FAZER LOGINQuando Daniel acordou no dia seguinte – era aproximadamente oito horas da manhã do dia 24 de abril de 1988 –, no fatídico dia em que seus pais se separaram, ele estava novamente na casa de sua avó paterna e seu pai vendo a sua mãe arrumando as coisas para a mudança completamente em silêncio, em certo aspecto parecendo aliviado com tudo aquilo que estava acontecendo, como se um fardo estivesse saindo das suas costas.
Não é possível que ele esteja feliz com essa situação...
Mas a verdade era nua e crua, e nada e nem ninguém poderia mudá-la, seu pai não amava a sua mãe e sentia que estava prestes a viver algo maravilhoso ao lado de outra pessoa.
Ele se lembrava muito bem de como aquele dia tinha começado corrido para todo mundo, a situação parecia mais um filme antigo do que uma lembrança viva, mas agora a lembrança passou a ser novamente um fato para ele e a tristeza que rondava o ambiente era pesado demais.
— Bom dia, querido – a voz da sua mãe estava embargada de tanta emoção, dava para perceber claramente que ela tinha chorado muito, além de não ter dormido quase nada.
— Vai se trocar e ficar um pouco com sua avó Fernanda, filho, daqui a pouco nós vamos embora.
Foi muito estranho ver aquela cena... sua mãe estava chorando muito – ele não se lembrava de como tinha sido tão difícil para ela passar tudo aquilo sozinha, e o mais engraçado, seu pai nem sequer apareceu para se despedir dele, talvez não se despedir dela fosse até de certa forma compreensível devido a separação e eles querendo se ver tão longe um do outro, mas Daniel era seu filho, ele imaginava que no mínimo iria receber um abraço, mas ninguém foi, nem seu pai, seu tio e muito menos a sua avó.
Diferentemente do que foi a sua primeira vida, por ser criança, tudo é perdoável de forma muito fácil, Daniel viveu mais do que ninguém a pureza em ser criança, de não se lembrar de certos detalhes desnecessários, mas agora tudo era muito mais real e poderia degustar a situação de forma muito mais difícil do que ele poderia imaginar.
Daniel ficou pensando se era um desses motivos que Deus tinha falado que ele tinha sido mais feliz do que ele imaginava, essa resposta ele não poderia dar a si mesmo antes de encontrar Deus pessoalmente novamente, mas a verdade era mais difícil do que ele poderia imaginar.
Sua avó paterna, apesar dos pesares, fez muitas coisas boas e inesquecíveis para ele, como por exemplo, toda quinta-feira e domingo ela trazia pastel de queijo e deixava na janela para ele comer, já que sua mãe deixava ordens expressas para que ele não abrisse a porta para ninguém, já que ela e seu pai tinham que trabalhar e Daniel ficava sozinho, criando um senso de responsabilidade desde cedo.
SER CRIANÇA é uma bênção porque as coisas são incompreensíveis, são feridas que se cicatrizam rapidamente e por vezes nem ficam marcas, elas simplesmente somem completamente da nossa própria existência.
Sua avó paterna até tentou ajudar em algumas situações entre o casal, mas de nada adiantava, ela era a última pessoa no mundo a saber o que fazer para um casamento ser feliz ou no máximo, agradável, seu casamento sobreviveu por vinte anos porque na época ninguém se separava, e apesar dela ter saído de casa, não se separou do marido com medo de perder metade de tudo o que havia conquistado praticamente sozinha.
Daniel não podia negar que sua avó paterna era alguém acima do bem e do mal no sentido de trabalho, o fez com esmero até os oitenta anos de idade como se tivesse apenas trinta anos, nunca dependeu de aposentadoria ou do marido, mas por ser a pessoa mais fria em termos sentimentais que havia no mundo, casamento não era um assunto que ela dominava.
E outra, na cabeça dela, não importava a verdade real, a única verdade é que seus filhos nunca estavam errados e as noras nunca estavam certas, não importava a situação, eles poderiam bater nelas, a culpa era delas e ponto final.
Sua mãe estava plenamente decidida a ir embora de vez e começar uma nova vida longe de São Paulo e de todo mundo, principalmente do seu pai e de sua amante, coisa que ele não sabia até então.
Daniel não se lembrava que tudo era assim tão diferente, parecia que em suas lembranças tudo era como um filme em preto e branco, mas vendo aquilo tudo bem de perto novamente o fez perceber o quanto sua infância estava esquecida ou adormecida dentro dele, era uma espécie de proteção que Deus faz com as crianças para que elas não se tornem más tão cedo, a inocência é a melhor parte da vida de qualquer pessoa e com ele não poderia ser diferente.
Sua mãe o colocou em seu colo dentro do caminhão de mudanças e foram embora para uma cidade interiorana paulista chamada Campo Limpo Paulista, há pouco mais de uma hora de viagem.
Diferente de todas as despedidas que ele viveu em sua vida, não ter ninguém para olhar para trás quando se está indo embora é o pior tipo de despedida que alguém pode ter, mostra que para alguém, tudo aquilo não valeu a pena.
— ENTÃO?Daniel abriu os olhos e se viu novamente no quarto do hospital junto ao homem que se dizia Deus.— Foi exatamente como disse que seria.O velho riu.— Qual vida foi melhor?— Que pergunta estúpida para quem se diz ser Deus, deve saber qual delas foi melhor.— Eu não disse que era, disse que sou Deus... e minha pergunta foi apenas para você ver como me senti quando disse que se tivesse uma nova vida faria tudo diferente, o que na minha visão, entre a minha pergunta estúpida e o seu desejo estúpido, você ainda ganha disparado.— Talvez...— Talvez não, Anna te disse isso, não é mesmo?O velho olhou para o relógio.— Vai ter algum compromisso?O velho assentiu.— Está quase na hora de um encontro.— Acredito que Deus tenha muitos en
Anna abriu os olhos e viu Daniel dormindo ao lado da cama.— Veja só se não é o louco que me pede em casamento e cinco minutos depois me atropela.Daniel abriu os olhos e a visão dela acordada foi um completo alívio.— Que bom que você acordou, fiquei preocupado.— Poderia ser sem uma perna quebrada, pelo menos, não acha?— Fiquei com tanto medo de te perder mais uma vez.— Ainda está com aquelas ideias absurdas?— Não são ideias absurdas... é a verdade... fomos casados em outra vida.— Se me conhecesse tão bem quanto diz que conhece, sabe que sou cristã e não acredito em “outras vidas”, quantas vezes vou ter que repetir isso?— Não estou dizendo em reencarnação... é difícil de dizer...— Então você é
Daniel estava em uma encruzilhada, já que ter conhecido Anna da primeira vez tinha sido totalmente casual, mas como ser casual se ele era agora um atleta mundialmente conhecido e um dos melhores músicos de sua geração, ele percebeu que por mais que conhecesse profundamente sua esposa, sua realidade mudou muitas coisas, inclusive as suas próprias vidas mudaram.Daniel viu Anna no show e após tocar tentou encontrá-la sem sucesso, conhecendo como a conhecia, ela já teria ido embora devido o lugar em que morava ser uma comunidade extremamente pobre, até ele mesmo sempre brincava com ela que, na primeira vez em que a levou até lá achou que ela estaria o sequestrando e pensou:Não é possível que esse rostinho lindo me enganou todo esse tempo...Seu pai, João Vitor que havia traído sua mãe, Daniel deu um jeitinho para que ele nunca tivesse con
Paralelamente à sua carreira de sucesso, Daniel montou uma banda de rock com alguns amigos com o único objetivo de fazerem shows para a caridade e o sucesso das músicas foram tão estrondosas que foram comparadas a ações sociais como o Live Aid, We are the World e outros, ganhando apoiadores de peso como, Bono Vox, Sting, Madonna e muitos outros artistas que sempre apoiavam causas sociais.Daniel não enxergava a imensidão das atitudes que seus atos teciam, era abissal imaginar que ele estaria naquele patamar, mas isso sempre era uma incógnita, pois segundo a sua crença, algo bom sempre acontecia para compensar algo ruim, sua nova vida trouxe glórias, mas levou embora a vida de sua mãe mais cedo.Sua banda, chamada Holyday, tocou em todos os principais canais de Tv e era difícil associar a agenda do futebol com a agenda dos shows, mas dentro do possível sempre estav
A vida de um homem é sempre regada a glórias e tragédias, quanto mais alto uma pessoa sobre na vida, maior a tragédia parece se instalar e mexer com o processo natural do que as coisas deveriam seguir era algo perigoso demais.Sua mãe, em vez de viver quase cem anos como da primeira vez, morreu com apenas quarenta e cinco anos de idade, numa tragédia em que seu padrasto havia dormido no volante.Na vida passada ambos haviam se separado após ele entrar para a faculdade de Direito e com isso ela teve um desfecho diferente do que qualquer pessoa poderia sonhar, se tornou pastora de uma igreja neopentecostal e passou a se dedicar cada vez mais ao ministério e aos netos.Mas com a quebra daquele fato surgiu um novo empasse nos fios do destino, pois uma alegria sempre é compensada por uma tristeza e vice-versa.Com a morte de seu pai diversos laços foram rompidos, já que Daniel deixou
Os anos passaram rapidamente enquanto Daniel treinava exaustivamente para se tornar o melhor jogador de basquete que o Brasil já havia visto depois de Oscar Schimdt, o maior cestinha de todos os tempos do basquete mundial, e uma de suas inúmeras alegrias foi tirar uma foto com ele durante o campeonato mundial em que foi convidado para realizar uma palestra com a equipe.Tanto Daniel quanto Leonardo se tornaram a dupla inseparável em diversos times que jogaram até que chegou um convite inevitável para ambos...Serem draftados na NBA...Leonardo foi draftado em 12º lugar na primeira rodada e diferente do que todos imaginavam, parecia que Daniel não seria, o que causava angústia em todos, seu grande sonho parecia estar indo por água abaixo quando foi chamado em penúltimo lugar pela equipe do seu coração, o Detroit Pistons.Aquilo trouxe um alívio e obviamente as