Mag-log inO som que me trouxe de volta da inconsciência não foi o dos tambores, mas o do meu próprio sangue borbulhando na ferida da clavícula. A visão era uma névoa espessa, recortada pelas frestas de luz alaranjada dos incêndios que consumiam o nível inferior do baluarte. O teto desabado criara um túmulo de granito e poeira rúnica, onde o ar tinha gosto de cal e morte.Tentei mover meu braço esquerdo. A dor foi um chicote em brasa que disparou da palma da minha mão rasgada diretamente para o peito, paralisando meus músculos. Minha respiração vinha aos espasmos, curta, fria.A três passos de mim, a silhueta monumental de Kael parecia uma estátua caída. A espada curta de Eros continuava enterrada em seu flanco, e a poça de sangue escuro ao redor dele já começava a esfriar no chão de pedra. Seus olhos azuis estavam semiabertos, fitando o vazio com uma opacidade terrível. O Rei de Ferro, o Alfa que me possuíra com a força de um furacão poucas horas antes, estava sucumbindo ao próprio sangue.Um s
O mundo reduziu-se a uma sinfonia de estilhaços e terra cozida. O aviso de Tristan ecoou tarde demais; o céu sobre o Baluarte do Ferro não se pintou com o azul das flechas rúnicas, mas com o clarão ofuscante de três blocos de basalto maciço fundidos em fogo negro. Quando a primeira rocha atingiu a base de sustentação da muralha leste, o granito ancestral de Silverthorne não apenas rachou — ele liquefez-se.O impacto arremessou-me contra o parapeito de pedra com uma força que estalou minhas costelas. O gládio rústico escapou dos meus dedos, caindo no abismo externo. O ar desapareceu dos meus pulmões, substituído pelo gosto sufocante de poeira rúnica e fuligem. Ao meu redor, os gritos dos guardas de elite misturavam-se ao som metálico das armaduras colidindo contra o chão que desabava.Através da cortina de fumaça cinzenta, vi Tristan ser soterrado até a cintura por um bloco de cantaria; ele tentava erguer o gládio com o braço esquerdo ensanguentado, os olhos cinzentos injetados de pura
A ala oeste da Cidadela de Ferro ruiu com o som apocalíptico de um mundo sendo partido ao meio. O impacto não decorreu de uma conspiração de bastidores engendrada pela Intendente Gerda ou pelos juízes rúnicos, mas de um decreto vindo diretamente dos céus cinzentos do norte. Uma imensa rocha de basalto, extraída das entranhas do Deserto de Cinzas e impregnada com o fogo azul das runas de Crimson Moon, perfurou o monumental teto de vidro e ferro da galeria dos retratos ancestrais.O impacto cataclísmico lançou uma tempestade de estilhaços cristalinos, pesadas vigas de carvalho em chamas e uma nuvem asfixiante de pó de mármore e gesso sobre as nossas cabeças. O corredor que levava ao salão do conselho foi instantaneamente sepultado sob toneladas de escombros fumegantes, obstruindo qualquer possibilidade de uma resolução política ou diplomática.Tristan moveu-se com a velocidade fulminante de um Alfa militar. Num reflexo puramente defensivo, ele me empurrou contra um profundo nicho na par
O eco do sino de bronze não vibrava apenas no ar; ele reverberava através das fendas das pedras, subindo pelas solas dos meus pés como uma pulsação de agonia. O Sanctum de Kael, que instantes atrás testemunhara o colapso dos nossos corpos, transformou-se instantaneamente em uma antecâmara de guerra. O cheiro do suor e do sêmen que esfriavam em minha pele misturava-se agora com a fumaça de óleo rúnico que subia das frestas do assoalho, um indicativo de que as defesas inferiores da Cidadela haviam sido acionadas.Eu me vesti com o que restava do uniforme cinza. O tecido rasgado na altura dos botões expunha a curva do meu esterno, e a falta daquela couraça de serva me deixava exposta à frieza do granito. Kael já não me olhava. Ele estava de pé diante do imenso espelho de ferro polido, afivelando as braçadeiras de aço negro com batidas secas. A transição do homem que havia enterrado os dedos nos meus quadris para o Soberano de Silverthorne ocorreu sem uma única palavra de transição. Quando
A notícia do cerco iminente descera pelos corredores da Cidadela como um golpe de aríete, mas dentro dos aposentos reais de Kael, o mundo parecia reduzido ao som da tranca de ferro correndo contra o batente. O Rei me arrastara para longe do pátio inferior, deixando Tristan e o conselho de guerra para trás com ordens curtas de mobilização. O palácio lá fora fervia em metal e ordens de combate, mas ali dentro, a atmosfera era um vácuo sufocante, saturado pela eletricidade estática da violência que marchava em nossa direção.Kael arrancou a máscara de ouro e a jogou contra a tapeçaria da parede; o metal bateu e rolou pelo chão com um som oco. Ele se virou para mim, os olhos azuis injetados de sangue, as feições aristocráticas contraídas por uma fúria que ia além da invasão de suas fronteiras. A proximidade da guerra e o estresse do segredo compartilhado haviam agido como um catalisador, reativando os resquícios da febre do meu cio que meu sangue se recusava a apagar por completo.— Eles a
O silêncio que se instalou no pátio de armas era cortante, interrompido apenas pelo sopro do vento gélido que descia das galerias de granito e pelo murmúrio distante das forjas de Silverthorne. Kael mantinha a espada de madeira de ferro empunhada com uma facilidade assustadora, o corpo relaxado na postura de um predador que não precisava de esforço para subjugar a presa. Seus olhos azuis fixavam-se em mim com uma intensidade que parecia despir a poeira e o disfarce cinza que eu insistia em usar.— Em Silverthorne, nós não jogamos com a sorte, Lyara — Kael disse, a voz barítona ecoando pelas paredes escuras. Ele deu um passo à frente, o movimento tão sutil que a poeira do chão mal se moveu. — Se você quer o meu método, aprenda a silenciar a mente antes que o corpo clame por sangue.Avancei sem responder. O peso do gládio rústico em minhas mãos parecia menor agora, inflado pela descarga de adrenalina que a presença dele disparava. Desferi uma estocada direta contra o peito dele, rápida e







