Gianna
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Eu estava de volta ao Rose Garden.
O nome era basicamente uma forma chique de chamar o lugar onde garotas se vestiam bem para servir de enfeite para caras com dinheiro demais.
— Estou te falando, Mama D, eles não são humanos. — reclamei.
Joguei a cabeça para trás com tanta força que meu rabo de cavalo quase bateu no chão.
— Eles são tipo... seis tipos diferentes de ruína. É um bufê completo do apocalipse. — continuei.
Mama D era a única mulher que eu conhecia capaz de parecer assustadora vestindo um roupão floral e segurando um cigarro.
Ela soltou uma nuvem de fumaça em direção ao teto.
Avaliou todas nós como uma galinha que protege seus pintinhos brilhantes.
— Eles são os Capones, G. — respondeu ela.
— Eu vi mais armas hoje do que vi na minha vida inteira! — falei, gesticulando com as mãos.
— E eles nem tentam esconder. É tipo: "Ah, me passa o sal e, a propósito, aqui está a minha Glock".
— E os olhares! Meu Deus, aqueles olhares. Eles não estavam apenas olhando para mim.
— Eles me encaravam como se eu tivesse invadido a casa deles e sequestrado os filhos favoritos de cada um.
Tasha riu.
Sua pele escura brilhava sob as luzes da penteadeira enquanto ela espalhava glitter dourado pelas clavículas.
— Amiga, pelo menos eles são ricos.
— Se eu tiver que ser encarada por um homem armado, é bom que ele tenha um jatinho particular e um terno de grife. — completou ela.
— Não tem graça, Tash! Um deles, o Adriano, parecia que queria quebrar o garfo ao meio só porque a minha mãe respirou perto dele. — comentei.
Inclinei-me para a frente para pegar um elástico de cabelo.
Jasmine estava sentada bem ao meu lado.
Ela prendeu o cabelo escuro para trás e começou a ajustar com cuidado um pequeno brilhante no nariz.
Não parecia nem um pouco preocupada.
Apenas me olhou pelo espelho com um sorriso cúmplice e travesso.
— Não sei não, G. — provocou ela. — Talvez eles não estivessem tentando te assustar. Talvez estivessem só apreciando a vista.
— Você estava usando aquele vestido que faz a sua cintura parecer que nem existe. — completou.
— Os olhares eram hostis, Jas. Extremamente hostis. — resmunguei.
Mas minha mente imediatamente voou para o único irmão que tinha me encarado com mais intensidade do que todos os outros juntos.
Raphael.
Senti um arrepio frio subir pela minha espinha só de pensar nele.
Ele era o que mais me causava medo.
Ficou sentado ali, com aqueles óculos de armação fina. E um olhar que parecia estar escaneando o meu disco rígido.
Toda vez que ele me olhava, meu coração simplesmente parava.
Eu estava certa, absolutamente convicta, de que ele se levantaria a qualquer momento, apontaria o dedo para mim e diria para todo mundo que tinha me visto no Gold Room.
Mas eu tinha sido muito cuidadosa.
O clube estava na penumbra. Eu usava aquela máscara pesada e a peruca.
Ele provavelmente não me reconheceu.
Respirei fundo, sentindo uma onda de alívio me inundar mais uma vez.
Ele não tinha dito uma única palavra.
Apenas me olhou como se eu fosse um inseto que ele ainda não tinha decidido se valia a pena esmagar.
Ele definitivamente não me reconheceu. Não tinha como.
Se ele soubesse que a futura irmã postiça dele era a mesma garota que ele viu em um palco, eu já estaria no fundo de um lago a esta hora.
— Eu só preciso ficar longe do caminho dele. — sussurrei para mim mesma, pegando a escova de cabelo. — Vai dar tudo certo. Ele nunca vai descobrir. É impossível.
— O que você está resmungando aí? — Tasha perguntou, me cutucando.
— Nada. — menti rápido, forçando um sorriso alegre e falso. — Só esperando que a minha sorte continue. Vou lá atrás ajudar a Mama D com o inventário.
No canto da sala, Morgan estava tremendo.
Ela era a caçula do nosso grupo, mal tinha dezoito anos.
Seu cabelo preto e liso estava preso em um rabo de cavalo alto e impecável.
Ela não parava de puxar a barra do vestido justo para baixo.
Parecia uma garota prestes a ir ao seu primeiro baile de formatura, exceto pelo fato de que o baile era um evento de gala da alta sociedade com homens que tinham o dobro da idade dela.
— Eles... eles vão vir aqui? — Morgan perguntou. — Os Capones?
Meu tom de voz suavizou. Aproximei-me e dei um tapinha carinhoso na mão dela.
— Não. Eles ficam nos castelos deles. Este lugar aqui é humilde demais para eles.
Ela estava há três horas praticando seu andar sedutor no corredor.
— Você vai se sair bem. — disse Bri.
Ela se aproximou e colocou um braço protetor ao redor dos ombros de Morgan.
— Lembre-se: nós olhamos para eles, mas não os enxergamos. Nós só estamos aqui pelo dinheiro.
Emma se aproximou, com o olhar terno enquanto apertava a minha mão.
— G, você não precisa voltar para aquela casa. Pode ficar aqui.
— A sua mãe... ela pode viver a vida nova dela com eles, mas você não precisa fazer parte disso. — continuou ela.
Dei a ela um sorriso curto e agradecido.
Aquelas garotas eram a minha verdadeira família.
Eu as conheci quando tinha dezesseis anos, logo depois de fugir de uma vida que parecia estar me esmagando.
Elas não me fizeram perguntas. Apenas abriram a porta e me acolheram.
Minha mãe levou quatro meses para me rastrear. E quando finalmente conseguiu, tentou cortá-las da minha vida como se fossem uma doença.
Ela achou que tinha conseguido.
Não fazia ideia de que, durante aqueles cinco anos, não houve um único dia em que eu não falasse com elas.
Mama Denise comandava o Rose Garden, mas as coisas não eram como as pessoas de fora imaginavam.
Aquelas garotas eram acompanhantes. Eram as companhias de luxo da elite da cidade.
Elas iam a jantares de gala, dançavam em eventos sofisticados, mas eram estritamente intocáveis.
Mama D era como uma leoa. Ninguém tinha permissão para encostar um dedo nas suas meninas. Nunca.
Eu não estava oficialmente na lista de funcionárias, mas estava sempre por ali.
Como eu não tinha um emprego de verdade, tentava ser útil.
Aquelas mulheres foram as únicas que me estenderam a mão quando meu mundo desmoronou.
Elas me ajudaram a pagar a cirurgia de coluna da minha mãe.
Mantiveram nossas cabeças acima d'água quando o senador Kinsley — o pai de Jules — morreu e nos deixou afogadas em uma montanha de dívidas.
Toda vez que eu precisava de um milagre, Mama D usava seus contatos para fazer acontecer.
Então, sim. Eu devia a vida a elas.
Ajudar no que fosse preciso era o mínimo que eu poderia fazer.
Fosse organizando o estoque ou cobrindo algum evento quando precisavam de alguém para marcar presença, eu estava lá. Elas eram a minha rede de segurança.
— E deixar a minha mãe sozinha com aqueles seis monstros do inferno? Sem chance. — comentei, torcendo o nariz.
— Eu preciso estar lá pela Jules. Alguém tem que garantir que ela não vire uma mafiosa por acidente. — completei.
— Quem de vocês estava no Gold Room duas noites atrás? — Mama D perguntou, batendo palmas para chamar nossa atenção.
— Tem um carro preto esperando na calçada. É um pedido privado.
Meu coração deu um salto estranho. Um suor frio escorreu pela minha nuca.
— Um pedido? De quem? — perguntei.
— Cliente de alto padrão. — respondeu Mama D.
— Ele enviou dinheiro vivo adiantado só para fazer o carro se mover. Está em uma propriedade no meio da floresta chamada O Vazio.
Tasha e Brianna trocaram um olhar rápido. Depois se voltaram para a Mama D.
— Nós três estávamos lá, Mama. — disse Tasha, dando um passo à frente enquanto arrumava o brinco.
— Eu, a Bri e a G. Mas a Gianna está de folga hoje. Ela não faz visitas externas. — completou ela.
— É verdade. — Bri concordou, apontando para mim com a cabeça.
— O cara provavelmente viu uma de nós duas. Envie a Tasha ou a mim. Já estamos arrumadas e prontas para ir.
Mama D olhou para o envelope grosso de dinheiro em sua mão. Depois olhou de volta para as garotas.
— Tudo bem. Vão vocês duas então.
— Eu já verifiquei o histórico do cara. Bem, dos homens dele. Eles deram a palavra de que vocês voltarão sem que ninguém encoste um dedo em vocês.
— Se ele quer apenas uma garota do Gold Room, qualquer uma de vocês serve. — concluiu Mama D.
Assisti às duas caminhando em direção à saída.
De repente, minha respiração ficou ofegante. Meu coração martelava contra as minhas costelas.
Ele estava lá. Meu futuro irmão postiço.
E se... e se ele tivesse me reconhecido? E se tivesse sido ele quem enviou aquele carro?
Não. Era impossível.
Eu estava de máscara, peruca e a iluminação daquele lugar era péssima.
— Você está bem, G? — Mama D perguntou, notando a minha palidez.
— Estou ótima. — menti. — Só... cansada. Preciso ir. Quero chegar em casa antes que a minha mãe perceba que eu saí.
Apertei meu casaco com força, com os nós dos dedos brancos de tanta tensão.
Fiquei escondida nas sombras até ouvir o som baixo do motor do carro se afastar na rua.
Tasha e Brianna tinham ido.
Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Encostei a testa contra o metal frio dos armários.
Eu estava segura.
E então, o mundo desabou.
As portas pesadas da entrada do clube não foram apenas abertas.
Elas bateram contra a parede com tanta força que eu dei um pulo, sentindo o coração parar na garganta.
— Onde está o meu dinheiro, Denise? — uma voz estrondosa ecoou pelo salão.
Olhei de soslaio pela curva do corredor.
Era Cole Mercer. O líder dos Lake Street Reapers.
Ele entrou no clube balançando um taco de beisebol de alumínio maciço. Atrás dele, quatro de seus capangas o seguiam de perto.
Crash.
Cole desferiu um golpe com o taco, estilhaçando uma prateleira inteira de garrafas de vidro atrás do bar.
Pedaços de cristal voaram para todos os lados, caindo como chuva.
— O prazo acabou! — Cole gritou, com os olhos arregalados e insanos.
Ele se aproximou de uma mesa e a virou com uma única mão, fazendo a madeira se despedaçar no chão.
— Cansei de esperar. Este lugar parece bem movimentado.
— Ou você me entrega a minha parte agora, ou eu começo a quebrar pernas. — ameaçou ele.
Mama D deu um passo à frente.
Sua expressão era fria, embora eu conseguisse ver seus dedos tremendo de pavor.
— Cole, pare. Você está assustando as minhas garotas. — disse ela.
— Eu não dou a mínima para os sentimentos delas! — disparou ele, descendo o taco contra uma cadeira, partindo as pernas de madeira como se fossem palitos de dente.
Ele caminhou até o canto onde as garotas estavam encolhidas. Parou bem na frente de Morgan.
Ela tremia tanto que mal conseguia parar em pé. Seus olhos estavam enormes, cheios de lágrimas.
Cole se inclinou na direção dela.
Estendeu a mão e enterrou os dedos sujos no cabelo preto e liso dela, puxando sua cabeça para trás com força.
— Você é a novata, não é? — desdenhou ele.
— Se a Denise não tem o dinheiro, talvez eu simplesmente leve você no lugar. Nós podemos dar um jeito de você pagar essa dívida na cama.
— Tira as mãos dela! — gritei.
Dei um passo à frente antes mesmo que pudesse me impedir.
Cole virou a cabeça devagar, com um sorriso lento e repugnante se espalhando pelos lábios.
— Ah... a pequena cientista. Você tem alguma coisa para mim, G?
Mama D correu até a sua mesa e puxou um envelope pardo e grosso.
— Aqui! É tudo o que eu tenho agora, Cole. Pegue e vá embora.
Cole arrancou o envelope da mão dela.
Contou o dinheiro rápido e cuspiu no chão.
— Sete? Você me deve dez, Denise. Está faltando.
Ele ergueu o taco novamente, encarando um espelho gigante que ia do chão ao teto.
— Espere! — gritei.
Enfiei a mão na minha bolsa, puxando os três mil dólares que tinha recebido de gorjeta duas noites atrás.
Caminhei até ele e bati o bolo de notas contra o balcão do bar.
— Aqui. Três mil dólares. Isso completa os dez. Agora nos deixe em paz.
Cole pegou o dinheiro, folheando as notas com um sorriso debochado e ganancioso no rosto.
Olhou para mim, depois para as garotas aterrorizadas.
Deu um passo para trás, finalmente soltando o cabelo de Morgan.
— Na próxima vez, não me façam ter que vir até aqui para quebrar os brinquedos de vocês. — disse Cole, apontando o taco para o peito da Mama D.
— Na semana que vem, eu quero doze. Juros por terem me feito esperar.
— Não se atrasem, ou eu vou reduzir este Rose Garden a cinzas com todas vocês aqui dentro. — completou ele.
Ele soltou uma gargalhada seca e rouca, fazendo um sinal para os seus homens.
Eles chutaram uma última luminária no caminho de saída, nos deixando na penumbra de luzes piscantes.
Morgan desabou em uma cadeira, escondendo o rosto nas mãos e soluçando alto.
Fiquei parada ali, encarando a minha bolsa vazia.
Minhas mãos finalmente pararam de tremer, apenas para ficarem frias como gelo.
— Você não precisava ter feito isso, G. — Mama D sussurrou. — Aquele dinheiro era seu. Você precisava dele para a sua faculdade. Para o seu futuro.
Engoli em seco o nó na minha garganta e balancei a cabeça.
Eu não me permitiria arrepender daquilo nem por um segundo.
Caminhei direto até Morgan, que ainda tremia como uma folha ao vento, e puxei seu corpo pequeno contra o meu peito.
Segurei-a com força, deixando que ela escondesse o rosto no meu ombro.
— Eu vou dar um jeito, Mama. — falei.
Acariciei o cabelo de Morgan, sentindo suas lágrimas molharem o tecido da minha blusa.
— Não se preocupe com a faculdade, está bem? Nós protegemos umas às outras. Sempre.
— O dinheiro vem e vai, mas nós somos uma família. Vamos encontrar um jeito de resolver isso. Eu prometo.
Eu realmente quis dizer aquilo.
Mas enquanto olhava para a destruição daquela sala, percebi que estava em um beco sem saída.
Minha conta bancária estava oficialmente zerada.
E o meu estômago parecia estar dando nós.
Eu não tinha mais nada. Nenhuma rede de segurança, nenhum plano B.
Apenas o peso esmagador de ver tudo desmoronar ao mesmo tempo.