LOGIN(Henrique)O som dos pneus cantando contra o concreto do subsolo ecoou pelas paredes da garagem como um tiro. Arrancando em alta velocidade, dobrei a curva acentuada da rampa de acesso com o meu sedã, cortando o caminho bem no instante em que o veículo de apoio enviado por Marcos manobrava de lado, bloqueando completamente a pista de saída para a rua.Luzes de emergência piscavam, refletindo no teto cinzento de concreto. Os dois carros da minha equipe fecharam a passagem em formato de "V", criando uma barreira intransponível na rampa íngreme.No centro da armadilha, o sedã preto com vidros G5 de alta blindagem — o carro oficial da segurança de Lucas Alencar — freou bruscamente a menos de dois metros dos nossos parachoques. O ruído seco das travas e o cheiro de borracha queimada preencheram o ar abafado do subsolo.Ajustei a postura, pulei para fora do carro antes mesmo que o motor desligasse completamente e avancei com passos pesados. Três homens armados da minha equipe de segurança d
(Henrique)No instante em que a ligação no viva-voz mudou para o tom estridente de linha cortada, o silêncio no quarto do hotel em Botafogo durou menos de um segundo. O grito de desespero de Valentina — “Henrique! Me socorre! Ele tá aqui!” — ainda vibrava no ar, estilhaçando a pouca calma que restava naquele ambiente.Dona Helena levou as duas mãos ao peito, cambaleando para trás. As lágrimas que já escorriam pelo seu rosto transformaram-se em um choro convulsivo.— O que aconteceu, meu filho? — a voz da senhora veio rasgada, agarrando-se ao meu braço com uma força trêmula. — O que aquele homem vai fazer com a minha Tina? Pelo amor de Deus, não deixa ele machucar a minha menina!— Ele não vai tocar nela, dona Helena — afirmei, a voz saindo mais dura do que eu pretendia, movido por uma descarga violenta de adrenalina. Segurei as mãos da senhora por um segundo para transmiti-la firmeza, embora o meu próprio peito estivesse em chamas. — Laura, cuide dela. Não saia deste quarto por nada.
— Valentina! Valentina, me responde! Onde você está? — o grito de Henrique rasgava o alto-falante do celular, a voz distorcida pela urgência e pela distância, enquanto o caos se instalava no banheiro de mármore.— Ele tá me pegando, Henrique! Bloco A! No banheiro! — consegui gritar antes que a sombra de Naldo cobrisse completamente a luz do teto.Com um movimento seco e desprovido de qualquer hesitação, a mão pesada do segurança se cravou no meu pulso. O aperto de ferro fez meus dedos se abrirem por reflexo, e o celular de Camila escorregou da minha mão, caindo ruidosamente no piso e deslizando até bater no rodapé. A voz de Henrique continuava a ecoar do aparelho no chão, um ruído abafado e desesperado que Naldo calou no segundo seguinte, pisando com o calcanhar da bota sobre a tela, estilhaçando o vidro e encerrando a linha.— Que absurdo é esse?! — Camila gritou, indignada, dando um passo à frente. — Você destruiu o meu telefone! Quem é você? Segurança, tira esse homem daqui!— Afas
No segundo toque, a ligação foi atendida. O som ambiente de fundo pareceu silenciar antes mesmo que a voz grave e familiar de Henrique cruzasse a linha, carregada de uma surpresa contida.— Alô?— Henrique... sou eu — sussurrei com a voz colada ao microfone do aparelho, encarando o espelho da bancada com o coração parecendo querer rasgar meu peito. — Não posso falar muito. O Naldo está do lado de fora.Houve uma pausa de um único segundo, e pude ouvir o som pesado da respiração dele mudar do outro lado da linha. A emoção de ouvir minha voz transbordou antes que ele conseguisse conter a postura.— Valentina... meu Deus, Valentina. Que bom ouvir você. Você está bem? Onde você está?— Henrique, me escuta! — interrompi, a voz trêmula de desespero e urgência. — Eu preciso da verdade. A minha mãe... ela esteve aqui ontem. O Lucas disse que você a trouxe para me usar, para me desestabilizar. Eu preciso saber se ela está bem, se ela realmente está aqui no Rio ou se tudo não passa de mais um t
O estalo da trava ressoou como um sinal de trégua na penumbra.O som abafado dos passos de Lucas sobre o piso de madeira indicava que as três horas de isolamento haviam chegado ao fim. Permaneci exatamente na mesma posição de bruços, o peito colado ao futon, os pulsos contidos atrás das costas e a respiração regulada para demonstrar a mais absoluta serenidade.Senti o toque dos dedos dele na minha nuca, desfazendo o nó da fita de cetim com movimentos calmos. Quando a venda deslizou, a iluminação suave do quarto fez minhas pálpebras piscarem devagar. Lucas curvou-se, soltando as amarras dos meus pulsos e ajudando-me a sentar. A pele dos meus braços formigou com o retorno da circulação, mas mantive as mãos postas sobre o colo, o queixo ligeiramente baixado.Ele me observou por alguns segundos, os olhos varrendo o meu rosto em busca de qualquer vestígio de turbulência.— Como está a sua mente agora, Valentina? — perguntou ele, num tom baixo, enquanto guardava as fitas de contenção no con
A luz fria do corredor refletia-se no painel de aço escovado do leitor biométrico.Ouvi o bipe agudo da trava desengatando, seguido pelo ruído suave da porta pesada do quarto secreto se abrindo. O ambiente sem janelas exalava o mesmo aroma discreto de sândalo e couro, uma fragrância que Lucas escolhera para associar aquele espaço a um estado de concentração e rendição.Entrei primeiro. Meus pés descalços tocaram a textura macia do futon centralizado no cômodo. As paredes espelhadas devolviam a imagem da minha própria vulnerabilidade: os olhos vermelhos pelo choro contido, as roupas alinhadas contra a vontade e a postura curvada pela força do hábito. Lucas entrou em seguida, fechando a porta atrás de si. O estalo final do fecho magnético selou o nosso isolamento do restante da cobertura.— Ajoelhe-se — ordenou ele, sem alterar o tom sereno e absoluto que usava para impor sentenças.Dobrei os joelhos sem hesitar, apoiando o peito das mãos sobre as coxas, mantendo os olhos cravados na ma







