Raphael
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Vadias interesseiras.
Eu não precisava nem olhar para elas para saber que era exatamente o que eram. O cheiro de desespero sempre grudava em mulheres assim, não importava a quantidade de perfume caro que borrifassem nos pulsos para disfarçar.
Hazel Kinsley. Ela era a viúva de algum senador patético que tinha conseguido morrer e deixá-la com uma montanha de dívidas e um sobrenome que não valia o papel em que estava impresso.
Então, naturalmente, ela fez o que pessoas como ela fazem de melhor. Encontrou um tubarão. Agarrou-se ao meu pai como uma sanguessuga, esperando que a sombra dele fosse suficiente para escondê-la do mundo.
Meu pai, Salvatore Capone, era uma piada. Ele não conseguia sequer descobrir como ser pai do próprio sangue, mas ali estava ele, tropeçando nas próprias pernas para bancar o herói para uma mulher que provavelmente nem sabia qual era a comida favorita dele.
Estava ansioso demais para cuidar dela e de sua bagagem. Era constrangedor.
E a pior parte de tudo aquilo... Hazel estava sentada na cadeira da minha mãe.
Aquela cadeira era sagrada. Ver essa estranha — essa parasita — sentada ali parecia o mesmo que ver alguém cuspir em um túmulo.
Logo ao lado dela, sentava-se a mais velha. Genevieve, ou qualquer outro nome esquecível que ela tivesse.
Ela tentava parecer pequena, tentava se misturar aos móveis, mas eu conseguia ver a forma como seus olhos vasculhavam o ambiente, provavelmente contando os talheres de prata e calculando por quanto conseguiria penhorá-los.
E então havia a de dez anos, Juliet. Ela se remexia na cadeira, olhando para o lustre como se fosse feito de diamantes.
Eu não as queria aqui. Não queria o barulho delas, seus problemas baratos ou seus sorrisos falsos.
Esta era a minha casa, e meu pai tinha acabado de abrir os portões para um bando de ninguém.
Toda vez que Hazel ria, eu sentia uma pulsação de puro e digno ódio no meu pescoço. Ela parecia confortável demais.
Suas mãos eram pequenas e macias, as mãos de alguém que nunca tinha trabalhado um único dia na vida, alguém que tinha gasto todo o dinheiro do marido até a fonte secar.
Agora estava aqui para beber do nosso.
Inclinei-me para trás, dando uma tragada lenta no meu cigarro, deixando que a fumaça nublasse o espaço entre nós. Queria que ela se sentisse indesejada. Queria que se sentisse uma intrusa, porque era exatamente isso que ela era.
— Então, Gianna, — disse Claire.
Como Donna e minha cunhada, ela era basicamente a rainha da nossa casa, e seu tom soou amigável demais para uma mesa cheia de pessoas que pareciam querer cometer um crime grave.
— Você está na faculdade, certo? O que você estuda exatamente?
Eu esperava que ela dissesse algo inútil. História da arte. Filosofia. Algo que exigisse zero neurônios.
— Conte para eles, querida. É uma área muito avançada. — a mãe dela acrescentou.
Gianna, o nome dela era Gianna...
— Estou estudando Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina. — respondeu ela. — Principalmente redes neurais profundas.
Não me mexi, mas minha cabeça se inclinou apenas uma fração de milímetro.
Meu cérebro fez uma varredura rápida. IA e Aprendizado de Máquina? Redes neurais profundas?
Essa era a linguagem que eu usava para programar os sistemas de back-end que movimentavam nosso dinheiro pelo mundo.
Finalmente desviei o meu olhar, deixando-o se fixar nela pela primeira vez. Cabelo longo, castanho-claro. Olhos verdes que pareciam lutar para se manter calmos.
Minha memória é um arquivo de rostos, nomes e padrões. Eu não esqueço as coisas.
E ao olhar para ela, um sinal de alerta piscou no fundo da minha mente.
Ela parecia familiar. Era algo vago, mas eu já tinha visto aqueles olhos antes.
Olhos verdes eram uma raridade. Meu cérebro não comete erros, e ele estava me dizendo agora mesmo que aquela não era a primeira vez que nossos caminhos se cruzavam.
Eu não sabia onde a tinha visto, mas quanto mais eu a encarava, mais minha pele formigava. Inclinei-me para trás, estreitando os olhos por trás dos óculos. Eu iria descobrir.
— Isso é incrível! — disse Maddie.
O rosto da minha outra cunhada se iluminou com aquele calor genuíno e irritante que ela sempre tinha.
— Esse assunto é super complexo. Nós temos um gênio na família que trabalha com esse tipo de tecnologia o tempo todo. Raphael, você precisa conversar com a Gianna!
Senti a armadilha se fechar ao meu redor. Que porra você está fazendo, Mads?
Adriano me olhava do outro lado da mesa, com um sorriso sarcástico no rosto. Ele sabia que eu odiava ser forçado a interagir com os empregados, e era apenas isso que aquelas mulheres representavam para mim.
Dei uma última tragada no meu cigarro e o esmaguei no cinzeiro de cristal.
— É um trabalho interessante. — murmurei finalmente, enquanto ajustava os óculos. — Mas você vai precisar de um bom cluster de servidores... — foi tudo o que eu disse.
A maioria dos estudantes só brincava com conjuntos de dados de brinquedo. Eles não tinham poder computacional para nada realmente sério.
Eu esperava que ela desviasse o olhar, intimidada pela frieza do meu tom. A maioria das pessoas ficava.
Em vez disso, ela se inclinou para a frente.
— Ah! Você está... desenvolvendo modelos? — perguntou ela. — Para qual tipo de aplicação?
Senti uma sensação estranha e aguda na base do meu crânio. Não respondi. Não podia.
Porque se eu contasse para o que usava meus modelos, teria que matá-la antes mesmo de a sobremesa ser servida.
— Papai Salvatore, eu vou ter o meu próprio quarto? — a pequena, Juliet, cantarolou.
Claro. Lá estava. A verdadeira razão pela qual essas parasitas tinham rastejado para fora do esgoto direto para a nossa sala de jantar.
Elas não estavam procurando uma família. Estavam procurando imóveis. Já estavam medindo os quartos, escolhendo quais pedaços do nosso legado poderiam reivindicar para si mesmas.
A cara de pau daquilo era nojenta.
Adriano se engasgou com o vinho, e o jantar virou o desastre que eu sabia que seria desde o início.
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Joguei meus óculos em cima da cômoda.
Eu não precisava de lentes corretivas, minha visão era perfeita. Mas quando você passa dezoito horas por dia dissecando códigos e encarando monitores brilhantes, a proteção contra luz azul se torna uma necessidade, não uma escolha.
Eu valorizava minha eficiência demais para deixar meus olhos falharem.
Durante o dia, eu tinha uma empresa de tecnologia legítima para comandar, mas à noite? À noite, eu geria a Máfia de Chicago. Fazia tudo por trás de uma tela, controlando cada detalhe digitalmente.
Eram horas encarando o vidro, movimentando números e monitorando fluxos de dados.
Meu trabalho era simples: nos manter cada vez mais ricos e destruir a vida de qualquer um que entrasse no nosso caminho.
Eu conseguia limpar uma conta bancária antes mesmo de o dono terminar de digitar a senha. Se eu quisesse, poderia apagar a existência inteira de uma pessoa — número do Seguro Social, histórico de crédito, certidão de nascimento — com poucos cliques.
E, neste momento, minha única tarefa era descobrir qual daquelas mulheres parasitas estava tentando sugar a minha família.
Nós não trabalhamos com "recomeços" nesta casa, e definitivamente não fazemos o tipo "família feliz". Nós lidamos com ativos e passivos.
E aquelas mulheres pareciam o tipo de passivo que precisava ser liquidado.
Comecei pelo alvo mais óbvio. Aquela que liderava essa pequena expedição de interesseiras.
A mãe.
Hazel Kinsley.
Eu queria ver o momento exato em que ela decidiu que meu pai era o seu bilhete premiado da loteria.
Quando eu terminasse com ela, ela não estaria apenas fora da nossa casa. Estaria desejando nunca ter ouvido o sobrenome Capone na vida.
O clique da fechadura foi o meu único aviso.
— Raphael.
A voz do meu pai cortou o silêncio do meu quarto.
Eu não precisava nem olhar para saber que ele tinha estacado no lugar no segundo em que seus olhos bateram nas fotos de vigilância da namorada dele na tela do meu laptop.
Fechei os olhos por um breve instante, soltando um suspiro frio e afiado enquanto sentia minha paciência se esgotar.
Virei a cabeça devagar, esperando vê-lo de pé ali sozinho, provavelmente pronto para dar mais uma desculpa para as escolhas patéticas daquele jantar ou para sua súbita necessidade de uma alma gêmea.
Em vez disso, encontrei-o ladeado por Vincenzo.
Meu irmão mais velho. O Don.
Vincenzo estava ali parado, com os braços cruzados. Ele era o único homem neste mundo cujas ordens eram absolutas. A autoridade máxima que eu não podia ignorar, por mais que quisesse.
Ver os dois juntos deixou a situação clara, não importava o que meu pai estivesse prestes a pedir. Ele tinha trazido o Don para garantir que eu entendesse que aquilo não era um favor ou um conselho.
Era um mandato. Uma ordem.
— Sim? — perguntei, com a voz plana e monótona, combinando com o brilho frio da tela. Não me dei ao trabalho de minimizar as janelas.
Meu pai deu um passo para dentro do quarto, com os olhos pousando nas telas cheias de dados e nas fotos de alta resolução de Hazel Kinsley que eu tinha fixado na área de trabalho.
Ele não parecia zangado. Parecia que já esperava exatamente por aquilo.
Ele apontou para a tela com um aceno rápido de mão.
— Isso — disse ele, com o tom de voz caindo para aquela frequência baixa e séria que usava quando os negócios estavam em jogo. — Isso é exatamente o motivo de eu estar aqui, Raphael. Eu sabia que você já estaria investigando. Sabia que estaria tentando encontrar um motivo para destruir isso antes de começar.
Mantive meu olhar travado em Vincenzo.
— O quê? Não tenho mais permissão nem para fazer uma busca de rotina?
— Eu já aguentei aquele jantar. Suportei o desrespeito à mesa da minha mãe e ouvi a sua historinha triste. Tem mais alguma coisa que precise tirar da minha agenda ou posso voltar ao trabalho de verdade? — continuei.
— Raphael, — meu pai repetiu. — Eu vi o olhar nos seus olhos durante o jantar. Sei como sua mente funciona. Você vê uma variável nova e quer resolvê-la. Quer cavar.
Minha cabeça girou na direção dele, com um músculo do meu maxilar contraindo.
Ele se aproximou.
— Estou te dizendo agora mesmo, esqueça isso. Hazel e as filhas não são um projeto. Não são uma ameaça para ser analisada.
— Quero que você respeite a privacidade delas. Isso significa nada de investigações profundas, nada de hackear os extratos bancários delas e absolutamente nada de verificar os antecedentes delas. Fique longe da vida digital delas.
Arqueei uma sobrancelha.
— Você está me pedindo para ficar cego, pai? Logo nesta casa?
— Não é um pedido. — meu pai disparou, com o maxilar travado.
Vincenzo finalmente se moveu. Deu um único passo à frente, e a temperatura do quarto pareceu despencar.
Ele não precisava elevar o tom de voz. A autoridade que carregava era suficiente para esmagar os pulmões de qualquer homem comum.
— É uma ordem minha também, Raphael. — disse Vincenzo. — Você vai recuar.
— Se eu descobrir que você andou farejando o passado delas ou pesquisando os nomes delas nos seus servidores, vou considerar isso como um dedo do meio apontado diretamente para mim.
— Elas estão sob a minha proteção agora. Fui claro?
Senti a queimação da frustração no meu peito.
Meus instintos gritavam que havia algo errado, que aqueles olhos verdes tão raros eram um enigma que eu precisava decifrar. Mas eu era um Capone. Entendia a cadeia de comando.
— Cristalino. — cuspi as palavras.
— Ótimo. — disse Vincenzo, dando um aceno rígido de cabeça. — Vá caçar. Faça o que você faz de melhor. Vá gastar essa energia com inimigos de verdade. Só deixe essas mulheres fora disso.
No segundo em que as palavras saíram da boca dele, a raiva transbordou.
Sem pensar, agarrei meu laptop e o arremessei do outro lado do quarto com toda a força que tinha.
O aparelho colidiu contra o piso de madeira, partindo-se em dois pedaços, com a tela piscando uma última vez antes de apagar por completo.
Vincenzo balançou a cabeça antes de sair do quarto. Mas meu pai parou.
Caminhou até mim e colocou a mão no meu ombro. Deu um único aperto firme antes de dar meia-volta e me deixar sozinho.
Levantei-me e empurrei a cadeira para trás. O rangido áspero do metal contra o chão ecoou o meu humor.
Fui até o closet e arranquei o terno grafite, jogando o tecido caro no chão como se fosse lixo.
Vesti uma camiseta preta bem justa que marcava meu peito e meus ombros. Em seguida, coloquei uma calça tática pesada e preta, de padrão militar, feita para agilidade e utilidade.
Deslizei minhas pistolas customizadas nos coldres e guardei minhas facas nas bainhas ocultas. Cada lâmina era afiada o suficiente para cortar um fio de cabelo no ar, cada arma era uma extensão de mim.
Girei os ombros e estalei o pescoço.
Meu celular vibrou. Uma única mensagem brilhava na tela:
"A caçada está de pé para hoje à noite?"
"Sim", respondi.
Deslizei o aparelho para o bolso. Eu precisava da caçada. Precisava da clareza da perseguição para limpar a irritação daquele jantar.
O peso da ordem de Vincenzo parecia uma coleira em meu pescoço, e eu odiava a forma como ela me puxava.
Desci até a garagem. As portas pesadas de aço se abriram, revelando fileiras de superesportivos sob a iluminação de fitas de LED. Ferraris, Lamborghinis, monstros customizados capazes de despistar um helicóptero.
Meus olhos pousaram na minha favorita: a Ducati Panigale V4. Uma fera completamente preta.
Peguei meu capacete, enfiei na cabeça e o mundo silenciou, reduzido apenas ao som da minha própria respiração.
Dei partida e o motor rugiu, um ronco profundo e agressivo que vibrou pelo chão e subiu pela minha espinha.
Girei o acelerador. A porta da garagem não conseguia abrir rápido o suficiente para a velocidade com que disparei na noite.
A festa era na mansão O Vazio. Esse era o nome da nossa mansão colossal de pedra negra, escondida tão profundamente na floresta que a polícia não conseguiria encontrar nem se tivesse um mapa.
Era o tipo de lugar onde as coisas simplesmente desapareciam.
Estacionei na entrada. A batida da música era tão alta que eu conseguia senti-la nos meus dentes.
A casa brilhava, com luzes vazando para o gramado onde centenas de pessoas já perdiam o controle.
Era uma típica festa da máfia: bebida cara, homens perigosos e mulheres procurando uma oportunidade para subir na vida.
No segundo em que desliguei o motor e tirei o capacete, o clima mudou.
— Ei, RC! — alguém gritou por cima do som alto.
— Puta merda, o Raphael está aqui!
Senti os olhares se fixando em mim imediatamente.
As pessoas abriam caminho enquanto eu caminhava em direção à entrada. Eu estava irritado. Estava furioso.
Queria ser invisível, mas quando seu sobrenome é Capone, você é o sol no qual todo mundo quer se queimar.
— Raphael!
Um grupo de garotas se aproximou de mim.
Uma delas, uma loira com os lábios cheios de preenchimento, invadiu o meu espaço, roçando a mão no meu bíceps.
— Raphael, querido, você parece que está com vontade de matar alguém. — ela ronronou, os olhos descendo pelas minhas roupas táticas.
Não a empurrei. Nem sequer olhei para ela.
Eu não estava bravo com elas, estavam apenas jogando o jogo para o qual nasceram. Eu estava bravo com a falha no meu próprio sistema. Bravo por ser obrigado a aceitar parasitas na minha vida.
— Sai da frente. — ordenei.
Ela não pareceu ofendida. Pareceu encantada. Esse era o problema com pessoas assim. Elas adoravam o fio da navalha, até que ele começasse a cortar de verdade.
Eu precisava abafar o som da voz do meu pai. Precisava esquecer as ordens do Don.
Mas, acima de tudo, precisava entender por que sentia que a caçada de hoje não seria suficiente para organizar a minha mente.
Puxei o celular do bolso. Meu polegar hesitou sobre a tela por um segundo antes de eu discar.
— Enzo. — falei, com a voz cortando a batida grave da festa.
— Sim, chefe? — Enzo atendeu imediatamente.
— Você se lembra da garota da Gold Room de duas noites atrás? — perguntei.
Não precisei dar detalhes. Ele sabia exatamente qual delas tinha capturado a minha atenção.
— A dançarina? Sim, eu me lembro.
Não me importava o preço. Não me importava quem ela era.
Eu só precisava clarear a minha mente, e ela tinha sido a única coisa em dias que fez meu sangue ferver pelos motivos certos.
— Encontre-a. — ordenei. — Leve-a para O Vazio. Agora.