FAZER LOGINGEMIMA
O PATRÃO Quando saio do escritório de dona Marina, ainda sinto o coração batendo com um ritmo descompassado contra as costelas. O ar parece mais pesado, ou talvez seja apenas a minha consciência pesada por ter falado mais do que deveria. Eu só queria compartilhar uma ideia, algo simples que me ocorreu durante as manhãs intermináveis de separação dos frutos. Pensava nos temperos e ervas que minha família sempre utilizou em nossa mesa, lá em Noto. Mas, agora que caminho pelo corredor de pedra, o silêncio ao meu redor parece amplificar minha hesitação. Tenho apenas nove meses de casa e sei, por tudo o que ouço nos corredores, que o senhor Matheus não é um homem que aprecia funcionários tomando liberdades. No instante exato em que me viro para seguir rumo à fábrica, meus passos travam. Há um homem parado a poucos metros, encostado na parede próxima à porta por onde saí. Ele é alto, imponente, com uma presença que parece preencher todo o espaço. Preciso erguer o rosto para encará-lo, mas, antes que meu olhar alcance o seu, o constrangimento me faz desviar depressa. Ele veste um terno de corte impecável e o aroma do seu perfume — algo amadeirado, caro, sofisticado — atinge-me antes que eu consiga formular um único pensamento coerente. Sinto meu rosto arder num rubor que começa no pescoço. Ele me observa, e a intensidade do seu olhar é tão palpável que, por um segundo, tenho a terrível impressão de que ouviu cada palavra que troquei com dona Marina. — Com licença. — murmuro, a voz saindo mais fina do que eu gostaria. Ele se afasta, abrindo caminho com uma elegância natural. Passo por ele contendo a respiração, evitando a todo custo encarar seus olhos azuis, cujo brilho periférico já foi o suficiente para me desequilibrar. Continuo a caminhada pelo corredor com os dedos apertando nervosamente a lateral do avental de trabalho, buscando ali alguma âncora para a minha ansiedade. A dúvida me persegue como uma sombra: quem é esse homem? Será que ele é alguém importante? Será que ouviu sobre os azeites e o meu medo do senhor Matheus? Preciso desse emprego, preciso desesperadamente de cada centavo para ajudar minha família em Noto. O risco de ser vista como uma funcionária insolente me faz caminhar ainda mais rápido, tentando forçar minha mente a focar na tarefa que me aguarda na prensa. Entro no refeitório já perto do final do horário de almoço. O ambiente está barulhento, com o som de talheres contra os pratos e conversas misturadas. Procuro logo por Pepita, minha única aliada neste lugar onde me sinto tão estrangeira. Ela está sentada no lugar de sempre, mastigando com aquele jeito esperto de quem lê o mundo ao seu redor antes mesmo de qualquer um abrir a boca. Pepita é mexicana, uma mulher que carrega a força do seu país na fala e que me acolheu desde o dia em que cheguei, sem me olhar como se eu fosse apenas uma mão de obra barata vinda do campo. Assim que me aproximo, ela ergue as sobrancelhas, observando meu estado visivelmente agitado. — Você quase perde o horário, Gemima. — diz ela, indicando a cadeira ao lado com o queixo. Sento-me, mas a comida não parece apetitosa. Aproximo-me dela, baixando o tom de voz para que apenas ela me ouça. — É que fui conversar com dona Marina sobre umas sugestões para a produção. Falei dos azeites temperados, com pimenta, alho, limão siciliano... Mas, menina, quando saí do escritório, dei de cara com um homem. — Ele é tão alto, tão elegante, com uma barba aparada com perfeição e um perfume que... bom, acho que perdi o fôlego por um segundo. Pepita para de mastigar, encarando-me com um brilho divertido nos olhos. — Como assim? Os homens daqui são todos brutos do campo, vivem suados debaixo do sol. Esse que você viu cheiroso desse jeito só pode ser um visitante. — Pois é. Eu não faço ideia de quem ele seja. Só sei que entrou no escritório assim que saí. Fiquei com as pernas bambas, Pepita. Nunca vi tanta beleza reunida em uma única pessoa. Ela solta uma risada contida, cautelosa para não atrair a atenção das mesas vizinhas. — Deve ser algum cliente importante. Alguém que veio fechar contrato de distribuição ou fazer um pedido grande para hotéis da cidade. Esse povo de gravata só aparece aqui quando o dinheiro fala alto. Assinto, tentando forçar minha mente a aceitar essa explicação lógica. Gente importante passa por nós, trabalhadores, como se fôssemos parte da paisagem. O almoço segue, mas minha cabeça está em outro lugar. Repasso mentalmente a cena: a forma como ele se afastou, a seriedade que parecia esconder uma curiosidade profunda. É uma bobagem sem tamanho, Gemima. Você está aqui para trabalhar, não para perder tempo reparando em homens que não fazem parte do seu mundo. Repentinamente, o burburinho no refeitório muda de tom. O clima, antes descontraído, torna-se subitamente tenso. Alguns funcionários endireitam a postura, outras conversas morrem antes mesmo de se completarem. Instintivamente, ergo os olhos. O homem do corredor acaba de entrar no refeitório, caminhando logo atrás do senhor Matheus. Meu estômago despenca. — É aquele homem ali. — sussurro para Pepita, quase sem voz. Ela se vira, acompanha o movimento deles com o olhar e, no mesmo instante, sua expressão muda de diversão para seriedade absoluta. — Aquele? — Sim. Pepita volta-se para mim, baixando ainda mais a voz, como se o nome do homem fosse um segredo perigoso. — Gemima, aquele é o senhor Giorgio. Ele é o filho do senhor Matheus. O sangue sobe pelo meu pescoço, tingindo meu rosto de um vermelho escarlate. — Meu Deus do céu. Esquece tudo o que eu disse. Esquece que eu falei qualquer coisa. Pepita tenta segurar o riso, mas percebo que ela entendeu o tamanho do meu desespero. — Não esquenta, menina. Ele é o oposto do pai dele. Enquanto o senhor Matheus trata a gente como se fôssemos ferramentas gastas, o senhor Giorgio trata todo mundo como ser humano. Olho rapidamente para a mesa onde eles se sentam, distante da nossa, e volto a me esconder atrás do meu prato. A comida, antes sem graça, torna-se subitamente a única coisa que me impede de desmaiar de vergonha. — Mesmo assim, não devia ter falado nada. Eu nem sabia quem ele era. Que gafe terrível. — Você só disse que ele é bonito e cheiroso, Gemima. Isso não é crime, é constatação de fato. — Pepita! — Está bem, está bem. Eu esqueço. Mas olha, só toma cuidado para o senhor Matheus não saber que você comentou sobre o filho dele. Você sabe como ele é. Ele tem outros planos para o senhor Giorgio. A frase me faz levantar o olhar novamente. — Outros planos? — Casamento, negócios, alianças de família. Esse povo não pensa como a gente. Para eles, o filho é apenas uma peça num tabuleiro de xadrez financeiro. Aperto os dedos nos talheres, sentindo a frieza do metal. — Deus me livre. Eu só fiz um comentário, não tenho interesse nenhum. Meu único objetivo aqui é ganhar meu dinheiro para ajudar minha família em Noto. Não tenho tempo para sonhos de gente rica. Pepita me observa por alguns segundos, o olhar perspicaz como se tentasse decifrar se estou sendo honesta comigo mesma. — Eu sei. Mas às vezes a gente não escolhe quem olha para a gente. — Pois eu espero que ninguém olhe. Mal termino de falar e sinto um formigamento, um arrepio discreto percorrendo minha nuca. A sensação de ser observada é tão forte que, por um instante, penso que o próprio senhor Matheus está me encarando. Levanto os olhos com cautela. Ele está olhando para mim. Giorgio está ao lado do pai, mas, por um breve momento, parece alheio à conversa de Matheus. Seu olhar encontra o meu com uma franqueza absoluta, uma calma que me desconcerta. Meu coração dispara como um pássaro preso em uma gaiola. Ele então faz um meio sorriso — um gesto quase imperceptível, educado, mas carregado de uma intenção que não consigo definir — e inclina levemente a cabeça. Abaixo os olhos imediatamente, sentindo o peito arder. — Você despertou a curiosidade dele, menina. — Pepita comenta, cutucando meu braço. — Nego. Deve ter sido impressão minha. Deus me livre que ele olhe mais uma vez. Ela apenas sorri, como se soubesse segredos que eu ainda não estou pronta para compreender. — Vamos ver no que vai dar isso, Gemima. Seguro o copo com as duas mãos, bebendo um gole de água enquanto tento forçar meu coração a retomar o compasso normal. Quero acreditar que Pepita está exagerando, que o cumprimento do senhor Giorgio foi apenas um gesto de educação. Mas, mesmo repetindo isso para mim, a inquietação permanece, um nó cego no meio do meu peito. Volto a comer devagar, forçando-me a pensar nas tarefas que me esperam à tarde. Preciso separar os frutos, preciso da prensa, preciso da rotina. É a única coisa que me manteve inteira até hoje. Só que, pela primeira vez desde que cheguei à fazenda Trovato, sinto que algo fundamental saiu do lugar. E essa sensação, mais do que qualquer repreensão do senhor Matheus, é o que realmente me assusta.CAPÍTULO BÔNUS – BETTINATrês anos em uma clínica psiquiatrica, esse foi o tempo exato que passei isolada na clínica de reabilitação.No início, o ódio e o ressentimento me consumiam por dentro. Achei que meu pai estava me punindo, mas, no fundo, ele não me deu trégua porque sabia que aquela era a minha única chance de salvação. E hoje eu reconheço: foi a melhor coisa que ele já fez por mim.Durante todo esse tempo, fui submetida a um tratamento rigoroso e a regras estritas. Não podíamos ter nenhum tipo de relacionamento, contato afetuoso ou distrações externas. Tivemos que encarar nossos próprios demônios de frente. Foi um processo doloroso, arrastado e profundo, mas indispensável.Foi lá dentro que conheci o meu terapeuta, Lucero. Ele foi o homem que me ajudou a desmontar a carcaça de egoísmo e obsessão que construí durante a vida, ensinando-me a entender que nem tudo o que a gente quer na vida a gente pode ter. Mas Lucero foi muito além do profissionalismo impecável: ele enxergou
GIORGIOCinco anos depois do nascimento dos gêmeos.O fim de tarde na fazenda tingia o céu da Sicília em tons vibrantes de dourado e lilás. O aroma dos limões-sicilianos e do azeite fresco vindo do laboratório de Gemima preenchia o ar, criando aquela atmosfera de paz que, no passado, eu jamais julguei ser possível alcançar.Sentei-me na varanda da casa principal, com um copo de suco de laranja na mão, observando com orgulho a cena que se desenrolava no gramado à minha frente.Enzo e Lorenzo, agora com cinco anos, e as pequenas Marina e Mariana, nossas outras gêmeas que vieram logo em seguida e já estavam com três aninhos esbanjando fofura, corriam atrás de uma bola de futebol pelo terreiro. E à frente de todo esse time, comandando a partida com a severidade e a dignidade de uma verdadeira técnica profissional, estava Georgina.Aos dez anos, nossa filha mais velha havia se tornado uma garotinha linda, esperta e completamente imbatível em suas convicções.— Passa a bola, Enzo! Lorenzo,
GEMIMAA volta para casa com Enzo e Lorenzo nos braços trouxe uma movimentação diferente para a fazenda. O aroma suave de sabonete infantil e o silêncio sereno da casa logo foram preenchidos pela expectativa do nosso reencontro. Minha mãe estava na sala com Georgina, segurando as mãozinhas inquietas da nossa pequena, que pulava no lugar de tanta ansiedade.Assim que cruzamos a porta de entrada, Georgina correu na nossa direção, parando abruptamente com os olhos bem abertos diante dos dois moisés decorados.Em vez do esperado abraço calmo de boas-vindas, ela colocou as mãos nas cintoquinhas, olhou diretamente para Giorgio e para mim e disparou, com o tom mais sério e desesperado do mundo:— Quando é que vocês vão se ajoelhar de novo e pedir para o Papai do Céu mais irmãozinhos? Agora que chegou esses dois, quando é que vai vir o resto do meu time?Eu e Giorgio nos olhamos no mesmo instante. Tentei conter o riso, mas a expressão da minha filha era de puro e genuíno desespero logístico.
GEMIMASaímos do hospital radiantes, flutuando em uma nuvem de pura felicidade. Antes de ir buscar a nossa filha na escola, fizemos questão de parar em uma loja de artigos infantis. Giorgio fazia questão de escolher cada detalhe pessoalmente. Compramos dois ursinhos de pelúcia idênticos, macios e delicados, cada um trazendo uma fitinha bordada no peito com a frase perfeita: "Parabéns, você vai ser nossa irmã mais velha!".No caminho para casa, Giorgio ligou para o nosso cozinheiro e pediu que preparasse um bolo especial de comemoração, bem bonito e decorado, para receber a nossa garotinha.Fomos juntos até a escola e, assim que Georgina passou pelo portão e nos viu esperando por ela do lado de fora, veio correndo com os braços abertos, cheia de energia. O trajeto de volta para a fazenda foi puro suspense, com Giorgio piscando para mim pelo retrovisor enquanto ela tentava adivinhar o motivo de estarmos tão sorridentes.Assim que entramos em casa, a mesa da sala de jantar já estava pos
GEMIMADois meses se passaram desde o nosso casamento. A vida na fazenda havia ganhado uma rotina harmoniosa e abençoada. O meu laboratório de azeites já estava em pleno funcionamento, Georgina estava radiante com a sua nova rotina e o meu amor por Giorgio crescia a cada amanhecer.Estávamos todos reunidos à mesa para o café da manhã. A mesa estava farta com pães frescos, queijos da região, frutas e o café recém-passado, cujo aroma costumava ser um dos meus preferidos. Mas, de repente, no exato momento em que Giorgio serviu a sua xícara, uma onda súbita e devastadora de enjoo atingiu o meu estômago. O cheiro do café, antes tão agradável, pareceu insuportável.Senti a minha garganta fechar e a salivação aumentar rapidamente.— Licença... — murmurei com a voz falhada, levantando-me às pressas da mesa e levando a mão à boca.Corri em direção ao lavabo mais próximo do corredor. Mal deu tempo de fechar a porta; debrucei-me sobre a pia e vomitei de forma violenta, o meu estômago contorcend
– HENRIQUEA luz fraca do final de tarde que entrava pelas cortinas do escritório parecia deixar o ambiente ainda mais pesado. Eu observava a minha filha andar de um lado para o outro como um animal enjaulado, as mãos trêmulas, o olhar desprovido de qualquer traço de lucidez.Bettina havia ultrapassado todos os limites aceitáveis para a razão humana.— O Giorgio é meu! Ele é meu, pai! — ela gritava, a voz estridente cortando o silêncio da casa enquanto cravava as unhas na própria palma da mão. — Aquele casamento é uma farsa! Aquela camponesa desgraçada usou feitiço, usou aquela criança para prender ele! O Giorgio me ama, ele tem que voltar para mim! Ele não pode me largar assim!— Chega, Bettina! — minha voz ecoou firme pelo cômodo, embora o meu peito estivesse destruído por dentro ao ver o estado lamentável em que ela se encontrava. — Pela amor de Deus, olhe para você! Pare de se humilhar e de encarar o mundo através dessa sua obsessão doentia!— Eu não estou doentia! — ela vocifero







