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CAPÍTULO 9

last update publish date: 2021-09-02 20:31:15

Daniel era indiscutivelmente o melhor aluno de sua classe, mas ele queria algo que o frustrara por muitos anos, ser um jogador da NBA, então de presente de Natal daquele ano ele pediu uma bola.

No terreno da casa da sua avó colocou um balde e uma tabela pendurada na parede e treinou como jamais havia treinado.

No bairro em que ela morava ele sabia que haviam algumas pessoas que jogavam e desde o começo treinava com elas, os irmãos Leandro “Bem Loko” e Leonardo, que em sua vida passada era seu grande rival nas quadras se tornou seu grande parceiro.

De manhã ambos iam para a escola e de tarde treinavam e Daniel à noite tocava violão para espairecer a mente, o que foi diferente da última vez, seu avô Lima, por vê-lo interessado em música, o único da família decidiu se aproximar dele e ambos passavam horam falando de música e dos eventos que ele tocou.

Em sua primeira infância o máximo que teve de proximidade com ele eram as brigas, pois Daniel, um garoto com tendências furtivas, não poucas vezes furtou dinheiro dele e de sua avó para jogar fliperama com os amigos e aquilo, por questões óbvias, mas os afastava do que os aproximava.

Mas ouvir a história do avô sob o ponto de vista dele foi uma das experiências mais transcendentais que ele já teve.

Seu Lima era filho de um operário ambulante que nunca tinha vivido mais do que três meses no mesmo lugar e a explicação era mais simples possível, seu pai era um alcoólatra analfabeto que nunca conseguia se estabelecer em nenhum lugar, com isso, seus filhos jamais conseguiram estudar e a saída para o jovem Benedito fora o exército.

Desde criança para ganhar alguns trocados, ele ficava na praça da cidade vendo alguns músicos de gafieira tocarem e aprendeu os primeiros acordes, bem como tivera as suas primeiras experiências com sexo e álcool e para um jovem sem perspectiva alguma de vida aquilo era o paraíso.

Sua mãe era uma fervorosa religiosa e tratava os filhos a ferro e fogo, o que fez muitos deles se casarem cedo apenas para saírem debaixo da vara da mãe, apesar de ser o mais velho, Benedito foi uma exceção aos irmãos e ficou com a mãe até ela escolher uma bela jovem de uma boa família europeia.

Ele nunca havia se apaixonado na vida, mas ao olhar a jovem Antônia, parecia que seu mundo havia mudado para sempre.

Desde o começo, Antônia afirmava que não gostava dele e isso foi até o fim da sua vida, pois ao ver a mulher dos seus sonhos chamando por outro homem em seu leito de morte o deixou incapacitado psicologicamente, vivendo na dependência de sua filha mais velha, Elidamar, até o fim de seus dias.

E isso não havia mudado naquela nova realidade, por mais que Daniel se esforçasse que queria que muitas coisas fossem diferentes, sua avó havia se casado com um homem que ela não amava, e iria morrer clamando pelo nome de seu italiano de olhos claros, mas ao saber daquele fato, quando chegou o momento fatal de sua avó, Daniel astutamente chamou pelo avô para falar qualquer coisa e apenas a sua mãe presenciou o derradeiro fim de Antônia. E Seu Lima, ao não presenciar a esposa clamando pelo nome de outra pessoa não endoidou da cabeça, mas a falta da mulher que amava encurtou seus dias.

— Ninguém pode mudar o que Deus determinou, filho.

— Acho que sim...

— Às vezes queremos proteger as pessoas da dor sem saber que a dor pode libertá-las de uma dolorosa realidade.

Diferente da primeira vez, a morte de Antônia não causou um enorme vazio dentro dele, mas aproveitou ao máximos aqueles dez anos que tinha à sua disposição para comer sua batata frita cascuda e seu inesquecível pão com omelete e maionese.

Antônia sempre desejou o bem ao neto, principalmente da primeira vez em que começaram as primeiras brigas familiares com seu pai e sua madrasta, pois o Cilso tinha guardado um revólver calibre .38 e quando eu disse que pegaria o revólver depois do fatídico natal em que Daniel quis matar a sua família, a conversa foi a mais profunda que teve com a sua avó:

— Porque você sonha tanto em querer ser igual ao seu pai?

— Ele é bonito, inteligente, tem uma esposa linda, tem um bom emprego...

Mas Antônia como uma boa italiana que era trouxe a verdade nua e crua.

— Seu pai é um bosta, filho, nem em mil gerações a esposa dele pode se comparar à sua mãe e ele a largou, nunca se importou com você de verdade, tem lá uma obrigação porque um juiz estipulou um preço, mas se dependesse dele você nunca ganharia nenhum centavo assim como os filhos dele nunca receberam antes de você.

Daniel ia falar em defesa de seu pai, mas naquele momento ela emanava uma autoridade que aquele semblante sereno jamais teve antes em toda a sua vida e jamais voltou a ter.

— Faça exatamente tudo ao contrário de seu pai, ele não estudou, então estude, ele não tem futuro, tenha você um futuro.

Aquele foi o melhor abraço que receberia, mesmo que vivesse mil vidas.

Em sua nova vida não houve os mesmos embates, Daniel agiu de forma inteligente, não falava quase nada, apenas o necessário e deixava a vida seguir seu percurso natural e aproveitava ao máximo as aventuras nas pescas que faziam juntos.

Quando aconteceu o famoso convite para o Draft da NBA, ele já esperava pela famosa reação de sua família:

— Ah! Legal, mas você sabe que será bem difícil você jogar lá, não é?

Daniel achava que nem se vivessem mil vidas mudariam seus jeitos pessimistas de ser, ele não se lembrava de nenhuma vez eles terem ido a quaisquer jogos, seja por times, seleções ou quando conseguiu seu grande objetivo, jogar na NBA.

Sua mãe, da mesma maneira que tinha vivido anteriormente, trabalhava em uma multinacional e se apaixonou e se casou novamente com um homem chamado Cilso.

O Cilso sem sombra de dúvidas fora a figura paterna que Daniel mais teve acesso, um homem engraçado e sensível, que nunca almejou o lugar de seu pai, mas ao invés disso, desejava ser amigo de Daniel, aconselhando-o e participando daquele momento mais sensível.

Assim como ele, ambos torciam para o mesmo time, Corinthians, o que ajudava na amizade.

Diferente de sua família paterna, a família Gabriel era o máximo que alguém poderia ter de familiares que torcem por um sobrinho, eles organizavam uma festa todas as vezes que tinha um jogo televisionado, especialmente nos jogos olímpicos, poderia faltar qualquer coisa da parte deles, menos amor.

Tanto que uma vez a Rede Globo foi até a casa da sua Tia Elidamar gravar a torcida pelo sobrinho de ouro, eles haviam perdido a final olímpica, mas aquele campeonato abriu a porta que eles tanto sonhavam.

Jogar na NBA.

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