LOGINO som da campainha do celular era um alarme ensurdecedor no silêncio denso daquele escritório. A tela brilhava com a foto de Laura sorrindo, sem ter ideia de que o pai dela estava com a mão espalmada na minha coxa, a poucos milímetros de invadir a minha calcinha.
— A-atender? — gaguejei, sentindo meu estômago despencar. — Sim — Henrique soprou as palavras diretamente nos meus lábios, o hálito quente me provocando um arrepio tão forte que meus joelhos quase cederam. — Ela é sua amiga, não é? Não vai deixá-la esperando. A pressão dos dedos dele na minha carne aumentou, puxando meu corpo para mais perto do seu. Sentir a firmeza da sua estrutura contra a minha barriga me deixou completamente sem ar. Com as mãos trêmulas, deslizei o dedo pela tela e levei o aparelho ao ouvinho. — Tina? Você conseguiu pegar a chave? — a voz alta e despreocupada de Laura ecoou do outro lado da linha. Pisquei devagar, encarando os olhos escuros de Henrique. Ele me observava com uma intensidade sádica, se deliciando com o meu pânico. — Oi, Laurinha... — minha voz saiu sufocada, quase imprestável. — Amiga, tudo bem? Você está estranha — Laura perguntou, o tom mudando levemente. — Achou a chave? Antes que eu pudesse responder, Henrique apertou minha cintura e subiu a mão livre até o meu queixo, erguendo meu rosto. Em um movimento lento e calculado, ele abocanhou a curva do meu pescoço, sugando a pele sensível ali. Um gemido baixo e involuntário travou na minha garganta. Fechei os olhos com força, cravando as unhas nos ombros dele para não me entregar. — Tina? Que barulho foi esse? — Laura insistiu. — N-nada! — respondi rápido demais, tentando controlar a respiração desordenada enquanto a língua de Henrique subia pelo meu pescoço até o lóbulo da minha orelha. — Eu... escorreguei no salto. A chuva, sabe? — Ah, entendi. Cuidado, garota! Mas e aí, pegou a chave? Meu pai não estava aí, né? Henrique deu um sorriso sombrio contra a minha pele. Sua mão na minha coxa subiu mais um centímetro, o polegar roçando perigosamente perto da renda da minha lingerie. O calor ali era vulcânico. Eu estava completamente molhada por causa dele. — Ela está na mesa, Laura — Henrique respondeu por mim, a voz grave e potente ecoando na sala e atravessando o microfone do telefone. Houve um segundo de silêncio absoluto na linha. O choque de Laura era palpável. — Pai?! — ela exclamou. — Você... você está aí? Henrique tirou o celular da minha mão trêmula com facilidade, sem quebrar o contato visual comigo. Ele me prendeu contra a borda da sua mesa de madeira, ficando posicionado exatamente entre as minhas pernas abertas. — Estou trabalhando, Laura — ele disse no viva-voz, a voz calma, perfeita, sem um traço do desejo brutal que consumia seu olhar. — A Valentina acabou de chegar. Estou entregando a chave para ela agora mesmo. — Ah... desculpa, pai! Achei que você já tinha ido para a reunião. Tina, pega a chave e vem logo para cá, tá? Estamos te esperando! — Ela já está saindo — Henrique decretou, desligando a chamada antes mesmo que Laura pudesse se despedir. Ele jogou o telefone sobre a mesa e voltou as duas mãos para a minha cintura, colando nossos corpos de vez. A fricção fez um suspiro escapar dos meus lábios. — Você é uma péssima mentirosa, garota — ele sussurrou, a voz rouca, roçando a boca na minha. — Tremer desse jeito só porque o meu nome apareceu no visor? — Você é louco, Henrique — murmurei, tentando manter uma réstia de sanidade. — Ela é sua filha. Minha melhor amiga. Se ela descobrir... — Ela não vai descobrir — ele interrompeu, o tom imperioso não deixando margem para dúvidas. Os dedos dele afundaram na minha carne, me erguendo alguns centímetros até que meus olhos ficassem na altura dos dele. — A não ser que você queira contar a ela o que acontece quando ficamos sozinhos. — Não acontece nada entre nós... Henrique soltou um riso baixo e perigoso. — Ainda não. Mas nós dois sabemos como essa noite vai terminar se você continuar me olhando assim. A promessa no olhar dele fez meu sangue incendiar. Eu sabia que devia pegar a chave e correr para longe dali. Mas, quando a mão dele finalmente deslizou por baixo da minha lingerie, o último fio de juízo que me restava virou cinzas.O fim de tarde no interior desenhava sombras longas na varanda quando o almoço terminou. Dona Helena já recolhia os pratos com a ajuda de Laura, cujas risadas ecoavam de dentro da casa, trazendo um calor humano que parecia preencher até as vigas antigas do teto. Aproveitei o momento em que Henrique caminhara até o limite do quintal para atender a uma ligação rápida de trabalho. Esperei que ele guardasse o telefone no bolso antes de me aproximar, com passos calmos pela grama baixa. Ele se virou assim que ouviu meus passos, guardando a pasta de couro sob o braço com a postura atenta de sempre. — A comida da sua mãe é imbatível — disse ele, com um sorriso discreto. — A Laura já está querendo levar marmita para o Rio. Sorri de canto, mas mudei o tom de voz, assumindo a firmeza que vinha cultivando ao longo das últimas semanas. — Henrique. Ele percebeu a mudança no meu olhar e silenciou imediatamente, dando-me toda a sua atenção. — Eu pensei no que você disse na semana passada — co
Na quinta-feira da semana seguinte, o som da buzina alegre na porteira anunciou a chegada do carro antes mesmo que a poeira da estrada de terra vermelha baixasse. Eu estava na varanda ajudando minha mãe a secar a louça quando a porta do passageiro do utilitário se abriu rapidamente. Laura praticamente saltou do veículo, ignorando os avisos de Henrique para que tomasse cuidado com o piso irregular. — Valentina! — gritou ela, correndo em minha direção com os braços abertos. — Laura! Cuidado! — rindo, desci os degraus da varanda e fui ao encontro dela. O abraço de Laura foi apertado, quente e cheio daquela energia vibrante que sempre parecia afastar qualquer sombra ao redor. Ela me segurou pelos ombros, afastando-se um pouco para examinar meu rosto com um olhar minucioso. — Olha para você! A sua pele, o seu olhar... a roça fez milagres, menina! — exclamou Laura, antes de se virar para dona Helena, que assistia à cena com um sorriso maternal. — Dona Helena! Que saudade da senhora!
Henrique tomou um gole do café fumegante que minha mãe trouxera, observando a firmeza do meu olhar após a minha declaração sobre o retorno à faculdade. O silêncio entre nós não era mais tenso como no passado; trazia o peso do respeito e de uma cumplicidade moldada pela tempestade que enfrentamos juntos.Ele pousou a xícara sobre a mesa rústica e abriu novamente a pasta de couro que trouxera. Mas, desta vez, não retirou papéis jurídicos ou relatórios de audiência. Retirou uma pasta de capa azul-marinho, timbrada por um cartório da capital, e a deslizou devagar pela madeira até que ela parasse a poucos centímetros das minhas mãos.Olhei para a capa, intrigada.— O que é isso, Henrique? — perguntei, sem tocar no documento.— Abra, Valentina — disse ele, a voz baixando para um tom calmo, porém carregado de uma gravidade absoluta.Puxei a pasta e abri a primeira página. Trata-se da escritura pública de compra e venda de um imóvel em Botafogo, no Rio de Janeiro — uma casa ampla, com jardim,
O som do vento balançando as folhas dos cafezais ao fundo da casa de madeira trazia uma cadência que meu corpo parecia ter esquecido. O cheiro de terra molhada pela orvalho da manhã invadia a varanda, misturando-se ao aroma do café recém-passado que dona Helena servia na mesa de rústica.Três meses haviam se passado desde a noite da invasão na cobertura do Leblon.Eu estava sentada no banco de madeira, vestindo uma camisa de algodão leve e chinelos simples. Minhas mãos, que antes seguravam com pavor os lençóis de cetim do quarto secreto ou as pastas pesadas do curso de Direito, agora seguravam uma caneca de esmalte quente. O silêncio da roça não era o silêncio sufocante e asséptico do apartamento de Lucas; era um silêncio vivo, preenchido pelo canto dos pássaros e pelo estalar da lenha no fogão.Dona Helena sentou-se ao meu lado, ajeitando o xale sobre os ombros. Ela não fazia perguntas sobre o passado, nem insistia em tocar nos nomes que nos feriram. O amor dela manifestava-se em ges
(Henrique)Duas semanas após a noite da invasão na cobertura do Leblon, o ar no escritório de advocacia em Botafogo era de uma sobriedade tensa. Sobre a mesa de reunião de madeira nobre, pilhas de documentos, relatórios periciais e depoimentos assinados formavam o dossiê que colocaria fim, de uma vez por todas, à impunidade de Lucas Alencar.Valentina estava sentada ao meu lado. Vestia um jeans confortável e uma blusa clara simples, sem os trajes sóbrios e rígidos impostos pelo padrão de luxo do magnata. O semblante dela ainda carregava as marcas das noites mal dormidas e do processo doloroso de metabolizar o trauma, mas os olhos — antes sombrios e hesitantes — agora brilhavam com uma determinação inabalável.Do outro lado da mesa, Dra. Beatriz, a advogada criminalista contratada por minha equipe, ajustava os óculos enquanto folheava a versão final da denúncia.— A situação do Lucas desmoronou em cadeia — começou Beatriz, direcionando o olhar para Valentina. — O depoimento da sua cole
(Henrique)O céu da madrugada começava a ganhar os primeiros tons de azul-pálido sobre a Baía de Guanabara quando o nosso carro finalmente parou na entrada do hotel em Botafogo. O ar fresco da manhã entrava pela janela ligeiramente aberta, trazendo o cheiro do mar e a sensação indescritível de liberdade.Durante todo o trajeto, Valentina não soltara a minha mão. Ela encarava as ruas do Rio de Janeiro passing através do vidro sem a película gélida da blindagem de Lucas, como se estivesse reaprendendo a enxergar as cores do mundo. Cada respirar dela era profundo, um suspiro de quem finalmente emergia de um mergulho sufocante.Subimos pelo elevador do hotel até o quinto andar. A cada segundo, o nervosismo de Valentina crescia, refletido no tremor discreto das suas mãos. Parei diante da porta do quarto 504 e olhei para ela, oferecendo um sorriso calmo.— Ela está lá dentro, Valentina — disse eu, a voz suave. — Esperando por você.Valentina assentiu, engolindo em seco. Toquei a campainha.







