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06. O Jantar

Autor: regina
last update Fecha de publicación: 2025-11-06 01:03:26

Sofia já estava ficando traumatizada . Nunca em toda sua vida teve medo de atender quando alguém batia em sua porta . 

- Eu trouxe seu jantar  , bailarina . Não comeu nada ainda . Pode acabar ficando doente. 

Sofia abriu a porta. 

- Você de novo.... 

- Posso entrar ? - Perguntou Matteo. Sempre com aquele olhar penetrante .

Sofia pegou a bandeja com a mão esquerda , mas com a direita já ia fechando a porta na cara de Matteo .

Matteo segurou a porta .  Não deixou que Sofia fechasse. 

- Ninguém fecha a porta na minha cara  . Essa é minha casa . 

Sofia se afastou . Deixou a bandeja em cima da escrivaninha . 

- Muito obrigada pelo jantar . Eu nem esperava . 

- Eu espero que esteja se sentindo confortável . Não tenho o costume de trazer hóspedes aqui . 

- Então você vive no meio de todo esse luxo sozinho? Sem ninguém?

- Para quem tem uma profissão como a minha , não é muito seguro ter pessoas em volta... se é que você me entende... 

- Sim, eu entendi  . Realmente não deve ser nada seguro estar ao lado de alguém , viver com alguém que mata pessoas . 

- Se você já sabe que não é seguro estar ao meu lado , então  você já entendeu o que vai acontecer se não se comportar direitinho... Espero que aproveite seu jantar  . E sinta-se privilegiada .  Eu não costumo trazer o jantar para ninguém . Eu não sirvo ninguém . São as pessoas que me servem . 

- Ok. Já entendi . 

- Eu pedi que a Clarissa trouxesse o jantar . A coitada bateu na porta até cansar , mas você não atendeu .

- Deve ter sido na hora que eu estava secando o cabelo .... foi o barulho do secador . Talvez tenha sido por causa disso . Diga a ela que eu peço desculpas . 

- Acho melhor você pedir desculpas para mim por ter feito eu perder meu tempo . 

- Jamais ! Eu jamais pediria desculpas para um bandido  . Por quanto tempo você pensa que pode me prender aqui ?

- Isso não é da sua conta ! Agora coma o seu jantar antes que esfrie ! 

Matteo saiu e fechou a porta . Sofia se calou . Respirou fundo  . Já tinha percebido que era melhor tomar cuidado para que tudo aquilo não saísse do controle. 

Dentro da cozinha da mansão , Clarissa preparava um café rápido . Morandi entrou abruptamente. 

- O cheiro está bom . Tem café pra mim também?

- Claro que sim , Morandi . Senta aí , o café já está saindo . 

- Estou preocupado Clarissa . A presença dessa moça aqui nesta casa está me incomodando. 

- Você sabe que o Chefe não gosta que se intrometam nas coisas dele. Fique longe disso , Morandi  . 

- Eu não consigo não me preocupar . Ela já tentou escapar , já tentou fazer escândalo... 

- Deve estar assustada ... coitada ... eu fui levar o jantar para ela , bati na porta várias vezes ela não atendeu . 

- E o que você fez depois?

- Falei com o Chefe . Ele pegou a bandeja da minha mão e foi ele mesmo que levou para ela . 

- Meu Deus !  Ele nunca fez isso , Clarissa . Estou desconfiado que o Chefe está um pouco diferente . Será que é por causa dessa moça?

- Deixa de bobagem , Morandi. Agora toma logo o café antes que esfrie . E tome cuidado para não se meter nas coisas do Patrão . 

A chuva insistia em cair sobre o vidro da janela, fina e constante, como se o céu também observasse tudo em silêncio.

Sofia não sabia que horas eram. O relógio de parede marcava um tempo que parecia não existir ali dentro.

Aquele quarto era grande demais para alguém sozinha.

Cortinas pesadas, lençóis brancos impecáveis, móveis que pareciam pertencer a outro século. Mas não havia nada que lembrasse vida -  nenhuma flor, nenhuma fotografia. Apenas o eco do vento e o som distante da tempestade.

Sofia já tinha terminado o jantar . Ficou um tempo olhando a chuva cair  . Agora estava mais calma , tentando digerir tudo aquilo que estava acontecendo . 

- Preciso planejar com calma , um jeito de fugir daqui . Até quando esse homem vai me manter aqui? E se ele estiver me prendendo aqui para me matar depois?

Deitou na cama , mas nem tinha sono . Fechou os olhos lentamente , mas sem a esperança de que conseguiria dormir . 

Na sala de jogos , Matteo e Morandi jogavam cartas para passar o tempo . 

- Estive pensando em uma viagem de férias , Morandi . Mas a presença dessa moça aqui , atrapalhou tudo. Ando me sentindo um pouco cansado . 

- Deve ser o estresse , Chefe  . Ficar de cabeça quente o tempo todo , acaba deixando a gente louco mesmo .

- Por outro lado , a bailarina também me deixa de cabeça quente . O nome dela é ...

- Sofia . 

- Até que esse nome é bonito , né?

- Se o Senhor diz... mas por que ela está deixando o Senhor de cabeça quente , Chefe?

- Quando estou falando com ela .... não consigo parar de olhar pra ela .... olha como a vida é cheia de surpresas . 

Morandi não disse nada . Apenas ouviu , como sempre, com bastante atenção . Morandi sempre se preocupava em jamais desagradar Matteo . E se necessário fosse , concordava com o que Matteo dizia ou fazia mesmo quando o Chefe estava errado  . 

- É melhor eu ir me deitar . - disse Matteo deixando as cartas sobre a mesa . - Estou cansado e com sono.

- Bom descanso Chefe . Tenha uma boa noite. 

O relógio antigo na parede marcava quase meia-noite.

Sofia não conseguia dormir . Estava impaciente  . 

O som do ponteiro parecia zombar dela — tic-tac, tic-tac — um lembrete cruel de que o tempo passava, mas a ansiedade de ir embora daquele lugar não passava. 

Sofia estava sentada na beira da cama, os pés descalços sobre o tapete macio, e seu  coração cada vez mais  acelerado.

Desde que Matteo DeLuca a trouxera para aquela mansão, ela não tinha via mais o mundo lá fora ... apenas as paredes frias, o brilho discreto dos lustres e o olhar inabalável dos homens que guardavam cada porta.

Mas naquela noite, o ar estava diferente.

O vento batia contra a janela com insistência, como se a chamasse.

Ela se levantou devagar. As cortinas longas balançavam suavemente, revelando a lua lá fora — um disco prateado pendurado sobre o jardim.

Sofia se aproximou da janela, os dedos trêmulos tocando o vidro frio.

O coração dela batia tão alto que parecia ecoar no quarto.

O trinco estava trancado, mas enferrujado.

Ela o forçou com cuidado, mordendo o lábio para conter o gemido que escaparia se fizesse força demais.

O metal cedeu com um clique baixo, quase imperceptível.

Um sopro de ar frio invadiu o quarto, fazendo seus cabelos dançarem no rosto.

- É hoje que eu vou embora deste lugar . De hoje não passa. - Sofia havia acabado de tomar uma decisão: fugir pela janela. 

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