INICIAR SESIÓN
Kaori sempre foi intensidade pura. Desde criança, tudo nela ardia em exageros: o amor, a raiva, o desejo, a curiosidade. Amava com fúria, chorava com desespero e ria como quem não conhecia limites. Era daquelas pessoas que mergulham fundo demais, sem medir a profundidade, e acabam se afogando nas próprias emoções.
Na juventude, Kaori viveu paixões intensas, algumas inocentes, outras perigosas. Gostava da sensação do novo, do proibido, daquilo que a fazia sentir viva. Seu coração pulsava com o mesmo ritmo das músicas que ouvia mil vezes ao dia. Paixão, para ela, era o combustível da existência, mesmo que a queimasse por dentro. Mas foi na faculdade que ela acreditou ter encontrado algo diferente. Um amor maduro, sereno e, ao mesmo tempo, devastador. Ele era seu professor, charmoso, inteligente, experiente e soube exatamente como atravessar as defesas que ela fingia ter. Kaori se deixou levar, acreditando que, finalmente, havia encontrado a segurança que sempre buscara. No entanto, o encanto logo se mostrou uma ilusão. O homem que prometeu protegê-la usou seus sentimentos como distração, deixando-a despedaçada quando tudo veio à tona. Ele era noivo e nunca teve a intenção de ficar com ela de fato. Tomada por frustração e vergonha, Kaori se isolou. Passou dias sem comer, noites sem dormir. O mundo parecia desabar a cada lembrança. Naquela noite que deveria ser de festa, ela pegou o carro de sua mãe e saiu transtornada tomada por problemas e consequências, bem no dia de seu aniversário, o coração em guerra com a própria mente. Chorava, gritava, acelerava. E foi então que perdeu o controle. O carro capotou várias vezes, parando num barranco em chamas. Os bombeiros a encontraram inconsciente, com ferimentos graves e o rosto coberto de sangue. Durante duas semanas, ela permaneceu em coma, suspensa entre a vida e a morte. O pai, Juliano, e a mãe, Lisa, se revezavam no hospital, devastados, não apenas pelo acidente, mas pela culpa que carregavam. Quando Kaori abriu os olhos, o mundo não era mais o mesmo. O tempo havia se tornado um vazio em sua mente. Ela não lembrava do acidente, nem da faculdade, nem do professor e a noiva dele. E, para seu espanto, descobriu que os pais estavam divorciados. A mãe morava agora em uma casa simples, enquanto o pai havia seguido em frente, com outra mulher. Ela chorou dias inteiros. Tudo parecia estranho, distante, como se estivesse presa em um corpo que não lhe pertencia. Tentava recordar, mas as lembranças escapavam como areia entre os dedos. A dor física se misturava ao vazio da alma. A intensidade que antes a definia agora era apenas uma sombra, ela existia, mas apagada, confusa, perdida. Lisa cuidava dela com paciência e desespero, como quem tenta consertar algo que nunca mais será o mesmo. Juliano a visitava com frequência, embora a presença dele causasse mais incômodo do que conforto. E Kaori, entre remédios e consultas, tentava reconstruir quem era. Com o tempo, voltou para casa da mãe. O quarto estava cheio de fotos, lembranças de uma vida que ela não reconhecia. Os amigos a procuravam, mas ela não queria vê-los. Sentia medo, vergonha, e uma estranha sensação de que nada daquilo realmente lhe pertencia. O psicólogo dizia que o cérebro apaga certas memórias para proteger o coração, mas, em Kaori, o esquecimento parecia punição. A menina intensa, passional e ousada havia sido substituída por alguém que mal sabia quem era. E, mesmo assim, dentro dela, havia uma fagulha. Um desejo mudo de lembrar, de recomeçar, de se reconstruir, ainda que entre os escombros da dor. Kaori não sabia se algum dia voltaria a ser a mesma, mas talvez esse fosse o ponto: algumas quedas não vêm para destruir, e sim para despertar quem sempre esteve adormecido. Porque, no fundo, Kaori era feita disso, de fogo, de falhas e de recomeços, deram um celular novo pra ela, zerado sem nada pessoal, ela não lembrava das senhas e eles optaram por um número novo que ninguém além da família tinha, a intenção deles era que ela não visse mensagens comprometedoras, eles não podiam correr o risco de piorar o estado dela. Todos os dias eles tentavam relembrar dos últimos anos, mostrando fotos das pessoas próximas que ela tinha convívio, no primeiro e segundo dia tudo até correu bem na medida do possível, mas dali em seguida ela começou a ficar muito mal por não saber de nada. Era muito difícil aceitar aquilo tudo, ficar em uma cama dependendo dos outros, ela queria lembrar e não conseguia. Também tinha muitas dores, amanhecia chorando, pedindo ajuda, a cabeça era o que mais incomodava. Quando foram pra casa, o Juliano levou as duas, afinal a Lisa estava sem carro. Na cobertura da garagem colocaram alguns balões vermelhos para recebê-la bem, a geladeira estava cheia de tudo que ela gostava, o quarto estava pronto, com tudo organizado, e tinham muitas fotos dela reveladas em um mural, foi ideia da Bibi, melhor amiga dela. A maioria das fotos eram sozinhas, algumas com familiares e os amigos mais antigos, Bibi e Enzo. Durante todo o trajeto ela não disse nada, viu o Juliano segurando na mão da Lisa enquanto dirigia e ficou incomodada, confusa. Ao entrar na casa perguntou há quanto tempo a Lisa morava lá. Ela começou a reparar na casa e até comentou sobre ser pequena. Ao chegar no quarto, soube que usava há anos o cabelo longo; no hospital foi preciso cortar curtinho, no estilo Chanel. Ela começou a olhar tudo, mexer nas gavetas de forma curiosa. Juliano perguntou se ela queria algo especial, qualquer coisa. Ela disse que queria ver o irmão. Ele respondeu que já havia dito que o Miyuki tinha datas certas para poder sair do quartel. Ela respondeu chateada que daquilo se lembrava, agradeceu e foi deitar porque estava com dor. Juliano precisava ir trabalhar. Disse que queria levar ela conhecer a casa dele assim que possível. Ela disse que ainda não queria ver ninguém. Ele sugeriu que ela tivesse o número da Joyce, a nova madrasta, caso quisesse conversar um dia. Ela até salvou, mas estava convicta de ignorar o novo amor de seu pai. A esperança de todos era de que ela iria se lembrar pouco a pouco, mas não foi o que aconteceu no decorrer dos dias. Lisa já ia voltar a trabalhar e Kaori estava afastada do trabalho pelo INSS. Ela não havia saído nem no quintal nenhum dia desde que teve alta. A convivência das duas estava ótima, o cuidado de mãe deixava Kaori o mais confortável possível, e dia sim, dia não, o pai ia lá pra vê-la. Ficava um pouco com ela, assistia, conversava. Ela estava se recuperando fisicamente, mas era comum dores e choro todos os dias. No primeiro dia que Lisa foi trabalhar foi horrível para mãe e filha. Ela saiu de manhã, perto da hora do almoço, e só voltou à noite. A cada uma hora, ficou verificando pelo celular se estava tudo bem. Kaori falava que sim, mas se sentiu muito sozinha e triste. Nesse período, Lisa recomendou que Kaori fizesse novas redes sociais, já que havia esquecido as senhas. Ela fez e começou só a olhar tudo, sem adicionar ninguém. Primeiro, adicionou a família e depois amigos do trabalho que encontrou nas fotos do perfil antigo. Ela também adicionou a Bibi, a melhor amiga, que imediatamente mandou mensagem perguntando como ela estava. Nem o número dela a Lisa quis dar quando a Bibi foi visitar. As duas conversaram pouco. A Bibi disse que havia se mudado recentemente de cidade, perguntou se ela ainda não estava lembrando de nada daquela noite dos últimos meses. Kaori disse que não, era um branco total, e também comentou que estava evitando a todos com medo de ser manipulada de alguma forma. A Bibi disse que elas estavam do mesmo jeito há cinco anos, brigando, fazendo as pazes, depois brigando de novo. Então Kaori perguntou como estavam as duas antes do acidente. A Bibi respondeu: — Brigadas, por bobeira, como sempre. Não vou mentir pra você, eu te amo, amiga! Sinto muito que você esteja passando por isso. Pode contar comigo sempre, tô longe, mas tô com você da mesma forma. Quero muito te ver! As duas passaram a conversar um pouco, mas a Bibi não estava sendo muito sincera. Falam que não há mentiras do bem, mas nesse caso passou a existir. Ela não disse nada de ruim. Sobre o Daniel, o professor então? Assunto encerrado. Ela só falava de coisas mais antigas e da relação de uma com a outra. Kaori ficou muito na defensiva, mesmo com a melhor amiga. Na quarta-feira, ela tinha consulta com o psicólogo e tinha dito que ia sozinha quando a Lisa foi trabalhar. Combinaram pra ela ir de Uber e o Juliano, seu pai, iria buscá-la. Quando estava próximo do horário, a Lisa começou a ligar. Depois do horário da consulta, ela ligou lá e soube que Kaori não tinha ido. Então entrou em desespero tentando falar com ela, sem retorno algum. Era de tarde, por volta das 17h. Ela ligou para o ex, Juliano, ele estava esperando no consultório. Foi às pressas para a casa delas ver o que estava acontecendo. Quando chegou lá, encontrou Kaori dormindo. Ela acordou até assustada com ele, chegou a chorar frustrada por ter perdido a consulta. Estava reclamando de dor na cabeça. Após falar com a Lisa, o Juliano sugeriu que Kaori fosse pra casa dele jantar, passear, e à noite ele a levaria de volta. Ela perguntou se a Joyce estaria lá, ele disse que só se ela quisesse. Então ela aceitou, levantou e foi tomar banho. Na hora de escolher a roupa, ficou indecisa. Era tudo muito preto. Ela já não era mais a mesma. Até na alimentação estava confusa, pois não sabia ao certo do que realmente gostava, já que ela era de fases e em cinco anos, com certeza, havia mudado suas preferências em tudo.Ela estava bem próxima, abraçada, dando beijinhos enquanto ele falava aquelas coisas. Ficou sorrindo, falou que também gostava muito de s.e.x.o e perguntou, debochada, como seria ser propriedade dele. Eles foram tomar banho juntos. Ele respondeu carinhoso:— Não quero te prender, Bianca, nem rotular. Quero te deixar livre e, ainda assim, saber que você é minha porque escolheu ser. Quero que seja minha por inteira, na cama, quando estivermos longe, quando as coisas ruins acontecerem também.Ela ficou mexida com o clima e falou:— Essa é a sua maneira de falar que gosta de mim? Quer exclusividade, é isso?Ele sorriu, falou que queria ela até demais, que ia fazer a parte dele pra funcionar, porque ela já estava fazendo a parte dela maravilhosamente bem. Ela respondeu, rindo, que não tinha nem feito a metade das coisas que queria com ele ainda.Tiveram uma no
A Lisa perguntou se era pra valer ela e o Gabriel. Constrangida, a Bibi disse que não sabia ainda, que só estavam se curtindo um pouco, pelo menos tentando. A Tati falou:— Eu me vi surpresa com isso, nunca imaginei até ver vocês perto um do outro, mas eu acho que pode dar certo. Se ambos os lados forem afrouxando as rédeas, as regras, pode rolar e muito. Vocês são meio parecidos, dois sobreviventes. Você é muito coração e isso é bom. Quem te vê de longe nem imagina o quanto você pode ser legal, já que tem essa marra toda.A Bibi estava fazendo o bolo e as duas sentadas na mesa. Ela falou, brincando, que aquilo não parecia algo muito positivo. A Tati se levantou, disse que estava com água na boca por causa do cheiro, foi perto da Bibi pra provar o recheio do bolo e falou chateada:— Tá ficando do jeito que eu queria. Eu sinto muito
Ela esperou alguns minutos e abriu a porta do banheiro, achando que a Maria ia estar lá no carrinho. Olhou no quarto e na cozinha, mas o carrinho nem estava lá. Meio sem entender por que ele tinha levado a Maria, voltou para o banho. Logo saiu, se vestiu e foi até lá. Da casa do vizinho, ela já ouviu o choro e ficou preocupada.Chamou no portão, já entrando. Estavam na sala a Tati, sentada com o José no colo, e a Maria no colo do Gabriel, chorando. Quando a Bibi apontou na porta, a Maria quis ela, ainda chorando muito. Ela a pegou rapidamente e perguntou o que tinha acontecido, assustada, tentando acalmar a Maria. O Gabriel falou, sem jeito:— Eu comprei esse brinquedo pra ela, mas não imaginei que ela não ia saber brincar. Não aconteceu nada, ela só quer ficar sentada em cima, mas eu tive medo dela cair. Desculpa, eu não sei fazer isso, não sei de nada e não
Ela falou que era pra ele agir da mesma forma com ela, sendo sempre sincero. A Maria estava olhando ele na tela do celular, querendo pegar. Ele falou sério com ela, chamando sua atenção, dizendo que não podia. Falou o nome dela duas vezes e disse pra parar. Ela o encarou, olhou para a Bibi e deu risada, quis pegar ainda mais o celular, e os dois começaram a rir. A Bibi falou:— Olha, filha, o tio tá brigando com você. Ele é muito b.r.a.v.o, sabia? Sua tia se pela de medo dele!Ele falou que ninguém mais estava ligando para a braveza dele. Ela respondeu:— Eu gosto desse seu jeito, sabia? Porque não preciso ficar sendo muito boazinha, nem ter uma personalidade moldada só pra você, assim como tinha para os outros, porque sempre achei que o problema era eu. Achei outro problemático.Ele falou que gostava da personalidade dela original, toda estranha mesmo, e
Ela perguntou, curiosa, o que era. Ele confessou que a ideia dele era fazerem uma festa surpresa do jeito que a Tati sempre quis. O Gabriel e o Hugo iriam topar na hora e ajudar financeiramente, toda a família com certeza aceitaria participar, e todos estavam cansados de saber como a Tati queria cada detalhe.O Rui conversou com o Maicon no dia seguinte. Falaram muito sobre a situação, ele não estava bem, mas garantiu que a Tati não ia deixar ele, porque a conhecia melhor do que qualquer um. Também disse que faria qualquer coisa por ela naquele momento.No mesmo dia, ele falou com toda a família pedindo ajuda, ligou pra todos. Ele estava em casa sozinho e ficou fuçando nas coisas da Tati. Como os dois não tinham segredos, mexeu no computador dela e encontrou tudo o que era preciso pra saber das coisas mais certas: decoração, lista de convidados e o cardápio. Puderam ver tudo o que ela e
A Joyce disse que tinha certeza de que ela ia reagir m.a.u. e pediu desculpas pelo Juliano. A Kaori falou que ia ficar pra comer pelo Be e pelo Miyuk. Eles entraram juntos, ela foi lavar o rosto e voltou pra mesa. Todos estavam conversando como se nada tivesse acontecido, ela quase não comeu e ficou mais calada durante o almoço.Antes de ir embora, o Juliano se desculpou e deu um abraço. Ela disse que não queria mais falar daquilo, que era pra ele recusar e dizer que ela não queria qualquer contato com eles. Mais tarde, o Rui foi levar o Bernardo embora, e a Kaori ficou na casa da Bibi conversando.Ela contou que estava sonhando muito com o Daniel. A Bibi disse que seria uma boa aceitar o dinheiro dos pais dele e que todo o dinheiro seria pouco pra compensar o que ele fez. A Kaori falou que não podia, que era errado e o Rui nunca ia aceitar também.A Bibi aconselhou ela a só deixar passar e evitar se questi







