INICIAR SESIÓN
O ar condicionado daquela porcaria do Boeing 777 cheirava a suor, café, tralhas e querosene. Quatro anos enfiados na província de Helmand resumidos a um voo com mais de 200 gajos que tal como eu, não sabiam bem o que iam fazer agora que não tinham em mãos uma espingarda para agarrar. Para os civis que viam as notícias na televisão, o Afeganistão era um monte de areia e gajos trajados a pano. Para mim, era o barulho dos cartuchos a bater no chão e o rádio a chamar numa certa frequência no meio de uma emboscada.
Quando os pneus do bicho morderam o chão na base aérea de MacDill, o pessoal desatou aos gritos. Malta fardada aos murros nos ombros uns dos outros, a chorar aquela palhaçada toda. eu fiquei quieto no banco. A minha mão direita estava enfiada no bolso da calça camuflagem com os dedos agarrando o raio da caixa de veludo azul.
Finalmente esta merda acabou!
A rampa de metal desceu e o bafo de Miami adentrou pelas minhas narinas, esbatendo com violência mínima no meu rosto. A brisa vinha também com um calor húmido e pegajoso, diferente do clima daquela zona que sabia a pó, bem peculiar das montanhas arenosas de Kandahar. Deitei a mochila ao colo e saí do avião às pressas, sem olhar para trás.
Só me interessava uma coisa: a linha de civis atrás das grades de segurança.
Havia cartazes parvos, balões e gajas a chorar, mas o meu olho focou em apenas um único ponto.
A Teresa.
Estava com um vestido amarelo ranhoso, daqueles leves e o cabelo castanho todo despenteado com ação do vento seco e quente. Quando me viu, largou a mala que tinha em mão e veio a correr para dentro dos meus braços. os policiais da base ainda tentaram alcançá-la, mas vendo a minha farda, perceberam logo e refrearam o passo, deixando-a seguir o destino a muito traçado.
larguei a mochila ao chão. Nem pensei. Dei dois passos e ela chocou contra o meu peito com a força de um caminhão.
O cheiro dela. Baunilha. Sem Pólvora, sem fumo. Sem cheiro de sangue. Só ela.
— Voltaste... foda-se, David, tu voltaste mesmo — soluçou ela, com a cara enterrada no meu pescoço, a apertar-me as costas como se o mundo fosse acabar.
— Eu disse-te que voltava, não disse? — murmurei, a enterrar os dedos no cabelo dela. A minha postura militar, aquela rigidez de quem passa o dia em sentido, derreteu-se toda ali no meio do cimento da pista. — Acabou, miúda. A guerra acabou. Estou aqui.
Segurei-lhe o queixo para a olhar de frente. Tinha a cara cheia de lágrimas. Beijei-a com a fome de quem passou a comer ração seca e com sabor a nada caseiro. Um beijo bruto, com o peso de todas as patrulhas onde quase fiquei agarrado à terra por causa de uma mina ou de um tiro de um sniper qualquer.
Ela afastou-se um pouquinho e olhou-me nos olhos, passou o dedo pela minha bochecha e deu-me mais um chocho, deixando o rosto corado de batom.
— Estás diferente, David. Tens o olhar... mais frio. Mais duro.
— É do cansaço do voo, não é nada — cortei logo, forçando um sorriso que me soube a falso. — Só preciso de te ver todos os dias para esta merda me passar da cabeça. Quero esquecer o deserto. Vamos mas é embora daqui.
Peguei na mochila com a mão esquerda e dei-lhe a direita. Os nossos dedos encaixaram direitinhos como as peças de um carregador. Enquanto íamos para o parque, ela não se calava:falava da casa que alugou ao pé da praia, que já tinha o frigorífico cheio e que o jantar estava pronto.
Eu ia abanando a cabeça a fingir que ouvia tudo mas o meu cérebro de fuzileiro não descansava. Os meus olhos faziam o scan ao parque de forma criteriosa: saídas, esquinas, entradas, e coberturas. A uns duzentos metros estacionada ao pé dos táxis estava uma carrinha cinzenta de vidros fumados. Vio reflexo latente de uma lente de câmera lá dentro. Alguém a apontar para nós.
Instintivamente, puxei a Teresa para mais perto de mim, mantendo o meu corpo entre o dela e o veículo. Mal nos aproximamos da zona movimentada o veículo arrancou e sumiu pela pista a nossa frente.
Estás paranoico, pensei, a tentar acalmar os batimentos cardíacos. A guerra ficou lá longe, caralho. Estás na América. Aqui ninguém te quer matar.
A Teresa abriu a porta do carro dela e olhou para mim a rir, com os olhos a brilhar.
— Pronto para a vida civil, Capitão?
Toquei na caixa de veludo dentro do bolso. Aquele anel tinha-me custado quatro anos de inferno, mas estava ali.
— Siga, noiva. Conduz tu.
Nós nem sabíamos que aquele dia seria um dos poucos dias que passaríamos juntos. O momento que se prenunciava como de paz, na verdade, se configuraria como algo bem pior que os sangrentos dias de Kandahar.
David MercerO silêncio da selva voltou, pesado e sufocante. Só se ouvia o som da chuva tropical a fustigar as folhas de bambu e o gotejar constante do sangue na lama vermelha. Sob a mira da minha Beretta M9, as pupilas do terceiro salteador dilataram-se tanto que o castanho dos seus olhos quase desapareceu. A AK-47 velha tremia na mão dele. O cano vacilou, descendo um centímetro. Depois dois.Ele percebeu o que o chefe mutilado na traqueia e o outro homem a jorrar sangue da coxa já sabiam: eu não era um engenheiro civil. Eu era a morte com uma farda invisível.— Don't... — gaguejou ele, numa mistura de inglês macarrónico e dialeto. — No shoot...Com um movimento rápido da mão esquerda, avancei e arranquei-lhe a AK-47 dos dedos flácidos. Dei um passo atrás, retirei o carregador da arma e lancei o corpo de metal para a densidade da vegetação escura. Ele caiu de joelhos na lama, com as mãos acima da cabeça, a tremer como uma folha.— Sai do meu trilho — ordenei, com a voz num tom baixo
David MercerO motor do jipe gemia em rotação baixa, sofrendo. A cada metro o lodo vermelho tentava engolir as rodas.Já íamos há mais de três horas longe do subúrbio de Saigão. O asfalto acabou. Agora era só trilho, rasgado pela erosão e pela lama das plantações de borracha abandonadas. O jipe sacudia. Terra molhada batia nas janelas fumadas.A humidade do Sudeste Asiático entrava pelas frestas da chapa como vapor. Colava a camisa ao meu peito e deixava o painel melado. O ar cheirava a vegetação podre, gasóleo e terra encharcada. Com 1,87m e ombros de fuzileiro, aquela cabine era um caixão de metal. Cada osso doía com os solavancos. Mas os olhos ficaram presos na mata. Ela se fechava sobre nós como garras negras sob a tempestade. No auricular esquerdo, no volume mínimo, Miami chiava.— Corvo... a frequência... a perder sinal... — a voz do sargento Miller vinha picotada pelas nuvens do golfo. — Tempestade... interferência no satélite de Homestead... estás a entrar na zona cega... C
David MercerA madrugada em Ho Chi Minh chegou cinzenta pelas frestas da ventoinha. Eu já estava acordado muito antes do despertador tocar.Sentei na cama de solteiro. O ar abafado colava a poeira das paredes de betão na minha pele. No espelho baço vi um estranho: cabelo cortado rente em Miami, pele morena disfarçada com base barata. O resultado era um operário cansado. Só que os meus 1,87m e os ombros de fuzileiro não dá pra esconder. Isso continua gritando. Puxei o saco de lona pra cima do colchão.Beretta M9 de 9mm. Faca Ka-Bar.O peso do aço me acalmou e me afundou ao mesmo tempo. Lá fora aquilo era cadeia perpétua. Aqui era a única coisa entre mim e a morte. Pegar a estrada? Impossível.Auto-Estradas cheias de cães, postos e guarda com punho de ferro. O Spector já tinha avisado: fronteiras fechadas, polícia em todas as saídas da província. Se me pegassem com ferro na bagagem, Timothy Scott morria ali. E com ele, a Teresa. Enfiei a Beretta num coldre de lona sob a camisa larga, en
Vandy fez um sinal com a cabeça em direção à cortina de veludo vermelho que separava o camarote do corredor dos fundos. Dois capangas entraram no espaço empurrando duas jovens. Elas não tinham mais dezoito anos. Usavam trajes tradicionais de seda, mas os seus rostos mostravam os sinais claros de sedação extrema — olhos semicerrados e passos vacilantes. Tinham os pulsos atados com fitas plásticas pretas.— Estas duas chegaram no lote de terça-feira, vindas das províncias vizinhas — explicou Vandy, apontando para as jovens com desdém. — Estão limpas. Foram testadas e estão prontas para o uso. Considera-as uma oferenda pessoal para ti e para os teus guardas esta noite. Podem levá-las para os quartos do piso superior. Façam o que quiserem com elas. Amanhã, se ainda estiverem inteiras, os meus homens tratam de as recolher.O inspetor Sarath olhou para as raparigas. Um brilho de luxúria crua cruzou o seu rosto enrugado. Ele levantou-se e agarrou no queixo da mais próxima com força, virando
Samnang VandyO fumo denso de ópio e tabaco misturava-se com o vapor húmido que subia das margens do rio Vàm Cỏ Đông. Sob as vigas de madeira podre da Lanterna de Lótus, uma taberna clandestina oculta nos pântanos nos arredores da vila fronteiriça de Trapeang Phlong, o submundo respirava ao ritmo do álcool, da droga e da impunidade. A poucos quilómetros dali, os camiões de carga roncavam na Estrada Nacional 7, cruzando o posto aduaneiro oficial para o Vietname. Mas naquele antro, a lei era ditada por outra engrenagem. Contrabandistas jogavam dados enquanto consumiam doses de metanfetamina pura, e mulheres com olhares vazios moviam-se como fantasmas entre os clientes da noite. Samnang Vandy observava a decadência lá em baixo com um esgar de desdém do alto do camarote privado. Ele ajeitou os punhos da sua camisa de linho escuro. O perfume caro de sândalo que usava servia como uma armadura olfativa contra a podridão do lugar. À sua frente, sentado numa poltrona de cabedal desgastada,
Teresa d'ÁvilaA sombra de Samnang Vandy caiu sobre mim com o peso de uma laje de betão. Encolhi-me contra o cimento frio do porão, apertando os trapos do vestido de noiva contra o peito, enquanto o silêncio da cela era quebrado apenas pelo som compassado dos passos dele. Ele não tinha pressa. Tinha a calma de um predador que sabe que a presa não tem para onde fugir. O cheiro do perfume caro de sândalo dele misturava-se de forma nauseabunda com o odor a mofo e a álcool daquele subsolo. O barão do crime agachou-se à minha frente. A luz fraca e amarelada do candeeiro de teto refletia-se na cicatriz profunda que lhe cortava a face direita. Ele estendeu a mão e, com uma lentidão que me fez parar o coração, enterrou os dedos no meu cabelo, puxando-me a cabeça para trás com força para me obrigar a olhar diretamente para os seus olhos escuros e vazios.— És demasiado valiosa para ser desperdiçada numa vala comum, americana — murmurou Vandy, num inglês perfeito, soltando um riso seco que me