FAZER LOGINO CONVITE
Sinalizei discretamente para um dos funcionários do serviço, um rapaz jovem que mantinha o refeitório em ordem. Troquei algumas palavras rápidas com ele, mantendo o tom baixo, e apontei para a mesa onde Gemima ainda se encontrava, quase escondida atrás da amiga. Vi o garçom assentir com um respeito automático e começar a caminhar pelo salão. Ele desviava entre as mesas com uma seriedade profissional, mas havia algo na sua postura que deixou o ambiente em estado de alerta. Pude ver o momento exato em que a mensagem chegou até ela. Gemima sentiu-se minúscula, sentada ali com o avental manchado pelo trabalho pesado da manhã. O burburinho ao seu redor começou a crescer, com outros funcionários sussurrando e lançando olhares curiosos sobre o movimento incomum de um magnata enviando um garçom até a mesa de uma simples trabalhadora. O rapaz limpou a garganta ao se aproximar, mantendo a postura firme, mas seus olhos mostravam que ele também estava surpreso. Gemima, ao ser abordada, parecia querer sumir sob a cadeira. Seu coração disparava tanto que, da distância onde eu estava, percebi a respiração dela acelerada. Ela tentou engolir o seco, mas a garganta parecia travada pela tensão. Respondeu algo curto, tentando controlar o tremor nas mãos que ela tentava, inutilmente, esconder sob a mesa. O garçom indicou a minha direção, e pude ver o terror e a curiosidade se misturando no olhar dela. O silêncio ao redor pareceu se intensificar, como se cada pessoa no refeitório estivesse suspensa no tempo, esperando para ver qual seria a reação daquela moça perante o convite. Eu a observava com calma, esperando que ela encontrasse a coragem necessária para dar o passo seguinte. Ela não tinha como recusar. O filho do patrão acabara de convocar uma funcionária comum para uma conversa particular, e eu sabia que, a partir daquele segundo, o seu anonimato na fazenda Trovato deixaria de existir. O peso de ser o centro das atenções era o que ela mais temia, mas o medo do que eu poderia querer saber sobre sua ideia era ainda maior. Levantou-se devagar, sentindo as pernas bambas, como se o chão tivesse se tornado instável sob seus pés. Ajeitou o avental instintivamente, tentando limpar qualquer vestígio de desleixo antes de encarar o magnata. Era uma tentativa vã, mas revelava muito sobre o seu caráter. Cada passo em direção à minha mesa parecia durar uma eternidade, com dezenas de pares de olhos acompanhando sua trajetória hesitante. Aquele era o limiar de um novo capítulo para ela, e eu sabia que não haveria caminho de volta para a simplicidade que ela tanto tentava proteger. — Boa tarde, senhor. O senhor gostaria de falar comigo? — ela perguntou, tentando manter a voz estável enquanto apertava as pontas dos dedos contra a madeira da mesa. Levantei o olhar, e a intensidade de seus olhos verdes, mesmo nublados pelo medo, deixou-me momentaneamente sem fôlego. Havia ali uma centelha de inteligência que eu não conseguia ignorar. — Sim. Sente-se, por favor. Você se chama Gemima, não é? — Sim, senhor. — ela sentou-se na ponta da cadeira, sentindo-se uma intrusa em um espaço que, tecnicamente, era de sua própria labuta diária. — Você já terminou seu almoço? Quer pedir algo mais para terminar? — Não, senhor. Pode falar logo, por favor. Eu tenho que voltar para o trabalho. Soltei um riso curto, um som que serviu para suavizar o ambiente tenso que criamos. — Eu ouvi o seu diálogo com Marina hoje cedo. Achei extremamente interessante. Quais sugestões você tem exatamente? E por que você mencionou aquela ideia dos sabores? Senti o calor subir novamente pelo rosto dela. O nervosismo lutava contra a sua paixão pelo que fazia, e o resultado era fascinante. — É que... bem, o azeite de vocês é o melhor que já provei na vida. Mas, quando fazemos uma salada em casa, a gente precisa adicionar sal, alecrim, especiarias. Pensei que, como o azeite de vocês já tem essa qualidade superior, poderiam criar uma receita própria, já com os temperos que as pessoas mais usam. Ela falava com uma convicção que me impressionava, superando a timidez inicial. Continuei ouvindo cada palavra com uma atenção absoluta, fascinado pela simplicidade daquela lógica. — Por exemplo, para saladas, o azeite já viria infusionado com limão e ervas finas. Para carnes, pimenta, alho e alecrim. Eu faço isso nas minhas garrafas quando cozinho no alojamento à noite. Já experimentei em massas e até em camarões... fica muito saboroso. Inclinei-me para frente, apoiando os cotovelos na mesa, com um interesse genuíno. A forma como ela descrevia as combinações mostrava que ela não apenas seguia receitas, mas as inventava. — Interessante. Gostei muito. Você realmente faz isso? — Sim, senhor. Como não nos dão o jantar, eu gosto de preparar minha própria comida e acabo testando essas combinações. Observei-a por um longo momento, em silêncio, processando a oportunidade que estava diante de mim, antes de tomar uma decisão que fez o coração dela disparar. — Eu gostaria que você preparasse um prato e uma salada para eu degustar com o seu azeite temperado. — fiz uma pausa, baixando o tom para algo mais íntimo. — Hoje à noite, posso ir até o seu alojamento para provar? O mundo parou. Meus olhos fixaram-se nos dela, que estavam arregalados em um choque absoluto. — Meu Deus... acho que não é apropriado, senhor. — É uma questão de negócio, Gemima. Eu preciso provar para decidir se investimos nessa ideia. Prepararia para mim? Vi a luta interna dela. A necessidade de obedecer versus o medo paralisante da exposição. — Eu preparo. A que horas o senhor pode ir? — Estarei lá às 20 horas. É tempo suficiente para você providenciar os ingredientes? — Sim, senhor, eu consigo. Sorri para ela, um sorriso verdadeiro que iluminou meu rosto e pareceu desarmá-la completamente. — Então, nos vemos às 20 horas. Ela saiu da mesa como se estivesse caminhando sobre um precipício. Observei-a voltar para a fábrica, sua silhueta diminuindo entre as oliveiras. A noite chegaria logo, e com ela, a chance de provar que uma simples funcionária poderia, de fato, mudar o futuro de toda a família Trovato. Após se afastar da mesa de Giorgio, senti que meus pulmões finalmente voltaram a captar oxigênio, embora o desespero tivesse apenas mudado de endereço. Caminhei de volta para a mesa de Pepita, tentando manter uma postura neutra diante de todos os olhares que me fuzilavam. Ao me sentar, Pepita se inclinou imediatamente em minha direção. Seus olhos eram janelas escancaradas para a curiosidade desenfreada. — E então, Gemima? — ela sussurrou, a voz contida por um esforço hercúleo. — O que ele queria? Você demorou uma eternidade e parecia que ia desmaiar a qualquer segundo. Eu tremia, segurando a borda da mesa para que minhas mãos não denunciassem o turbilhão interno. — Pepita... ele quer provar meu azeite. Ele vai lá no alojamento às oito da noite. Ela soltou um som de choque quase imperceptível, cobrindo a boca com as mãos. O susto em seus olhos foi genuíno e imediato. — Você está brincando! O filho do patrão, no nosso alojamento? Gemima, isso é um absurdo! Se o senhor Matheus descobre, a gente está na rua em cinco minutos, sem direito nem a explicar. — Eu sei, eu sei! — eu choramingava baixinho, sem saber se ria de nervoso ou se chorava de pavor. — Mas ele disse que é negócio. Ele quer provar o azeite temperado da Série Sabores. Não tive como dizer não. — Pois vá logo trabalhar, menina! E reze para que nada dê errado. Esse homem pode ser gentil, mas o pai dele é o próprio diabo em pessoa quando o assunto é o controle da família. O resto da tarde foi um borrão cinzento na minha memória. Minha mente não estava mais focada nas azeitonas ou na esteira de seleção; ela estava no relógio, que parecia correr com uma velocidade desumana. Cada minuto que passava me aproximava do momento mais assustador da minha vida na fazenda. Às 17 horas, o apito que marcava o fim do turno soou como uma sentença libertadora e, ao mesmo tempo, como um aviso de perigo. Corri, quase tropeçando nos próprios pés, em direção à pequena venda nos limites da propriedade antes que baixassem as portas. O coração na boca, comprei os ingredientes que me faltavam: alho fresco, pimentas selecionadas que davam um brilho especial ao molho, alecrim de qualidade e o básico que faltava na minha dispensa improvisada. Com os sacos pesando nas mãos e o suor escorrendo pelo rosto pelo esforço e pela ansiedade, fui direto para o alojamento das moças. O lugar estava silencioso, com a maioria das colegas ainda espalhada pela fazenda ou descansando em seus aposentos. Entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim, sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros. Ajeitei tudo sobre a pequena mesa, lavei os ingredientes com um cuidado cirúrgico que nunca tive nem com as minhas próprias roupas. A preparação começou em um ritual de nervosismo. O cheiro dos temperos invadiu o pequeno quarto, misturando-se à minha ansiedade constante. Piquei o alho, selecionei as ervas, tudo com uma precisão que eu não sabia possuir. Precisava estar impecável. Depois de horas de preparo, tomei um banho rápido, tentando lavar a exaustão daquela jornada física e emocional. Vesti a roupa mais decente que eu guardava, algo simples, mas que passava uma ideia de organização e dignidade. Arrumei o prato, a salada e as garrafas de azeite aromatizado que eu criara. Olhei para o relógio na parede. 19h55. O silêncio do alojamento parecia me julgar, cada ruído do corredor soando como o início de uma catástrofe. Eu estava pronta, mas o medo de estar cometendo o maior erro da minha vida me fazia querer desaparecer. Foi então que o som cortou o ar, seco e definitivo. Três batidas na porta. Meu coração parou por um segundo. O toque não era de ninguém do alojamento; era firme, autoritário e carregado de uma expectativa que eu não sabia se poderia corresponder. Caminhei até a porta, sentindo que cada passo era um salto no escuro. Estendi a mão, segurei a maçaneta e, com um suspiro trêmulo, abri a porta.CAPÍTULO BÔNUS – BETTINATrês anos em uma clínica psiquiatrica, esse foi o tempo exato que passei isolada na clínica de reabilitação.No início, o ódio e o ressentimento me consumiam por dentro. Achei que meu pai estava me punindo, mas, no fundo, ele não me deu trégua porque sabia que aquela era a minha única chance de salvação. E hoje eu reconheço: foi a melhor coisa que ele já fez por mim.Durante todo esse tempo, fui submetida a um tratamento rigoroso e a regras estritas. Não podíamos ter nenhum tipo de relacionamento, contato afetuoso ou distrações externas. Tivemos que encarar nossos próprios demônios de frente. Foi um processo doloroso, arrastado e profundo, mas indispensável.Foi lá dentro que conheci o meu terapeuta, Lucero. Ele foi o homem que me ajudou a desmontar a carcaça de egoísmo e obsessão que construí durante a vida, ensinando-me a entender que nem tudo o que a gente quer na vida a gente pode ter. Mas Lucero foi muito além do profissionalismo impecável: ele enxergou
GIORGIOCinco anos depois do nascimento dos gêmeos.O fim de tarde na fazenda tingia o céu da Sicília em tons vibrantes de dourado e lilás. O aroma dos limões-sicilianos e do azeite fresco vindo do laboratório de Gemima preenchia o ar, criando aquela atmosfera de paz que, no passado, eu jamais julguei ser possível alcançar.Sentei-me na varanda da casa principal, com um copo de suco de laranja na mão, observando com orgulho a cena que se desenrolava no gramado à minha frente.Enzo e Lorenzo, agora com cinco anos, e as pequenas Marina e Mariana, nossas outras gêmeas que vieram logo em seguida e já estavam com três aninhos esbanjando fofura, corriam atrás de uma bola de futebol pelo terreiro. E à frente de todo esse time, comandando a partida com a severidade e a dignidade de uma verdadeira técnica profissional, estava Georgina.Aos dez anos, nossa filha mais velha havia se tornado uma garotinha linda, esperta e completamente imbatível em suas convicções.— Passa a bola, Enzo! Lorenzo,
GEMIMAA volta para casa com Enzo e Lorenzo nos braços trouxe uma movimentação diferente para a fazenda. O aroma suave de sabonete infantil e o silêncio sereno da casa logo foram preenchidos pela expectativa do nosso reencontro. Minha mãe estava na sala com Georgina, segurando as mãozinhas inquietas da nossa pequena, que pulava no lugar de tanta ansiedade.Assim que cruzamos a porta de entrada, Georgina correu na nossa direção, parando abruptamente com os olhos bem abertos diante dos dois moisés decorados.Em vez do esperado abraço calmo de boas-vindas, ela colocou as mãos nas cintoquinhas, olhou diretamente para Giorgio e para mim e disparou, com o tom mais sério e desesperado do mundo:— Quando é que vocês vão se ajoelhar de novo e pedir para o Papai do Céu mais irmãozinhos? Agora que chegou esses dois, quando é que vai vir o resto do meu time?Eu e Giorgio nos olhamos no mesmo instante. Tentei conter o riso, mas a expressão da minha filha era de puro e genuíno desespero logístico.
GEMIMASaímos do hospital radiantes, flutuando em uma nuvem de pura felicidade. Antes de ir buscar a nossa filha na escola, fizemos questão de parar em uma loja de artigos infantis. Giorgio fazia questão de escolher cada detalhe pessoalmente. Compramos dois ursinhos de pelúcia idênticos, macios e delicados, cada um trazendo uma fitinha bordada no peito com a frase perfeita: "Parabéns, você vai ser nossa irmã mais velha!".No caminho para casa, Giorgio ligou para o nosso cozinheiro e pediu que preparasse um bolo especial de comemoração, bem bonito e decorado, para receber a nossa garotinha.Fomos juntos até a escola e, assim que Georgina passou pelo portão e nos viu esperando por ela do lado de fora, veio correndo com os braços abertos, cheia de energia. O trajeto de volta para a fazenda foi puro suspense, com Giorgio piscando para mim pelo retrovisor enquanto ela tentava adivinhar o motivo de estarmos tão sorridentes.Assim que entramos em casa, a mesa da sala de jantar já estava pos
GEMIMADois meses se passaram desde o nosso casamento. A vida na fazenda havia ganhado uma rotina harmoniosa e abençoada. O meu laboratório de azeites já estava em pleno funcionamento, Georgina estava radiante com a sua nova rotina e o meu amor por Giorgio crescia a cada amanhecer.Estávamos todos reunidos à mesa para o café da manhã. A mesa estava farta com pães frescos, queijos da região, frutas e o café recém-passado, cujo aroma costumava ser um dos meus preferidos. Mas, de repente, no exato momento em que Giorgio serviu a sua xícara, uma onda súbita e devastadora de enjoo atingiu o meu estômago. O cheiro do café, antes tão agradável, pareceu insuportável.Senti a minha garganta fechar e a salivação aumentar rapidamente.— Licença... — murmurei com a voz falhada, levantando-me às pressas da mesa e levando a mão à boca.Corri em direção ao lavabo mais próximo do corredor. Mal deu tempo de fechar a porta; debrucei-me sobre a pia e vomitei de forma violenta, o meu estômago contorcend
– HENRIQUEA luz fraca do final de tarde que entrava pelas cortinas do escritório parecia deixar o ambiente ainda mais pesado. Eu observava a minha filha andar de um lado para o outro como um animal enjaulado, as mãos trêmulas, o olhar desprovido de qualquer traço de lucidez.Bettina havia ultrapassado todos os limites aceitáveis para a razão humana.— O Giorgio é meu! Ele é meu, pai! — ela gritava, a voz estridente cortando o silêncio da casa enquanto cravava as unhas na própria palma da mão. — Aquele casamento é uma farsa! Aquela camponesa desgraçada usou feitiço, usou aquela criança para prender ele! O Giorgio me ama, ele tem que voltar para mim! Ele não pode me largar assim!— Chega, Bettina! — minha voz ecoou firme pelo cômodo, embora o meu peito estivesse destruído por dentro ao ver o estado lamentável em que ela se encontrava. — Pela amor de Deus, olhe para você! Pare de se humilhar e de encarar o mundo através dessa sua obsessão doentia!— Eu não estou doentia! — ela vocifero







