INICIAR SESIÓNAcordei no dia seguinte passei o café, e o cheiro amargo e quente me trouxe de volta à vida. Sem compromissos na agenda, decidi me dedicar às fotos do casamento, um trabalho que, por ironia, tinha me salvado de uma imersão completa na minha própria tristeza. Abri o notebook, mas a barra de notificações chamou minha atenção. Não sei por que, talvez por puro tédio, resolvi clicar.
A notícia saltou na tela. A foto, grande e em alta definição, parecia me encarar. Não havia dúvidas. Os olhos intensos, o sorriso de canto. Era ele. O texto falava do magnata, o herdeiro da família Montenegro, que voltara para tomar a frente dos negócios da família após anos de estudo na Espanha. Leo Montenegro. O café esfriou na xícara. O estômago embrulhou com a surpresa. Ele. Aquele que passara a noite comigo, rindo e conversando na beira da piscina, o mesmo que deixara um bilhete na mesa de cabeceira antes de ir embora. Leo Montenegro. A notícia na tela trazia um choque de realidade inesperado, a imagem do homem ao meu lado agora com uma moldura de manchete e o peso de um império. Eu não acredito que dormi com Léo Montenegro," murmurei, a voz fraca, mais para mim mesma do que para o café que já tinha esfriado. As palavras pareciam sair da boca de outra pessoa. Minha mente dava voltas, tentando encaixar a imagem do homem ao meu lado na piscina com a foto do magnata da notícia. Era o mesmo sorriso, o mesmo olhar. O mesmo ar de quem estava no controle, mesmo quando a voz traía a tensão. A confusão me consumiu. Léo. Montenegro. Um herdeiro. Um magnata. E eu ali, uma fotógrafa, abandonada com um bilhete. A ironia era cruel. O choque era maior do que a decepção. Senti um frio na espinha. Não era só um cara. Era o cara. Peguei o celular e liguei para a Bruna. "— Preciso de você aqui em casa, amiga. Agora." Bruna era uma das poucas pessoas em quem eu ainda confiava plenamente, e naquele momento, eu precisava desesperadamente de alguém em quem confiar. Ela chegou em pouco tempo, com o rosto franzido de preocupação. Assim que entrou, me joguei no sofá, estendendo o notebook para ela. "Dorme com Léo Montenegro," falei, apontando para a notícia. Ela leu, olhou para a foto e depois para mim, com a incredulidade estampada no rosto. Ela me ouviu relatar cada detalhe, desde o banho até o bilhete. Ela ficou sem acreditar, mas a incredulidade dela era diferente da minha. A minha era de choque. A dela, de choque com o que havia acontecido comigo. "— Helena, você tem certeza que é o mesmo?" ela perguntou, com a voz baixa. Eu apenas acenei com a cabeça, os olhos fixos na foto do homem que havia me chamado de perfeita. A perfeição que ele viu em mim era, talvez, a da vulnerabilidade, a da desilusão. E ele, o herdeiro, o magnata, apenas havia se aproveitado disso. — Bruna, ele apenas me usou", falei, odiando o tom vulnerável da minha voz. Era como se a minha decepção com Andrey não fosse suficiente, e agora eu tinha que enfrentar a humilhação de ter sido apenas uma distração para um homem que vivia em outra realidade. Bruna me olhou com uma ternura que só uma amiga de verdade consegue ter. Ela segurou a minha mão. "Imagina, amiga", ela disse, suavemente. "Às vezes, ele realmente te achou incrível." A voz dela era calma, tentando me dar um ponto de vista diferente, talvez para amenizar a dor. "O que um bilhete diz? Nada. E se ele te achou perfeita, talvez ele tenha se assustado com a própria vulnerabilidade." Ela continuou, tentando construir uma teoria que fizesse sentido para nós duas. "Ele pode ter ficado assustado com o que sentiu, Helena. Ele pode não estar acostumado com a intimidade que vocês compartilharam. Ele pode ter fugido não por que te usou, mas por que se assustou com o que sentiu. Você pode ter sido um choque de realidade para ele." Bruna sempre foi assim. Conseguiu ver o lado bom das coisas, mesmo quando eu só conseguia enxergar o pior. Ela sabia que eu precisava de uma dose de esperança, de algo que me tirasse daquele buraco de autocomiseração. "E, mesmo que não seja isso", ela continuou, "o problema não é você, Helena. O problema é dele. Não se coloque para baixo por causa de um homem que não soube o que fazer com a sua perfeição.Na manhã seguinte, quando abri os olhos, encontrei um bilhete repousando ao lado da cama:> “Bom dia, meu amor. Seria um pecado te acordar. Estou na vinha com Alessandro, volto para o almoço.”Sorri, sentindo o coração aquecer. Por um breve instante, lembrei do abandono no Milani — do bilhete e das flores deixados para trás —, mas me recusei a permitir que aquela lembrança ofuscasse o presente. Isso fazia parte de um passado distante, e além do mais, Léo já havia me contado sobre o medo que sentiu de se envolver novamente depois do rompimento com Maire.Ela havia desaparecido desde o dia em que sabotou a moto de Léo, provocando o acidente em Águeda. Depois que seus pais conseguiram tirá-la da prisão — graças à influência do senhor Francesco —, a família a enviou para a Inglaterra. O próprio Francesco deixara claro que não aceitaria mais nenhuma ameaça contra os Montenegro.Meus pensamentos foram interrompidos por leves batidas à porta.— Entre — falei.Era Maria, trazendo Lucca nos br
Os dias foram se passando. Léo seguia na rotina, sempre ocupado com os negócios das vinhas. Alessandro o ajudava nas reuniões em que ele não podia comparecer, e algumas delas aconteciam no escritório da própria propriedade.O vinho que Léo havia criado em minha homenagem — o Santa Helena — tornara-se um sucesso. Ele até recebeu convites para participar de alguns campeonatos de motocross, mas recusava todos. Sabia que, para mim, seria uma tortura vê-lo correr novamente depois do acidente em Águeda. Mesmo amando o esporte, ele escolhia ficar.Eu já estava com oito meses de gestação. Era fim de novembro, e o Natal se aproximava. As contrações de treinamento já mostravam que meu corpo começava a se preparar. Tentava descansar, mas Lucca, esperto e curioso, estava sempre por perto, encantado com as borboletas dos jardins.Maria continuava sendo uma grande ajuda e companhia. Passávamos boa parte dos dias juntas, enquanto Léo se dividia entre compromissos e decisões importantes à frente dos
Léo foi ao escritório enquanto eu me vestia. Escolhi um vestido branco que desenhava suavemente a minha barriga e deixei os cabelos soltos.Desci as escadas com cuidado, indo até o escritório onde ele estava.Léo permanecia concentrado diante do notebook. Sobre a mesa, uma foto antiga — eu grávida de Lucca, entre as vinhas da serra gaúcha. Quando me aproximei, ele percebeu minha presença e levantou os olhos.— Meu amor, vamos? — disse, levantando-se da cadeira.Ele me abraçou, a mão acariciando com ternura a minha barriga.— Você está linda — murmurou, deslizando os dedos sobre o tecido do vestido.Saímos de casa logo em seguida. Achei melhor deixar Lucca com Maria na propriedade; não sabíamos a hora em que voltaríamos.No carro, Léo dirigia como se levasse o mundo inteiro dentro dele. De tempos em tempos, desviava o olhar da estrada para mim.— Está tudo bem? — perguntava, sempre com aquela preocupação que lhe era tão própria.Quando chegamos à casa de Fellipe e Camille, Léo respirou
Acordei com o sol atravessando as cortinas e o canto suave dos pássaros lá fora. Os peões já trabalhavam nas vinhas, o som distante das vozes e das ferramentas misturando-se ao vento da manhã.Vesti-me e desci. O quarto de Lucca já estava vazio. Na sala de jantar, encontrei Maria à mesa, servindo o café ao meu pequeno.— Como dormiu, senhora? — perguntou Emma, com seu sorriso acolhedor.— Bem, Emma. Acho que o cansaço venceu. Assim que deitei, apaguei. Nem percebi se Léo ligou — respondi, sentando-me à mesa.Tomamos café juntas. Lucca estava encantado com o jardim da propriedade — talvez pelas borboletas que dançavam entre as flores.Depois, Maria o levou para brincar, enquanto eu ficava conversando com Emma, que organizava algumas coisas na cozinha.Ela me falava sobre Léo, quando ainda era criança, e o quanto sofreu com a morte de dona Clarice.— Eles tinham uma conexão muito bonita, senhora — disse Emma, com ternura. — Depois que ele nasceu, dona Leonor quase não vinha mais aqui. A
Acordei no meio da madrugada com um enjoo terrível — talvez algo do jantar não tivesse me caído bem. Corri para o banheiro e, quanto mais vomitava, mais parecia que meu corpo queria expulsar o mundo inteiro de dentro de mim.Escovei os dentes para tirar aquele gosto amargo da boca e fui até a varanda do quarto em busca de ar fresco. O vento da manhã roçava suavemente o meu rosto, e, aos poucos, a náusea foi cedendo. Levei um copo d’água aos lábios e, ao erguer o olhar, vi o horizonte clareando.O sol nascia, tingindo de dourado as fileiras de videiras que se estendiam até onde a vista alcançava. O orvalho ainda brilhava sobre as folhas, e os primeiros trabalhadores caminhavam pelas vinhas com seus chapéus de palha, carregando cestos e ferramentas. O canto dos pássaros se misturava ao som distante das rodas dos tratores, e por um instante, senti-me dentro de um filme — desses em que a vida parece perfeita, mesmo nos detalhes simples.Quando o sol já estava alto, desci as escadas devaga
A manhã nasceu mansa, e o claro invadiu nosso quarto como um convite à saudade. Os pássaros cantavam do lado de fora, enquanto o murmúrio dos trabalhadores ecoava nos vinhedos, trazendo vida à propriedade.Léo tomou um banho demorado, o vapor cobrindo o espelho e seu perfume espalhando-se pelo ar. Quando saiu, já trazia uma pequena mala nas mãos — a mesma que havia deixado pronta na noite anterior.Descemos juntos. Lucca ainda dormia, o rostinho tranquilo, e Léo não teve coragem de despertá-lo.Na cozinha, Emma havia preparado pães e bolo fresco. O cheiro era acolhedor, mas Léo estava apressado. Limitou-se a um café preto, enquanto eu o observava em silêncio, tentando gravar cada detalhe seu — o modo como dobrava as mangas da camisa, o olhar firme, o sorriso breve antes de partir.Nos despedimos à porta. Ele entrou no carro e seguiu pela estrada que levava ao hangar.Talvez fossem os hormônios, mas as lágrimas vieram sem que eu pudesse conter.Era estranho estar ali, na França, sem Lé







