FAZER LOGINQuando chegaram na casa da sua avó Antônia, foi uma alegria só – pelo menos para ele, é lógico –, Daniel nunca imaginou que sentiria tanta a falta de alguém como sentia dela.
Daniel foi correndo abraçá-la como se estivesse correndo os cem metros livre em uma final olímpica, a emoção do abraço deve ser a mesma ao saber que venceu a prova.
Daniel disse chorando:
— Vó... que saudade da senhora.
Seus olhos choravam sem parar, ficou mais de quarenta minutos abraçado com ela, se lembrando de como era bom aquele abraço, ouvir aquela voz reconfortante que somente ela tinha, sentir o calor daquele amor que só encontrou em Anna anos mais tarde.
— Não precisa me chamar de senhora... – disse ela brava como sempre quando a chamávamos de senhora.
Voltar ao passado já tinha valido a pena só por aquele momento...
Era um misto de emoções, pois ao mesmo tempo que sentiu a frieza da sua família paterna, sentia agora o calor vulcânico de sua família materna.
Uma das diferenças cruciais, além do amor nitidamente demonstrado por elas, era que uma odiava ser chamada de “senhora” e a outra odiava ser chamada de “você”, não tinha para onde correr, se chamasse uma ou a outra de forma diferente era briga na certa.
Ela fez um frango cozido, mas acabou se lembrando que Daniel sempre foi enjoadinho para comer, e acabou fazendo o seu prato favorito – sopa de feijão com macarrão, acompanhado com pão francês no jantar.
Daniel comeu três pratos cheios.
Ela ficou muito contente em vê-lo tão feliz como ele estava – ele realmente estava muito feliz em ter aquela oportunidade única de estar ao lado da pessoa mais especial que já conheceu em toda a vida.
Naquela noite Daniel não saiu de casa, ficou conversando com ela por mais de quatro horas seguidas – queria matar a saudade de todos aqueles setenta anos que passou longe dela, e foi realmente maravilhoso, Daniel jamais pensou que teria um dia tão fabuloso quanto aquele.
Sem perceber acabou pegando no sono, e como sempre, ela trouxe a coberta e ele dormiu no sofá mesmo. Ele adorava aquele sofá, não que ele fosse confortável – era muito duro e de certo modo desconfortável –, mas o adorava porque sabia que a dona dele estava o olhando enquanto dormia, e isso era realmente reconfortante.
EM SUA PRIMEIRA VIDA, Antônia Sala foi a pessoa mais importante naquela fase de transição entre aprender a viver sem a presença paterna e administrar a ausência de sua mãe por ter que trabalhar para tentar dar a ele a melhor educação que ele poderia sonhar e nesta não poderia ser diferente, mas em outro âmbito.
Obviamente Daniel não se preocupou em fazer certas amizades ali na rua, evitando as pessoas que por muito tempo o fez sofrer, como o Mauricio que sua avó carinhosamente o chamava de “Cabelo-de-fogo”, por ele ser ruivo, ou até mesmo chamando-o de filho-do-demônio, pelo simples mesmo motivo.
Existiam coisas que Daniel só ficou sabendo da vida dela depois que morreu, uma estratégia inteligente da parte de sua mãe, Raquel, para que Daniel jamais visse aquela doce senhora que como qualquer ser humano era repleta de falhas e nem por isso deixava de ser uma pessoa maravilhosa e incrível.
DONA ANTÔNIA como todos a conheciam era descendente de italianos e uma cristã nada ortodoxa, ela não sabia ler e nem escrever, exceto a Bíblia, ela nunca soube responder qual a razão daquele milagre específico, mas a Palavra de Deus tinha um poder sobrenatural sobre ela.
Mesmo não sendo uma beata fervorosa da Igreja Congregação Cristã, Antônia adorava contar as histórias bíblicas, especialmente de Sansão e Dalila e Davi, suas histórias favoritas, eram heróis de seu povo e lutaram contra seus próprios destinos, o que fazia sentido para Daniel gostar daqueles personagens especificamente, eles transcendiam suas realidades e pelo falo de Deus conceder-lhe a oportunidade de voltar no tempo, mostrava o quanto ele também tinha transcendido sua própria existência.
Ser de uma igreja tradicional em seu campo de visão era muito mais um respeito e lembrança de seus pais do que por fé da parte dela, desde que se conhecia por gente ia àquela igreja e depois de crescer virou um ritual automático, mas ela não enxergava aquilo como algo nem bom e nem ruim, simplesmente era porque era e não haveria outra forma de ser.
Conhecer a história dela de certa forma faz com que as pessoas entendam seu ponto de vista, obviamente que nada justifica o racismo que carregava dentro de si, pois a sua avó detestava tanto as pessoas de pele escura, por ter sido obrigada a se casar com um negro por causa de sua religião e ter passado pelo inferno na Terra com o marido, a fez nem sequer comer chocolate ou beber café pelo simples fato de serem na mesma tonalidade da cor de pele do próprio marido.
Na cabeça de Daniel, dona Antônia era uma pessoa tão maravilhosa que era incompreensível em sua mente inocente que ela fazia sexo com seu avô, para ele sua avó era virgem e ninguém no mundo poderia mudar aquele fato.
Aquilo também em seu interior a afastava da sua religião de forma íntima, afinal, fora obrigada a se casar por causa da religião e após o casamento, Benedito, conhecido como Seu Lima, simplesmente seguiu fielmente seus antepassados e se tornou um alcoólatra inveterado.
Obviamente que a vida lhe pregaria uma peça que ela jamais poderia imaginar, pois, por mais que o marido, devido o vício em álcool, tivesse perdido casas, carros e muito dinheiro em jogatinas, ela tinha somente vizinhos afro descentes – um de cada lado – que eram muito bons com ela, mas se falarmos de coincidências, tanto os vizinhos da frente quanto os de trás também eram famílias de pessoas negras que eram tão bons quanto os da lateral, uma forma de Deus mostrar a ela que a cor da pele não quer dizer nada com relação ao caráter das pessoas.
QUANDO JOVEM, Antônia era apaixonada por um jovem italiano de pele clara, que não era adepto da religião que a sua família praticava, e por isso ficou inviável o casamento deles, já que naquela época, anos 40, eram os pais quem escolhiam as pessoas para seus filhos se casarem e nada no mundo mudaria aquele fato, a não ser que fugissem, mas isso não estava nos planos do italiano de olhos claros que respeitava a família dela e jamais faria algo tão insano por alguém que não estava tão apaixonado assim.
Quando a mãe de Daniel nasceu, foram avisar o Seu Lima, que estava em uma baita festa com os amigos que ao chegar no cartório completamente bêbado não sabia se a criança era menino ou menina e teve que voltar para casa para conferir e aí sim registrar a criança.
Importante ressaltar que Seu Lima não era uma pessoa má, era um músico brilhante que aprendeu a tocar os mais diversos instrumentos sem nunca ter uma aula sequer, era o maestro no exército e por muitos anos ensinava as crianças a tocarem na igreja Congregação Cristã, rendendo-lhe o apelido carinhoso de Seu Liminha por seus alunos.
E mesmo no período de alcóolatra, ele ainda ministrava as aulas, não participava de outros compromissos da igreja com vergonha do que as pessoas achavam de sua vida fora da igreja, mas não havia ninguém mais gabaritado para dar aula que ele e assim o fazia de bom grado.
A comunidade tinha uma dívida de gratidão com ele que num momento difícil pós aposentadoria, por muitos meses levavam a eles cestas básicas pelos anos prestados à comunidade e após o resultado médico de que ele estava com diabetes, deixou a bebida e seguiu fielmente na fé da igreja.
Da mesma forma obstinada, quando a sua filha, Raquel, mais carinhosamente chamada por toda a família de Quelinha, ficou grávida de Walter, foi ter com a mãe do então namorado da filha e recebeu uma das respostas mais grosseiras e inesperadas que já ouviu na vida.
Primeiro, porque nem sequer houve a gentileza de ser convidada para entrar em sua casa pela portuguesa Fernanda, e segundo, recebeu a seguinte palavra ali no portão como se fosse um cachorro sarnento:
— Não posso fazer nada, mulher, cuida da sua cabrita que meu bode está solto no mundo.
Virou as costas com aquele ultimato e nunca mais se viram na vida.
Obviamente que ela, a avó paterna de Daniel, já havia presenciado a mesma cena diversas vezes com seus filhos incontroláveis por sexo e diversão fácil, mas por algum milagre, que não aconteceu com os outros filhos não reconhecidos, ele assumiu a relação e viveram maritalmente por pouco mais de seis anos.
Walter já havia se livrado de uma paternidade graças a um estratagema ardilosa de Fernanda que convenceu alguns amigos do filho a falarem que a garota era prostituta e todos eles já haviam dormido com ela por algum dinheiro em juízo e o juiz aceitou os termos dos acusados e o processo de paternidade foi negado para o pequeno Pablo que não tinha culpa alguma das aventuras do fogoso Walter.
A outra suposta filha já era uma situação ainda mais complicada e delicada, porque a mulher era realmente prostituta e Daniel ouviu da boca do pai, tio e avô que os três já haviam dormido com a mulher, bem como o avô também chegou a namorar a suposta neta, em tão descarada situação diante de toda a família, mas vindo do avô, Daniel não esperava mais nada. A mulher jurava até o dia da sua morte que o filho era de Walter e a garota fez de tudo para que ele a reconhecesse como filha.
Uma das cenas mais inesquecíveis de sua adolescência, o avô havia montado um bordel no sítio e ele foi visita-lo e se deparou com o velho com duas garotas da sua idade sentadas em seu colo.
— Oi, vô, tudo bem?
As palavras soariam muitos anos ainda em seu ouvido.
— Sou muito novo para ser seu avô, moleque.
O homem já tinha passado dos 70 anos, ser novo para ser avô naquela idade ele não saberia que idade precisaria ter para se sentir apto a ser avô.
Sérgio, na melhor das hipóteses era um dos homens mais filhos-duma-puta que já pisou na face da Terra, pois além de não ter problema algum em dormir com a própria suposta neta, ainda convenceu os filhos a comprarem algumas cabeças de boi para pastarem em seu sitio, vendeu-os e disse que foram roubados para que seus filhos não soubessem de nada.
Para Fernanda, diferente do que era para Antônia, era um orgulho o filho ser o epíteto do machismo, o garoto bonito e garanhão que não sabia cozinhar só pelo simples fato de ser homem e deveria ser dependente da esposa nisso, desde que o mundo era mundo era daquela forma e ela não seria louca de mudar a ordem das coisas.
Antônia, indiferente do que a religião dela pregava, ter um senso moral era o mínimo que alguém deveria ter, por exemplo, devido seu histórico em não gostar de pessoas negras, nunca os destratou, somente quem vivia no seio familiar, mas os vizinhos em si jamais desconfiaram de tal sentimento negativo contra eles, muito pelo contrário, a tinham de forma muito carinhosa.
Provavelmente um dos motivos, além da traição, a separação de Walter e Quelinha se deu por ela não ser uma excelente cozinheira como era a Fernanda, que compensava a falta de carinho e amor com pratos deliciosamente saborosos, direto da tradicional comida portuguesa, aprendida pela mãe que se chamava Emília, morta de forma tão prematura devido o desgosto em se ter casado com um dos homens mais promíscuos que já nasceu.
Por coincidência dos fatos, Marie, com quem Walter passou os demais dias de sua vida era uma cozinheira espetacular, digna da melhor cozinha mineira que seu Estado natal poderia proporcionar, ela poderia ter quaisquer defeitos que fosse, mas certamente cozinhar era uma qualidade que compensava suas hostilidades.
Segundo rezava a lenda, o pai de Fernanda, que se chamava José, por onde ia formava uma família, as filhas, só diziam que era um homem namorador e gastou toda a fortuna com as diversas famílias que fazia por onde passava.
O que nem todos sabiam era que Fernanda e Antônia tinham muitas coisas em comum também, pois haviam se casado com pessoas que não amavam, mas eram aprovados pelos pais, já que Sérgio também não era diferente do Seu Lima, a diferença era que em vez de jogatinas, Sérgio era um homem que adorava as mulheres que cobravam pelo que ele tinha de graça em casa, e isso rompeu o casamento quando Fernanda teve uma doença venérea e deu cabo daquele casamento que nem sequer deveria ter começado só porque Sérgio era de uma família europeia como ela.
— ENTÃO?Daniel abriu os olhos e se viu novamente no quarto do hospital junto ao homem que se dizia Deus.— Foi exatamente como disse que seria.O velho riu.— Qual vida foi melhor?— Que pergunta estúpida para quem se diz ser Deus, deve saber qual delas foi melhor.— Eu não disse que era, disse que sou Deus... e minha pergunta foi apenas para você ver como me senti quando disse que se tivesse uma nova vida faria tudo diferente, o que na minha visão, entre a minha pergunta estúpida e o seu desejo estúpido, você ainda ganha disparado.— Talvez...— Talvez não, Anna te disse isso, não é mesmo?O velho olhou para o relógio.— Vai ter algum compromisso?O velho assentiu.— Está quase na hora de um encontro.— Acredito que Deus tenha muitos en
Anna abriu os olhos e viu Daniel dormindo ao lado da cama.— Veja só se não é o louco que me pede em casamento e cinco minutos depois me atropela.Daniel abriu os olhos e a visão dela acordada foi um completo alívio.— Que bom que você acordou, fiquei preocupado.— Poderia ser sem uma perna quebrada, pelo menos, não acha?— Fiquei com tanto medo de te perder mais uma vez.— Ainda está com aquelas ideias absurdas?— Não são ideias absurdas... é a verdade... fomos casados em outra vida.— Se me conhecesse tão bem quanto diz que conhece, sabe que sou cristã e não acredito em “outras vidas”, quantas vezes vou ter que repetir isso?— Não estou dizendo em reencarnação... é difícil de dizer...— Então você é
Daniel estava em uma encruzilhada, já que ter conhecido Anna da primeira vez tinha sido totalmente casual, mas como ser casual se ele era agora um atleta mundialmente conhecido e um dos melhores músicos de sua geração, ele percebeu que por mais que conhecesse profundamente sua esposa, sua realidade mudou muitas coisas, inclusive as suas próprias vidas mudaram.Daniel viu Anna no show e após tocar tentou encontrá-la sem sucesso, conhecendo como a conhecia, ela já teria ido embora devido o lugar em que morava ser uma comunidade extremamente pobre, até ele mesmo sempre brincava com ela que, na primeira vez em que a levou até lá achou que ela estaria o sequestrando e pensou:Não é possível que esse rostinho lindo me enganou todo esse tempo...Seu pai, João Vitor que havia traído sua mãe, Daniel deu um jeitinho para que ele nunca tivesse con
Paralelamente à sua carreira de sucesso, Daniel montou uma banda de rock com alguns amigos com o único objetivo de fazerem shows para a caridade e o sucesso das músicas foram tão estrondosas que foram comparadas a ações sociais como o Live Aid, We are the World e outros, ganhando apoiadores de peso como, Bono Vox, Sting, Madonna e muitos outros artistas que sempre apoiavam causas sociais.Daniel não enxergava a imensidão das atitudes que seus atos teciam, era abissal imaginar que ele estaria naquele patamar, mas isso sempre era uma incógnita, pois segundo a sua crença, algo bom sempre acontecia para compensar algo ruim, sua nova vida trouxe glórias, mas levou embora a vida de sua mãe mais cedo.Sua banda, chamada Holyday, tocou em todos os principais canais de Tv e era difícil associar a agenda do futebol com a agenda dos shows, mas dentro do possível sempre estav
A vida de um homem é sempre regada a glórias e tragédias, quanto mais alto uma pessoa sobre na vida, maior a tragédia parece se instalar e mexer com o processo natural do que as coisas deveriam seguir era algo perigoso demais.Sua mãe, em vez de viver quase cem anos como da primeira vez, morreu com apenas quarenta e cinco anos de idade, numa tragédia em que seu padrasto havia dormido no volante.Na vida passada ambos haviam se separado após ele entrar para a faculdade de Direito e com isso ela teve um desfecho diferente do que qualquer pessoa poderia sonhar, se tornou pastora de uma igreja neopentecostal e passou a se dedicar cada vez mais ao ministério e aos netos.Mas com a quebra daquele fato surgiu um novo empasse nos fios do destino, pois uma alegria sempre é compensada por uma tristeza e vice-versa.Com a morte de seu pai diversos laços foram rompidos, já que Daniel deixou
Os anos passaram rapidamente enquanto Daniel treinava exaustivamente para se tornar o melhor jogador de basquete que o Brasil já havia visto depois de Oscar Schimdt, o maior cestinha de todos os tempos do basquete mundial, e uma de suas inúmeras alegrias foi tirar uma foto com ele durante o campeonato mundial em que foi convidado para realizar uma palestra com a equipe.Tanto Daniel quanto Leonardo se tornaram a dupla inseparável em diversos times que jogaram até que chegou um convite inevitável para ambos...Serem draftados na NBA...Leonardo foi draftado em 12º lugar na primeira rodada e diferente do que todos imaginavam, parecia que Daniel não seria, o que causava angústia em todos, seu grande sonho parecia estar indo por água abaixo quando foi chamado em penúltimo lugar pela equipe do seu coração, o Detroit Pistons.Aquilo trouxe um alívio e obviamente as