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Menina no escritório

Auteur: Kari
last update Date de publication: 2025-08-07 05:18:17

NARRAÇÃO DE BRADY DAWSON...

Aproximei-me lentamente. Não sei lidar com crianças. Nunca estive sozinho com uma. Ela parecia curiosa, observava cada canto do escritório. Depois baixou o olhar para o chão — justamente para a mancha que Sara, a empregada, não conseguira limpar por completo.

— O que é isso? — apontou.

Sorri, desconcertado. Cocei o cenho. O que dizer? Eu não podia afirmar que era sangue seco... Não para uma criança tão pequena.

— Sujeira — murmurei, constrangido.

Ela me olhou e se aproximou sem o menor sinal de medo. Depois puxou minha calça, na altura do joelho.

— Você viu a minha mãe?

Abaixei-me, tentando ajudá-la de alguma forma.

— Como ela se chama?

A menininha abaixou a cabeça, pensativa. Talvez fosse informação demais para alguém que aparentava ter três anos.

— Mamãe.

A resposta me arrancou um riso genuíno.

— E como ela é?

— Bonita. Ela é legal e não me deixa descalça. Senão eu fico dodói — disse, fazendo um biquinho prestes a chorar.

Meu sorriso murchou um pouco. Ela me fitou de novo, com aqueles olhos redondos.

— Ela trabalha aqui.

— Eu posso te ajudar a encontrá-la. Como se separou dela?

— Eu tava no quarto... aí saí pra brincar de espiã. Mas não achei o quarto de novo... Ele sumiu — deu de ombros com uma inocência engraçada.

Ri, mas parei no instante em que ela tocou minha barba por fazer.

— Isso espeta — resmungou, dando tapinhas leves.

Segurei sua pequena mão com cuidado.

— Vamos encontrar sua mãe?

Mas ela soltou minha mão, distraída com a coleção de cavalos de enfeite perto da estante. Correu até eles, ficou na ponta dos pés tentando alcançar, deixando até o coelho de pelúcia no chão.

— Pega pra mim! Quero brincar.

Ainda agachado, sorri. A pureza era tanta que ela esquecia o que queria, bastava um novo brinquedo surgir. Levantei-me, peguei alguns cavalinhos e os coloquei no chão.

Ela riu. A risada parecia com a daquela personagem do desenho Masha e o Urso. Me sentei ali, no tapete, sem me reconhecer. Eu... estava sorrindo demais. E por um instante, a escuridão dentro de mim se dissipou.

Enquanto ela brincava, aproveitei para observá-la.

— Qual é o seu nome?

— Julie — respondeu sem parar de brincar.

— Eu me chamo Brady.

Ela parou, me encarou com as sobrancelhas finas franzidas.

— Mamãe disse que você é um ogro.

Engasguei com a vontade de rir.

— Ah é? Foi mesmo?

— Sim. Eu ouvi quando ela falou com a vovó... Eu comi toda a sopa.

— E o que mais ela disse?

Julie franziu os lábios, pensativa.

— Nada. Só que vai ganhar muito dinheiro e vai comprar outro urso pra mim.

Sorri. Estava prestes a perguntar mais quando a porta se abriu com força. Sara entrou ofegante. Os olhos marejados. Correu até a filha e a puxou, obrigando-a a ficar de pé.

— O que eu falei, Julie?! Não era pra sair do quarto! — repreendeu, visivelmente nervosa. As lágrimas já escorriam. Julie chorou, assustada com o tom. Sara sacudia seus braços, sem perceber a força.

— Calma! Não precisa disso — intervi.

Ela me encarou, encharcada de lágrimas. Pegou a filha no colo, ainda soluçando.

— A filha é minha, e eu a educo como achar certo!

Naquele instante, percebi: aquela empregada não era qualquer uma. Tinha gênio forte e não aceitava ser confrontada com facilidade.

— Ela só queria te encontrar. Veio pedir ajuda e se encantou com os cavalinhos — expliquei.

Notei suas mãos trêmulas segurando as costas da menina. Coloquei as mãos nos bolsos e esperei que se acalmasse. Após alguns minutos, ela enfim respirou fundo.

— Me desculpe — sussurrou. — Achei que não teria problema trazer minha filha. Não tinha com quem deixar... Minha mãe passou mal. Então... — fechou os olhos, sentindo-se julgada — Desculpe por ter sido grossa. Eu estava nervosa.

Suspirei, ainda a encarando. Uma das empregadas espiava da porta, provavelmente ajudava a procurar a criança.

— Pegue a menina. Quero falar com a empregada Sara... a sós.

Ela assentiu, pegou Julie dos braços da mãe e saiu, fechando a porta. Enfim, estávamos a sós. Sara ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, mas os fios escapavam da touca como sempre.

— Deveria ter perguntado antes — adverti, mesmo estando de guarda baixa. Gostei da criança... mas ela não precisa saber disso.

Sara não conseguia me encarar. Fitava o chão. Seus olhos voltaram a se encher de lágrimas.

— Eu realmente não tinha com quem deixá-la. E eu... eu não podia perder esse trabalho. Ela depende de mim.

Caminhei até a mesa, me sentando com calma.

— E o pai?

— Ela não tem.

— Fez sozinha?

— Ninguém faz filho sozinho. Se ela não tem pai é porque ele nunca esteve presente.

Arqueei as sobrancelhas.

— Compreensível...

— Estou liberada? — a voz dela tremia. — Não trarei ela de novo, me desculpe se atrapalhei seu trabalho.

— Não atrapalhou — respirei fundo e a encarei. Dessa vez, ela sustentou o olhar. — Mas se precisar trazê-la ou surgir qualquer imprevisto, eu preciso saber antes.

— Com certeza.

Ela abaixou a cabeça. Pigarreei, hesitando entre a indiferença e o cuidado.

— O que sua mãe tem?

— Diabetes. Pressão alta. Está internada e... eu não posso ficar com ela no hospital.

Voltei a olhar a tela do notebook. Meus dedos teclavam devagar.

— Tire o dia de folga. Não descontarei do seu salário. Vá cuidar da sua mãe. Avise que o ogro te liberou — sorri, lembrando do apelido.

O rosto dela empalideceu e enrubesceu ao mesmo tempo.

— N-não...

Suspirei, entediado. A chuva lá fora continuava sem trégua. Levantei-me.

— Vamos. Eu levo você ao hospital.

Passei por ela, ignorando sua tensão. Só por hoje... eu ajudaria aquela família

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