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Moeda de Troca

last update publish date: 2026-08-13 23:00:22

Meu estômago se revirou com o cheiro acre e sufocante de medo onde deveria ter o doce aroma de excitação.

Olhei para baixo, ela ainda no meu colo e nossos corpos colados. As mãos dela tentando abrir o zíper da minha calça, trêmulas e desesperada.

Eu ainda estava com o pau duro. Era difícil de controlar tão perto dela, sentindo a pele dela tocar a minha. Porém, eu não estava interessado em foder alguém que sentia apenas medo de mim.

A afastei de mim apenas o suficiente para que pudéssemos nos olhar nos olhos.

— O que você está fazendo, garota?

Minha voz saiu mais grossa do que eu queria.

Ela parou na hora. Os dedos congelaram sobre o meu cós.

— Eu... eu achei que...

— Achou o quê?

Ela estava gaguejando, com a mão no meu pau e os olhos cheios d'água, tentando se oferecer como se fosse uma moeda de troca. Não tinha tesão nenhum ali, só desespero. Eu já vi esse olhar antes. Mulher que acha que o corpo é a única coisa que tem pra não apanhar na rua.

— Você me ajudou lá no bar. Depois me trouxe até aqui e está pagando o quarto. Eu pensei que você queria que eu fizesse...

Suspirei incomodado. Tem horas que eu detesto estar com a razão.

— Achou que eu ia te cobrar desse jeito? É assim que você quer pagar? Por um acaso você é uma prostituta?

Ela me encarou com os olhos arregalados.

— Não! Não, desculpa... Eu... eu não sou uma prostituta, desculpa...

Ela se afastou de mim de vez. Saindo do meu colo como se eu a estivesse queimando, as lágrimas já escorrendo. Começou a chorar.

Fiquei nervoso na hora. Especialmente porque o meu lobo estava me atacando em meu âmago.

Segurei os ombros dela. Não sei se apenas para ter mais um pouco de contato, ou para acalmá-la. Eu queria que ela parasse de gaguejar daquele jeito, estava me deixando tonto.

— Não precisa pedir desculpas. Fica tranquila.

— Mas você nem me conhece e tá fazendo isso por mim. Eu não tenho nada pra te oferecer.

Ela tremia inteira olhando para baixo. Sua voz saía fraca, gaguejando e ela parecia estar tentando se encolher. Como se quisesse se diminuir mais.

Já era tão pequena...

— Eu vou pagar o quarto de hotel e você não vai precisar me dar nada em troca.

Ao tocá-la, senti o calor da pele dela queimando na minha palma. Um choque quente subiu pelo meu braço. Aquele arrepio filho da puta do vínculo.

O lobo ronronou satisfeito.

Afastei a mão dos ombros dela a contragosto.

Ela virou de costas para mim e foi até a cama onde estava a bolsa. Enfiou a mão lá dentro e tirou um punhado de notas amassadas e umas moedas soltas. Estendeu na minha direção, com a mão tremendo.

— Eu só tenho isso.

O que ela está querendo? Me dar esse troco? O que ela está querendo com essa mixaria?

— Eu já falei que vou pagar o quarto. Guarda isso aí!

As bochechas dela ficaram tão vermelhas quanto o nariz dela estava. E ela mordeu o lado de dentro da bochecha. Amassou mais ainda o trocado que tinha na mão. O gesto fez com que ela derrubasse algumas moedas. E toda atrapalhada se abaixou para catar.

— Mas... eu estou com fome....

Suspirei de novo.

— Esse hotel não tem cozinha para fazer comida para você. Então eu vou lá fora e vou dar um jeito. Fica aqui e não faz nenhuma besteira.

Ela voltou a sentar na cama surpreendentemente obediente. Olhei pra ela uma última vez antes de sair do quarto.

Precisava respirar o ar puro de fora, que não tivesse o cheiro dela descontrolando a minha natureza.

Porque eu já estava a ponto de aceitar a oferta dela. E me odiar mais uma vez depois.

Segui pelo corredor até onde eu tinha visto uma daquelas máquinas de petiscos. Enfiei umas notas e peguei o que tinha ali para ela. Não sabia do que ela gostava, então optei por um refrigerante, batatas, chocolate, um pacote de amendoim e uma barra de cereal.

Enquanto eu estava colocando as notas dentro da máquina, meu celular vibrou no meu bolso. Tela acendeu.

3 mensagens do contratante.

[22:47] - E aí? Eliminou o alvo?

[23:15] - Isaque? Cadê a confirmação?

[00:32] - Você está me enrolando?

Digitei seco:

Eu: Não. Tive um contratempo.

Resposta na hora.

Contratante: Que contratempo porra nenhuma? Te paguei 5 mil adiantado! Você deu a sua palavra!

Eu: E vou cumprir. Como eu disse, tive um contratempo. Agora não sei onde ele está.

Contratante: Ele saiu do Jack. Foi pro galpão velho da serraria, na estrada velha da BR-116, km 42. Vai ficar lá essa madrugada toda porque vai receber muamba. Se você não fizer hoje, arrumo outro e sujo o seu nome. Ainda vou querer o meu dinheiro de volta com juros.

Eu: Estou indo para lá agora. E não me ameaça. Sabe que eu não lido bem com ameaças.

Guardei o celular no bolso.

Voltei para o quarto.

Ela ainda estava sentadinha na cama exatamente onde eu tinha deixado. Assim que abri a porta, o cheiro dela me acertou de novo em cheio. Doce, quente, aquecendo uma parte de mim que eu achei que estava morta. Meu pau deu uma pulsada idiota dentro da calça.

Ela levantou os olhos para mim. E quando nossos olhos se encontraram, eu não consegui desviar. Fiquei preso ali, no castanho dela. Não ia admitir, mas era atração pura me segurando. Foi ela quem desviou primeiro, olhando para as coisas na minha mão.

Me aproximei e coloquei tudo na cama diante dela.

O lobo se remexeu lá dentro, satisfeito pra caralho. Se sentindo como se estivesse numa caçada de cortejo, entregando a caça para a sua fêmea. Meu lobo está reclamando comigo que a minha caça é horrível e que eu deveria ir para a floresta para ele caçar um animal de verdade para ela. E não um monte de porcaria industrializada.

— Só tinha isso, não sabia do que você gosta, então fica à vontade. Come.

Ela abriu um sorriso pequeno, o primeiro que eu via nela.

— Obrigada... Você não quer?

Peguei o saquinho de amendoim e abri o frigobar, pegando uma cerveja.

— Fica aqui — falei, abrindo a cerveja. — Tranca a porta. Não se preocupa, o dono desse motel eu conheço, ele não é perigoso, mas tranca a porta assim mesmo. Me espera. Eu tenho que fazer um trabalho e já volto. A gente tem que conversar.

Ela me olhou confusa.

Conversa? Eu não sei nem por que falei isso. O que era da fase da vida dela não é da minha conta. Já estou me intrometendo demais. Tem um cheiro de mistério nela que eu não consigo identificar.

Eu não tinha tempo pra ficar pensando no quanto essa humana me intrigava. Eu precisava ir. Tinha um trabalho a fazer e não podia falhar novamente com o contratante.

Subi na moto e peguei a BR-116. A estrada estava deserta, engolida pela névoa da madrugada, o cenário perfeito para o que eu fazia de melhor.

O contratante podia estar nervoso, mas sabia muito bem que, quando aceitava um serviço, o alvo já estava morto. Era apenas uma questão de tempo.

Vinte minutos depois, estacionei a moto a um quilômetro de distância do galpão da serraria velha. Me movi pelas sombras sem fazer um único ruído, com a precisão cirúrgica de um predador.

O cheiro de madeira podre e poeira invadiu minhas narinas quando me aproximei da janela dos fundos do galpão.

Olhei para dentro.

O alvo estava abrindo uma grande caixa de madeira — a muamba de que o contratante havia falado. Ele puxou alguns maços de dinheiro e um envelope pardo de dentro dela.

Apenas dois seguranças.

A certeza da impunidade deixa os humanos corruptos com uam falsa sensação de segurança.

Não perdi tempo. Levei a mão à cintura, puxando a pistola com silenciador. Me posicionei, a mente fria, o dedo leve no gatilho.

Disparei três vezes.

Os projéteis rasgaram o silêncio da noite e atingiram os homens com precisão mortal.

Trabalho feito.

Entrei no galpão de forma fria e calculista para recolher meus vestígios. Me aproximei do corpo e passei os olhos pelo conteúdo que havia caído da caixa de muamba.

Meu olhar travou instantaneamente.

Caída bem ao lado da mão sem vida do homem, estava uma fotografia analógica. Uma foto da garota que eu acabara de deixar trancada no quarto de hotel.

Meu coração deu uma batida violenta.

Peguei o papel com os dedos enluvados e o virei. No verso da imagem, escrito à mão com uma caligrafia apressada, havia apenas um nome masculino desconhecido e um número de telefone com o código de área de outra cidade

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Sonia Ferreira
Tadinha da Bia
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