FAZER LOGINUM ANO DEPOS.A cobertura continuava a mesma: janelas enormes, vista para a cidade, cozinha moderna, mas havia uma diferença impossível de ignorar. Ela tinha vida.Uma manta esquecida sobre o sofá, livros espalhados pela mesa de centro, uma xícara de café pela metade, a lavanda na varanda estava enorme, cheia de flores roxas e, ao lado dela, um vaso de margaridas.Maytê sorriu ao abrir a janela.— Eu falei que elas iam sobreviver.— Você também falou que eu mataria a lavanda em uma semana.A voz de Gustavo veio da cozinha, ela riu.— E eu estava errada.Ele apareceu usando um avental, o mesmo que um dia usara sem saber fritar um ovo. Agora preparava panquecas enquanto cantarolava uma música qualquer.Maytê apoiou-se na bancada, observando-o, ainda achava engraçado vê-lo cozinhar.— Está olhando o quê?— Você.Ele sorriu.— Tem farinha no meu rosto?Ela aproximou-se e com o polegar, limpou um pequeno ponto branco perto da bochecha dele.— Agora não tem mais.Gustavo segurou sua mão ant
Segurar a mão de Gustavo parecia a coisa mais natural do mundo e, ao mesmo tempo, a mais assustadora.Maytê permaneceu alguns segundos parada diante do prédio, olhando para os dedos entrelaçados aos dele.Meses atrás, aquele gesto teria significado apenas carinho. Agora, significava confiança e confiança não se reconstruía de um dia para o outro.Ela respirou fundo sem soltar sua mão.— Acho que estou com medo.Gustavo não perguntou "de quê?". Nem tentou convencê-la de que não havia motivo.Apenas respondeu:— Eu também.Ela levantou os olhos, surpresa.— Você?Ele sorriu de leve.— Todos os dias.O vento balançou os cabelos de Maytê.— Medo do quê?— De fazer alguma coisa que destrua tudo outra vez.Ela apertou sua mão um pouco mais forte.— A diferença é que agora você percebe esse medo.— E não deixo mais que ele decida por mim.Ela sorriu, era exatamente isso.Naquela noite, Maytê demorou para dormir. Ficou olhando para o teto do quarto, lembrando de cada pequena mudança que vira
A chuva da noite anterior havia deixado o ar mais fresco.Maytê abriu as janelas do apartamento logo cedo, deixando o vento entrar. Colocou uma música baixa para tocar enquanto organizava a sala e regava as pequenas margaridas que Gustavo lhe dera semanas antes, as flores estavam mais abertas.Ela sorriu.— Acho que vocês resolveram florescer...O celular vibrou sobre a mesa, era uma mensagem dele.Bom dia. Espero que tenha uma ótima semana. Não precisa responder. Só queria desejar um bom dia.Maytê releu a mensagem duas vezes e depois sorriu. Não havia convite, não havia cobrança, não havia uma pergunta esperando resposta.Era apenas um bom dia, ela respondeu alguns minutos depois.Obrigada. Espero que a sua também seja boa. E não queime o arroz.A resposta chegou quase na mesma hora.Agora só queimo panquecas. Evoluí bastante.Ela riu sozinha.Naquela tarde, eles combinaram de caminhar pela praça depois que Maytê saiu da cafeteria.Sem jantar, sem encontro, sem compromisso, apenas u
Na segunda-feira, Gustavo entrou na sede do Grupo Ferraresi como fazia todas as manhãs, mas havia uma diferença.Ele já não caminhava tão depressa, cumprimentava as pessoas pelo nome, parava para ouvir, perguntava como estavam. Coisas simples. Coisas que, meses antes, pareciam impossíveis.— Bom dia, senhor Ferraresi.— Bom dia, Cláudia. Como está sua filha? Ela já começou a faculdade?A secretária sorriu, surpresa.— Começou na semana passada.— E está gostando?— Muito.— Fico feliz.Gustavo seguiu pelo corredor, assim que ele entrou no elevador, Cláudia olhou para a colega ao lado.— Você acredita que ele lembrou?A colega riu.— Acho que ninguém acredita mais.A reunião daquela manhã era importante, o conselho discutiria a compra de uma empresa internacional.Anos atrás, Gustavo teria falado durante quase toda a reunião. Interromperia apresentações, contestaria cada detalhe.Naquele dia, ele ouviu, durante quase uma hora.Quando todos terminaram, cruzou as mãos sobre a mesa.— Alg
O abraço ainda morava na memória de Maytê.Já fazia cinco dias.Cinco dias desde que ela envolvera Gustavo nos braços por vontade própria.Cinco dias desde que sentira o coração bater acelerado ao sentir o perfume dele outra vez e, desde então, sua cabeça parecia uma guerra.Ela o amava, disso nunca duvidou, mas amar não apagava o passado.Às vezes, antes de dormir, ainda se lembrava da noite em que ele escolheu a empresa em vez dela. Da sensação de ser insuficiente, da dor de fazer as malas.Essas lembranças ainda existiam, só que agora dividiam espaço com outras.O homem que fazia terapia, que aprendia a cozinhar, que esperava sem pressionar, que ria de si mesmo, que finalmente aprendera a amar e isso tornava tudo muito mais difícil.— Você está pensando nele de novo.Maytê levantou os olhos.Dona Célia limpava uma mesa enquanto a observava com um sorriso divertido.— É tão óbvio assim?— Você colocou sal no cappuccino de um cliente.Maytê arregalou os olhos.— Eu fiz o quê?As duas
A primavera finalmente chegara, as árvores da cidade estavam cobertas de flores e o vento carregava um perfume leve que parecia anunciar um novo começo.Já fazia quase dois meses que Gustavo e Maytê haviam voltado a tomar café juntos, não todos os dias, nem todas as semanas.Às vezes passavam dez dias sem se ver, às vezes se encontravam por acaso na feira ou caminhavam pela praça depois do trabalho.Não havia cobranças, promessas e nem medo de dar nome ao que estavam reconstruindo, era leve e talvez fosse justamente isso que mais assustasse Maytê.Naquela manhã, Gustavo apareceu na cafeteria pouco antes do horário de fechamento e entrou sorrindo.— Vim buscar uma encomenda.Maytê arqueou uma sobrancelha.— Encomenda?Dona Célia apareceu carregando uma caixa de papelão.— Seus pães integrais, querido.Maytê olhou da caixa para Gustavo.— Você está comprando pão aqui agora?Ele deu de ombros.— São bons.Dona Célia sorriu.— E ele vem toda sexta-feira.Maytê piscou.— Toda sexta?— Há q







