LOGINValerius, Alfa e futuro rei da Floresta Escura, carrega a Maldição da Lua Negra: nenhum líder de sua linhagem jamais encontrou a companheira destinada pela Deusa. Cansado de seleções vazias, ele jura nunca mais se submeter às imposições da tia ou do pai — e usa e descarta as lobas se atiram a seus pés, sem culpa. Sua fama de cruel é a única armadura contra o vazio que a maldição deixou nele. Tudo muda quando, à beira de um rio na fronteira, ele sente pela primeira vez o cheiro do vínculo verdadeiro — e encontra Clara, loba que acabou de despertar após anos sendo tratada como anomalia pela própria família. Mas o reencontro é interrompido: seu pai está morrendo, e a tradição exige que ele apresente uma rainha antes da coroação. Enquanto Clara tenta compreender o vínculo que a consome, sua madrasta Morgana trama para colocar a própria filha no trono, usando um artefato roubado e a cumplicidade amarga da tia de Valerius. Com o rei prestes a morrer e o reino em polvorosa, Valerius terá que escolher entre a mulher que já havia marcado como sua e o dever que jamais quis carregar. E quando ele a rejeitar publicamente, vai desencadear uma vingança capaz de transformar o caçador em presa — e o Alfa, em refém daquela que humilhou.
View More[Ponto de Vista de Valerius]
O salão em que estou parece uma prisão disfarçada. É aqui que são feitos os rituais de acasalamento dos membros da corte. A noite de hoje não é de esperança, é só a antecipação da tragédia que me foi imposta. O silêncio no ambiente está pesado, como se até a própria Deusa estivesse esperando para ver se me atrevo a desafiar o destino.
A maldição da Lua Negra... Nenhum líder da minha linhagem conseguiu encontrar a loba que a Deusa lhe destinou. Meus antepassados formaram laços com parceiras escolhidas por interesse político e conveniência, governando ao lado delas sem jamais conhecer o vínculo sagrado que todos desejam. Com meu pai não foi diferente. Agora, quando eu assumir seu lugar, temo repetir o mesmo destino.
Meu pai continua sendo o rei. Porém, por estar enfrentando diversos problemas de saúde, delegou à minha tia Lydia a tarefa de procurar uma loba digna do reino para ser minha parceira e prepará-la para governar ao meu lado quando eu assumir o trono.
E ela estava bastante dedicada a essa missão.
Minha tia se aproximou. Seu vestido negro caía em linhas retas e impecáveis, tecido de seda que capturava a luz com discrição. Os cabelos estavam presos em um coque baixo, severo, e seus olhos reluziam com uma ambição que ela não escondia de ninguém
— Alfa Valerius — a voz dela era como um fio de seda envenenada. — As pretendentes de hoje já chegaram.
Ela fez um gesto, chamando a primeira.
— Lady Isadora, da Matilha do Vale Escuro.
Isadora entrou no salão como quem já sabia que todos os olhos se voltariam para ela — e não havia um único gesto ali que fosse acidental. O vestido de seda prateada reluzia sob as tochas, colado ao corpo como uma provocação calculada, desenhando cada curva com precisão quase insolente.
Os cabelos negros escorriam em ondas sobre os ombros nus. O decote profundo expunha a pele pálida e o colar de garras de lobo em ouro — uma joia colocada ali com um único propósito: prender meu olhar. Isadora sabia exatamente o que estava fazendo. E não fazia questão de esconder. Pelo contrário: parecia se deliciar em deixar claro que sabia que eu também sabia.
Isadora parou a um passo de mim. Perto o suficiente para eu sentir o perfume dela — jasmim e algo selvagem, como terra molhada — misturado ao calor que emanava de sua pele.
— Alfa — murmurou, a voz rouca, os lábios entreabertos como um convite que eu não precisava decifrar. — Seria um privilégio compartilhar seu trono... e sua cama.
Os olhos verdes subiram lentamente pelo meu corpo. Demoraram-se no meu peito, na minha boca, como se ela já pudesse sentir minha pele sob as unhas. Um sorriso lento surgiu em seus lábios quando percebeu que eu notara. E que meu corpo já respondia, traindo qualquer tentativa de indiferença.
— Você cheira a poder — sussurrou, inclinando-se ainda mais perto, até que seu corpo quase tocasse o meu. — E eu adoro homens que sabem usar o que têm.
O hálito quente dela roçou meu pescoço. Senti um arrepio percorrer a espinha, descendo até onde eu preferia que ela não percebesse.
Ela passou a ponta dos dedos levemente sobre meu braço. Subiu até o ombro, demorando-se ali como quem reivindica território.
Então, num movimento lento, se afastou.
Deixando o rastro do perfume. E a certeza do que queria.
Pouco depois, a segunda candidata entrou assim que foi anunciada.
— Lady Celeste, da Matilha das Montanhas Gélidas.
Celeste era o oposto de Isadora. Não em beleza, mas em intensidade.
Os cabelos loiros. A pele delicada banhada pela luz suave das tochas. Os olhos azuis pareciam me desvendar sem sequer me tocar — como se já soubesse exatamente o que queria fazer comigo e apenas esperasse o momento certo.
O vestido era branco e modelava seu corpo de tal forma que revelava mais do que escondia. Usava algumas joias discretas, como se não precisasse de mais nada para atrair olhares.
Uma delicada cicatriz cortava sua bochecha esquerda, e ela sustentou meu olhar como se já soubesse que eu a notara. Senti o ímpeto de perguntar sobre a origem daquela marca, mas não o fiz. Seria indelicado. Ainda assim, o leve sorriso dela parecia me convidar a perguntar. E a fazer muito mais do que perguntar.
— Ouvi dizer que a maldição da Lua Negra impede a formação de vínculos verdadeiros — sussurrou Celeste, a voz baixa como um segredo no silêncio da noite. Cada palavra parecia escolhida para me seduzir. Para me puxar para mais perto, um passo de cada vez.
— Mas há tantas histórias... — respondi, tentando esconder a tensão que me invadia. — Para mim é apenas mais uma lenda atribuída à Deusa da Lua.
Celeste deu um passo à frente e se aproximou até seu corpo quase tocar o meu. O calor dela me causou arrepios, e o perfume de flores noturnas, doce e hipnótico, tomou meu olfato.
A batida do meu coração acelerou. Foi então que percebi: ela também compartilhava do mesmo desejo que começava a incendiar meu corpo.
— Talvez a Deusa... — ela prosseguiu, a mão se erguendo com uma serenidade que contrastava com o brilho intenso de seus olhos. — ...esteja apenas esperando alguém que ouse desafiá-la.
Os dedos de Celeste tocaram minha mandíbula.
A leveza do toque escondia um convite claro. Um calor desceu pelo meu ventre e se espalhou entre as minhas pernas e por mim inteiro. Nos olhos dela havia um desejo perigoso — e eu sentia que ele começava a me contaminar.
— Sei que você também sente... — sussurrou, aproximando os lábios dos meus sem completar o gesto. Estava tão perto que um mero suspiro poderia nos unir. Por um instante, achei que ela fosse me beijar.
Mas ela apenas murmurou junto ao meu ouvido:
— Essa fome... essa necessidade...
As palavras saíram com um gemido contido. Não falava apenas de desejo. Falava de urgência.
Antes que eu pudesse responder, ela se afastou.
O vazio que deixou fez meu corpo vibrar. Eu queria manter aquele toque.
O sorriso dela dizia que sabia exatamente o efeito que causara. Como se dissesse: eu quero, você quer, e não há motivo para fingir o contrário.
A terceira candidata foi a que mais demorou para entrar.
Minha tia franziu a testa, chamando-a pela segunda vez.
— Lady Ammara, da Matilha do Rio Sereno.
Essa era diferente. Não usava joia alguma. Nada em sua postura tentava chamar atenção. O que, por si só, já era uma forma de chamar atenção.
O vestido de linho cru caía de forma simples sobre seu corpo. Uma simplicidade que contrastava com tanta seda e pele exposta. Os cabelos estavam presos em uma trança única, deixando escapar alguns fios rebeldes que emolduravam seu rosto.
Seus olhos castanhos, profundos, pareciam transbordar sinceridade.
Ammara parou diante de mim com as mãos entrelaçadas à frente do corpo. Tremiam de leve — pouco o bastante para parecer nervosismo, não medo.
Quando falou, sua voz foi baixa. Tão baixa que pedi silêncio ao salão inteiro para ouvi-la.
— Alfa... Não foi minha escolha vir aqui hoje. Minha matilha me enviou. Disseram que era minha responsabilidade.
As palavras soaram simples, quase constrangidas. Ainda assim, depois eu perceberia que ela escolhera cada uma com cuidado: não culpava a matilha, não exigia minha compaixão e não pedia que eu a salvasse. Apenas parecia presa à mesma obrigação que eu.
— E você sente que tem essa responsabilidade? — perguntei.
Ela manteve os olhos baixos por um instante. Então os ergueu de uma vez, encontrando os meus com uma firmeza que não combinava com a timidez anterior.
— Não — respondeu. — Mas estou aqui para cumprir meu dever, se for eu a escolhida.
Não havia súplica em sua voz. Nem a fome evidente de Isadora, nem a provocação calculada de Celeste. Só uma aceitação serena que me desarmou mais do que qualquer tentativa de sedução.
Ammara deu um passo à frente e estendeu a mão. O gesto parecia hesitante, como se me oferecesse a possibilidade de recusar. Mas os dedos dela tocaram os meus no exato momento em que eu hesitava — leves, precisos, impossíveis de ignorar.
Um arrepio percorreu meu braço. Não era desejo. Era reconhecimento. Ou talvez apenas o alívio perigoso de encontrar alguém que parecia entender o peso da prisão em que eu vivia.
Ammara não pediu nada de mim.
E foi exatamente por isso que comecei a imaginar o que seria capaz de lhe dar.
[Ponto de Vista de Valerius]Fico parado na água, o coração disparado, incapaz de decidir se devo falar, me aproximar ou apenas contemplar aquele corpo que habitou meus sonhos durante dois meses.Sob a luz dourada do fim de tarde, finalmente vejo com clareza tudo o que nosso primeiro encontro me negou: os cabelos castanhos, longos e molhados, colados aos ombros como seda escura; o rosto delicado em formato de coração, com maçãs altas e um pequeno vinco de determinação entre as sobrancelhas, como se ela estivesse sempre pronta para desafiar o mundo.Mas são os olhos que me prendem — castanhos, profundos, com um brilho que nunca tinha visto em nenhuma outra loba. Não há neles medo, nem submissão. Apenas cautela... e algo que teima em brilhar por baixo, impossível de esconder.— Você é real — ela diz, a voz baixa, quase incrédula, como se temesse que eu desaparecesse se falasse alto demais.Um sorriso involuntário toca meus lábios.— Achei que fosse eu quem devia dizer isso.Dou um passo
[Ponto de Vista de Clara]Acordo bem cedo, como sempre. O ar ainda está fresco, mas já dava para sentir que o dia seria quente. Entro no banho e sinto a água deslizando suavemente pela minha pele — queria que ela pudesse não só me despertar, mas também levar os pensamentos que insistem em me acompanhar.Escolho um vestido leve de algodão, perfeito para enfrentar o dia quente que se aproxima. Sigo direto para a cozinha da nossa cabana.Chego esperando encontrá-la vazia — antes do barulho do dia, do vai-e-vem dos funcionários. Mas, para minha surpresa, lá está ela: Morgana.Sentada na mesa, mexendo distraidamente numa xícara, o olhar fixo no nada, como se estivesse esperando por alguém — e esse alguém, ao que tudo indicava, era eu.Não esperava encontrá-la ali; ela costuma fazer as refeições no salão principal com Ammara.Desde que soube que minha loba havia despertado — e que, teoricamente, eu teria encontrado meu companheiro —, ela vem agindo de forma estranha. Não é apenas curiosidad
[Ponto de Vista de Valerius]Faltam dois dias para o baile que vai definir os rumos da minha vida e eu não consigo parar de pensar na mulher do rio.Meu beta Renner está atolado nos preparativos: confirmar convidados, escolher flores, cuidar de protocolos que eu não tenho paciência de fingir que importam.Eu disse a ele que precisava checar a fronteira leste e parti. Não é exatamente uma mentira. Só não contei que a fronteira que eu ia checar ficava na beira daquele rio.Meu lobo, Luppo, está apático há semanas. Desde que a notícia do baile se espalhou, ele mal levanta a cabeça, como se já soubesse, antes de mim, que escolher uma rainha entre as lobas do reino seria trair o vínculo de companheiros que ele já via como nosso.Eu ainda não sabia se o que senti por ela nasceu do vínculo — ou do que haviam colocado na minha bebida naquela taverna. Mas Luppo não tinha dúvidas. E, por mais que eu tentasse racionalizar, eu também não.Luppo não quer uma rainha por conveniência.Luppo quer só
[Ponto de Vista de Clara]Nos dias seguintes, voltei ao rio sempre que pude. Mas não encontrei o colar.— Você ainda sente o vínculo? — perguntei a Luppita, sentada na margem, os pés dentro da água fria.Às vezes.— “Às vezes” não é resposta. Se ele quisesse mesmo nos encontrar, ficava aqui esperando. Ele nunca apareceu. Então é porque não deve estar interessado.Talvez ele não possa vir.— Ou talvez não queira, né?Ou talvez você devesse parar de tentar adivinhar os motivos de um homem que você viu por cinco minutos, no escuro, correndo por sua vida.Não respondi. Ela tinha razão — e era justamente isso que me irritava.As semanas se arrastaram. Eu voltei ao rio todas as noites, revirei a margem, procurei entre as pedras e as raízes, mas o colar não apareceu.O homem do rio não voltou a cruzar meu caminho. Nenhum reencontro. Nenhum sinal.Luppita permanecia inquieta, como um animal preso numa jaula pequena demais. Continuava dizendo que ele era o nosso companheiro, mas, com o passar












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