FAZER LOGINO vestido pesava sobre a cama como uma sentença de morte. Era seda azul-meia-noite, com uma fenda que gritava perigo e um decote que desafiava a gravidade. Não era roupa de babá. Era roupa de esposa troféu. Ou de isca.
Jinx encarou o tecido, o coração batendo um ritmo irregular contra as costelas ainda doloridas da sua hiperpirexia da noite anterior.
— O Sr. Vale insistiu — a voz anasalada da Sra. Potts veio da porta. A governanta segurava uma caixa de joias com o desdém de quem segura lixo radioativo. — Ele disse que a "Sarah" precisa estar apresentável para acompanhar a Srta. Luna. A imprensa estará lá embaixo. Sem roupas de mendiga hoje.
Jinx engoliu em seco. Maldito Aeron. Ele a estava cercando.
— Claro — Jinx forçou a voz doce de Sarah, embora seus punhos estivessem cerrados. — Não quero envergonhar o Sr. Vale.
Assim que a porta bateu, a doçura sumiu. Jinx correu para o espelho. O plano era simples: descer, misturar-se à multidão de tubarões corporativos, localizar o chip — que Aeron, em sua arrogância suprema, exibiria no centro do salão como um troféu — e sumir antes da sobremesa.
Luna estava segura com a Sra. Potts na área infantil VIP. Era a brecha perfeita.
Jinx despiu o jeans surrado que estava usando. O corpo pálido ainda tinha marcas fracas da febre, mas os músculos reagiram instintivamente quando ela vestiu a seda. O tecido deslizou como uma segunda pele em seu corpo. Feito sob medida. Como ele sabia minhas medidas exatas? O pensamento enviou um calafrio espinhal.
Ela olhou para os óculos de grau falsos na penteadeira. Se ela os colocasse, estragaria o disfarce de "acompanhante de gala". Se não colocasse, ficaria exposta.
— Dane-se — sussurrou.
Ela prendeu o cabelo num coque frouxo, deixando fios soltos desenharem seu pescoço, e aplicou um batom vermelho sangue que encontrou no fundo da sua bolsa de emergência (a única coisa que Aeron não tinha confiscado totalmente).
Quando Jinx se olhou no espelho, Sarah não estava lá. A mulher que a encarava de volta era uma ladra internacional prestes a realizar o maior roubo de Nova York.
Ela desceu as escadas.
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O salão principal da cobertura estava irreconhecível. Lustres de cristal gigantes, garçons com bandejas de prata e a elite financeira fingindo fazer caridade. Os olhos de Jinx mapearam o ambiente: Segurança na saída norte, dois armados perto da cozinha, câmeras rotativas a cada trinta segundos.
E então, no centro, dentro de uma redoma de vidro blindado cercada por laser invisível: o Chip. Pequeno, prateado, pulsando com dados que valiam bilhões.
— Senhorita Jenkins?
A voz grave vibrou diretamente na base da coluna de Jinx.
Ela travou. Girou nos calcanhares, devagar.
Aeron Vale estava a um metro de distância. E ele estava devastador. O smoking preto de corte italiano parecia incapaz de conter a largura dos ombros dele. A barba por fazer tinha sumido, revelando a linha brutal do maxilar. Mas eram os olhos que a prenderam.
Eles não estavam frios dessa vez. Eles estavam em chamas.
Aeron parou de respirar por um segundo. A taça de champanhe em sua mão inclinou perigosamente. Ele varreu o corpo dela, dos saltos agulha até a curva exposta do pescoço, parando nos lábios vermelhos. A "babá desastrada" tinha evaporado.
— Sr. Vale — Jinx baixou os cílios, tentando recuperar a personagem. — Espero não estar... exagerada. A Sra. Potts disse...
Aeron deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela com uma autoridade que a deixou sem ar. Aquele cheiro dele — que começou a ser familiar — invadiu os sentidos dela, anulando seu raciocínio lógico.
— Exagerada? — A voz dele era rouca, baixa. — Você está um perigo, Sarah.
O uso do nome falso soou como uma acusação.
Uma valsa começou a tocar. A orquestra preenchia o ambiente, abafando as conversas alheias.
— Onde está Luna? — Jinx perguntou, recuando um passo. Ela precisava sair de perto dele. A atração era uma falha de segurança. Ela precisava focar no chip.
— Segura. Dormindo no quarto anexo — Aeron não desviou o olhar. Ele estendeu a mão. A palma era larga, calejada, cheia de cicatrizes de quem lutou guerras que ninguém viu. — Dance comigo.
Não foi um pedido.
— Eu não acho apropriado, senhor. Sou sua funcionária.
— Hoje à noite, você é minha convidada. E eu não aceito não como resposta. Você sabe disso.
Antes que ela pudesse protestar, Aeron capturou a mão dela. Seu toque foi elétrico. Jinx sentiu a corrente subir pelo braço e explodir no peito. Merda.
Ela era treinada para resistir a tortura, mas o toque daquele homem desarmava suas defesas como se fossem feitas de papel.
Ele a puxou para o centro do salão. A outra mão dele pousou possessivamente na base das costas dela, queimando através da seda fina do vestido. Ele a puxou para perto. Perto demais. O corpo duro dele colidiu com o dela, e Jinx teve que reprimir um suspiro trêmulo.
Eles começaram a se mover. Aeron conduzia com uma precisão militar, mas com uma fluidez predatória.
— Você se move bem para quem vive tropeçando nos próprios pés — murmurou ele, o rosto próximo ao ouvido dela.
Jinx endureceu. Erro tático. Sarah deveria ter pisado no pé dele.
— Tive boas aulas na escola pública — ela mentiu rápido, o coração batendo na garganta. — Valsa era obrigatório.
— Mentira — Aeron sussurrou. A palavra pairou entre eles. Ele a girou, o movimento fazendo o vestido de seda rodopiar e roçar nas pernas dele. — Eu investiguei sua escola, Sarah. Eles não tinham programa de dança.
O sangue de Jinx gelou. O chip estava a dez metros, brilhando, como se estivesse zombando dela. Mas a verdadeira armadilha estava nos braços do homem que a segurava.
— Talvez eu tenha aprendido assistindo filmes — ela tentou, desviando o olhar para a lapela do smoking dele. — Por que tantas perguntas, Sr. Vale?
Aeron parou o movimento abruptamente no meio do salão. As outras pessoas continuaram dançando ao redor deles como borrões de cores, mas ali, naquele metro quadrado, o tempo parou.
Ele soltou a mão dela e segurou seu queixo, forçando-a a encará-lo. Os dedos dele eram firmes, mas o toque no rosto dela foi quase... reverente. Seus olhos vasculhavam os dela, procurando a verdade por trás das íris claras.
Ele aproximou o rosto. Jinx sentiu a respiração quente dele contra seus lábios. A tensão sexual era tão densa que poderia ser cortada com uma faca. Ela deveria empurrá-lo. Ela deveria correr para roubar o chip.
Mas ela não se moveu. O desejo dela traiu sua missão. Ela queria que ele a beijasse. Deus, como ela queria.
Aeron roçou o nariz no dela, uma carícia íntima que fez os joelhos de Jinx tremerem.
— Porque nada em você faz sentido — ele sussurrou, a voz carregada de uma suspeita sombria e um desejo incontrolável. — Seus calos, seus reflexos, o jeito como minha filha confia em você... e o jeito como você me olha agora.
Ele deslizou a mão das costas dela para a nuca, prendendo-a ali.
— Quem é você, Sarah? — os olhos dele perfuraram a alma dela. — Sinto que estou dançando com uma estranha que pode me destruir.
[FIM DO CAPÍTULO]
O sol estava se pondo sobre o vale do rio Hudson, pintando o céu de tons violentos de roxo e laranja, como um hematoma cicatrizando.Aeron estava na varanda de pedra da casa principal, apoiado no parapeito largo, segurando uma copo de uísque envelhecido. O líquido âmbar capturava a luz do crepúsculo.Lá embaixo, no gramado que se estendia até a orla da floresta, a vida acontecia.Luna estava correndo atrás de vaga-lumes, com um pote de vidro na mão, rindo enquanto as luzes piscavam ao redor dela. Liam, agora com passos firmes e desajeitados de um ano e meio, tentavam seguindo a irmã, caindo na grama macia e levantando-se com a determinação teimosa de um Vale. O cachorro da família — um pastor alemão aposentado da unidade K-9 que Jinx adotou de um canil da polícia — vigiava as crianças com uma paciência estoica.Era uma cena perfeita. Era tudo o que Aeron pensou que nunca teria, porque homens como ele não tinham finais felizes; eles tinham danos colaterais.— Você está pensando demais,
A festa tinha acabado.O silêncio desceu sobre a casa de campo como um cobertor pesado e confortável. Os convidados tinham ido embora, Bit tinha se retirado para sua "caverna" na casa de hóspedes (provavelmente para limpar o glacê do teclado), e as crianças... bem, as crianças tinham desmaiado.Liam dormia em seu berço, exausto pela overdose de açúcar e atenção. Luna tinha adormecido no sofá da sala e Aeron a carregou para o quarto dela minutos atrás.Jinx estava sozinha no quarto principal.Ela caminhou até o closet.Haviam vestidos de seda, casacos de caxemira e sapatos de grife. Roupas de uma mulher que frequenta leilões beneficentes e jantares de gala.Jinx passou a mão pelos tecidos caros, sentindo a maciez. Eram bonitos. Eram confortáveis. Mas não tinham história.Ela caminhou até o fundo do closet, onde uma prateleira alta, quase fora de alcance, guardava caixas de armazenamento. Ela pegou uma escada de mogno e subiu.Lá, escondida atrás de uma caixa de chapéus de inverno que n
Jinx segurava a faca como se fosse matar alguém.Seus dedos se fecharam no cabo, calculando o ângulo de ataque. A lâmina era longa, serrilhada e brilhava sob a luz do sol que inundava o jardim. Ela respirou fundo, focou no alvo e desceu o braço.— Sarah, querida, você está tentando assassinar o bolo ou quer cortar uma fatia?A voz da Sra. Potts quebrou o transe.Jinx piscou, olhando para o bolo de três andares coberto de glacê azul-bebê à sua frente. Ela tinha acabado de decapitar um urso de açúcar com uma violência desnecessária.— Desculpa, Sra. Potts — Jinx murmurou, soltando a faca de corte e pegando a espátula. — São velhos hábitos.O jardim da Fortaleza estava irreconhecível. Onde antes havia perímetros de segurança e sensores de movimento, agora havia balões prateados e azuis amarrados às árvores. Onde antes tinham atiradores de elite, agora havia uma mesa de buffet carregada de doces que poderiam induzir um coma diabético em um exército.Era a festa de um ano de Liam Vale.E e
POV AeronAeron já tinha ouvido muitos tipos de gritos. Gritos de dor em campos de batalha, gritos de raiva em salas de interrogatório, gritos de terror durante sequestros. Ele conhecia a frequência exata do desespero humano.Mas nada, absolutamente nada, o preparou para o som que Jinx fez naquela sala de parto.Não era um grito de vítima. Era um rugido. Primitivo, gutural, rasgando o ar estéril da sala de parto do hospital como se ela estivesse declarando guerra contra a própria biologia.— Aeron! — Ela esmagou a mão dele. Ele sentiu os ossos de seus dedos estalarem sob a pressão. Se ela não estivesse conectada a monitores, ele juraria que ela quebraria sua mão. — Se você disser "respire" mais uma vez, eu juro que arranco sua laringe!Aeron estava pálido. O suor escorria por suas costas, encharcando a camisa cirúrgica azul que o obrigaram a vestir. Ele era um homem que comandava exércitos privados, mas ali, segurando a mão da mulher que amava enquanto ela se contorcia em uma agonia q
O quarto do bebê cheirava a tinta fresca, madeira serrada e frustração masculina.Jinx estava sentada na poltrona de amamentação — um móvel absurdamente confortável que custava mais do que o primeiro carro de fuga que ela roubou —, com as mãos pousadas sobre a barriga de oito meses.O bebê se mexeu. Não foi um chute delicado. Foi um movimento de rolamento, como se ele estivesse tentando encontrar uma posição tática melhor ou, mais provavelmente, tentando escapar do útero. Jinx soltou um gemido baixo, massageando a pele esticada.— Ele está agitado — ela comentou.— Ele está sentindo a tensão no ambiente — Aeron resmungou do chão.O CEO da Vale Security, o homem que projetava sistemas de defesa para governos e bancos internacionais, estava sentado no tapete felpudo, cercado por peças de madeira branca, parafusos e uma chave Allen minúscula. Ele estava sem camisa, o suor brilhando em suas costas largas, e parecia pronto para declarar guerra contra o berço desmontado.— Essa instrução es
POV AeronAeron saiu do quarto como quem foge de um incêndio invisível.Ele disse a Jinx que precisava de café. Disse que precisava ligar para a Sra. Potts para avisar que eles passariam a noite no hospital por precaução. Era mentira. Ele precisava sair daquele quarto porque o ar lá dentro tinha ficado subitamente pesado demais para seus pulmões.O corredor da ala VIP do hospital estava deserto. Eram três da manhã. O silêncio era quebrado apenas pelo zumbido elétrico das lâmpadas fluorescentes e pelo som distante de um elevador subindo.Aeron caminhou até o final do corredor, onde uma janela panorâmica dava para a cidade.Ele apoiou a testa no vidro frio. A cidade brilhava lá fora, indiferente.Grávida.A palavra ecoava em sua mente, batendo contra as paredes do seu crânio. Depois do primeiro susto, a palavra “gravidez” o atingiu. A notícia deveria ser o ápice da felicidade humana. Mas para Aeron Vale, aquela palavra começou a ter gosto de metal retorcido e cheiro de gasolina queimada







