FAZER LOGINO JANTAR
A noite cai sobre a fazenda trazendo aquele silêncio profundo que só existe no campo, onde o único som é o das folhas sob a brisa noturna. Da varanda da casa principal, observo as fileiras de oliveiras balançando suavemente enquanto seguro uma garrafa de vinho que seleciono cuidadosamente na adega, um tinto robusto que parecia adequado para a ocasião. Sorrio sozinho, sentindo uma expectativa que não sabia que ainda era capaz de nutrir. Vamos ver o que Gemima preparou para eu degustar com os azeites. Mal dou os primeiros passos em direção aos alojamentos quando o brilho do meu celular interrompe a paz da noite. O toque é insistente, irritante. Nem preciso olhar para a tela para identificar a origem daquela interrupção. Já sei exatamente quem é. Atendo sem diminuir o ritmo, mantendo o tom de voz gelado. — O que você quer, Bettina? Do outro lado da linha, sua voz sai carregada de reclamação e de uma possessividade que, ultimamente, me causa náuseas. — Quando você volta para a Sicília? Por que demora tanto nessa fazenda? Franzo a testa, sentindo o peso daquela obrigação social. — Não sei, Bettina. Por quê? — Seu pai me convidou para passar alguns dias aí. Quero te ver. Fecho os olhos por um instante, respirando fundo para não explodir. Era só o que me faltava em meio a tantos planos. — Não venha. Ela permanece em silêncio durante alguns segundos, surpresa com a minha franqueza direta. — Como assim, Giorgio? Eu sou sua esposa, o convite veio do seu pai! — Eu estou trabalhando, Bettina. Você vem para cá e fica querendo passear, conversar, contar histórias fúteis. Eu não tenho tempo nem paciência para isso agora. Ela suspira, um som dramático que me causa um revirar de olhos. — Nossa, Giorgio... você tem mania de me tratar com esse desprezo. Só me trata bem naquela hora específica em que nós estamos abraçados em uma cama. Seguro a vontade de encerrar a ligação imediatamente. O nível de infantilidade naquelas palavras é exaustivo. — Aquilo é um momento de lazer e distração, não o centro da nossa vida. Agora estou trabalhando e tenho um jantar de negócios. Boa noite. Sem esperar por uma réplica, encerro a chamada e guardo o aparelho no bolso do paletó. Só faltava essa distração, pensei comigo mesmo, retomando o caminho em direção aos alojamentos. Enquanto caminho, percebo que meu pai, por mais que tenha seus defeitos, realmente cuidou de melhorar as condições onde os funcionários vivem. Os jardins estão bem cuidados, as paredes receberam pintura nova e a iluminação amarelada deixa o ambiente muito mais acolhedor do que eu me lembrava de visitas anteriores. Perto da escada de acesso aos blocos, encontro uma das senhoras que trabalha na limpeza da sede. Ela me reconhece imediatamente e para, fazendo uma pequena reverência. — Boa noite, senhor Giorgio. — Boa noite. A senhora poderia me dizer onde fica a kitnet da senhorita Gemima? Ela aponta para o segundo andar com um sorriso prestativo. — Número seis, senhor. É a primeira da direita. — Obrigado. Subo os degraus lentamente, sentindo o coração em um ritmo atípico. Não sei explicar por que estou tão curioso, nem por que esse jantar parece ter mais importância do que qualquer fechamento de contrato hoteleiro. Talvez seja pelos azeites. Talvez pelas ideias. Ou talvez, no fundo, seja apenas pela jovem que falou delas com uma paixão que eu não via há muito tempo. Paro diante da porta de madeira pintada de branco. Bato duas vezes, num ritmo contido. Alguns segundos depois, a trava gira e a porta se abre, revelando uma Gemima que eu mal reconheço, mas que me deixa instantaneamente fascinado. Ela acabou de tomar banho. Os cabelos castanho-claros estão soltos sobre os ombros, descendo pelas costas em ondas ainda levemente úmidas que brilham sob a luz do corredor. O rosto corado combina com o brilho intenso dos olhos verdes, e um perfume delicado, algo que remete à alfazema, invade meu espaço pessoal assim que a porta se abre. Ela sorri, visivelmente surpresa com a minha pontualidade. — O senhor chegou exatamente na hora. Ela se afasta um pouco, abrindo espaço para eu entrar. — Entre, senhor Giorgio. Entro no ambiente. O pequeno apartamento é simples, quase espartano em termos de móveis, mas extremamente organizado. Há flores do campo sobre a mesa de refeições, uma toalha imaculadamente limpa, pratos dispostos com esmero e panelas ainda soltando um aroma irresistível que me abre o apetite. Levanto discretamente a garrafa de vinho que trouxe. — Trouxe um tinto para acompanharmos o jantar. Ela sorri, sentindo-se mais à vontade. — Vou colocá-lo no balde de gelo, embora o senhor talvez prefira beber em temperatura ambiente. Enquanto ela se ocupa com o serviço, observo a mesa. Há um espaguete fumegante que exala um perfume de manjericão, duas saladas caprichadas e pequenos recipientes contendo diferentes amostras dos azeites. Ela percebe meu interesse e se aproxima. — Espero que o senhor goste. Preparei duas opções de salada e alguns dos azeites que já havia desenvolvido com os temperos que lhe contei. Sentamo-nos frente a frente. Ela serve o jantar com uma simplicidade desarmante, mas cada gesto seu carrega um cuidado que me chama a atenção. Não existe ostentação, não há o luxo frio ao qual estou acostumado em Milão. Existe apenas carinho e dedicação. Antes de provar qualquer coisa, resolvo que quero conhecê-la para além da funcionária. — Marina comentou que você veio da região dos limões sicilianos. Ela confirma com um sorriso nostálgico, os olhos brilhando. — Sim. Minha família mora em Noto. Tenho pai, mãe e irmãos. Nós temos uma pequena plantação de limão siciliano que é o orgulho deles. — Então vocês vivem apenas disso? Ela balança a cabeça, em um gesto negativo. — A plantação é pequena. Não sustenta toda a família o ano todo. Por isso meus pais também trabalham em outra fazenda próxima. Eu vim para cá justamente para aprender como funciona a colheita das olivas e todo o processo de produção do azeite em larga escala. Escuto cada detalhe, notando a força nas palavras dela. — Meu sonho sempre foi desenvolver azeites com temperos diferentes, para facilitar a vida das pessoas na cozinha. Um azeite pronto para saladas, outro para massas, outro para carnes... coisas assim. Sorrio, confirmando que a visão dela era tão clara quanto a minha. Enrolo um pouco do espaguete no garfo e levo à boca, observando-a enquanto ela aguarda minha reação com uma expectativa quase tímida. O sabor me surpreende instantaneamente. Fecho os olhos por um instante, saboreando. O alho aparece primeiro, profundo e tostado. Depois vem o alecrim, fresco e herbal. No final, um equilíbrio perfeito que não permite que nenhum ingrediente domine o outro. Abro os olhos e encaro a dona daquelas mãos. — Meu Deus... isso está divino. Realmente divino. Ela sorri, genuinamente envergonhada, o que a deixa ainda mais atraente. — Que bom que o senhor gostou. Fico aliviada. Pego um dos pequenos recipientes com azeite temperado. — O que você colocou exatamente aqui? Ela ri, um som doce e espontâneo. — Só aquilo que falei para o senhor. Alho, alecrim... e uma receita secreta que não vem ao caso agora. Acabo rindo também, contagiado pelo seu bom humor. — Receita secreta? Então estamos falando de uma alquimista? Ela confirma com um aceno, os olhos rindo. — Toda família tem seus segredos, senhor Giorgio. Esse é o meu. Provo a salada. O sabor é igualmente surpreendente, natural, sem excessos. Olho novamente para Gemima, sentindo que, em apenas algumas horas, essa jovem ocupou um espaço que Bettina nunca conseguiu, em anos. — Vou precisar voltar outras vezes, Gemima. Ela arregala levemente os olhos, surpresa. — Para quê? O senhor já está jantando... — Para provar os outros sabores que você mencionou. Ela sorri, dessa vez sem esconder a alegria. Continuo a conversa, mudando para temas mais leves. As horas passam sem que eu perceba o relógio. Falamos sobre a Sicília, sobre as dificuldades da agricultura, sobre a diferença entre a vida na metrópole e a vida no campo. Quando finalmente olho para o relógio na parede, já passam das nove da noite. Levanto-me, sentindo uma relutância real em partir. — Preciso ir. Amanhã teremos uma reunião cedo. Ela também se levanta, acompanhando-me até a porta. — Obrigada por ter vindo, senhor. Pego a caixa com as garrafas que ela separou para mim. Antes de sair, olho uma última vez para aquele pequeno alojamento. Tudo ali reflete quem ela é: simplicidade, dedicação e um talento bruto que implora para ser lapidado. Ao deixar o alojamento, caminho lentamente em direção à casa principal. O vento da noite traz novamente aquele perfume de alfazema que parece ter ficado preso ao meu terno. Esses azeites precisam passar pelo laboratório, preciso da validação técnica. Se a análise confirmar o que acabei de provar, não tenho dúvida nenhuma sobre o próximo passo. Vou lançar uma nova linha de produtos. E ela terá participação direta nesse projeto. Sorrio sozinho, pensando na surpresa que isso causará ao meu pai. Gemima não me apresentou apenas uma receita, ela me apresentou o futuro da família Trovato, e eu farei questão de que ela seja devidamente reconhecida por isso.CAPÍTULO BÔNUS – BETTINATrês anos em uma clínica psiquiatrica, esse foi o tempo exato que passei isolada na clínica de reabilitação.No início, o ódio e o ressentimento me consumiam por dentro. Achei que meu pai estava me punindo, mas, no fundo, ele não me deu trégua porque sabia que aquela era a minha única chance de salvação. E hoje eu reconheço: foi a melhor coisa que ele já fez por mim.Durante todo esse tempo, fui submetida a um tratamento rigoroso e a regras estritas. Não podíamos ter nenhum tipo de relacionamento, contato afetuoso ou distrações externas. Tivemos que encarar nossos próprios demônios de frente. Foi um processo doloroso, arrastado e profundo, mas indispensável.Foi lá dentro que conheci o meu terapeuta, Lucero. Ele foi o homem que me ajudou a desmontar a carcaça de egoísmo e obsessão que construí durante a vida, ensinando-me a entender que nem tudo o que a gente quer na vida a gente pode ter. Mas Lucero foi muito além do profissionalismo impecável: ele enxergou
GIORGIOCinco anos depois do nascimento dos gêmeos.O fim de tarde na fazenda tingia o céu da Sicília em tons vibrantes de dourado e lilás. O aroma dos limões-sicilianos e do azeite fresco vindo do laboratório de Gemima preenchia o ar, criando aquela atmosfera de paz que, no passado, eu jamais julguei ser possível alcançar.Sentei-me na varanda da casa principal, com um copo de suco de laranja na mão, observando com orgulho a cena que se desenrolava no gramado à minha frente.Enzo e Lorenzo, agora com cinco anos, e as pequenas Marina e Mariana, nossas outras gêmeas que vieram logo em seguida e já estavam com três aninhos esbanjando fofura, corriam atrás de uma bola de futebol pelo terreiro. E à frente de todo esse time, comandando a partida com a severidade e a dignidade de uma verdadeira técnica profissional, estava Georgina.Aos dez anos, nossa filha mais velha havia se tornado uma garotinha linda, esperta e completamente imbatível em suas convicções.— Passa a bola, Enzo! Lorenzo,
GEMIMAA volta para casa com Enzo e Lorenzo nos braços trouxe uma movimentação diferente para a fazenda. O aroma suave de sabonete infantil e o silêncio sereno da casa logo foram preenchidos pela expectativa do nosso reencontro. Minha mãe estava na sala com Georgina, segurando as mãozinhas inquietas da nossa pequena, que pulava no lugar de tanta ansiedade.Assim que cruzamos a porta de entrada, Georgina correu na nossa direção, parando abruptamente com os olhos bem abertos diante dos dois moisés decorados.Em vez do esperado abraço calmo de boas-vindas, ela colocou as mãos nas cintoquinhas, olhou diretamente para Giorgio e para mim e disparou, com o tom mais sério e desesperado do mundo:— Quando é que vocês vão se ajoelhar de novo e pedir para o Papai do Céu mais irmãozinhos? Agora que chegou esses dois, quando é que vai vir o resto do meu time?Eu e Giorgio nos olhamos no mesmo instante. Tentei conter o riso, mas a expressão da minha filha era de puro e genuíno desespero logístico.
GEMIMASaímos do hospital radiantes, flutuando em uma nuvem de pura felicidade. Antes de ir buscar a nossa filha na escola, fizemos questão de parar em uma loja de artigos infantis. Giorgio fazia questão de escolher cada detalhe pessoalmente. Compramos dois ursinhos de pelúcia idênticos, macios e delicados, cada um trazendo uma fitinha bordada no peito com a frase perfeita: "Parabéns, você vai ser nossa irmã mais velha!".No caminho para casa, Giorgio ligou para o nosso cozinheiro e pediu que preparasse um bolo especial de comemoração, bem bonito e decorado, para receber a nossa garotinha.Fomos juntos até a escola e, assim que Georgina passou pelo portão e nos viu esperando por ela do lado de fora, veio correndo com os braços abertos, cheia de energia. O trajeto de volta para a fazenda foi puro suspense, com Giorgio piscando para mim pelo retrovisor enquanto ela tentava adivinhar o motivo de estarmos tão sorridentes.Assim que entramos em casa, a mesa da sala de jantar já estava pos
GEMIMADois meses se passaram desde o nosso casamento. A vida na fazenda havia ganhado uma rotina harmoniosa e abençoada. O meu laboratório de azeites já estava em pleno funcionamento, Georgina estava radiante com a sua nova rotina e o meu amor por Giorgio crescia a cada amanhecer.Estávamos todos reunidos à mesa para o café da manhã. A mesa estava farta com pães frescos, queijos da região, frutas e o café recém-passado, cujo aroma costumava ser um dos meus preferidos. Mas, de repente, no exato momento em que Giorgio serviu a sua xícara, uma onda súbita e devastadora de enjoo atingiu o meu estômago. O cheiro do café, antes tão agradável, pareceu insuportável.Senti a minha garganta fechar e a salivação aumentar rapidamente.— Licença... — murmurei com a voz falhada, levantando-me às pressas da mesa e levando a mão à boca.Corri em direção ao lavabo mais próximo do corredor. Mal deu tempo de fechar a porta; debrucei-me sobre a pia e vomitei de forma violenta, o meu estômago contorcend
– HENRIQUEA luz fraca do final de tarde que entrava pelas cortinas do escritório parecia deixar o ambiente ainda mais pesado. Eu observava a minha filha andar de um lado para o outro como um animal enjaulado, as mãos trêmulas, o olhar desprovido de qualquer traço de lucidez.Bettina havia ultrapassado todos os limites aceitáveis para a razão humana.— O Giorgio é meu! Ele é meu, pai! — ela gritava, a voz estridente cortando o silêncio da casa enquanto cravava as unhas na própria palma da mão. — Aquele casamento é uma farsa! Aquela camponesa desgraçada usou feitiço, usou aquela criança para prender ele! O Giorgio me ama, ele tem que voltar para mim! Ele não pode me largar assim!— Chega, Bettina! — minha voz ecoou firme pelo cômodo, embora o meu peito estivesse destruído por dentro ao ver o estado lamentável em que ela se encontrava. — Pela amor de Deus, olhe para você! Pare de se humilhar e de encarar o mundo através dessa sua obsessão doentia!— Eu não estou doentia! — ela vocifero







