LOGINCAPÍTULO 53 — O VENENO NAS SOMBRAS DO CÁRCERE Helena O ar da manhã paulistana parecia pesado, carregado de uma poeira cinzenta que filtrava o sol sobre os edifícios espelhados da Faria Lima. Ao deixar o hospital, cada fibra do meu corpo protestava pelo cansaço acumulado, mas a armadura executiva precisava ser mantida impecável. No banco de trás do sedã blindado, o silêncio entre mim e o motorista só era quebrado pelo som seco das notificações urgentes no meu tablet corporativo. Eu tentava focar nos números, nos balanços de reestruturação da Martins & Cia e nos contratos de blindagem patrimonial geridos pela Vance Global Capital. Porém, a cada linha de texto que meus olhos percorriam, o que realmente surgia diante de mim eram os olhos marejados de Rafael suplicando para permanecer por perto, e a frieza ameaçadora no semblante de Julian Vance ao cruzar o umbral daquele quarto. Eu estava no epicentro de uma tempestade que eu mesma havia atraído. De um lado, o bilionário britânico que
CAPÍTULO 52 — O CHOQUE DOS DOIS MUNDOS Helena O silêncio que se seguiu à pergunta de Julian foi tão denso que o leve ruído do fluxo de oxigênio na máscara de Rafael parecia o estrondo de uma tempestade. Julian deu mais um passo para o interior do quarto privativo. Os ombros largos e o terno cinza-chumbo pareciam preencher todo o espaço estéril da UTI, esmagando o ambiente com uma presença avassaladora. Seus olhos cinzentos deslizavam de mim — com o rastro ainda úmido das lágrimas nas bochechas — para a figura abatida e trêmula de Rafael na cama, cujos olhos castanhos injetados de sangue fitavam o bilionário britânico com uma mistura latente de pânico e ódio impotente. — Eu fiz uma pergunta, Helena — repetiu Julian, a voz mantendo o timbre aveludado, mas carregada de uma lâmina fria que cortava o ar. Ele parou a menos de um metro de mim, erguendo levemente o queixo. — O que o seu ex-marido acordado da morte tem a ver com as suas lágrimas? Endireitei os ombros, forçando o meu corpo
CAPÍTULO 51 — O DESPERTAR DAS CINZAS Helena O silêncio daquela madrugada na UTI não trazia paz; trazia sufocamento. O cheiro antisséptico e cortante do hospital parecia impregnado na minha pele, misturando-se ao cansaço brutal que pesava sobre as minhas pálpebras. Eu havia dispensado os seguranças da porta do quarto privativo há mais de uma hora e ordenado a Camila que fosse para casa descansar. Julian ainda estava na sede da holding, coordenando a transição das contas e a auditoria que varreu os últimos vestígios da traição corporativa. Ele achava que eu estava dormindo na cobertura. Mas os meus pés me trouxeram de volta para cá. Sempre para cá. Aproximei a cadeira de ferro estofada da cabeceira da cama. O ritmo das bombas de infusão parecia mais lento agora que os médicos haviam suspendido o sedativo contínuo. Sobre o lençol branco e engomado, a mão direita de Rafael repousava inerte, perfurada por acessos venosos, pálida e fria. Fiquei observando as linhas daquela mão. Quanta
CAPÍTULO 50 — O XEQUE-MATE NA SALA DE CONSELHO Helena O silêncio que se abateu sobre a sala de reuniões executivas da Martins & Cia possuía uma densidade quase palpável, daquelas atmosferas sufocantes que antecedem tempestades de proporções cataclísmicas. A temperatura do ambiente, rigorosamente calibrada pelo sistema central de climatização em vinte e um graus, parecia ter despencado dezenas de graus no exato segundo em que pronunciei a palavra "traição". A única trilha sonora que restava era o zumbido longínquo do ar-condicionado e a respiração contida dos doze membros do conselho de administração, cujos rostos empalideciam sob a iluminação fria dos lustres de design moderno. Otávio, o vice-presidente de finanças corporativas e meu suposto braço direito operacional por mais de três anos de dedicação mútua, engoliu em seco. O som da sua garganta contraindo-se foi audível no silêncio sepulcral. Gotas de suor frio brotaram instantaneamente em sua testa, unindo-se em um filete brilha
CAPÍTULO 49 — A SOMBRA DA TRAIÇÃO NA HOLDING Helena A notícia trazida por Julian desabou sobre mim como uma lufada de ar congelado. A Martins & Cia não era apenas uma empresa; era a fortaleza que eu havia erguido com sangue, suor e uma disciplina de ferro após ser apunhalada pelas costas pelos Almeida. Saber que havia um verme infiltrado no meu próprio conselho, vendendo informações privilegiadas para a sociopata da Isa, fez o meu sangue ferver sob a pele fria. — Tem certeza absoluta da origem desses documentos, Julian? — perguntei, a voz saindo cortante e gélida como lâminas de barbear, enquanto eu me desviava do abraço dele e ajustava o blazer escuro com gestos firmes. Julian endireitou o paletó, os olhos cinzentos faiscando com a frieza analítica de um predador de Wall Street. — Os meus analistas de inteligência financeira rastrearam os metadados dos arquivos encontrados no galpão da zona portuária — respondeu ele, cruzando os braços com uma autoridade incontestável. — Os repa
CAPÍTULO 48 — O PREÇO DO PODER E A VIGÍLIA Helena O zumbido constante das bombas de infusão e o ritmo metronômico dos bipes do monitor cardíaco formavam a única trilha sonora daquela ala restrita do Sírio-Libanês. Eram quase três da manhã quando a porta do quarto privativo se abriu com um silêncio calculado. Não precisei virar o rosto para saber quem era. O perfume amadeirado e inconfundível de sândalo e couro que antecedia a presença de Julian Vance preencheu o ambiente, misturando-se à atmosfera estéril do hospital. Julian entrou vestindo um terno cinza-chumbo perfeitamente cortado, sem a gravata, com os primeiros botões da camisa social aberta e as mangas dobradas até os cotovelos. O semblante dele exibia uma exaustão fria, mas os olhos cinzentos faiscavam com aquela intensidade possessiva que parecia nunca dormir. — Camila me disse que você não saiu deste quarto desde ontem à tarde — constatou Julian, a voz grave e aveludada ecoando suavemente enquanto ele se aproximava da po







