem! Alto, 1,90, pele morena clara, olhos verdes que hipnotizam, cabelos impecáveis, uma elegância que transbordava e aquele sorriso… ah, aquele sorriso. Sem falar na voz… uma voz capaz de desmoronar qualquer resistência.O caminho até São João Del Rei nunca pareceu tão curto… nem tão cheio de possibilidades.
Nosso destino não era apenas uma viagem qualquer. Meu irmão, Luca, havia quebrado a perna. E, claro, quem minha mãe chamou pra olhar os exames, avaliar a situação e ver se podia ajudar? Ele. O Dr. Guilherme.Quando minha mãe me pediu pra ir junto, não hesitei. Além de matar a saudade do meu irmão, e
eu finalmente conheceria a tão falada Maria Júlia, a mulher que ele não parava de comentar. Ele falava dela com tanto carinho, tanta admiração… que minha curiosidade já estava no limite.
O clima no carro era... diferente. Uma tensão boa, gostosa, quase elétrica. Cada silêncio parecia dizer mais que qualquer palavra. Eu tentava, a todo custo, parecer natural, madura, centrada. Por dentro? Caos total.
— E… como estão as coisas na faculdade? ele perguntou, quebrando o silêncio com aquela voz que fazia meu coração vibrar.
— Cansativas, mas eu amo, respondi, sorrindo, tentando parecer leve. — Nunca imaginei que me apaixonaria tanto pela enfermagem.
Ele sorriu. Aquele sorriso que eu conhecia de cor, e que tinha o poder de me desmontar toda.
— Fico muito feliz. Saber que, de algum jeito, eu te influenciei nessa escolha... me deixa orgulhoso.
Por pouco não deixei escapar um “você nem imagina o quanto”, mas me segurei. O mundo não precisava saber disso… pelo menos, não ainda.
O resto do caminho seguiu entre risadas, conversas leves e aquele cuidado todo dele ao dirigir. Até nisso ele era impecável. Lindo, cheiroso, elegante... e, claro, dono da minha eterna bagunça emocional.
Ao chegarmos na fazenda, meu coração deu um salto. Luca estava lá, sentado, com a perna imobilizada, e, ao lado dele… ela. Maria Júlia.
E, de cara, entendi tudo.
Ela era linda. Simples, mas dona de uma beleza que não se explicava, só se sentia. Tinha um jeito doce, acolhedor, daqueles que você se apaixona só de olhar. E não demorou muito pra que eu também me encantasse por ela.Enquanto Guilherme analisava os exames do Luca, discutia sobre a fratura e os cuidados necessários, eu observava tudo. Ele, concentrado, sério, absolutamente profissional. E ela, Maria Júlia, toda preocupada, carinhosa, atenta a cada palavra.
E eu ali, no meio dos dois, tentando entender se o universo estava, de fato, me dando uma nova chance... ou só me provocando mais uma vez.
Rogério Eu nunca pensei que quarenta dias pudessem durar uma eternidade. No papel de pai e marido protetor, eu era pleno. Ver a Liz com os bebês, observar a rotina da nossa casa se estabilizando... tudo beirava a perfeição. Mas, no silêncio da noite, havia uma fome que eu sufocava. Uma saudade física, uma carência de pele com pele que eu guardava a sete chaves. Ela tinha atravessado um inferno; meu papel era ser o porto seguro, não o homem que cobra. Eu esperaria uma vida inteira se fosse preciso. Até que, naquela tarde, o ar mudou. Liz me chamou ao quarto e, quando entrei, encontrei um brilho no olhar dela que eu não via desde antes do parto. Um brilho que não era de mãe, mas de mulher. — Rô… hoje eu quero um momento com você. Só nós dois. Meu coração deu um solavanco, batendo contra as costelas. Aproximei-me devagar, como se pudesse assustá-la, e emoldurei seu rosto com as mãos. A pele dela estava quente. — Você não faz ideia do quanto eu senti falta de ouvir isso — conf
Os bebês estavam cada dia mais lindos. Antonela e Dominic… meu Deus, como dois seres tão pequenos podiam ocupar tanto espaço no meu coração?Depois de uma semana no apartamento, finalmente voltamos para casa. Mandei reformar tudo paredes, móveis, iluminação, até o quarto das crianças. Ficou melhor do que antes do caos todo. Eu queria um recomeço para nós.E hoje… era dia de buscar um membro importante da família.O Tob.Meu grandalhão desastrado, que tinha ficado no hotelzinho para animais depois da alta porque, sinceramente, com tanta coisa acontecendo, ele derrubaria até as paredes se ficasse em casa.Quando cheguei lá, ele fez tanta festa que quase me jogou no chão. Parecia um caminhão desgovernado.— Calma, rapaz! ri enquanto ele lambia meu rosto como se eu tivesse sumido por um ano.Mas ver a felicidade dele fez meu peito aquecer.Ele precisava voltar pra casa. Nós precisávamos dele.Quando abriu a porta de casa, ele entrou correndo como um foguete.Liz estava no sofá amamentan
Rogério Já fazia uma semana desde que viemos para o meu apartamento. Uma semana desde que tirei minha mulher e meus filhos de dentro de um hospital e, mesmo assim, parecia que eu continuava vivendo lá. Todos os dias eu passava algumas horas no corredor frio, perguntando pelos mesmos boletins, esperando pelas mesmas respostas, torcendo para que melhorassem um pouco mais.Antony não era “só” meu amigo.Ele era meu irmão de alma.E vê-lo caído daquela maneira… sangrando… sabendo que salvou a Liz e meus filhos… isso me marcaria pelo resto da vida.Todas as manhãs, depois de ajudar Liz com Antonela e Dominic, eu deixava um beijo na testa dela e dizia:— Vou ver o Antony, amor. Qualquer coisa, me liga.Ela nunca reclamou. Nunca pediu para eu ficar. Pelo contrário sempre apertava minha mão antes de eu sair, como quem dizia: “vai, eu sei que você precisa”.Rosângela e Camila estavam sendo um apoio gigantesco. As duas praticamente se mudaram para o apartamento.Rosângela, a melhor amiga da
Elizabeth Assim que a porta do apartamento se abriu, eu senti minhas pernas ficarem fracas.O cheiro familiar… o silêncio acolhedor… a sensação de estar em um lugar seguro depois de tanto caos. Meu peito apertou. Eu não entrava ali desde a cirurgia da Camila, quando Rogério emprestou o apartamento para ficarmos até ela se recuperar. Naquela época, eu nem imaginava tudo o que ainda estava por vir.Camila passou por mim com um sorriso orgulhoso, segurando um dos bebês no colo, enquanto o outro dormia no bebê conforto, ao lado do Rogério.— Eu ajeitei tudo ela disse, balançando as chaves no ar. Lembra? O Rogério deixou o apartamento pra gente usar quando eu operei… E como ele garantiu que estava liberado, eu vim arrumar ontem à noite. Vocês só vão entrar e descansar.Meu coração errou o compasso.Eu olhei ao redor devagar… o sofá limpo, as mantas dobradas, mamadeiras esterilizadas em cima da pia, fraldas organizadas, o quarto com berço portátil montado, cheirando a lavanda.As lágrimas
O sol da manhã atravessava a persiana do quarto, criando faixas de luz suave sobre a pele da Elizabeth. Ela parecia ainda mais frágil dormindo daquele jeito, os cabelos caindo pela testa, os lábios entreabertos, respirando naquele ritmo calmo que só vem depois de enfrentar um furacão.E ela enfrentou um furacão.Nós enfrentamos.Os bebês também dormiam, encolhidos nos bercinhos, com aqueles bracinhos minúsculos se mexendo às vezes, como se sonhassem com o próprio peito da mãe. Meu coração sempre apertava quando eu olhava pra eles. Era um tipo de amor que doía.Eu estava sentado ao lado dela quando a enfermeira bateu na porta, abrindo bem devagarinho.— Doutor Rogério? ela sorriu. — O senhor já está acordado. Vim avisar que a alta está sendo preparada. Os pediatras passaram há pouco e liberaram os gêmeos também.Meu coração deu um solavanco.— Hoje? perguntei, engolindo um misto de alívio e nervosismo.— Hoje. ela respondeu com doçura. — Só precisamos assinar alguns documentos… mas e
Rogério O telefone tocou bem na hora em que eu estava ajeitando o cobertor sobre a Elizabeth.Ela dormia tão quietinha, tão exausta… e os bebês também. A simples visão deles me aquietava por dentro.Até o telefone vibrar de novo.Número desconhecido.Atendi.— Doutor Rogério? a voz era firme, séria. Reconheci na hora. O delegado responsável pelo caso.Meu estômago travou.— Sou eu, delegado. Aconteceu alguma coisa?Minha voz saiu tensa demais.Ele respirou fundo. E esse suspiro… eu já sabia que vinha merda grande.— Doutor… eu preciso que o senhor se sente.Meu coração disparou.— Fala logo.Houve um silêncio curto, pesado, antes dele dizer a frase que virou meu mundo de cabeça pra baixo:— A mandante do crime era a Sofia. Ela confessou tudo.Eu senti minhas pernas fraquejarem. Segurei na beira da cama para não cair.— Como assim… Sofia? A minha…?Minha voz falhou.Meu peito apertou como se faltasse ar.— Ela confessou que matou sua primeira esposa, a Clarisse… grávida.Minha visão e







