INICIAR SESIÓN— Sabe, amiga, eu acho que tudo isso me deixou muito vulnerável", falei, sentindo a voz embargar. A traição de Andrey já tinha sido um golpe, mas o abandono de Léo tinha me feito questionar a minha própria capacidade de discernir o real do falso.
Bruna, percebendo a minha tristeza, me olhou com uma seriedade que eu raramente via nela. "Amiga, você precisa superar. E o Andrey também é passado." Ela fez uma pausa, o canto da boca se ergueu em um sorriso malicioso. "Quem é o Andrey perto de quem dormiu com o magnata do Léo Montenegro?", ela soltou a frase, arrancando de mim um riso sincero e inesperado. O riso veio como um alívio, como uma libertação. E, por um momento, a dor e a tristeza foram substituídas pela incredulidade e pelo humor. Bruna tinha razão. O que era Andrey, a dor do passado, perto da confusão de Léo Montenegro? Ela me abraçou, e o abraço dela era o tipo de coisa que a gente precisa quando a vida dá uma rasteira. Ela não tentou minimizar a minha dor, mas me mostrou que a minha história era mais do que a traição de Andrey. Era uma história de superação, de recomeços. E, quem sabe, de um romance com um magnata. A vida seguiu. A rotina absorveu os dias, e a ironia do meu encontro com o herdeiro magnata foi, aos poucos, perdendo força na minha mente. Não tive mais notícias de Leonardo, e nem procurei. Afinal, qual seria a chance de uma fotógrafa recém-desiludida com um magnata herdeiro que voltou para os negócios da família? Nenhuma. A vida real não era um conto de fadas. Ele tinha um mundo de negócios e responsabilidades. Eu tinha meu trabalho, minhas amizades e a necessidade de me reerguer, de me reencontrar. Guardei a notícia no fundo de alguma gaveta digital, ao lado das memórias de Andrey e Mary. A vida tinha me ensinado uma lição, e eu aprendi. A vida continuou. E eu também Passadas quase quatro semanas, a vida, na sua insistente rotina, me empurrou para a frente. A agência me escalou para um evento em São Paulo. Fui contar para Bruna, que, como sempre, tentava me animar. "— Tá animada, amiga?", ela perguntou, com a voz cheia de expectativa. "— Tô sim, Bruna. Vai dar pra ganhar uma grana e resolver umas pendências", respondi, a voz mais monótona do que eu gostaria. Bruna riu, mas a risada não chegou aos olhos. Era uma risada de quem já me conhecia bem demais. "Só pensa em grana", ela retrucou, me provocando. Em que mais eu poderia pensar, depois de tanta desilusão? A grana, pelo menos, era palpável. Era algo concreto, algo que eu podia controlar. Não me decepcionava, não me abandonava com um bilhete. A grana era a minha nova forma de segurança, a minha nova forma de me sentir no controle. E, naquele momento, era tudo o que eu precisava. Nós rimos juntas, uma risada que aliviou um pouco a tensão. E então, ela me contou. Ela também tinha sido escalada, mas só viajaria no sábado, ao contrário de mim, que precisava ir na sexta. O motivo: a nossa equipe, formada por mim, Cleo, Fagner e Juliano, precisava ir adiantando o trabalho, enquanto a Bruna ficaria responsável por outras pendências aqui. A ideia de ter os meus companheiros de fotografia por perto me acalmou um pouco. Pelo menos, eu não estaria sozinha em São Paulo. E, quem sabe, o trabalho me ajudaria a esquecer, por um tempo, a confusão que era a minha vida sentimental.Na manhã seguinte, quando abri os olhos, encontrei um bilhete repousando ao lado da cama:> “Bom dia, meu amor. Seria um pecado te acordar. Estou na vinha com Alessandro, volto para o almoço.”Sorri, sentindo o coração aquecer. Por um breve instante, lembrei do abandono no Milani — do bilhete e das flores deixados para trás —, mas me recusei a permitir que aquela lembrança ofuscasse o presente. Isso fazia parte de um passado distante, e além do mais, Léo já havia me contado sobre o medo que sentiu de se envolver novamente depois do rompimento com Maire.Ela havia desaparecido desde o dia em que sabotou a moto de Léo, provocando o acidente em Águeda. Depois que seus pais conseguiram tirá-la da prisão — graças à influência do senhor Francesco —, a família a enviou para a Inglaterra. O próprio Francesco deixara claro que não aceitaria mais nenhuma ameaça contra os Montenegro.Meus pensamentos foram interrompidos por leves batidas à porta.— Entre — falei.Era Maria, trazendo Lucca nos br
Os dias foram se passando. Léo seguia na rotina, sempre ocupado com os negócios das vinhas. Alessandro o ajudava nas reuniões em que ele não podia comparecer, e algumas delas aconteciam no escritório da própria propriedade.O vinho que Léo havia criado em minha homenagem — o Santa Helena — tornara-se um sucesso. Ele até recebeu convites para participar de alguns campeonatos de motocross, mas recusava todos. Sabia que, para mim, seria uma tortura vê-lo correr novamente depois do acidente em Águeda. Mesmo amando o esporte, ele escolhia ficar.Eu já estava com oito meses de gestação. Era fim de novembro, e o Natal se aproximava. As contrações de treinamento já mostravam que meu corpo começava a se preparar. Tentava descansar, mas Lucca, esperto e curioso, estava sempre por perto, encantado com as borboletas dos jardins.Maria continuava sendo uma grande ajuda e companhia. Passávamos boa parte dos dias juntas, enquanto Léo se dividia entre compromissos e decisões importantes à frente dos
Léo foi ao escritório enquanto eu me vestia. Escolhi um vestido branco que desenhava suavemente a minha barriga e deixei os cabelos soltos.Desci as escadas com cuidado, indo até o escritório onde ele estava.Léo permanecia concentrado diante do notebook. Sobre a mesa, uma foto antiga — eu grávida de Lucca, entre as vinhas da serra gaúcha. Quando me aproximei, ele percebeu minha presença e levantou os olhos.— Meu amor, vamos? — disse, levantando-se da cadeira.Ele me abraçou, a mão acariciando com ternura a minha barriga.— Você está linda — murmurou, deslizando os dedos sobre o tecido do vestido.Saímos de casa logo em seguida. Achei melhor deixar Lucca com Maria na propriedade; não sabíamos a hora em que voltaríamos.No carro, Léo dirigia como se levasse o mundo inteiro dentro dele. De tempos em tempos, desviava o olhar da estrada para mim.— Está tudo bem? — perguntava, sempre com aquela preocupação que lhe era tão própria.Quando chegamos à casa de Fellipe e Camille, Léo respirou
Acordei com o sol atravessando as cortinas e o canto suave dos pássaros lá fora. Os peões já trabalhavam nas vinhas, o som distante das vozes e das ferramentas misturando-se ao vento da manhã.Vesti-me e desci. O quarto de Lucca já estava vazio. Na sala de jantar, encontrei Maria à mesa, servindo o café ao meu pequeno.— Como dormiu, senhora? — perguntou Emma, com seu sorriso acolhedor.— Bem, Emma. Acho que o cansaço venceu. Assim que deitei, apaguei. Nem percebi se Léo ligou — respondi, sentando-me à mesa.Tomamos café juntas. Lucca estava encantado com o jardim da propriedade — talvez pelas borboletas que dançavam entre as flores.Depois, Maria o levou para brincar, enquanto eu ficava conversando com Emma, que organizava algumas coisas na cozinha.Ela me falava sobre Léo, quando ainda era criança, e o quanto sofreu com a morte de dona Clarice.— Eles tinham uma conexão muito bonita, senhora — disse Emma, com ternura. — Depois que ele nasceu, dona Leonor quase não vinha mais aqui. A
Acordei no meio da madrugada com um enjoo terrível — talvez algo do jantar não tivesse me caído bem. Corri para o banheiro e, quanto mais vomitava, mais parecia que meu corpo queria expulsar o mundo inteiro de dentro de mim.Escovei os dentes para tirar aquele gosto amargo da boca e fui até a varanda do quarto em busca de ar fresco. O vento da manhã roçava suavemente o meu rosto, e, aos poucos, a náusea foi cedendo. Levei um copo d’água aos lábios e, ao erguer o olhar, vi o horizonte clareando.O sol nascia, tingindo de dourado as fileiras de videiras que se estendiam até onde a vista alcançava. O orvalho ainda brilhava sobre as folhas, e os primeiros trabalhadores caminhavam pelas vinhas com seus chapéus de palha, carregando cestos e ferramentas. O canto dos pássaros se misturava ao som distante das rodas dos tratores, e por um instante, senti-me dentro de um filme — desses em que a vida parece perfeita, mesmo nos detalhes simples.Quando o sol já estava alto, desci as escadas devaga
A manhã nasceu mansa, e o claro invadiu nosso quarto como um convite à saudade. Os pássaros cantavam do lado de fora, enquanto o murmúrio dos trabalhadores ecoava nos vinhedos, trazendo vida à propriedade.Léo tomou um banho demorado, o vapor cobrindo o espelho e seu perfume espalhando-se pelo ar. Quando saiu, já trazia uma pequena mala nas mãos — a mesma que havia deixado pronta na noite anterior.Descemos juntos. Lucca ainda dormia, o rostinho tranquilo, e Léo não teve coragem de despertá-lo.Na cozinha, Emma havia preparado pães e bolo fresco. O cheiro era acolhedor, mas Léo estava apressado. Limitou-se a um café preto, enquanto eu o observava em silêncio, tentando gravar cada detalhe seu — o modo como dobrava as mangas da camisa, o olhar firme, o sorriso breve antes de partir.Nos despedimos à porta. Ele entrou no carro e seguiu pela estrada que levava ao hangar.Talvez fossem os hormônios, mas as lágrimas vieram sem que eu pudesse conter.Era estranho estar ali, na França, sem Lé







