FAZER LOGINO dia da cerimônia parecia estar se arrastando e, ao mesmo tempo, correndo em direção a um abismo. O casarão da alcateia fervilhava. O rádio na cozinha tocava uma música suave da Fleetwood Mac, mas o som mal conseguia abafar o barulho de louças sendo empilhadas e os preparativos frenéticos para o banquete da noite.
Eu estava encarregada de polir as peças de bronze da família Ironwood. Era um trabalho solitário, o que geralmente me agradava, mas o silêncio da biblioteca me deixava tempo demais para pensar. Meus dedos doíam de tanto esfregar o metal, e o cheiro forte do produto de limpeza ardia em meu nariz. Eu olhava para o meu reflexo distorcido nas bandejas — um rosto pálido, olhos grandes demais, uma garota que parecia feita de fumaça.
A porta da biblioteca se abriu com um estrondo. Encolhi os ombros por instinto, tentando me tornar ainda menor. Era Caleb.
Ele não me viu de imediato. Caminhou até a janela que dava para as montanhas, chutando um banco de couro no caminho. Ele parecia... elétrico. A energia que emanava dele era tão forte que eu sentia os pelos do meu braço se arrepiarem. Ele estava usando uma jaqueta de couro e jeans escuros, o uniforme não oficial dos jovens da alcateia naquela década, mas nele, tudo parecia mais imponente.
— Droga de tradição — ele rosnou para o nada. Sua voz era um trovão contido.
Eu prendi a respiração, imóvel atrás da mesa maciça. Eu sabia que deveria me retirar, mas meus pés pareciam colados ao chão. Era o medo, claro, mas também aquela curiosidade doentia de quem observa um desastre prestes a acontecer.
— Caleb? — A voz de Selina veio logo atrás dele. Ela entrou na sala com a elegância de um predador. Ela estava impecável, como sempre, com uma blusa de gola alta que destacava seu porte atlético.
— O que foi, Selina? — ele perguntou, sem se virar.
— Seu pai está perguntando por você. Os anciãos já chegaram. Eles querem revisar o juramento.
Caleb soltou uma risada seca, sem alegria.
— O juramento. "Proteger a alcateia, honrar o sangue e aceitar o destino". É fácil para eles dizerem isso. Eles não são os que têm que carregar um fardo pelo resto da vida.
Selina se aproximou dele, colocando a mão em seu ombro. Eu vi o modo como os dedos dela se cravaram no couro da jaqueta dele. Era uma posse silenciosa.
— Você fala como se o destino fosse uma maldição, Caleb. Ser Alfa é o que você nasceu para ser. E ter uma Luna... bem, a Luna certa só tornaria você mais forte.
Caleb finalmente se virou para ela. Seus olhos azuis estavam escuros, tempestuosos.
— Você sabe do que eu estou falando. A marca não mente, Selina. O vínculo está lá, puxando meu peito toda vez que ela passa por mim no corredor. É como um grilhão.
Meu coração parou. Ele estava falando de mim. Pela primeira vez, ouvi da boca dele a confirmação de que ele sentia o laço. Mas não era o tom de um amante predestinado. Era o tom de um prisioneiro falando de suas correntes.
— O destino pode ser cruel às vezes — Selina disse, sua voz caindo para um sussurro conspiratório. — Mas um Alfa de verdade molda seu próprio futuro. Seu pai sempre disse que a força é a única moeda que importa em Silver Moon. O que uma Luna de vidro pode oferecer a você, Caleb? Além de herdeiros fracos e a vergonha de ter uma companheira que nem sequer consegue rosnar para proteger o próprio ninho?
Eu senti como se Selina tivesse me esfaqueado fisicamente. O ar desapareceu dos meus pulmões.
— Ela é... — Caleb começou, e por um milésimo de segundo, achei que ele fosse me defender. — Ela é um erro. Uma falha no sistema. Eu passei a vida toda sendo o melhor, o mais rápido, o mais forte. Por que a Deusa me daria alguém que é o oposto de tudo o que eu represento?
— Porque a Deusa testa os grandes homens — Selina respondeu, deslizando a mão do ombro para o rosto dele. — Mas você já provou sua coragem. Ninguém esperaria que você se sacrificasse por um erro. A alcateia precisa de uma rainha, não de uma serva que precisa ser carregada no colo. Imagine, Caleb... nós dois. A força de Silver Moon unida. Sem pesos mortos.
Caleb fechou os olhos. Eu podia ver a luta em seu rosto, a batalha entre o que era esperado dele e o que seu ego exigia. Ele foi criado sob a bota de um pai que não aceitava nada menos que a perfeição. Para Caleb, a mediocridade era um pecado capital. E eu, aos olhos dele, era a personificação da mediocridade.
— O ritual de quebra é perigoso — Caleb murmurou, quase para si mesmo.
— Só se você não tiver convicção — Selina retrucou. — Se o seu coração for firme, o laço se parte. Você será livre. Nós seremos livres.
Eu não consegui mais conter. Uma pequena bandeja de prata escorregou da minha mão trêmula e bateu na mesa com um som metálico agudo que ecoou pela biblioteca como um tiro.
Os dois se viraram instantaneamente. O olhar de Caleb me atingiu como um soco. Ele não parecia surpreso por eu estar ali; ele parecia furioso por eu ter testemunhado sua fraqueza. Selina, por outro lado, exibiu um sorriso triunfante, como se a minha dor fosse o tempero que faltava para o seu dia.
— Lyra — Caleb disse meu nome como se fosse uma palavra amarga.
— Eu... eu sinto muito. Eu estava apenas limpando... — gaguejei, tentando recolher as coisas com as mãos desobedientes.
Caleb deu um passo em minha direção, e o cheiro de floresta e poder que emanava dele me envolveu, mas desta vez não trouxe conforto. Trouxe náusea.
— Quanto você ouviu? — ele perguntou, sua voz baixa e perigosa.
Eu olhei para ele, e por um momento, a pequena Lyra de oito anos, que acreditava em promessas no riacho, tentou falar. Tentei encontrar o menino que disse que seria forte por nós dois. Mas ele não estava mais lá. Na minha frente estava um estranho com o rosto do meu primeiro amor.
— O suficiente para saber que a marca no meu pulso é a única coisa que você odeia mais do que a mim — respondi, minha voz saindo mais firme do que eu esperava.
Caleb recuou um centímetro, o choque cruzando seus olhos azuis antes de ser substituído por uma máscara de frieza.
— É melhor você se preparar para a noite, Lyra — ele disse, desviando o olhar. — Vai ser uma cerimônia que ninguém em Silver Moon vai esquecer.
Ele saiu da biblioteca sem olhar para trás. Selina permaneceu por um momento, me medindo de cima a baixo.
— Aproveite seus últimos momentos como "Luna", querida — ela sussurrou, passando por mim. — O vidro é bonito, mas é a primeira coisa que se quebra quando a pressão aumenta.
Fiquei sozinha na biblioteca silenciosa, com o rádio ao longe ainda tocando aquela música suave. Meu pulso ardia. O vínculo latejava, uma dor surda que parecia vir do centro dos meus ossos. Eu sabia o que estava por vir. Eles não estavam apenas planejando uma ascensão; eles estavam planejando um funeral para a minha alma.
Olhei para a marca no meu braço, a lua envolta em espinhos. Pela primeira vez na vida, eu não desejei que ela brilhasse. Eu desejei que ela nunca tivesse existido.
O sol começou a baixar no horizonte, tingindo a neve lá fora de um laranja sangrento. A noite estava chegando. E com ela, a percepção terrível de que o homem que eu esperava que fosse meu salvador estava, na verdade, afiando a lâmina que me destruiria.
Saí da biblioteca e caminhei em direção ao sótão onde eu dormia. Cada degrau parecia um quilômetro. Eu precisava me vestir. Precisava colocar o vestido branco que as Lunas usavam há gerações. Eu precisava caminhar para o meu próprio abate com a cabeça erguida, mesmo que minhas pernas quisessem ceder.
Enquanto subia, passei pelo espelho do corredor e parei. Eu não via mais a garota de fumaça. Eu via alguém que estava prestes a ser incinerada. Mas, no fundo das cinzas, algo que eu nunca tinha sentido antes começou a se agitar. Não era a loba. Era algo mais antigo. Algo que cheirava a terra molhada e pedras preciosas escondidas no escuro.
Se Caleb queria uma cerimônia inesquecível, ele teria uma. Só que ele ainda não sabia que, quando o vidro se quebra, ele se torna milhares de lâminas afiadas.
Entrei no meu quarto e vi o vestido sobre a cama. Ele parecia uma mortalha. O vento lá fora aumentou, soprando através das frestas da janela velha, e por um momento, jurei ouvir um uivo que não vinha de nenhum lobo da alcateia. Era um som solitário, vindo das Terras Esquecidas, chamando por algo que ainda nem sabia que estava desperto.
O estalo do meu amuleto de infância sendo esmagado pela bota de Selina ecoou mais alto do que qualquer trovão. Aquele pequeno pedaço de vidro verde, que eu guardara como uma relíquia de um tempo em que o amor parecia possível, transformou-se em poeira sob o peso do desdém dela. Foi o último fio que me prendia à garota que eu costumava ser. No momento em que ele se partiu, algo dentro de mim também se rompeu, mas não foi um colapso. Foi uma libertação.A barreira do Vale dos Diamantes Esquecidos desapareceu com um gemido metálico, e o frio da praga de Caleb invadiu o santuário. A luz branca e pura que antes emanava das paredes começou a vacilar, sufocada pela névoa negra que saía da Chave das Sombras.— Lyra, afaste-se da bacia! — Malakai gritou.Ele tentou avançar, mas o esforço foi demais. O veneno de Selina ainda agia em seu sangue, e ele caiu de um joelho, usando a espada como apoio. A imagem dele, o Alfa das Sombras, diminuído por minha causa, enviou uma onda de calor pelo
O ar dentro da fenda que levava ao Vale dos Diamantes Esquecidos não era frio, mas vibrava com uma eletricidade estática que fazia cada poro do meu corpo formigar. Olhei para trás uma última vez. No alto do cânion, a silhueta de Caleb parecia uma mancha de tinta preta contra o céu arroxeado. Ele não se moveu, mas eu podia sentir o peso do seu olhar, uma âncora de possessividade e fúria que ainda tentava se prender ao vazio no meu peito.— Não olhe para ele — a voz de Malakai soou baixa, quase um comando, mas carregada de uma preocupação que ele raramente deixava transparecer. — Ele não tem mais poder sobre você, Lyra. A menos que você o deixe entrar.Eu me virei, respirando o ar carregado de ozônio. Malakai estava pálido, a mão pressionando o peito onde a substância negra de Selina havia deixado uma marca, mas seus olhos âmbar permaneciam fixos no caminho à frente.— O que é esse lugar, Malakai? — perguntei, minha voz ecoando nas paredes de rocha translúcida que agora nos cercavam.
O calor da mão de Malakai era a única coisa que me impedia de desmoronar enquanto descíamos pela vertente oposta da montanha. O céu de 1980 estava estranho; as nuvens tinham uma coloração arroxeada, quase doentia, e o vento carregava um cheiro de ozônio e terra revirada. A fuga da gruta tinha sido silenciosa e urgente. Selina voltaria com reforços, e Malakai sabia que nossa vantagem era temporária.Cada músculo do meu corpo protestava. A explosão de energia que usei contra Selina tinha deixado um rastro de letargia nos meus ossos, como se o cristal tivesse drenado a própria medula para brilhar.— Estamos perto? — perguntei, minha voz mal passando de um sussurro.Malakai parou, seus olhos âmbar vasculhando a linha das árvores abaixo de nós. Ele parecia um predador em seu elemento natural, mas havia uma tensão em seu maxilar que me dizia que ele estava preocupado.— Perto do limite — ele respondeu, voltando-se para mim. Ele limpou um rastro de fuligem do meu rosto com o polegar. O toque
A mão de Selina era fria, mas não era o frio da neve que eu vinha enfrentando nas Terras Esquecidas. Era um frio seco, sem vida, como se o sangue dela tivesse parado de circular há muito tempo. O cheiro dela — um perfume caro de jasmim que eu lembrava de sentir nos corredores da Casa Grande, agora misturado com o odor de ferro e podridão — me deu náuseas.— Shh... — ela sussurrou, e eu senti o sorriso dela contra a minha têmpora. — Você sempre foi tão silenciosa, Lyra. Por que mudar isso agora?Eu lutei. Tentei morder a mão dela, tentei me desvencilhar, mas a força de uma loba de linhagem pura, mesmo sob a influência da praga, era infinitamente superior à minha. Meus olhos estavam fixos em Malakai. Ele estava caído perto da entrada, a respiração ruidosa e difícil. Aquela substância negra em seu peito parecia uma teia de aranha viva, pulsando e se expandindo. Ele, que parecia um deus de carvalho e aço, agora parecia tão vulnerável quanto eu.— O que você fez com ele? — consegui m
O frio das Terras Esquecidas não era como o inverno comum que eu conhecia em Silver Moon. Era um gelo que parecia vir de dentro da terra, subindo pelas solas das minhas botas e se alojando diretamente no meu peito, onde o vácuo deixado por Caleb ainda latejava. Cada passo que eu dava atrás de Malakai era uma luta contra a exaustão. Meus músculos gritavam, e a adrenalina que me manteve viva durante o ataque de Caleb na mina estava desaparecendo, deixando para trás um rastro de tremores e náusea.Malakai não parava. Ele se movia pela encosta íngreme como se a escuridão fosse sua aliada natural. Ele não olhava para trás, mas eu sentia sua consciência focada em mim, como se ele estivesse rastreando o ritmo da minha respiração curta e errática.— Só mais um pouco, Lyra — ele disse, a voz rouca cortando o vento uivante. — Se pararmos agora, o suor vai congelar no seu corpo e você não vai conseguir se levantar de novo.— Eu não... eu não sei se consigo — confessei, tropeçando em uma ped
A luz fluorescente do estacionamento subterrâneo oscilou, emitindo um zumbido elétrico que parecia arranhar o fundo dos olhos de Kenya. O frio não era gradual; ele a atingiu como uma parede sólida, uma massa de ar estagnada que cheirava a metal e a lugares onde o sol nunca ousara tocar.Kenya congelou com a mão na maçaneta do carro. O vapor de sua respiração saía em nuvens brancas e densas, e o silêncio que se seguiu foi tão absoluto que ela podia ouvir o estalo do gelo se formando nas tubulações do teto.— Bit... — ela tentou chamar pelo chip neural, mas sua mente encontrou apenas um vácuo estático. O sistema de comunicação havia sido derrubado. Ela estava sozinha.— Não chame por eles. Eles não podem ouvir o que o gelo silencia.A voz veio da penumbra, entre duas colunas de concreto. Era uma voz que parecia vir de uma era distante, carregada de uma cortesia sombria e uma autoridade que fazia o sangue de Kenya gelar por instinto. Eric Von Draken emergiu da escuridão.Ele não cam







